Compartimentos, POP-Q, tratamento conservador e correção cirúrgica
Arthur MedVerse
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Neste artigo
Resumo executivo
Prolapso dos órgãos pélvicos (POP) é o descenso da parede vaginal anterior e/ou posterior e/ou do ápice vaginal — útero ou cúpula vaginal após histerectomia. É frequente, especialmente com o envelhecimento, e apresenta forte associação com parto vaginal.
A paciente pode relatar sensação de peso ou “bola” vaginal, protrusão que piora ao esforço, desconforto pélvico, dificuldade miccional, sensação de esvaziamento incompleto, necessidade de redução manual para urinar ou evacuar, constipação e alterações sexuais. A correlação entre anatomia e sintomas não é perfeita.
O diagnóstico é clínico. A avaliação deve documentar os compartimentos anterior, apical e posterior e quantificar o prolapso preferencialmente pelo sistema POP-Q. Exames de imagem não são necessários de rotina quando o prolapso é demonstrado ao exame físico.
A conduta depende de sintomas, estágio, compartimento acometido, idade, comorbidades, atividade sexual, desejo reprodutivo e preferência da paciente. Pacientes assintomáticas podem ser apenas observadas. Medidas conservadoras incluem mudanças de estilo de vida, treinamento supervisionado dos músculos do assoalho pélvico e pessário vaginal.
A cirurgia é indicada quando os sintomas são relevantes e o tratamento conservador falhou, foi recusado ou não atende às preferências da paciente. Pode ser reconstrutiva ou obliterativa. A escolha da técnica deve corrigir o defeito específico e considerar preservação uterina, função sexual e risco de recorrência.
Mensagem de prova: reconhecer os três compartimentos, saber POP-Q/estágios, oferecer tratamento conservador para casos selecionados e lembrar que tela transvaginal não é solução rotineira para prolapso anterior/posterior.
Objetivos de aprendizagem
01
Definir prolapso dos órgãos pélvicos e reconhecer seus compartimentos anatômicos.
02
Identificar os principais fatores de risco para POP.
03
Reconhecer sintomas de prolapso e sintomas urinários, intestinais e sexuais associados.
04
Realizar avaliação clínica direcionada e compreender o sistema POP-Q.
05
Classificar o prolapso em estágios 0 a 4.
06
Distinguir cistocele, retocele, enterocele, prolapso uterino e prolapso de cúpula vaginal.
07
Definir quando observação, fisioterapia do assoalho pélvico e pessário são apropriados.
08
Reconhecer as principais opções cirúrgicas conforme o compartimento acometido.
09
Compreender indicações e limitações do uso de telas.
10
Reconhecer o papel da colpocleise em pacientes selecionadas.
Visão rápida
Definição
Descenso da parede vaginal anterior e/ou posterior e/ou do ápice vaginal, incluindo útero ou cúpula vaginal.
Como reconhecer
Sensação de peso/bola vaginal ou protrusão, pior ao esforço, associada ou não a sintomas urinários, intestinais e sexuais.
Conduta principal
Tratar conforme sintomas e preferência: observação, medidas conservadoras/pessário ou cirurgia reconstrutiva/obliterativa.
Pérola de prova
POP-Q é o sistema padronizado de quantificação; o hímen é o ponto de referência (0 cm).
Introdução
O POP é uma manifestação da disfunção do suporte do assoalho pélvico. Pode envolver um único compartimento ou múltiplos compartimentos simultaneamente.
A prevalência aumenta com a idade e a paridade, e o parto vaginal é um dos fatores mais consistentemente associados. A presença anatômica de algum descenso é mais comum do que o prolapso clinicamente sintomático.
O objetivo do tratamento não é normalizar uma medida anatômica isolada, mas melhorar sintomas, função urinária e intestinal, atividade sexual e qualidade de vida de acordo com as prioridades da paciente.
Conceitos fundamentais
Compartimento anterior
Cistocele: descenso da parede vaginal anterior, frequentemente associado ao suporte vesical.
É o compartimento mais frequentemente envolvido no POP.
Compartimento apical
Prolapso uterino: descenso do útero/colo vaginalmente.
Prolapso de cúpula vaginal: descenso do ápice vaginal após histerectomia.
Compartimento posterior
Retocele: protrusão da parede vaginal posterior relacionada ao reto.
Enterocele: herniação de conteúdo peritoneal/intestino delgado no espaço superior posterior, frequentemente associada a defeito apical.
Princípio anatômico de DeLancey
Nível I: suporte apical — complexo uterossacro/cardinal.
Nível II: suporte lateral da vagina média, incluindo fáscia pubocervical e retovaginal.
