Doenças Benignas e Malignas da Vagina — MedVerse · MedVerse
Resumo HARD · Atualizado em 15 de set. de 2026
Doenças Benignas e Malignas da Vagina
Cistos, lesões precursoras e câncer vaginal: diagnóstico, estadiamento e tratamento
Arthur MedVerse
·55 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
Doenças benignas e malignas da vagina abrangem alterações congênitas, cistos, lesões inflamatórias e neoplasias primárias ou secundárias. A maioria das massas vaginais é benigna, enquanto o câncer vaginal primário é raro e deve ser diferenciado de extensão de tumores do colo, vulva ou endométrio e de metástases.
Entre as lesões benignas, destacam-se cistos de inclusão, cistos do ducto de Gartner e cistos müllerianos. Cistos pequenos e assintomáticos geralmente podem ser observados; lesões sintomáticas, crescentes ou de diagnóstico duvidoso podem exigir imagem e excisão/marsupialização.
A adenose vaginal corresponde à presença de epitélio glandular na vagina. Tornou-se classicamente associada à exposição intrauterina ao dietilestilbestrol (DES) e possui relação histórica com adenocarcinoma de células claras, embora esse tumor possa ocorrer sem exposição conhecida.
O carcinoma espinocelular representa a maior parte dos cânceres vaginais primários e está fortemente relacionado à infecção persistente pelo papilomavírus humano (HPV), especialmente tipos oncogênicos. Lesões precursoras são denominadas lesões intraepiteliais escamosas vaginais/VaIN.
O câncer vaginal pode ser assintomático ou manifestar-se com sangramento vaginal, especialmente pós-coital ou pós-menopausa, corrimento aquoso/sanguinolento, massa ou dor pélvica. Qualquer lesão suspeita deve ser biopsiada.
O diagnóstico envolve exame ginecológico cuidadoso com espéculo, palpação, colposcopia quando indicada e biópsia para confirmação histológica. Após confirmação de malignidade, imagem — frequentemente ressonância magnética da pelve e tomografia/PET-CT conforme estágio — auxilia avaliação da extensão.
O estadiamento FIGO do câncer vaginal é essencialmente clínico e considera extensão à parede vaginal, tecidos subvaginais, parede pélvica e órgãos adjacentes. Linfonodos não fazem parte formal do estágio FIGO clássico, embora tenham grande importância prognóstica e terapêutica.
A radioterapia, frequentemente associada à braquiterapia e quimiossensibilização constitui o tratamento principal da maioria dos carcinomas vaginais invasivos. Cirurgia é reservada a situações selecionadas, sobretudo tumores iniciais localizados e anatomia favorável.
Mensagem de prova: câncer vaginal primário é raro; carcinoma espinocelular associado ao HPV é o tipo mais comum; adenocarcinoma de células claras lembra exposição intrauterina ao DES; sangramento pós-coital/pós-menopausa exige investigação e lesão suspeita exige biópsia.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer as principais lesões benignas da vagina.
02
Diferenciar cisto de inclusão, Gartner e cisto mülleriano.
03
Compreender adenose vaginal e sua associação histórica com dietilestilbestrol.
04
Reconhecer lesões intraepiteliais vaginais como precursoras do carcinoma escamoso.
05
Identificar fatores de risco para câncer vaginal.
06
Reconhecer apresentações clínicas suspeitas de malignidade.
07
Organizar investigação com exame ginecológico, colposcopia, biópsia e imagem.
08
Diferenciar câncer vaginal primário de extensão de neoplasias ginecológicas adjacentes.
09
Compreender o estadiamento FIGO do câncer vaginal.
10
Conhecer princípios terapêuticos da doença invasiva.
Visão rápida
Definição
Conjunto de alterações benignas, precursoras e malignas que acometem o epitélio, parede e estruturas embrionárias remanescentes da vagina.
Como reconhecer
Massas/cistos costumam ser benignos; sangramento pós-coital ou pós-menopausa, lesão ulcerada ou massa irregular exigem exclusão de malignidade.
