Crise convulsiva obstétrica, sulfato de magnésio e estabilização materna
Arthur MedVerse
·34 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
Eclâmpsia é a ocorrência de convulsão tônico-clônica generalizada de início novo, e/ou coma, em gestante ou puérpera com doença hipertensiva da gestação, sem outra causa neurológica que explique o evento. É uma emergência obstétrica potencialmente fatal.
Pode ocorrer antes, durante ou após o parto. Uma parcela relevante ocorre no puerpério, inclusive após a alta, e a ausência de hipertensão grave imediatamente antes da crise não exclui o diagnóstico.
Sulfato de magnésio é o anticonvulsivante de escolha tanto para tratamento quanto para prevenção de recorrência. Benzodiazepínicos e outros anticonvulsivantes não substituem rotineiramente o magnésio.
Durante a crise, a prioridade é segurança materna, via aérea, oxigenação quando necessária e prevenção de trauma/aspiração. Não se deve tentar impedir mecanicamente os movimentos convulsivos nem introduzir objetos na boca.
Hipertensão grave persistente, definida por pressão arterial sistólica ≥160 mmHg e/ou diastólica ≥110 mmHg, requer tratamento urgente com nifedipina oral de liberação imediata, hidralazina intravenosa ou labetalol intravenoso, conforme protocolo e contraindicações.
Após estabilização materna, a gestação deve ser resolvida. A eclâmpsia não é indicação absoluta de cesariana: a via de parto depende das condições obstétricas, fetais e da urgência.
Pérola de prova: na convulsão eclâmptica, primeiro estabilize a mãe e administre sulfato de magnésio; o parto vem depois da estabilização, e não durante a crise.
Objetivos de aprendizagem
01
Definir eclâmpsia e reconhecer suas apresentações anteparto, intraparto e pós-parto.
02
Reconhecer sinais de iminência de eclâmpsia.
03
Organizar a abordagem imediata da crise convulsiva.
04
Prescrever sulfato de magnésio corretamente.
05
Reconhecer e tratar toxicidade pelo magnésio.
06
Tratar hipertensão grave associada.
07
Diferenciar eclâmpsia de outras causas de convulsão na gestação.
08
Reconhecer quando neuroimagem e investigação adicional são necessárias.
09
Definir princípios da resolução da gestação após estabilização.
10
Reconhecer riscos e vigilância necessária no puerpério.
Visão rápida
Definição
Convulsão tônico-clônica generalizada e/ou coma no contexto de doença hipertensiva gestacional, sem outra causa identificável.
Como reconhecer
Convulsão na gestante/puérpera, frequentemente precedida por cefaleia, sintomas visuais, hiperreflexia ou dor epigástrica, mas podendo ocorrer sem pródromos.
Conduta principal
ABC + proteção contra trauma/aspiração + MgSO₄ + tratar PA grave + estabilizar + resolver a gestação.
Pérola de prova
MgSO₄ é primeira escolha; eclâmpsia não significa cesariana obrigatória.
Introdução
A eclâmpsia representa uma das manifestações neurológicas mais graves das síndromes hipertensivas da gestação.
O evento convulsivo pode causar hipóxia, aspiração, trauma, edema pulmonar, acidente vascular encefálico, descolamento prematuro de placenta e comprometimento fetal transitório ou persistente.
A abordagem adequada depende de uma sequência simples: estabilização materna, sulfato de magnésio, controle da hipertensão grave e resolução obstétrica após estabilização.
Conceitos fundamentais
Iminência de eclâmpsia
Cefaleia intensa ou persistente.
Escotomas, fosfenas, visão turva ou outras alterações visuais.
Hiperreflexia e clônus podem estar presentes.
Dor epigástrica ou em hipocôndrio direito, náuseas e vômitos podem acompanhar doença grave.
Alteração do estado mental pode anteceder a convulsão.
Crise eclâmptica
Tipicamente é tônico-clônica generalizada.
Pode ocorrer uma única crise ou crises recorrentes.
