Doenças Benignas e Malignas da Vulva — MedVerse · MedVerse
Resumo HARD · Atualizado em 15 de set. de 2026
Doenças Benignas e Malignas da Vulva
Dermatoses vulvares, lesões precursoras e câncer de vulva
Arthur MedVerse
·65 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
Doenças benignas e malignas da vulva abrangem dermatoses inflamatórias, cistos e abscessos, lesões intraepiteliais precursoras e neoplasias invasivas. Em provas, os eixos centrais são líquen escleroso, líquen plano, líquen simples crônico, doença da glândula de Bartholin, lesões escamosas intraepiteliais vulvares e carcinoma de células escamosas da vulva.
O prurido vulvar crônico exige inspeção cuidadosa. Lesões persistentes, pigmentadas, ulceradas, endurecidas, com alteração arquitetural ou que não respondem ao tratamento empírico devem levantar indicação de biópsia.
O líquen escleroso apresenta-se tipicamente com prurido, pele esbranquiçada/atrófica, fissuras e progressiva alteração da arquitetura vulvar. O tratamento de primeira linha é corticoide tópico de alta potência, classicamente propionato de clobetasol 0,05%. Exige seguimento prolongado devido à recorrência e ao risco aumentado de carcinoma escamoso.
O líquen simples crônico decorre do ciclo prurido-coçadura, com liquenificação e espessamento cutâneo. A base do tratamento é remover irritantes, tratar a causa do prurido e interromper o ciclo com corticoide tópico apropriado.
As lesões escamosas intraepiteliais vulvares possuem duas grandes vias carcinogênicas: HPV-associada e HPV-independente. A lesão escamosa intraepitelial de alto grau vulvar é geralmente HPV-associada; a neoplasia intraepitelial vulvar diferenciada associa-se frequentemente ao líquen escleroso e apresenta maior potencial de progressão para carcinoma invasivo.
O carcinoma de células escamosas corresponde à grande maioria dos cânceres vulvares. O diagnóstico é histológico. O tratamento da doença inicial é predominantemente cirúrgico, buscando excisão tumoral adequada com preservação funcional sempre que oncologicamente possível.
Na avaliação linfonodal, o linfonodo sentinela pode ser utilizado em pacientes criteriosamente selecionadas com tumor unifocal, sem linfonodos inguinofemorais suspeitos e dentro dos critérios de tamanho/invasão estabelecidos pelos protocolos. Lesões próximas à linha média exigem atenção à drenagem bilateral.
Mensagem de prova: prurido crônico + placa branca atrófica = pense em líquen escleroso; lesão vulvar suspeita = biópsia; HSIL vulvar é tipicamente HPV-associada; VIN diferenciada se relaciona ao líquen escleroso e tem maior risco oncológico; câncer vulvar inicial é predominantemente cirúrgico.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer as principais dermatoses benignas da vulva.
02
Diferenciar líquen escleroso, líquen plano e líquen simples crônico.
03
Identificar situações em que uma lesão vulvar deve ser biopsiada.
04
Reconhecer apresentação e manejo da doença da glândula de Bartholin.
05
Compreender a classificação contemporânea das lesões escamosas intraepiteliais vulvares.
06
Diferenciar carcinogênese vulvar HPV-associada e HPV-independente.
07
Reconhecer a relação entre líquen escleroso e carcinoma vulvar.
08
Identificar apresentação típica do câncer de vulva.
09
Conhecer princípios de estadiamento e tratamento do carcinoma vulvar.
10
Reconhecer critérios gerais para pesquisa do linfonodo sentinela.
11
Memorizar os pontos mais cobrados em provas de residência médica.
Visão rápida
Definição
Conjunto de dermatoses, lesões glandulares, alterações pré-neoplásicas e neoplasias que acometem a vulva.
Como reconhecer
Prurido, dor, alteração de cor/arquitetura, placa, nódulo ou úlcera persistente exigem exame vulvar dirigido; lesão suspeita requer biópsia.
Conduta principal
Tratar dermatoses conforme etiologia; biopsiar lesões suspeitas; tratar precursoras e câncer conforme subtipo, extensão e avaliação linfonodal.
Pérola de prova
Líquen escleroso associa-se à via HPV-independente e aumenta risco de carcinoma escamoso; tratamento clássico é clobetasol tópico de alta potência.
Introdução
A vulva pode ser acometida por doenças dermatológicas, infecciosas, glandulares e neoplásicas. Como muitas compartilham prurido, dor ou alterações inespecíficas da pele, inspeção detalhada e baixo limiar para biópsia são essenciais.
As dermatoses inflamatórias são frequentes e podem causar impacto sexual e funcional importante. Algumas, especialmente o líquen escleroso, também possuem relevância oncológica.
O câncer vulvar é incomum, mas seu diagnóstico tardio aumenta a morbidade. A FEBRASGO destaca o tratamento cirúrgico como abordagem preferencial na doença vulvar operável, dentro de planejamento multidisciplinar.