Conduta principal
Lesão benigna assintomática pode ser observada; lesão suspeita deve ser biopsiada e neoplasia confirmada deve ser estadiada.
Pérola de prova
CEC vaginal = HPV; adenocarcinoma de células claras = associação clássica com exposição intrauterina ao DES.
Introdução
A vagina pode ser acometida por alterações congênitas, císticas, inflamatórias, pré-neoplásicas e malignas. Lesões benignas são muito mais frequentes que tumores primários invasivos.
O câncer vaginal primário representa pequena parcela das neoplasias ginecológicas. Uma lesão vaginal maligna deve ser cuidadosamente avaliada para excluir extensão direta ou recorrência de neoplasia originada em outro órgão.
A localização anatômica da lesão é importante tanto para o diagnóstico diferencial quanto para drenagem linfática e planejamento terapêutico.
Conceitos fundamentais
Anatomia e drenagem linfática
A vagina estende-se do colo uterino ao vestíbulo vulvar.
O terço superior drena predominantemente para linfonodos pélvicos.
O terço inferior apresenta drenagem relevante para linfonodos inguinais.
Essa diferença influencia avaliação e campos de radioterapia.
Câncer vaginal primário
Para ser considerado primário, o tumor deve ter origem vaginal sem evidência de câncer cervical ou vulvar concomitante que explique a lesão. Tumores envolvendo colo e vagina geralmente são classificados pelo sítio primário correspondente.
Lesão precursora
A neoplasia intraepitelial vaginal (VaIN), atualmente enquadrada em terminologia de lesões intraepiteliais escamosas de baixo ou alto grau, compartilha fatores de risco com neoplasias associadas ao HPV de colo e vulva.
Etiologia e fatores de risco
Lesões benignas
Trauma obstétrico ou cirúrgico pode originar cistos de inclusão.
Remanescentes mesonéfricos podem originar cistos do ducto de Gartner.
Cistos müllerianos decorrem de tecido mülleriano e são comuns entre cistos vaginais.
Adenose pode ser espontânea ou historicamente associada à exposição intrauterina ao DES.
Fatores de risco para neoplasia escamosa vaginal
Infecção persistente por HPV oncogênico.
História de neoplasia intraepitelial ou câncer do colo uterino/vulva.
Tabagismo.
Imunossupressão.
Idade avançada.
Radioterapia pélvica prévia em alguns contextos.
Adenocarcinoma de células claras
Associação clássica com exposição intrauterina ao dietilestilbestrol.
Pode ocorrer em pacientes sem exposição documentada.
Tende a ocorrer em idade mais jovem que o carcinoma espinocelular clássico.
Quadro clínico
Cistos e massas benignas
Frequentemente assintomáticos e descobertos incidentalmente.
Sensação de massa ou pressão vaginal.
Dispareunia.
Desconforto com atividade física ou uso de tampão.
Sintomas urinários podem ocorrer conforme localização e tamanho.
Câncer vaginal
Sangramento vaginal anormal é apresentação clássica.
Sangramento pós-coital.
Sangramento pós-menopausa.
Corrimento vaginal aquoso, sanguinolento ou fétido.
Massa ou lesão vaginal.
Dor pélvica em doença avançada.
Sintomas urinários ou retais quando há invasão de estruturas adjacentes.
Achados suspeitos ao exame
Lesão ulcerada.
Massa irregular ou friável.
Sangramento ao toque.
Área endurecida/infiltrativa.
Lesão persistente sem diagnóstico benigno claro.
Diagnóstico
Avaliação inicial
História ginecológica e oncológica detalhada.
Pesquisar exposição prévia a HPV, neoplasias cervicais/vulvares e tratamentos.
Exame vulvar e vaginal completo com espéculo.
Avaliação do colo uterino quando presente.
Palpação bimanual e retovaginal em lesões suspeitas.
