Investigação etiológica e interpretação do eixo hipotálamo–hipófise–ovário
Arthur MedVerse
·50 min de leitura·Intermediário
Neste artigo
Resumo executivo
Amenorreia secundária é a interrupção da menstruação em quem previamente menstruava. Deve ser investigada quando há ausência menstrual por mais de 3 meses em pacientes com ciclos previamente regulares
ou por
6 meses em pacientes com ciclos previamente irregulares
.
A primeira hipótese a ser excluída é sempre gestação. Mesmo atrasos relativamente curtos podem justificar teste quando há possibilidade de gravidez. Depois de excluí-la, o raciocínio deve localizar a alteração no eixo hipotálamo–hipófise–ovário ou no útero/trato de saída.
A investigação inicial combina história clínica, exame físico e dosagens de hormônio folículo-estimulante (FSH), estradiol, prolactina e hormônio estimulante da tireoide (TSH). A ultrassonografia pélvica pode ser incorporada precocemente por fornecer informações sobre endométrio, ovários e anatomia uterina.
FSH elevado + estradiol baixo sugere insuficiência ovariana primária. FSH baixo ou inapropriadamente normal + estradiol baixo favorece disfunção hipotalâmica ou hipofisária. Estradiol relativamente preservado, hiperandrogenismo e história de oligomenorreia prévia direcionam para anovulação crônica, especialmente síndrome dos ovários policísticos (SOP).
Pistas clínicas são decisivas: perda ponderal, baixa disponibilidade energética, exercício excessivo e estresse sugerem amenorreia hipotalâmica funcional; galactorreia sugere hiperprolactinemia; fogachos e secura vaginal sugerem hipoestrogenismo; virilização rápida exige excluir tumor produtor de androgênio; amenorreia após instrumentação uterina sugere síndrome de Asherman; hemorragia pós-parto grave seguida de amenorreia levanta suspeita de síndrome de Sheehan.
Para prova, memorize: β-hCG primeiro → FSH + estradiol → prolactina + TSH → ultrassonografia e exames dirigidos pelo fenótipo.
Objetivos de aprendizagem
01
Definir amenorreia secundária e reconhecer quando iniciar investigação.
02
Excluir gestação como primeira etapa do raciocínio.
03
Interpretar hormônio folículo-estimulante e estradiol para localizar causas ovarianas versus centrais.
04
Reconhecer síndrome dos ovários policísticos, amenorreia hipotalâmica funcional, hiperprolactinemia e insuficiência ovariana primária como diagnósticos centrais.
05
Identificar pistas para síndrome de Asherman e síndrome de Sheehan.
06
Reconhecer hiperandrogenismo de rápida progressão como sinal de alarme.
07
Usar prolactina, função tireoidiana, androgênios e ultrassonografia de forma dirigida.
08
Compreender as limitações do teste do progestagênio.
09
Aplicar algoritmo prático de investigação da amenorreia secundária.
Visão rápida
Definição
Ausência de menstruação por >3 meses após ciclos regulares ou por 6 meses após ciclos irregulares.
Como reconhecer
Excluir gestação; depois localizar a causa pelo padrão clínico, FSH, estradiol, prolactina, TSH e ultrassonografia.
Conduta principal
FSH alto + estradiol baixo sugere insuficiência ovariana; FSH baixo/inadequadamente normal + estradiol baixo sugere causa central; hiperandrogenismo favorece anovulação crônica/SOP.
Pérola de prova
Curetagem prévia + amenorreia = pensar em Asherman. Hemorragia pós-parto grave + amenorreia = pensar em Sheehan.
Introdução
A amenorreia secundária é uma manifestação final comum de alterações fisiológicas, endócrinas, metabólicas, ovarianas, hipotalâmicas, hipofisárias, uterinas e iatrogênicas. O diagnóstico diferencial é amplo, mas poucas categorias respondem pela maioria dos casos.
O padrão menstrual anterior ajuda muito. Amenorreia que surge sobre oligomenorreia crônica favorece anovulação persistente, particularmente SOP. Já a interrupção abrupta de ciclos anteriormente previsíveis aumenta a importância de gestação, mudanças metabólicas ou ponderais, exposições medicamentosas, insuficiência ovariana e alterações adquiridas do eixo reprodutivo.
O objetivo não é solicitar todos os exames possíveis, mas usar o fenótipo para escolher a investigação de maior rendimento.
Conceitos fundamentais
Definição prática
Ciclos previamente regulares: investigar ausência menstrual por mais de 3 meses.
Ciclos previamente irregulares: investigar ausência menstrual por 6 meses.
Quatro locais onde o eixo pode falhar
Hipotálamo: redução da pulsatilidade do hormônio liberador de gonadotrofinas por baixa disponibilidade energética, estresse, exercício ou doença.
Hipófise: hiperprolactinemia, tumores, lesões ou necrose hipofisária.
Ovário: anovulação crônica, insuficiência ovariana primária e outras doenças ovarianas.
Útero/endométrio: sinéquias intrauterinas, estenose cervical e outras alterações adquiridas.
Virilização rápida: exige excluir tumor ovariano ou adrenal produtor de androgênio.
