Transmissão, manifestações cutaneomucosas, diagnóstico, vigilância e manejo clínico
Arthur MedVerse
·55 min de leitura·Intermediário
Neste artigo
Resumo executivo
Mpox é uma zoonose viral causada pelo vírus mpox (MPXV), um Orthopoxvirus. A transmissão humana ocorre principalmente por contato direto com lesões, crostas, fluidos corporais e secreções respiratórias em contato próximo, além de fômites contaminados; transmissão vertical também pode ocorrer.
Após incubação, o quadro pode incluir febre, cefaleia, mialgia, astenia e linfadenopatia, seguida ou acompanhada por erupção cutaneomucosa. Nos surtos contemporâneos, apresentações localizadas em região genital, perianal ou oral e proctite podem ocorrer, inclusive com poucas lesões e sintomas sistêmicos discretos.
As lesões classicamente evoluem por estágios de mácula, pápula, vesícula, pústula e crosta, mas lesões em diferentes estágios podem coexistir.
Linfadenopatia é uma pista clássica
no diferencial com outras doenças exantemáticas.
A confirmação é laboratorial, preferencialmente por reação em cadeia da polimerase (PCR) em material de lesão cutânea ou mucosa. A qualidade da coleta é decisiva; lesões devem ser vigorosamente friccionadas conforme protocolo laboratorial.
A maioria dos casos imunocompetentes e não complicados evolui de forma autolimitada e recebe tratamento de suporte e analgesia. Dor, proctite, lesões orais, desidratação e infecção bacteriana secundária precisam ser ativamente avaliadas.
Maior risco de doença grave ocorre em pessoas com imunossupressão importante — especialmente infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) avançada —, crianças pequenas, gestantes e pessoas com determinadas doenças cutâneas ou outras condições que comprometem barreiras e imunidade.
Tecovirimat não deve ser tratado como antiviral rotineiro para todo caso. Ensaios randomizados recentes não demonstraram redução do tempo de resolução das lesões em populações sem doença grave; acesso e indicação dependem do contexto regulatório e de protocolos para doença grave ou alto risco.
No Brasil, mpox integra a vigilância epidemiológica e casos suspeitos devem seguir as definições, notificação, investigação, coleta e medidas de controle estabelecidas pelo Ministério da Saúde.
Mensagem de prova: suspeita clínica + lesões compatíveis → coletar material da lesão para PCR, instituir precauções e manejo de suporte; lembrar linfadenopatia, apresentações anogenitais e maior gravidade na imunossupressão avançada.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer as principais formas de transmissão do vírus mpox.
02
Identificar apresentações clínicas clássicas e contemporâneas da mpox.
03
Reconhecer a evolução típica das lesões cutaneomucosas.
04
Selecionar o exame confirmatório e a amostra adequada.
05
Construir o diagnóstico diferencial das lesões vesiculopustulosas e ulceradas.
06
Identificar grupos e manifestações associados a maior risco de doença grave.
07
Definir manejo de suporte para casos não complicados.
08
Reconhecer critérios clínicos que justificam avaliação hospitalar ou especializada.
09
Compreender o papel limitado e protocolado dos antivirais.
10
Aplicar princípios de isolamento, prevenção e controle de infecção.
11
Reconhecer particularidades em pessoas vivendo com HIV, gestantes e crianças.
12
Memorizar os pontos de maior rendimento para provas de residência.
Visão rápida
Definição
Infecção por Orthopoxvirus transmitida sobretudo por contato próximo com pessoa infectada, especialmente pele/lesões e materiais contaminados.
Como reconhecer
Lesões cutaneomucosas, frequentemente dolorosas, com ou sem síndrome febril e linfadenopatia; apresentações anogenitais, orais e proctite são importantes.
Conduta principal
Coletar material de lesão para PCR, controlar dor e complicações, orientar medidas de prevenção e avaliar gravidade e fatores de risco.
Pérola de prova
Linfadenopatia + exantema vesiculopustuloso é associação clássica; nos surtos recentes, poucas lesões anogenitais não excluem mpox.
Introdução
Mpox é uma doença infecciosa causada pelo MPXV, vírus de DNA envelopado do gênero Orthopoxvirus. Existem diferentes clados virais, com diferenças epidemiológicas e de gravidade populacional.
A epidemiologia mundial mudou a partir de 2022, com transmissão sustentada fora de áreas historicamente endêmicas. Novos surtos envolvendo diferentes clados reforçaram a necessidade de reconhecer apresentações clínicas menos clássicas.