Lesões císticas
Localização, consistência e relação com uretra e parede vaginal ajudam no diagnóstico.
Ultrassonografia ou ressonância magnética podem ser utilizadas quando anatomia ou origem não são claras.
Lesões pequenas e típicas geralmente não exigem investigação extensa.
Lesão suspeita de neoplasia
Biópsia é obrigatória para diagnóstico histológico.
Colposcopia vaginal pode identificar extensão e áreas adicionais de lesão intraepitelial.
Citologia/HPV podem detectar risco ou doença associada, mas não substituem biópsia de lesão invasiva suspeita.
Ressonância magnética pélvica é particularmente útil para extensão local.
Tomografia e/ou PET-CT podem avaliar linfonodos e doença à distância conforme estágio e disponibilidade.
Cistoscopia ou proctoscopia podem ser indicadas se houver suspeita de invasão de bexiga ou reto.
Diagnóstico diferencial
Cistos benignos.
Prolapso.
Endometriose vaginal.
Condilomas.
Úlceras inflamatórias/infecciosas.
Melanoma vaginal.
Sarcomas.
Metástases ou extensão de câncer cervical, endometrial, vulvar, retal ou vesical.
Classificações e estratificação
Histologia
Carcinoma espinocelular: tipo histológico predominante.
Adenocarcinoma: menos comum; inclui adenocarcinoma de células claras.
Melanoma vaginal é raro e biologicamente agressivo.
Sarcomas são raros; rabdomiossarcoma embrionário merece lembrança em crianças.
FIGO — câncer vaginal
Estágio I: tumor limitado à parede vaginal.
Estágio II: envolve tecido subvaginal, sem atingir a parede pélvica.
Estágio III: extensão até a parede pélvica.
Estágio IVA: invasão da mucosa da bexiga ou reto e/ou extensão além da pelve verdadeira.
Estágio IVB: metástases à distância.
Linfonodos
O comprometimento linfonodal não integra formalmente o estadiamento FIGO clássico da vagina, mas influencia prognóstico, planejamento radioterápico e tratamento.
Localização
Lesões do terço superior apresentam drenagem principalmente pélvica.
Lesões do terço inferior podem drenar para linfonodos inguinais.
A localização deve ser documentada no planejamento terapêutico.
Tratamento
Cistos vaginais benignos
Observação é adequada para lesões pequenas, assintomáticas e com diagnóstico clínico seguro.
Excisão ou marsupialização pode ser indicada quando sintomáticas, grandes, crescentes ou de diagnóstico incerto.
A relação com uretra e bexiga deve ser esclarecida antes de cirurgia em lesões anteriores.
VaIN / lesão intraepitelial vaginal
Lesões de baixo grau podem regredir e frequentemente são observadas conforme contexto.
Lesões de alto grau exigem tratamento ou vigilância especializada pelo risco de progressão.
Opções incluem ablação a laser, excisão e terapias tópicas selecionadas.
É importante avaliar todo o trato anogenital por doença multifocal associada ao HPV.
Câncer vaginal invasivo
Radioterapia é o principal tratamento da maioria dos casos.
Braquiterapia é componente importante para controle local.
Quimiorradioterapia concomitante, frequentemente com cisplatina como radiossensibilizante, é utilizada em muitos casos por extrapolação da experiência em câncer cervical.
Cirurgia pode ser considerada em tumores iniciais pequenos e bem localizados, especialmente no terço superior, quando ressecção com margens adequadas é factível.
Doença avançada/recorrente
O manejo deve ser individualizado em centro oncológico, considerando radioterapia prévia, possibilidade de ressecção, terapia sistêmica, perfil tumoral, sintomas e objetivos de cuidado.
Conduta na urgência e emergência
Sangramento vaginal importante
Avaliar estabilidade hemodinâmica.
Obter acesso venoso e hemograma/coagulograma conforme gravidade.
Realizar exame ginecológico para localizar o sangramento quando seguro.
Tamponamento vaginal pode ser utilizado temporariamente em hemorragia significativa.
