Síndrome dos Ovários Policísticos — MedVerse · MedVerse
Resumo HARD · Atualizado em 02 de set. de 2026
Síndrome dos Ovários Policísticos
Diagnóstico atual, hiperandrogenismo, risco metabólico, tratamento e infertilidade
Arthur MedVerse
·65 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é uma condição endócrino-metabólica frequente, caracterizada por combinações de disfunção ovulatória, hiperandrogenismo e morfologia ovariana policística, após exclusão de diagnósticos alternativos.
Em adultas, o diagnóstico segue critérios de Rotterdam modificados: 2 de 3 critérios — hiperandrogenismo clínico/bioquímico, disfunção ovulatória e ovários policísticos ao ultrassom — após excluir outras causas. A diretriz internacional de 2023 permite hormônio anti-Mülleriano (AMH) como alternativa ao ultrassom em adultas para definir morfologia policística, mas não como teste isolado.
Se a paciente apresenta ciclos irregulares + hiperandrogenismo
, ultrassom ou AMH não são necessários para fechar o diagnóstico após exclusão de causas alternativas.
Na adolescência, deve-se evitar sobrediagnóstico: são necessários hiperandrogenismo e disfunção ovulatória definidos de acordo com o tempo desde a menarca; ultrassonografia ovariana e AMH não são recomendados para diagnóstico nessa fase.
A SOP associa-se a resistência à insulina, maior risco de intolerância à glicose e diabetes tipo 2, dislipidemia, apneia obstrutiva do sono, hiperplasia/câncer endometrial e maior prevalência de sintomas depressivos e ansiosos.
O tratamento depende do objetivo. Estilo de vida é componente central para todas. Contraceptivo oral combinado é tratamento farmacológico de primeira linha para irregularidade menstrual e hiperandrogenismo quando não há desejo gestacional. Metformina tem papel principalmente metabólico.
Para infertilidade anovulatória sem outro fator de infertilidade, letrozol é a primeira linha farmacológica para indução da ovulação. Citrato de clomifeno, metformina, gonadotrofinas e cirurgia ovariana têm papéis em situações selecionadas.
O risco de câncer endometrial é aumentado, mas rastreamento rotineiro de câncer endometrial não é recomendado. Prevenção inclui evitar longos períodos de amenorreia e promover proteção endometrial com regulação dos ciclos/progestagênio quando necessário.
Mensagem de prova: SOP é diagnóstico de exclusão; Rotterdam = 2 de 3 em adultas; US não é obrigatório se há hiperandrogenismo + disfunção ovulatória; adolescente não deve ser diagnosticada pelo aspecto policístico dos ovários; letrozol é primeira linha para infertilidade anovulatória.
Objetivos de aprendizagem
01
Aplicar os critérios diagnósticos atuais da SOP em adultas.
02
Reconhecer as particularidades diagnósticas na adolescência.
03
Diferenciar hiperandrogenismo clínico e bioquímico.
04
Conhecer o papel atual da ultrassonografia e do AMH.
05
Excluir causas alternativas de hiperandrogenismo e anovulação.
06
Avaliar riscos metabólicos, cardiovasculares e endometriais.
07
Selecionar tratamento para irregularidade menstrual e hiperandrogenismo.
08
Conhecer o papel da metformina.
09
Manejar hirsutismo e acne no contexto da SOP.
10
Organizar investigação e tratamento da infertilidade anovulatória.
11
Reconhecer letrozol como primeira linha para indução de ovulação.
12
Identificar pegadinhas frequentes em provas de residência.
Visão rápida
Definição
Síndrome endócrino-metabólica com disfunção ovulatória, hiperandrogenismo e/ou morfologia ovariana policística, após exclusão de outras causas.
Como reconhecer
Adultas: 2 de 3 critérios de Rotterdam modificados; adolescente: hiperandrogenismo + disfunção ovulatória persistente.
Conduta principal
Estilo de vida para todas; contraceptivo combinado para ciclo/hiperandrogenismo; metformina sobretudo para risco metabólico; letrozol para infertilidade anovulatória.
Pérola de prova
Ciclos irregulares + hiperandrogenismo em adulta: US e AMH não são necessários para o diagnóstico.
Introdução
A SOP apresenta manifestações reprodutivas, dermatológicas, metabólicas e psicológicas. O fenótipo varia ao longo da vida e entre indivíduos.
A resistência à insulina é frequente e participa da fisiopatologia, mas não integra os critérios diagnósticos formais.
O diagnóstico correto exige evitar tanto subdiagnóstico quanto sobrediagnóstico, especialmente em adolescentes, nas quais irregularidade menstrual e acne podem fazer parte da maturação fisiológica.