Nível III: suporte distal, relacionado ao corpo perineal, membrana perineal e inserções distais.
Princípio clínico
A intensidade dos sintomas não é determinada apenas pelo estágio anatômico. O tratamento deve ser guiado pela repercussão funcional e pelas preferências da paciente.
Etiologia e fatores de risco
Fatores obstétricos
Parto vaginal — associação importante, especialmente após múltiplos partos.
Paridade elevada.
Trauma do assoalho pélvico e lesão do músculo levantador do ânus.
Macrossomia e parto instrumental podem contribuir para dano do suporte pélvico.
Fatores relacionados à paciente
Envelhecimento.
Pós-menopausa e alterações teciduais relacionadas ao hipoestrogenismo.
Obesidade.
Predisposição genética/alterações do tecido conjuntivo.
Aumento crônico da pressão intra-abdominal
Constipação e esforço evacuatório crônico.
Tosse crônica.
Trabalho ou atividade com levantamento repetitivo de peso.
Fatores cirúrgicos
Histerectomia prévia pode associar-se a prolapso de cúpula em algumas pacientes.
Cirurgias prévias para POP aumentam complexidade e risco de recorrência.
Quadro clínico
Sintomas de prolapso
Sensação de peso, pressão ou “bola” na vagina é o sintoma mais característico.
Visualização ou palpação de tecido exteriorizando-se pelo introito.
Piora ao permanecer em pé, fazer esforço, tossir ou ao final do dia.
Melhora ao deitar em algumas pacientes.
Sintomas urinários
Incontinência urinária de esforço.
Urgência e aumento da frequência urinária.
Jato fraco ou hesitação.
Sensação de esvaziamento incompleto.
Necessidade de reduzir manualmente o prolapso para urinar.
Incontinência de esforço oculta pode aparecer após redução do prolapso.
Sintomas intestinais
Constipação e evacuação obstruída.
Sensação de evacuação incompleta.
Necessidade de pressão digital na parede vaginal/períneo para facilitar evacuação.
Incontinência fecal pode coexistir.
Função sexual
Desconforto ou dor durante relação.
Sensação de frouxidão vaginal.
Impacto sobre imagem corporal e atividade sexual.
Complicações de prolapsos avançados
Escoriação, ulceração ou sangramento da mucosa exteriorizada.
Dificuldade miccional importante e, raramente, retenção urinária/hidronefrose em prolapsos muito avançados.
Infecções urinárias recorrentes podem coexistir em pacientes com esvaziamento inadequado.
Diagnóstico
História clínica
Caracterizar sensação de abaulamento e repercussão sobre atividades diárias.
Perguntar sobre sintomas urinários, intestinais e sexuais.
Avaliar paridade, via de parto, menopausa e cirurgias pélvicas prévias.
Investigar desejo de manter atividade sexual vaginal e desejo de preservar o útero/fertilidade.
Exame físico
Inspeção vulvovaginal e avaliação de atrofia, ulceração ou outras lesões.
Exame especular com avaliação individual dos compartimentos.
Solicitar manobra de Valsalva/esforço para demonstrar o descenso máximo.
Avaliar força dos músculos do assoalho pélvico.
Se sintomas não forem explicados pelo exame em decúbito, repetir em pé ou agachada pode revelar prolapso mais significativo.
POP-Q
O Pelvic Organ Prolapse Quantification (POP-Q) é o sistema padronizado recomendado para registrar objetivamente o prolapso. Utiliza o hímen como referência: medidas negativas estão acima do hímen, 0 corresponde ao hímen e medidas positivas estão além do hímen.
Aa e Ba: parede vaginal anterior.
Ap e Bp: parede vaginal posterior.
C: borda mais distal do colo ou cúpula vaginal.
D: fórnice posterior quando o colo está presente.
gh: hiato genital.
pb: corpo perineal.
tvl: comprimento vaginal total.
Exames complementares
Imagem: não é indicada rotineiramente para documentar POP já demonstrado ao exame.
Urina/urocultura conforme sintomas urinários.
Resíduo pós-miccional pode ser útil diante de sintomas de esvaziamento.
Avaliação urodinâmica é reservada a situações selecionadas, especialmente quando sintomas urinários complexos podem modificar planejamento cirúrgico.
Diagnósticos diferenciais
Cisto ou tumor vaginal.
Mioma cervical/pólipo exteriorizado.
Divertículo uretral.
Massa pélvica.
Prolapso uretral.
Prolapso retal.
Classificações e estratificação
POP-Q — estágios
Estágio 0: ausência de prolapso.
Estágio 1: ponto mais distal permanece >1 cm acima do hímen.
