Acidentes por Animais Peçonhentos — MedVerse · MedVerse
Resumo HARD · Atualizado em 02 de set. de 2026
Acidentes por Animais Peçonhentos
Ofidismo, escorpionismo, araneísmo, lonomismo, himenópteros e soroterapia
Arthur MedVerse
·80 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
Acidentes por animais peçonhentos são envenenamentos causados pela inoculação de toxinas por serpentes, escorpiões, aranhas, lagartas e outros animais. No Brasil, constituem agravos de notificação compulsória e exigem reconhecimento rápido do agente provável, classificação de gravidade e indicação correta de antiveneno.
A primeira conduta é não realizar torniquete, incisões, sucção ou aplicação de substâncias no local. Deve-se manter a vítima em repouso, remover adornos do membro afetado, higienizar o local com água e sabão quando apropriado e encaminhar rapidamente ao serviço de saúde.
Nos acidentes ofídicos, o diagnóstico é predominantemente clínico. Bothrops causa dor, edema, sangramento e coagulopatia;
Crotalus
causa neurotoxicidade, mialgia e mioglobinúria;
Lachesis
combina quadro botrópico com manifestações vagais;
Micrurus
produz síndrome neuroparalítica com risco de insuficiência respiratória.
A soroterapia antiveneno deve ser administrada o mais precocemente possível quando indicada. A dose depende do tipo de acidente e da gravidade, e é a mesma para adultos e crianças. O soro é administrado por via intravenosa e não deve ser fracionado.
No escorpionismo, a maioria dos casos apresenta dor local intensa. Crianças, especialmente as menores, têm maior risco de formas sistêmicas graves. Vômitos profusos, sudorese, sialorreia, agitação, taquicardia, hipertensão, choque e edema pulmonar indicam progressão sistêmica. Casos moderados e graves requerem soro antiescorpiônico ou antiaracnídico conforme disponibilidade/protocolo.
No araneísmo, três síndromes são clássicas: foneutrismo com dor local intensa e manifestações autonômicas; loxoscelismo com lesão dermonecrótica de evolução lenta e possível hemólise intravascular; e latrodectismo com dor, espasmos musculares e hiperatividade autonômica.
No contato com Lonomia, o principal risco é síndrome hemorrágica por distúrbio da coagulação, podendo ocorrer sangramentos e lesão renal aguda. O tratamento específico é o soro antilonômico nos casos indicados.
Acidentes por abelhas e outros himenópteros podem produzir reações locais, anafilaxia ou toxicidade sistêmica após múltiplas ferroadas. Anafilaxia deve ser tratada imediatamente com adrenalina intramuscular; não há soro antiveneno rotineiro para acidentes por abelhas no SUS.
Mensagem de prova: Bothrops = edema + sangramento/coagulopatia; Crotalus = neuro + músculo + urina escura; Lachesis = botrópico + vagal; Micrurus = paralisia. Soro precoce, IV, dose por gravidade e igual em adulto/criança.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer os principais acidentes por animais peçonhentos no Brasil.
02
Diferenciar os quadros botrópico, crotálico, laquético e elapídico.
03
Classificar gravidade e indicar corretamente a soroterapia nos acidentes ofídicos.
04
Reconhecer manifestações locais e sistêmicas do escorpionismo.
05
Identificar foneutrismo, loxoscelismo e latrodectismo.
06
Reconhecer síndrome hemorrágica por Lonomia.
07
Manejar reações alérgicas e anafilaxia por himenópteros.
08
Conhecer os primeiros socorros corretos e as práticas contraindicadas.
09
Reconhecer complicações como lesão renal aguda, choque, edema pulmonar e insuficiência respiratória.
10
Aplicar princípios de administração segura do soro antiveneno.
11
Reconhecer que a dose de antiveneno não é ajustada pelo peso do paciente.
12
Memorizar os achados de maior rendimento para provas brasileiras.
Visão rápida
Definição
Envenenamentos causados por inoculação de peçonha; no Brasil, incluem principalmente serpentes, escorpiões, aranhas, lagartas e himenópteros.
Como reconhecer
Identificar síndrome clínica e gravidade: local/coagulopática, neuroparalítica, autonômica, hemolítica ou hemorrágica.
Conduta principal
Suporte + antiveneno específico quando indicado; administração IV, precoce e em dose definida pela gravidade.
Pérola de prova
A dose do soro antiveneno é a mesma em adultos e crianças; não usar torniquete, não cortar e não sugar o local.
Introdução
O Brasil possui grande diversidade de animais peçonhentos. O diagnóstico frequentemente é sindrômico porque o animal nem sempre é capturado ou identificado.
O atraso na soroterapia aumenta risco de complicações, especialmente nos acidentes ofídicos e no escorpionismo grave.