O período pós-ictal pode cursar com confusão, agitação ou coma transitório.
Momento de ocorrência
Anteparto.
Intraparto.
Pós-parto, especialmente nas primeiras 48 horas, embora apresentações tardias possam ocorrer.
Pressão arterial
Eclâmpsia pode ocorrer sem registro prévio de hipertensão grave.
Portanto, pressão abaixo de 160/110 mmHg no momento da avaliação não exclui eclâmpsia.
Etiologia e fatores de risco
Mecanismo provável
Disfunção endotelial cerebral e alteração da autorregulação vascular contribuem para edema vasogênico, hiperperfusão regional e convulsão.
A síndrome de encefalopatia posterior reversível (PRES) é frequentemente associada à eclâmpsia em estudos de neuroimagem.
Contextos de maior risco
Pré-eclâmpsia com características graves.
Síndrome HELLP.
Pressão arterial grave não controlada.
Sintomas neurológicos persistentes.
Ausência ou inadequação de pré-natal.
História de doença hipertensiva grave em gestação anterior.
Quadro clínico
Pródromos possíveis
Cefaleia.
Alterações visuais.
Dor epigástrica ou em hipocôndrio direito.
Náuseas e vômitos.
Hiperreflexia/clônus.
Agitação ou alteração do estado mental.
Durante a crise
Perda de consciência.
Fase tônica seguida de movimentos clônicos generalizados.
Apneia/cianose transitória podem ocorrer.
Risco de broncoaspiração e trauma.
Após a crise
Período pós-ictal.
Sonolência ou confusão.
Déficit neurológico focal não é típico e exige investigação de acidente vascular encefálico ou outro diagnóstico.
Bradicardia fetal e desacelerações podem ocorrer transitoriamente pela hipóxia materna.
Complicações
Acidente vascular encefálico.
Edema pulmonar.
Broncoaspiração.
Lesão renal aguda.
Coagulação intravascular disseminada.
Síndrome HELLP.
Descolamento prematuro de placenta.
Trauma materno.
Óbito materno ou fetal.
Diagnóstico
Diagnóstico clínico
Eclâmpsia é diagnóstico clínico em gestante ou puérpera com convulsão de início novo compatível e contexto obstétrico, após considerar causas alternativas.
Não se deve atrasar sulfato de magnésio aguardando exames quando a hipótese é forte.
Avaliação inicial
Aferir pressão arterial repetidamente.
Verificar glicemia capilar para excluir hipoglicemia como causa reversível imediata.
Solicitar hemograma com plaquetas, creatinina, TGO/TGP, LDH e bilirrubinas conforme avaliação de pré-eclâmpsia/HELLP.
Avaliar proteinúria quando pertinente, sem atrasar manejo emergencial.
Coagulograma se houver sangramento, plaquetopenia importante ou suspeita de coagulação intravascular disseminada.
Diagnósticos diferenciais
Epilepsia.
Hipoglicemia.
Distúrbios hidroeletrolíticos, especialmente hiponatremia.
Acidente vascular encefálico isquêmico ou hemorrágico.
Trombose venosa cerebral.
Hemorragia subaracnóidea.
Infecção do sistema nervoso central.
Tumor cerebral.
Intoxicação ou abstinência de substâncias.
Encefalopatia posterior reversível em contexto não obstétrico.
Quando investigar com neuroimagem
Apresentação atípica.
Déficit neurológico focal.
Coma prolongado.
Convulsões recorrentes apesar de sulfato de magnésio adequado.
Início muito tardio no puerpério ou ausência de contexto compatível com doença hipertensiva.
Suspeita de acidente vascular encefálico, trombose venosa cerebral, hemorragia ou lesão expansiva.
Classificações e estratificação
Quanto ao momento
Anteparto: antes do início do trabalho de parto.
Intraparto: durante o trabalho de parto/parto.
Pós-parto: após a resolução da gestação.