Conceitos fundamentais
Fisiopatologia
É multifatorial, envolvendo predisposição genética, alterações neuroendócrinas, hiperandrogenismo e resistência à insulina.
Hiperinsulinemia pode aumentar produção ovariana de androgênios e reduzir globulina ligadora de hormônios sexuais, aumentando androgênios livres.
Disfunção folicular contribui para oligo/anovulação.
Rotterdam modificado — adultas
1. Hiperandrogenismo clínico e/ou bioquímico.
2. Disfunção ovulatória manifestada sobretudo por ciclos irregulares.
3. Morfologia ovariana policística ao ultrassom; em adultas, AMH validado pode ser alternativa para esse componente conforme diretriz de 2023.
São necessários 2 de 3, após exclusão de etiologias alternativas.
Ovário policístico não é sinônimo de SOP
Morfologia ovariana policística isolada não estabelece a síndrome. Da mesma forma, uma mulher com SOP pode preencher critérios diagnósticos sem apresentar morfologia policística ao ultrassom.
Etiologia e fatores de risco
Associações metabólicas
Resistência à insulina.
Sobrepeso/obesidade em parte das pacientes, embora SOP também ocorra em mulheres sem excesso de peso.
Intolerância à glicose e diabetes mellitus tipo 2.
Dislipidemia.
Maior prevalência de fatores de risco cardiovascular.
Outras associações
Apneia obstrutiva do sono.
Sintomas depressivos e ansiedade.
Infertilidade anovulatória.
Hiperplasia e câncer endometrial relacionados especialmente à anovulação prolongada.
Ponto essencial
Obesidade não é critério diagnóstico. SOP não deve ser excluída em paciente com índice de massa corporal normal.
Quadro clínico
Disfunção ovulatória
Oligomenorreia.
Amenorreia.
Ciclos irregulares.
Infertilidade por oligo/anovulação.
Disfunção ovulatória pode existir mesmo com ciclos aparentemente regulares; progesterona sérica pode ajudar quando necessário confirmar ovulação.
Hiperandrogenismo clínico
Hirsutismo é o sinal clínico mais específico em adultas.
Acne e alopecia de padrão feminino podem ocorrer, mas isoladamente são preditores menos fortes de hiperandrogenismo bioquímico.
Virilização rápida/intensa não é típica e exige investigação de outras causas.
Achados que sugerem outro diagnóstico
Virilização de início rápido.
Clitoromegalia.
Mudança acentuada da voz.
Progressão rápida do hiperandrogenismo.
Sinais cushingoides.
Galactorreia.
Sintomas de disfunção tireoidiana.
Diagnóstico
Avaliação do hiperandrogenismo
Testosterona total e livre são os principais exames para avaliação bioquímica.
Métodos laboratoriais de alta qualidade são preferíveis.
Contraceptivo oral combinado dificulta interpretação dos androgênios; quando avaliação bioquímica é imprescindível, pode ser necessário suspendê-lo por período adequado sob orientação.
Excluir diagnósticos alternativos
Gestação.
Disfunção tireoidiana.
Hiperprolactinemia.
Hiperplasia adrenal congênita não clássica, geralmente com 17-hidroxiprogesterona.
Síndrome de Cushing quando clinicamente suspeita.
Tumor produtor de androgênio diante de hiperandrogenismo intenso/rápido.
Outras causas de amenorreia conforme contexto.
Ultrassonografia em adultas
A contagem folicular por ovário é o marcador ultrassonográfico preferido quando equipamento e técnica permitem.
Volume ovariano pode complementar avaliação.
Não é necessário realizar ultrassom para diagnóstico se já existem ciclos irregulares e hiperandrogenismo.
AMH
Em adultas, pode ser utilizado como alternativa ao ultrassom para definir morfologia ovariana policística dentro do algoritmo diagnóstico.
Não deve ser utilizado como teste diagnóstico único para SOP.
Não deve ser usado simultaneamente com ultrassom apenas para aumentar chance de preencher o terceiro critério.
Não é recomendado para diagnóstico de SOP em adolescentes.
Adolescência
Exigir disfunção ovulatória persistente definida conforme anos pós-menarca e hiperandrogenismo clínico/bioquímico.
Ultrassonografia e AMH não são recomendados para diagnóstico devido à baixa especificidade nessa fase.
Adolescentes com apenas parte dos critérios podem ser classificadas como em risco e reavaliadas ao longo do tempo.
Avaliação metabólica
Avaliar perfil glicêmico no diagnóstico e periodicamente conforme risco.
Teste oral de tolerância à glicose de 75 g é o teste mais acurado para avaliar estado glicêmico na SOP, independentemente do índice de massa corporal.