Conceitos fundamentais
Líquen escleroso
Dermatose inflamatória crônica, frequentemente observada após a menopausa, embora possa ocorrer em qualquer idade.
Prurido intenso é apresentação clássica.
Pode haver placas esbranquiçadas, pele fina/atrófica, fissuras, equimoses e alteração progressiva da arquitetura.
Pode ocorrer fusão dos pequenos lábios e estreitamento do introito.
Associa-se a maior risco de carcinoma de células escamosas vulvar.
Necessita tratamento e seguimento prolongado.
Líquen plano
Doença inflamatória imunomediada.
Pode apresentar erosões dolorosas, áreas eritematosas e estrias esbranquiçadas.
Pode acometer vagina e mucosa oral, diferentemente do líquen escleroso vulvar clássico.
Formas erosivas podem causar cicatrização, aderências e perda arquitetural.
Líquen simples crônico
Resultado do ciclo prurido-coçadura.
Pele torna-se espessada e liquenificada.
É fundamental identificar irritantes, alergênicos ou dermatoses que iniciaram o prurido.
Tratamento busca romper o ciclo inflamatório e evitar novos irritantes.
Dermatite de contato
Pode ser irritativa ou alérgica.
Sabonetes, perfumes, produtos de higiene, absorventes e medicamentos tópicos podem desencadear sintomas.
Remoção do agente causal é parte central do tratamento.
Etiologia e fatores de risco
Via HPV-associada
Relacionada a HPV oncogênico.
Tabagismo e imunossupressão favorecem persistência viral.
Está associada principalmente à lesão escamosa intraepitelial de alto grau e a carcinomas escamosos HPV-associados.
Pode ocorrer em pacientes mais jovens.
Via HPV-independente
Mais comum em mulheres mais velhas.
Relaciona-se frequentemente a dermatoses vulvares crônicas, especialmente líquen escleroso.
Neoplasia intraepitelial vulvar diferenciada é precursor importante.
Apresenta risco de progressão invasiva particularmente relevante.
Fatores de risco para câncer vulvar
Idade avançada.
Infecção persistente por HPV oncogênico.
Tabagismo.
Imunossupressão, incluindo infecção pelo HIV.
Lesões precursoras vulvares.
Líquen escleroso.
Quadro clínico
Doenças benignas
Prurido é um dos sintomas mais comuns.
Ardor, dor, dispareunia e fissuras podem ocorrer.
Alterações de cor e textura orientam o diagnóstico, mas frequentemente não são específicas.
A inspeção deve incluir toda a vulva, períneo e região perianal quando pertinente.
Lesões precursoras
Podem ser assintomáticas ou causar prurido, ardor e dor.
A aparência é variável: lesões brancas, eritematosas, pigmentadas, elevadas, papulares ou planas.
Multifocalidade é mais característica da doença HPV-associada.
Câncer de vulva
Prurido persistente pode preceder o diagnóstico.
Pode apresentar nódulo, massa, placa, úlcera, sangramento ou dor.
Qualquer lesão persistente ou suspeita necessita avaliação histológica.
Atraso diagnóstico pode ocorrer quando sintomas são atribuídos repetidamente a candidíase ou dermatose sem confirmação.
Glândula de Bartholin
Cisto geralmente é massa vulvar unilateral e pode ser assintomático.
Abscesso costuma causar dor intensa, edema e dificuldade para caminhar ou sentar.
Massa nova na topografia de Bartholin em mulher com 40 anos ou mais merece avaliação histológica/oncologia conforme contexto, pela necessidade de excluir malignidade.
Diagnóstico
Avaliação clínica
Caracterizar prurido, dor, duração, tratamentos prévios e exposição a irritantes.
Inspecionar cor, espessura, simetria, erosões, fissuras, ulceração e perda arquitetural.
Avaliar vagina, colo, região perianal e pele extragenital quando a hipótese clínica justificar.
Palpar linfonodos inguinais diante de suspeita neoplásica.
Quando biopsiar
Suspeita de neoplasia.
Úlcera, massa, área endurecida ou lesão pigmentada suspeita.
Lesão persistente ou que não responde ao tratamento esperado.
Mudança de aspecto em paciente com líquen escleroso.
Diagnóstico clínico incerto quando histologia modificará a conduta.
Câncer vulvar
Diagnóstico deve ser histológico antes do tratamento definitivo.
A biópsia deve permitir diagnóstico e planejamento sem comprometer a futura abordagem cirúrgica.
Avaliação do tumor inclui localização, tamanho, relação com estruturas adjacentes e distância da linha média.
Avaliação linfonodal clínica e por imagem é direcionada pelo estágio e planejamento.
Diagnósticos diferenciais
Candidíase e outras vulvovaginites.
Dermatites.
Psoríase.
Líquen plano e líquen escleroso.
Herpes e outras infecções.
Doença de Paget extramamária.
Melanoma vulvar.
Carcinoma de células escamosas.
Classificações e estratificação
Lesões escamosas intraepiteliais vulvares
LSIL vulvar: geralmente manifestação de infecção produtiva pelo HPV/condiloma e não equivalente ao precursor escamoso de alto grau.