Estágio 2: ponto mais distal está entre 1 cm acima e 1 cm abaixo do hímen (−1 a +1 cm).
Estágio 3: ponto mais distal está >1 cm abaixo do hímen, mas não há eversão vaginal completa; permanece pelo menos 2 cm aquém do comprimento vaginal total.
Estágio 4: eversão essencialmente completa da vagina; o ponto mais distal alcança aproximadamente tvl − 2 cm ou mais.
Como raciocinar na prova
O hímen é o zero anatômico.
Número negativo = acima do hímen.
Número positivo = exteriorizado além do hímen.
Estágio 2 é a faixa clássica de −1 a +1 cm.
Estágios 3 e 4 representam prolapsos mais avançados.
Tratamento
Paciente assintomática ou pouco sintomática
Observação é opção válida; não existe obrigação de corrigir um achado anatômico sem repercussão clínica.
Orientar retorno se houver progressão, sangramento, sintomas urinários/intestinais ou piora da qualidade de vida.
Medidas de estilo de vida
Tratar constipação e reduzir esforço evacuatório.
Orientar redução de peso quando índice de massa corporal >30 kg/m².
Minimizar levantamento repetitivo de cargas pesadas quando isso agrava sintomas.
Abordar tosse crônica e tabagismo quando presentes.
Treinamento dos músculos do assoalho pélvico
É opção inicial para prolapsos sintomáticos leves, especialmente POP-Q estágios 1–2.
Deve ser preferencialmente supervisionado por fisioterapeuta especializado.
NICE recomenda programa supervisionado por pelo menos 4 meses para prolapso sintomático que não ultrapassa mais de 1 cm além do hímen.
Pode melhorar sintomas, mas não deve ser apresentado como método capaz de reverter prolapsos acentuados.
Pessário vaginal
Indicação: qualquer paciente sintomática que deseje tratamento conservador, inclusive como ponte para cirurgia ou quando cirurgia é contraindicada.
Pode ser associado ao treinamento do assoalho pélvico.
Pessário em anel é frequentemente utilizado; outros formatos podem ser necessários em prolapsos avançados.
Mais de uma tentativa de tamanho/modelo pode ser necessária.
Discutir corrimento, sangramento, erosão/ulceração, expulsão e interferência com relação sexual conforme o tipo.
Acompanhamento periódico e remoção/limpeza são essenciais; NICE orienta remoção pelo menos a cada 6 meses para prevenir complicações graves.
Estrogênio vaginal
Pode ser considerado em pacientes com sinais/sintomas geniturinários associados à menopausa.
É especialmente útil para tratar atrofia e melhorar tolerância ao pessário; não é tratamento isolado para corrigir o defeito anatômico.
Quando operar
Sintomas relevantes com falha ou recusa do tratamento conservador.
Preferência informada por tratamento definitivo.
Complicações ou repercussões funcionais significativas.
A escolha deve considerar compartimento, cirurgias anteriores, comorbidades, desejo uterino/reprodutivo e atividade sexual.
Compartimento anterior
Colporrafia anterior com tecido nativo é técnica clássica.
FEBRASGO recomenda preferencialmente tecido nativo; tela vaginal deve ser reservada a situações específicas.
NICE destaca preocupações importantes de segurança e insuficiência de evidência de eficácia de longo prazo para tela transvaginal anterior/posterior.
Compartimento posterior
Colporrafia posterior e correção do defeito fascial são opções usuais.
Tela sintética transvaginal não apresenta vantagem rotineira e não deve ser empregada como padrão.
Prolapso apical/uterino
Opções incluem histerectomia vaginal associada a suspensão apical ou procedimentos que preservam o útero.
Fixação sacroespinhal e suspensão uterossacra são opções vaginais.
Sacrocolpopexia abdominal/laparoscópica é importante opção para prolapso de cúpula e apresenta alta eficácia anatômica, com uso de tela por via abdominal.
A decisão sobre preservar o útero deve ser compartilhada e considerar desejo reprodutivo e preferências.
Cirurgia obliterativa
Colpocleise: opção de alta eficácia e menor morbidade para pacientes selecionadas que não desejam manter relação sexual vaginal.
A perda da possibilidade de coito vaginal deve ser discutida explicitamente antes do procedimento.
Algoritmos e fluxogramas
Paciente com sensação de bola vaginal
Realizar história dirigida: sintomas de prolapso + urinários + intestinais + sexuais.
Examinar em Valsalva e identificar compartimentos envolvidos.
Quantificar pelo POP-Q.
Excluir massa pélvica ou outra patologia.
Definir se o prolapso é sintomático e qual o impacto na qualidade de vida.
Assintomática/pouco sintomática → observação e medidas gerais.