Acionar ginecologia/oncologia e radioterapia intervencionista conforme etiologia e disponibilidade.
Obstrução urinária ou invasão local
Avaliar função renal e hidronefrose.
Obstrução ureteral pode exigir derivação urinária.
Fístulas e infecção associada necessitam manejo especializado.
Princípio
A presença de uma massa vaginal não é, por si, emergência. Urgência decorre de hemorragia, infecção grave, obstrução urinária, dor não controlada ou complicações de doença avançada.
Doses e prescrições
Quimiossensibilização com cisplatina
Em quimiorradioterapia, um regime frequentemente extrapolado do câncer cervical utiliza cisplatina 40 mg/m² intravenosa semanal durante a radioterapia.
O regime deve ser prescrito em ambiente oncológico, com avaliação renal, hematológica, eletrólitos e protocolo de hidratação.
Tratamentos tópicos para VaIN
Imiquimode pode ser considerado em casos selecionados de lesão intraepitelial vaginal de alto grau, especialmente quando tratamento ablativo/excisional é difícil.
Concentração, frequência e duração variam conforme protocolo especializado e não devem ser padronizadas sem avaliação colposcópica e histológica.
Observação
Não existe tratamento farmacológico empírico para uma massa vaginal de etiologia desconhecida. Lesões suspeitas exigem diagnóstico histológico antes de terapia definitiva.
Algoritmos e fluxogramas
Massa/lesão vaginal
História + exame com espéculo e palpação.
Aspecto cístico típico e assintomático? → observar quando seguro.
Sintomática, crescente ou anatomia incerta? → imagem ± excisão.
Lesão sólida, ulcerada, friável ou sangrante? → biópsia.
Malignidade confirmada? → excluir origem cervical/vulvar/outro sítio.
Estadiar extensão local e sistêmica.
Definir radioterapia/quimiorradioterapia ou cirurgia em caso selecionado.
Sangramento pós-coital/pós-menopausa com lesão vaginal
Inspecionar vulva, vagina e colo.
Identificar local da lesão.
Realizar biópsia de área suspeita.
Se neoplasia → histologia + estadiamento.
Encaminhar para oncologia ginecológica.
O que mais cai
Câncer vaginal primário é raro.
CEC é o tipo mais comum.
HPV é o principal fator relacionado ao CEC vaginal.
DES intrauterino → adenocarcinoma de células claras.
VaIN é lesão precursora escamosa.
Lesão vaginal suspeita = biópsia.
Sangramento pós-coital e pós-menopausa são apresentações importantes.
Excluir extensão de câncer cervical/vulvar antes de chamar de primário vaginal.
FIGO I = parede vaginal.
FIGO II = tecido subvaginal.
FIGO III = parede pélvica.
FIGO IVA = bexiga/reto ou além da pelve verdadeira.
Linfonodos têm importância prognóstica, embora não integrem formalmente o FIGO clássico.
Radioterapia + braquiterapia é eixo terapêutico.
Terço inferior pode drenar para linfonodos inguinais.
Erros comuns
Considerar qualquer cisto vaginal como neoplasia.
Biopsiar ou operar cisto pequeno e típico sem indicação clínica.
Tratar lesão vaginal suspeita empiricamente sem biópsia.
Chamar extensão cervical para vagina de câncer vaginal primário.
Esquecer associação entre HPV e carcinoma espinocelular vaginal.
Esquecer associação clássica entre DES e adenocarcinoma de células claras.
Usar citologia isoladamente para excluir câncer invasivo em lesão visível.
Ignorar exame do colo e vulva.
Confundir VaIN com câncer invasivo.
Achar que linfonodos não importam porque não aparecem no estadiamento FIGO clássico.
Considerar cirurgia como tratamento padrão de toda neoplasia vaginal.
Ignorar diferença de drenagem linfática entre vagina superior e inferior.
Para lembrar
Vagina: benigno é muito mais comum que câncer primário.