HSIL vulvar: lesão escamosa intraepitelial de alto grau, usualmente HPV-associada; corresponde em grande parte ao antigo conceito de VIN usual.
VIN diferenciada: geralmente HPV-independente, frequentemente associada ao líquen escleroso e com maior risco de progressão para carcinoma invasivo.
Carcinoma escamoso vulvar
Pode ser HPV-associado ou HPV-independente.
A classificação patológica contemporânea valoriza essa distinção etiológica.
O estadiamento FIGO considera extensão local, linfonodos e doença à distância.
Ponto crítico: profundidade de invasão
A profundidade de invasão é determinante para decisão sobre avaliação inguinofemoral.
Tumores microinvasivos selecionados podem dispensar abordagem linfonodal.
Doença com invasão >1 mm geralmente exige avaliação da drenagem inguinofemoral conforme demais critérios.
Tratamento
Líquen escleroso
Primeira linha: corticoide tópico ultrapotente.
Propionato de clobetasol 0,05% é o tratamento clássico.
Após controle inicial, costuma ser necessário regime de manutenção individualizado.
Evitar irritantes e orientar cuidado vulvar.
Seguimento prolongado é necessário para avaliar controle, cicatrização e surgimento de lesões suspeitas.
Líquen simples crônico
Identificar e remover irritantes/alergênicos.
Interromper o ciclo prurido-coçadura.
Corticoide tópico é frequentemente utilizado.
Tratar infecção ou dermatose subjacente quando presente.
Líquen plano
Corticoides tópicos de alta potência constituem terapia importante.
Doença erosiva extensa ou refratária pode exigir tratamento especializado e terapias sistêmicas.
Acometimento vaginal exige atenção à prevenção de aderências/estenose.
HSIL vulvar
Deve ser tratada devido ao potencial de progressão.
Quando há suspeita de invasão, excisão é necessária para avaliação histológica.
Na ausência de suspeita de invasão, opções selecionadas incluem excisão, ablação e terapias tópicas como imiquimode, conforme avaliação especializada.
Recorrência é frequente e seguimento é necessário.
VIN diferenciada
Excisão é geralmente preferida devido ao maior risco e velocidade de progressão para carcinoma invasivo.
Dermatose associada, especialmente líquen escleroso, deve ser tratada e acompanhada.
Câncer vulvar inicial
Cirurgia é o tratamento preferencial quando factível.
A tendência moderna é excisão radical local individualizada em vez de vulvectomia radical sistemática, preservando função sem comprometer segurança oncológica.
Margens e necessidade de reexcisão/adjuvância dependem da anatomia, patologia e fatores de risco.
Avaliação inguinofemoral é essencial quando indicada.
Doença localmente avançada
Tratamento deve ser multidisciplinar.
Quimiorradioterapia pode ser utilizada para evitar cirurgia exenterativa ou quando ressecção primária apresenta alta morbidade.
Estratégia depende de extensão tumoral e linfonodal.
Doses e prescrições
Propionato de clobetasol — líquen escleroso
Clobetasol propionato 0,05% tópico é esquema de primeira linha para líquen escleroso vulvar.
Protocolos de indução variam; frequentemente utilizam aplicação diária inicial seguida de redução progressiva da frequência.
Após remissão, manutenção individualizada pode reduzir recorrências e complicações.
A quantidade e a técnica de aplicação devem ser ensinadas para evitar subtratamento.
Imiquimode — HSIL vulvar selecionada
Pode ser opção não cirúrgica em pacientes selecionadas quando invasão foi adequadamente excluída.
Regimes variam entre protocolos e estudos; tratamento deve ser supervisionado por especialista.
Reação inflamatória local é frequente.
Algoritmos e fluxogramas
Prurido vulvar crônico
Realizar história dirigida e inspeção vulvar completa.
Liquenificação/espessamento com ciclo prurido-coçadura → considerar líquen simples crônico.
Erosões dolorosas com possível acometimento vaginal/oral → considerar líquen plano.
Lesão atípica, ulcerada, endurecida, pigmentada ou refratária → biopsiar.
Tratar etiologia e programar seguimento.
Lesão vulvar suspeita
Inspecionar e documentar localização, tamanho e relação com linha média.
Realizar biópsia adequada.
Se precursor → classificar como HPV-associado/HSIL ou diferenciado quando aplicável.
Se invasivo → estadiar e avaliar linfonodos.
Definir cirurgia, pesquisa de linfonodo sentinela, linfadenectomia ou tratamento combinado conforme estágio.
Câncer inicial e linfonodo sentinela
Confirmar carcinoma invasivo e profundidade de invasão.
Avaliar tamanho, focalidade e linfonodos inguinais.
Em tumor unifocal <4 cm, com invasão >1 mm e linfonodos clinicamente/radiologicamente não suspeitos, considerar técnica do linfonodo sentinela conforme protocolo especializado.
Lesões próximas à linha média exigem drenagem bilateral adequada.
Se critérios não forem preenchidos, abordagem inguinofemoral é definida conforme extensão e lateralidade.