Eclâmpsia pós-parto
Pode ocorrer após uma gestação sem diagnóstico prévio evidente de pré-eclâmpsia.
Cefaleia e alterações visuais no puerpério devem ser valorizadas.
Apresentações tardias exigem atenção especial a diagnósticos neurológicos diferenciais.
Estado de mal epiléptico
Convulsão prolongada ou crises repetidas sem recuperação adequada da consciência exigem suporte avançado, investigação neurológica e tratamento emergencial adicional.
Refratariedade ao magnésio deve levantar a possibilidade de diagnóstico alternativo ou complicação neurológica.
Tratamento
Durante a convulsão
Posicionar preferencialmente em decúbito lateral para reduzir risco de aspiração e melhorar retorno venoso.
Proteger a paciente contra trauma e remover objetos próximos.
Não restringir violentamente os movimentos.
Não colocar objetos ou dedos na boca.
Aspirar secreções quando necessário após condições seguras.
Oxigênio suplementar se houver hipoxemia ou comprometimento respiratório.
Sulfato de magnésio
É o anticonvulsivante de primeira escolha.
Reduz recorrência de convulsões e é superior a anticonvulsivantes tradicionais para eclâmpsia.
Manter vigilância clínica para toxicidade.
Crise recorrente
Se nova convulsão ocorrer durante infusão de magnésio, administrar bolus adicional de MgSO₄ conforme protocolo.
Convulsão persistente apesar de magnésio adequado exige manejo de via aérea, consideração de anticonvulsivante adicional e investigação de outra causa.
Hipertensão grave
PA ≥160/110 mmHg persistente requer tratamento urgente para reduzir risco de acidente vascular encefálico.
Nifedipina oral de liberação imediata, hidralazina IV e labetalol IV são opções usuais.
Resolução da gestação
Após estabilização materna, a gestação deve ser resolvida.
Não realizar cesariana durante convulsão ativa.
Eclâmpsia isoladamente não determina via abdominal.
Se condições materno-fetais e obstétricas permitirem, parto vaginal pode ser realizado.
Puerpério
Continuar MgSO₄ geralmente por 24 horas após o parto ou após a última convulsão, conforme protocolo clínico.
Monitorizar PA, sintomas neurológicos, diurese e sinais de toxicidade.
Manter tratamento anti-hipertensivo quando indicado.
Conduta na urgência e emergência
Sequência prática
Chamar ajuda e proteger a paciente contra trauma.
Posicionar em decúbito lateral e avaliar via aérea, respiração e circulação.
Não introduzir objetos na boca.
Administrar sulfato de magnésio.
Obter acesso venoso e colher exames sem atrasar tratamento.
Verificar glicemia capilar.
Tratar PA ≥160/110 mmHg persistente.
Avaliar mãe e feto após cessar a crise.
Pesquisar HELLP e complicações.
Após estabilização, definir resolução da gestação.
Se a convulsão não cessar ou recorrer
Confirmar que MgSO₄ foi administrado adequadamente.
Administrar dose adicional de MgSO₄ conforme protocolo.
Reavaliar oxigenação e necessidade de controle definitivo da via aérea.
Se refratária, usar anticonvulsivante adicional em ambiente de suporte avançado.
Ventilação com bolsa-válvula-máscara se necessário.
Intubação orotraqueal se incapacidade de proteger via aérea, hipoxemia persistente, coma prolongado ou crises refratárias.
Evitar sobrecarga volêmica devido ao risco de edema pulmonar.
Doses e prescrições
Sulfato de magnésio — esquema intravenoso de Zuspan
Ataque: 4–6 g IV em 20–30 minutos.
Manutenção: 1–2 g/h IV em bomba de infusão.
Recorrência da convulsão: 2 g IV adicionais em aproximadamente 5–10 minutos pode ser utilizado.
Manter geralmente por 24 horas após o parto ou após a última convulsão, conforme protocolo.
Esquema de Pritchard
Ataque: 4 g IV lentamente + 10 g IM, divididos em 5 g em cada glúteo.