Para provas e prática, os eixos centrais são transmissão por contato próximo, lesões cutaneomucosas características, diagnóstico molecular, precauções, tratamento de suporte e reconhecimento precoce de doença grave.
Conceitos fundamentais
Agente etiológico
Vírus mpox (MPXV), vírus de DNA da família Poxviridae e gênero Orthopoxvirus.
É relacionado ao vírus da varíola, mas constitui infecção distinta.
Transmissão
Contato direto pele a pele ou mucosa com lesões, crostas ou fluidos de pessoa infectada.
Contato próximo com secreções respiratórias pode participar da transmissão.
Fômites contaminados, como roupas de cama, toalhas e objetos, podem transmitir o vírus.
Contato sexual é um contexto importante de transmissão por contato íntimo, mas mpox não deve ser reduzida conceitualmente a uma infecção sexualmente transmissível.
Pode ocorrer transmissão vertical durante a gestação.
Transmissão zoonótica pode ocorrer por contato com animais infectados.
Período de incubação
Em geral, os sintomas surgem dentro de aproximadamente 3 semanas após a exposição.
A história epidemiológica deve considerar contatos próximos e exposições relevantes no período anterior ao início dos sintomas.
Contagiosidade
A transmissão é especialmente relevante enquanto há lesões ativas.
O paciente deve seguir medidas de prevenção até completa cicatrização das lesões, queda das crostas e formação de nova camada de pele, conforme orientação sanitária vigente.
Etiologia e fatores de risco
Maior risco de doença grave
Imunossupressão importante.
HIV avançado ou não controlado é associação particularmente importante com formas graves, disseminadas e potencialmente fatais.
Crianças pequenas, especialmente em contextos epidemiológicos de maior gravidade.
Gestação.
Condições dermatológicas extensas ou comprometimento importante da barreira cutânea.
Complicações em sítios anatômicos de alto risco, como olhos e sistema nervoso central.
Exposição
Contato físico próximo com caso de mpox.
Contato com lesões ou materiais potencialmente contaminados.
Contato íntimo/sexual com pessoa infectada.
Exposição ocupacional sem proteção adequada em serviços de saúde.
Quadro clínico
Síndrome sistêmica
Febre ou calafrios.
Cefaleia.
Mialgia.
Astenia.
Linfadenopatia cervical, axilar ou inguinal pode preceder ou acompanhar o exantema e é pista diagnóstica clássica.
Lesões cutaneomucosas
Podem iniciar como máculas e evoluir para pápulas, vesículas, pústulas e crostas.
Lesões podem ser firmes, profundas e dolorosas, tornando-se pruriginosas durante cicatrização.
Podem acometer face, tronco, extremidades, palmas e plantas, mas a distribuição varia.
Lesões genitais, perianais e orais são apresentações relevantes nos surtos contemporâneos.
Pode haver poucas lesões ou até lesão única.
Apresentações contemporâneas importantes
Proctite/proctocolite com dor anorretal intensa.
Lesões genitais ou perianais predominantes.
Lesões orofaríngeas com odinofagia.
Sintomas sistêmicos podem surgir antes, durante ou após as lesões, ou ser discretos.
Complicações
Dor intensa.
Desidratação por baixa ingestão oral ou perdas.
Infecção bacteriana secundária.
Comprometimento ocular, incluindo ceratite.
Pneumonite/pneumonia.
Encefalite ou outras manifestações neurológicas.
Miocardite em casos raros.
Doença cutânea disseminada ou necrosante em imunossupressão grave.
Proctite ou uretrite graves.
Diagnóstico
Quando suspeitar
Erupção cutânea ou mucosa compatível, especialmente vesicular, pustulosa, ulcerada ou crostosa, com contexto epidemiológico ou sem diagnóstico alternativo mais provável.
Lesões anogenitais dolorosas, proctite ou linfadenopatia aumentam a suspeita em contexto compatível.
Confirmação laboratorial
PCR para DNA do MPXV é o método de escolha para confirmação.
Material de lesões cutâneas ou mucosas é a amostra prioritária.
Coletar de mais de uma lesão quando indicado pelo protocolo laboratorial.
Friccionar vigorosamente a superfície/base da lesão com swab conforme orientação técnica; não é necessário produzir lesão deliberada.
Seguir protocolo nacional para armazenamento, conservação e transporte.
Diagnósticos diferenciais
Varicela.
Herpes simples genital ou extragenital.
Herpes-zóster.
Sífilis, especialmente secundária.
Impetigo e outras infecções bacterianas cutâneas.
Molusco contagioso.
Doença mão-pé-boca.
