Escabiose, pediculoses e princípios de controle de transmissão
Arthur MedVerse
·43 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
Ectoparasitoses são infestações por artrópodes que vivem sobre ou na camada superficial da pele. Em provas, os temas centrais são escabiose e pediculoses, sobretudo pediculose do couro cabeludo.
Escabiose é causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei var. hominis. A fêmea fecundada escava túneis no estrato córneo, onde deposita ovos. A transmissão ocorre principalmente por contato cutâneo prolongado e direto; fômites têm importância maior na escabiose crostosa, que apresenta enorme carga parasitária.
Prurido noturno intenso é a característica clínica mais lembrada da escabiose. As lesões típicas incluem pápulas eritematosas, escoriações e túneis, com predileção por espaços interdigitais, punhos, axilas, cintura, região periumbilical, nádegas e genitais. Em lactentes, idosos e imunossuprimidos, couro cabeludo, face, palmas e plantas podem ser acometidos.
O tratamento da escabiose deve ser simultâneo nos contatos próximos para evitar reinfestação. Permetrina 5% é uma opção de primeira linha amplamente recomendada e deve ser aplicada de forma extensa, não apenas sobre as lesões visíveis. O tratamento costuma ser repetido após aproximadamente 7 dias para abranger ácaros recém-eclodidos.
Ivermectina oral é alternativa importante, especialmente em surtos institucionais, falha ou dificuldade de tratamento tópico e escabiose crostosa. Em escabiose clássica, utiliza-se tipicamente 200 microgramas/kg por dose, em duas doses separadas por 7–14 dias. Evidência publicada em 2026 reforçou que permetrina 5% adequadamente aplicada pode apresentar maior taxa de cura que ivermectina oral em regime de duas doses.
Escabiose crostosa ocorre principalmente em idosos, imunossuprimidos ou pessoas com comprometimento neurológico e apresenta placas hiperqueratóticas/crostosas com altíssima carga de ácaros. É altamente contagiosa e exige combinação de escabicida tópico e ivermectina oral em esquema intensificado, além de medidas rigorosas de controle de transmissão.
O prurido pode persistir por várias semanas após erradicação dos ácaros por hipersensibilidade residual. Persistência de coceira, portanto, não significa automaticamente falha terapêutica; novas lesões típicas ou novos túneis após tratamento adequado sugerem infestação ativa, reinfestação ou erro de aplicação.
Pediculose capitis é infestação do couro cabeludo por Pediculus humanus capitis. A transmissão ocorre principalmente por contato cabeça a cabeça. O achado diagnóstico definitivo é piolho vivo; lêndeas viáveis próximas ao couro cabeludo apoiam o diagnóstico, mas lêndeas antigas isoladas não significam necessariamente infestação ativa.
Prurido occipital e retroauricular é comum na pediculose, podendo ocorrer escoriações e impetiginização secundária. O pente fino em cabelos úmidos facilita a detecção e remoção mecânica.
Permetrina 1% é uma opção clássica para pediculose capitis, embora resistência a piretroides varie geograficamente. Como alguns pediculicidas não são completamente ovicidas, repetição aproximadamente 7–10 dias após a primeira aplicação pode ser necessária. Se piolhos permanecerem vivos e ativos após uso correto, deve-se considerar resistência ou erro de aplicação e mudar a estratégia.
Pediculose do corpo está associada principalmente a roupas infestadas e condições de aglomeração ou dificuldade de acesso à higiene; o controle depende fundamentalmente de banho e troca/lavagem de roupas e roupas de cama. Pediculose pubiana é sexualmente transmissível em muitos casos e deve motivar avaliação de parceiros e de outras infecções sexualmente transmissíveis conforme risco.
Mensagem de prova: escabiose = prurido noturno + túneis + contatos domiciliares; trate contatos simultaneamente. Pediculose capitis = piolho vivo confirma; lêndea antiga isolada não. Escabiose crostosa = altíssima carga parasitária e alta transmissibilidade.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer a fisiopatologia e a transmissão da escabiose.
02
Identificar distribuição e lesões típicas da escabiose.
03
Reconhecer apresentações especiais em lactentes, idosos e imunossuprimidos.
04
Prescrever corretamente permetrina e ivermectina na escabiose clássica.
05
Reconhecer escabiose crostosa e seu alto potencial de transmissão.
06
Entender por que o prurido pode persistir após tratamento adequado.
07
Diagnosticar pediculose capitis pela identificação de piolho vivo.
08
Diferenciar lêndeas viáveis de cascas vazias ou aderências inespecíficas.
09
Conhecer opções terapêuticas e necessidade de retratamento na pediculose.
Escabiose = infestação por Sarcoptes scabiei; pediculose = infestação por piolhos humanos.
Como reconhecer
Escabiose: prurido noturno + túneis em locais típicos. Pediculose capitis: piolho vivo no couro cabeludo.