Manutenção: 5 g IM a cada 4 horas, alternando glúteos, desde que reflexo patelar esteja presente, frequência respiratória adequada e não haja oligúria significativa.
É alternativa especialmente quando bomba de infusão não está disponível.
Toxicidade pelo magnésio
Suspender MgSO₄ diante de suspeita de toxicidade.
Antídoto: gluconato de cálcio 10%, 10 mL IV lentamente.
Suporte ventilatório pode ser necessário.
Monitorizar reflexos patelares, frequência respiratória e diurese.
Nifedipina — hipertensão grave
10 mg VO de liberação imediata inicialmente.
Reavaliar em curto intervalo e repetir/escalonar conforme protocolo.
Não administrar por via sublingual.
Hidralazina — hipertensão grave
5–10 mg IV inicialmente.
Reavaliar aproximadamente a cada 20 minutos e repetir conforme resposta/protocolo.
Labetalol — hipertensão grave
20 mg IV inicialmente.
Se necessário, 40 mg após 10 minutos e 80 mg após mais 10 minutos, conforme protocolo.
Evitar ou usar com cautela em asma importante, bradicardia, bloqueio cardíaco e insuficiência cardíaca descompensada.
Algoritmos e fluxogramas
Convulsão em gestante ou puérpera
ABC + proteção contra trauma.
Decúbito lateral.
Checar glicemia.
Suspeitar de eclâmpsia no contexto obstétrico.
Administrar MgSO₄ imediatamente se hipótese forte.
Tratar PA grave.
Solicitar avaliação laboratorial de pré-eclâmpsia/HELLP.
Se quadro típico e resposta adequada, estabilizar e planejar parto.
Se atípico, focal ou refratário, ampliar investigação neurológica.
Após controlar a crise
Reavaliar consciência e oxigenação.
Reavaliar PA.
Monitorizar MgSO₄.
Avaliar feto.
Pesquisar complicações maternas.
Resolver a gestação após estabilização.
Manter vigilância no puerpério.
O que mais cai
Eclâmpsia = convulsão de início novo no espectro hipertensivo gestacional sem outra causa.
Pode ocorrer anteparto, intraparto ou pós-parto.
Pode ocorrer sem hipertensão grave previamente documentada.
MgSO₄ é o anticonvulsivante de primeira escolha.
Esquema de Zuspan: ataque IV + manutenção IV contínua.
Esquema de Pritchard associa ataque IV e IM, com manutenção IM.
Recorrência pode ser tratada com bolus adicional de MgSO₄.
Gluconato de cálcio é o antídoto para toxicidade pelo magnésio.
Monitorizar reflexo patelar, respiração e diurese durante MgSO₄.
PA ≥160/110 persistente deve ser tratada rapidamente.
Não colocar objetos na boca durante a convulsão.
Estabilizar a mãe antes do parto.
Eclâmpsia não é indicação absoluta de cesariana.
Bradicardia fetal transitória pode ocorrer durante/após a crise.
Déficit focal ou refratariedade exige investigação neurológica.
Eclâmpsia pode surgir no puerpério mesmo sem diagnóstico antenatal.
Erros comuns
Colocar objeto na boca da paciente durante a convulsão.
Conter violentamente os movimentos convulsivos.
Usar diazepam como primeira escolha em vez de sulfato de magnésio.
Aguardar exames antes de administrar MgSO₄ em quadro típico.
Excluir eclâmpsia porque a PA não está ≥160/110 mmHg.
Deixar de tratar hipertensão grave persistente.
Realizar cesariana durante convulsão ativa antes da estabilização.
Considerar eclâmpsia indicação obrigatória de cesariana.
Interromper vigilância imediatamente após o parto.
Esquecer toxicidade pelo magnésio em paciente oligúrica.
Interpretar toda convulsão puerperal como eclâmpsia sem considerar diagnóstico diferencial em apresentação atípica.
Realizar expansão volêmica liberal em paciente com risco de edema pulmonar.