Reações medicamentosas e outras dermatoses vesiculopustulosas.
Outras causas de úlcera genital.
Avaliação complementar
Pesquisar infecções sexualmente transmissíveis conforme exposição e apresentação clínica.
Oferecer testagem para HIV quando pertinente, pois coinfecção e imunossupressão modificam prognóstico e manejo.
Hemograma, função renal/hepática, eletrólitos e exames direcionados são indicados conforme gravidade, desidratação, comorbidades e suspeita de complicações.
Armadilha
Não excluir mpox apenas porque as lesões são poucas, localizadas ou estão em diferentes estágios. O padrão clínico dos surtos recentes pode divergir da descrição clássica de exantema disseminado e sincrônico.
Classificações e estratificação
Doença não complicada
Paciente clinicamente estável.
Dor controlável.
Consegue manter hidratação e alimentação.
Sem comprometimento ocular, neurológico, respiratório ou outra complicação grave.
Sem progressão cutânea preocupante.
Sinais de doença grave ou complicada
Dor grave ou refratária.
Lesões progressivas, extensas, confluentes, recorrentes ou necrosantes.
Desidratação importante.
Comprometimento respiratório ou necessidade de oxigênio.
Comprometimento ocular.
Encefalite, confusão ou outro comprometimento neurológico.
Miocardite/cardiomiopatia.
Proctite, uretrite ou balanite graves.
Sepse ou infecção bacteriana secundária grave.
Alto risco
Imunossupressão grave merece baixo limiar para avaliação especializada.
Gestantes, crianças pequenas e outros grupos vulneráveis devem ser avaliados individualmente e conforme protocolos vigentes.
Tratamento
Casos leves e não complicados
Tratamento de suporte é a base do manejo.
Garantir hidratação e alimentação adequadas.
Tratar febre e dor com analgésicos apropriados.
Manter lesões limpas e secas, evitando manipulação traumática.
Tratar infecção bacteriana secundária somente quando presente.
Orientar retorno imediato diante de sinais de complicação.
Controle da dor
Avaliar dor em cada atendimento; lesões anogenitais, proctite e lesões orais podem causar dor desproporcional ao número de lesões.
Utilizar estratégia analgésica escalonada conforme intensidade e características da dor.
Dor refratária pode justificar avaliação hospitalar.
Antivirais
Não há indicação de tecovirimat rotineiro para todo paciente com mpox.
Ensaios randomizados PALM007 e STOMP não demonstraram redução do tempo de resolução das lesões nas populações estudadas.
Tecovirimat pode permanecer disponível em protocolos específicos para pacientes elegíveis com doença grave ou alto risco, conforme autoridade sanitária/regulatória.
Outras terapias antivirais ou imunológicas devem ser reservadas a protocolos especializados e casos selecionados.
HIV
Pessoas com HIV avançado apresentam risco substancialmente maior de doença grave.
Em pessoa com HIV e mpox sem terapia antirretroviral, a Organização Mundial da Saúde recomenda início rápido da terapia antirretroviral, idealmente dentro de 7 dias do diagnóstico do HIV e podendo ser no mesmo dia, conforme avaliação clínica.
Não suspender terapia antirretroviral já em uso sem indicação específica.
Seguimento
Reavaliar evolução das lesões, dor, hidratação e aparecimento de complicações.
Imunossuprimidos podem apresentar curso prolongado e necessitam vigilância mais estreita.
Conduta na urgência e emergência
1. Triagem e precauções
Identificar rapidamente suspeita de mpox.
Evitar contato desnecessário e aplicar medidas de prevenção e controle de infecção.
Avaliar estabilidade hemodinâmica e respiratória.
2. Procurar complicações
Dor intensa ou refratária.
Desidratação.
Alteração do nível de consciência ou sinais neurológicos.
Dispneia, hipoxemia ou comprometimento pulmonar.
Dor ocular, alteração visual ou lesão periocular.
Proctite grave.
Lesões extensas, progressivas ou necrosantes.
Sinais de sepse.
3. Avaliar fatores de risco
HIV avançado/imunossupressão.
Gestação.
Extremos etários conforme contexto.
Comorbidades relevantes.
4. Investigar
Coletar amostra de lesão para PCR quando ainda não confirmada.
Investigar diagnósticos diferenciais e coinfecções.
5. Tratar
Analgesia e suporte clínico.
Reposição volêmica quando indicada.
Tratar complicações específicas.
Discutir terapia antiviral/protocolo especializado em doença grave ou alto risco.
6. Destino
Casos estáveis e não complicados podem ser manejados ambulatorialmente se houver condições seguras de cuidado e isolamento.