Curetagem ou procedimento intrauterino prévio: pensar em síndrome de Asherman.
Hemorragia pós-parto importante: pensar em síndrome de Sheehan.
Cefaleia ou alteração visual: aumenta suspeita de doença hipofisária.
Estrias violáceas, hipertensão e redistribuição de gordura: considerar hipercortisolismo conforme contexto.
Diagnóstico
1. Excluir gestação
A gestação deve permanecer no topo do diagnóstico diferencial. Testes urinários podem ser falsamente negativos; quando a suspeita clínica é relevante, pode ser apropriada a dosagem sérica da gonadotrofina coriônica humana (β-hCG).
2. História e exame físico
Padrão menstrual anterior e momento da interrupção.
Mudanças de peso, alimentação, exercício e estresse.
Medicamentos, contraceptivos e hormônios exógenos.
Galactorreia, sintomas tireoidianos e sintomas de hipoestrogenismo.
Hirsutismo, acne e velocidade de progressão do hiperandrogenismo.
História obstétrica, hemorragia pós-parto e instrumentação uterina.
3. Exames iniciais
FSH + estradiol: diferenciam insuficiência ovariana de grande parte das causas centrais.
Prolactina: deve integrar a investigação inicial; elevações discretas devem ser confirmadas antes de rotular hiperprolactinemia.
TSH: exame de rastreio de primeira linha; se houver suspeita de insuficiência hipofisária, a tiroxina livre também ganha importância.
Ultrassonografia pélvica: pode ser utilizada precocemente para avaliar endométrio, ovários e anatomia uterina.
4. Se houver hiperandrogenismo
Testosterona total e/ou livre: avaliam hiperandrogenemia e ajudam a reconhecer padrões de maior gravidade.
Sulfato de desidroepiandrosterona: auxilia na avaliação de fonte adrenal.
17-hidroxiprogesterona: rastreia hiperplasia adrenal congênita não clássica quando indicada.
5. Se a prolactina estiver elevada
Confirmar elevações leves, revisar medicamentos e causas fisiológicas, avaliar função tireoidiana e considerar macroprolactina em situações apropriadas. Elevação persistente sem explicação exige investigação da região hipofisária, preferencialmente com ressonância magnética.
6. Se houver suspeita de Asherman
Ultrassonografia pode sugerir alteração endometrial, mas a investigação da cavidade uterina pode exigir histerossonografia ou histeroscopia. A histeroscopia permite visualização direta e tratamento das sinéquias.
Teste do progestagênio
Sangramento após progestagênio é compatível com endométrio estrogenizado e anovulação. A ausência de sangramento pode decorrer tanto de hipoestrogenismo quanto de endométrio não responsivo/obstrução ou cicatrização intrauterina. Portanto, o teste não deve ser usado isoladamente como divisor diagnóstico absoluto.
Classificações e estratificação
Classificação fisiopatológica
Hipogonadismo hipergonadotrófico: FSH elevado + estradiol baixo → origem ovariana.
Hipogonadismo hipogonadotrófico: FSH baixo/inadequadamente normal + estradiol baixo → origem hipotalâmica/hipofisária.
Anovulação crônica com estrogênio presente: frequentemente associada à SOP.
Alteração anatômica adquirida: endométrio/trato de saída, como síndrome de Asherman.
Padrão clínico que muda a prioridade
Virilização rápida: tumor produtor de androgênio até exclusão adequada.
Amenorreia após hemorragia pós-parto grave: investigar hipopituitarismo pós-parto.
Tratamento
Princípio geral
O tratamento é etiológico; não existe uma terapia única para amenorreia secundária. Além de restaurar ciclos quando possível, devem ser considerados proteção endometrial, consequências do hipoestrogenismo, saúde óssea, risco metabólico e desejo reprodutivo.
Direcionamento por causa
Amenorreia hipotalâmica funcional: corrigir baixa disponibilidade energética e fatores precipitantes; recuperação do eixo é o objetivo central.
SOP: tratar conforme hiperandrogenismo, risco metabólico, necessidade de proteção endometrial e desejo gestacional.
Hiperprolactinemia: tratar a etiologia; prolactinomas geralmente respondem a agonistas dopaminérgicos.
Insuficiência ovariana primária: avaliar terapia hormonal quando indicada e abordar saúde óssea, cardiovascular e fertilidade.
Disfunção tireoidiana: tratar a doença tireoidiana.
Síndrome de Asherman: tratamento histeroscópico pode ser indicado.
Síndrome de Sheehan: reposição dos eixos hormonais deficientes conforme avaliação endocrinológica.
Algoritmos e fluxogramas
Fluxo prático
1. Excluir gestação. Solicitar teste de gravidez; considerar β-hCG sérico quando necessário.
2. Caracterizar o fenótipo. Oligomenorreia prévia? Perda de peso? Exercício? Galactorreia? Hiperandrogenismo? Fogachos? Procedimento uterino? Hemorragia pós-parto?
3. Solicitar FSH + estradiol, prolactina e TSH. Incorporar ultrassonografia pélvica precocemente quando disponível.