Conduta principal
Escabiose: tratar caso + contatos simultaneamente. Pediculose: tratar infestação ativa e repetir pediculicida quando o produto não for totalmente ovicida.
Pérola de prova
Coceira persistente por semanas após escabiose pode ser pós-escabiótica e não significa necessariamente falha.
Introdução
Escabiose e pediculose são altamente prevalentes e têm impacto familiar, escolar e institucional.
O fracasso terapêutico costuma decorrer mais frequentemente de aplicação inadequada, falta de tratamento dos contatos ou reinfestação do que de resistência verdadeira.
O manejo correto combina tratamento antiparasitário, orientação de contatos e medidas ambientais proporcionais ao modo de transmissão.
Conceitos fundamentais
Sarcoptes scabiei
Ácaro humano obrigatório.
A fêmea penetra o estrato córneo e produz túneis.
Na infestação clássica, a carga de ácaros costuma ser pequena apesar do prurido intenso.
Na escabiose crostosa, podem existir milhares a milhões de ácaros.
Hipersensibilidade
Grande parte dos sintomas da escabiose decorre da resposta imunológica a ácaros, ovos e fezes.
Na primeira infestação, sintomas podem levar semanas para aparecer.
Em reinfestações, o prurido pode surgir mais rapidamente.
Pediculose
Piolhos são ectoparasitas hematófagos.
Pediculus humanus capitis infesta o couro cabeludo.
Pediculus humanus corporis vive principalmente nas roupas e vai à pele para alimentar-se.
Pthirus pubis acomete pelos pubianos e outras áreas de pelos grossos.
Etiologia e fatores de risco
Escabiose
Contato pele a pele prolongado com pessoa infestada.
Coabitação e compartilhamento de leito aumentam risco.
Instituições de longa permanência e ambientes com aglomeração favorecem surtos.
Imunossupressão, idade avançada e comprometimento neurológico aumentam risco de escabiose crostosa.
Pediculose capitis
Contato direto cabeça a cabeça é principal via de transmissão.
Crianças em idade escolar são frequentemente acometidas.
Comprimento, frequência de lavagem ou classe socioeconômica não definem isoladamente infestação.
Transmissão por objetos é possível, mas menos importante que contato direto.
Pediculose corporal
Relaciona-se a roupas infestadas.
É mais frequente em pessoas sem acesso regular a troca e lavagem de vestimentas.
Possui relevância epidemiológica por poder transmitir Bartonella quintana, Borrelia recurrentis e Rickettsia prowazekii.
Quadro clínico
Escabiose clássica
Prurido intenso, tipicamente pior à noite.
Pápulas eritematosas e escoriações.
Túneis finos, serpiginosos e discretamente elevados.
Espaços interdigitais, punhos, axilas, cintura, umbigo, nádegas, genitais e aréolas são locais clássicos.
Nódulos escabióticos podem persistir especialmente em região genital.
Escabiose em lactentes
Pode acometer couro cabeludo, face, pescoço, palmas e plantas.
Vesículas e pústulas palmoplantares podem ocorrer.
Irritabilidade e prejuízo do sono/alimentação podem ser manifestações importantes.
Escabiose crostosa
Placas hiperqueratóticas e crostas espessas.
Pode apresentar prurido discreto ou ausente.
Acomete frequentemente mãos, pés, couro cabeludo e áreas extensas.
É extremamente contagiosa.
Infecção bacteriana secundária pode complicar.
Pediculose capitis
Prurido no couro cabeludo, especialmente occipital e retroauricular.
Piolhos vivos podem ser vistos movendo-se nos fios.
Lêndeas aderem firmemente à haste capilar, diferentemente de caspa.
Escoriações e impetiginização podem ocorrer.
Pediculose pubiana
Prurido em região pubiana.
Piolhos e lêndeas aderidos aos pelos.
Pode acometer axilas, barba, cílios e sobrancelhas.
Máculas cerúleas azul-acinzentadas podem ocorrer.
Diagnóstico
Escabiose — diagnóstico clínico
Prurido noturno.
Distribuição típica.
Túneis.
Contatos com sintomas semelhantes.
A ausência de túnel visível não exclui escabiose.
Dermatoscopia e raspado
Dermatoscopia pode demonstrar o chamado sinal do delta/asa-delta correspondente ao ácaro na extremidade do túnel.
Raspado de pele pode demonstrar ácaros, ovos ou fezes ao microscópio.
Exame negativo não exclui escabiose pela baixa carga parasitária da forma clássica.
Pediculose capitis
O diagnóstico ideal é a visualização de piolho vivo.
Pente fino aumenta a sensibilidade.
Lêndeas próximas ao couro cabeludo têm maior chance de conter embrião viável.
Lêndeas localizadas longe do couro cabeludo frequentemente representam infestação antiga.