Internar ou transferir quando houver complicação grave, incapacidade de hidratação/controle da dor, deterioração clínica ou necessidade de suporte especializado.
Algoritmos e fluxogramas
Suspeita de mpox
Reconhecer lesão cutaneomucosa compatível.
Aplicar precauções e reduzir exposições.
Obter história epidemiológica e avaliar sintomas sistêmicos.
Pesquisar sinais de gravidade e imunossupressão.
Coletar material de lesão para PCR.
Investigar diferenciais e infecções sexualmente transmissíveis conforme contexto.
Definir manejo ambulatorial versus hospitalar.
Notificar/investigar conforme normas nacionais.
Caso confirmado ou provável sem gravidade
Orientar prevenção de transmissão.
Controlar dor e sintomas.
Manter hidratação e cuidados locais.
Programar reavaliação conforme risco.
Orientar sinais de alarme.
Caso grave ou alto risco
Avaliar necessidade de internação.
Investigar complicações por órgão.
Solicitar avaliação infectológica/especializada.
Otimizar tratamento de imunossupressão reversível, incluindo manejo do HIV.
Considerar acesso protocolado a terapias específicas quando elegível.
Imagens e achados
Morfologia das lesões
Máculas e pápulas podem evoluir para vesículas e pústulas.
Pústulas podem ser firmes, profundas e apresentar umbilicação central.
Posteriormente ocorre formação de crostas e reepitelização.
Distribuição
Pode haver lesões em face, tronco e extremidades, incluindo palmas e plantas.
Nos surtos recentes, lesões genitais, perianais e orais podem predominar.
O aspecto isolado não substitui confirmação molecular quando indicada.
Diferencial visual
Varicela tende a apresentar lesões mais superficiais e frequentemente em diferentes estágios.
Herpes simples pode produzir vesículas agrupadas e úlceras dolorosas.
Sífilis secundária pode envolver palmas e plantas, mas a morfologia e o contexto clínico diferem.
O que mais cai
Mpox é causada por Orthopoxvirus.
Contato direto com lesões e contato físico próximo são vias centrais de transmissão.
Linfadenopatia é pista clínica clássica.
Lesões podem evoluir de mácula → pápula → vesícula → pústula → crosta.
Apresentação anogenital localizada não exclui mpox.
PCR em material de lesão é o método confirmatório de escolha.
A maioria dos casos não complicados recebe tratamento de suporte.
HIV avançado é fator importante para doença grave e morte.
Comprometimento ocular, neurológico ou respiratório indica doença complicada.
Proctite pode ser manifestação importante e intensamente dolorosa.
Tecovirimat não é tratamento rotineiro de todos os casos.
Ensaios recentes não demonstraram redução do tempo de resolução das lesões com tecovirimat nas populações estudadas.
Casos suspeitos devem seguir fluxo de vigilância/notificação do Ministério da Saúde.
A prevenção deve ser mantida enquanto persistirem lesões ativas e até cicatrização completa conforme orientação sanitária.
Erros comuns
Considerar mpox apenas quando existe exantema disseminado.
Excluir o diagnóstico diante de uma única lesão genital.
Confundir mpox automaticamente com varicela.
Ignorar linfadenopatia como pista diagnóstica.
Deixar de coletar material diretamente das lesões.
Tratar PCR sanguínea como exame padrão de confirmação em todo caso.
Ignorar proctite e dor anorretal intensa.
Não pesquisar imunossupressão ou HIV quando clinicamente indicado.
Prescrever antibiótico de rotina sem evidência de infecção bacteriana.
Prescrever tecovirimat automaticamente para todo caso confirmado.
Ignorar dor ocular ou alteração visual.
Liberar medidas de prevenção antes da cicatrização adequada das lesões.
Esquecer notificação e fluxo de vigilância epidemiológica.
Para lembrar
Lesão compatível + contato próximo → pense em mpox.
Linfadenopatia ajuda a lembrar mpox.
Genital/perianal/oral também é apresentação típica dos surtos atuais.
PCR da lesão confirma.
Caso leve → suporte + analgesia + prevenção de transmissão.
Dor intensa, olho, pulmão, SNC ou desidratação → procure complicação.
HIV avançado → alto risco de doença grave.
Tecovirimat ≠ rotina.
Notificação e vigilância fazem parte da conduta.
Cicatrização completa das lesões é marco importante para encerramento das medidas de isolamento.
Referências
1.
Ministério da Saúde.
Mpox: orientações técnicas para a assistência à saúde.