A abordagem deve integrar estabilização clínica, classificação de gravidade, antiveneno quando indicado e vigilância de complicações.
Conceitos fundamentais
Animal peçonhento versus venenoso
Peçonhento: possui aparelho especializado para inocular veneno, como presas, ferrão ou cerdas.
Venenoso: causa intoxicação quando seu veneno é ingerido, tocado ou absorvido, sem inoculação ativa.
Primeiros socorros corretos
Manter a vítima calma e em repouso.
Remover anéis, pulseiras, sapatos ou objetos apertados do membro afetado.
Lavar o local com água e sabão quando apropriado.
Encaminhar rapidamente ao serviço de saúde.
Se possível, fotografar o animal sem tentar capturá-lo de modo arriscado.
O que NÃO fazer
Não fazer torniquete/garrote.
Não fazer incisões.
Não sugar o local.
Não aplicar pó, café, folhas, querosene, álcool ou outras substâncias.
Não realizar bloqueio anestésico no local da picada ofídica.
Evitar injeções intramusculares em acidentes com coagulopatia.
Soroterapia
Neutraliza toxinas circulantes.
É mais eficaz quando administrada precocemente.
Dose é definida pelo tipo de acidente e gravidade.
A dose é a mesma para adultos e crianças.
Via intravenosa é a recomendada.
Reações de hipersensibilidade podem ocorrer e devem ser tratadas sem abandonar definitivamente o antiveneno quando este permanece indicado.
Etiologia e fatores de risco
Serpentes de importância médica
Bothrops: jararacas; responsáveis pela maioria dos acidentes ofídicos no Brasil.
Crotalus: cascavéis.
Lachesis: surucucu-pico-de-jaca.
Micrurus: corais verdadeiras.
Escorpiões
Tityus serrulatus é espécie de grande importância epidemiológica.
Crianças apresentam maior risco de envenenamento sistêmico grave para a mesma quantidade de peçonha.
Aranhas
Phoneutria: armadeira.
Loxosceles: aranha-marrom.
Latrodectus: viúva-negra.
Lepidópteros
Lonomia pode provocar síndrome hemorrágica sistêmica.
Outras lagartas geralmente causam dermatite urticante local.
Quadro clínico
Acidente botrópico
Dor e edema local progressivo.
Equimose e sangramento no local.
Sangramento gengival, hematúria ou outros sangramentos podem ocorrer.
Coagulopatia é característica importante.
Complicações: síndrome compartimental, necrose, choque e lesão renal aguda.
Acidente crotálico
Pouca reação inflamatória local em muitos casos.
Ptose palpebral e fácies miastênica.
Diplopia e fraqueza muscular.
Mialgia generalizada.
Mioglobinúria com urina escura.
Lesão renal aguda é complicação grave.
Acidente laquético
Quadro local semelhante ao botrópico.
Edema, dor, sangramento e coagulopatia.
Síndrome vagal: náuseas, vômitos, cólicas, diarreia, bradicardia e hipotensão são pistas importantes.
Acidente elapídico
Manifestações locais podem ser discretas.
Parestesias e dor podem ocorrer.
Paralisia neuromuscular progressiva.
Ptose, oftalmoplegia, disfagia e fraqueza.
Insuficiência respiratória é a principal ameaça.
Escorpionismo
Dor local imediata é a manifestação mais comum.
Parestesia e sudorese local podem ocorrer.
Formas sistêmicas: náuseas, vômitos, sudorese, sialorreia, taquicardia, hipertensão, agitação.
Casos graves podem evoluir com choque, arritmias e edema pulmonar.
Foneutrismo
Dor local intensa e imediata.
Edema, sudorese e parestesia.
Casos sistêmicos podem apresentar vômitos, taquicardia, hipertensão e agitação.
Loxoscelismo
Picada pode ser pouco dolorosa inicialmente.
Dor e lesão cutânea aumentam ao longo de horas.
Placa marmórea e dermonecrose são clássicas.
Forma cutâneo-visceral pode cursar com hemólise intravascular, anemia, icterícia e lesão renal aguda.
Latrodectismo
Dor local seguida de espasmos musculares.
Dor abdominal/lombar intensa.
Sudorese, hipertensão, taquicardia e agitação autonômica.
Lonomia
Contato com cerdas de lagartas.
Dor/ardor local pode ser discreto.
Sangramento espontâneo, equimoses e coagulopatia podem surgir horas depois.
Hemorragia intracraniana e lesão renal aguda são complicações graves.
Diagnóstico
Diagnóstico sindrômico
Identificação do animal ajuda, mas não é obrigatória.
A síndrome clínica e a evolução são centrais.
Não atrasar soroterapia aguardando identificação taxonômica quando a indicação clínica está estabelecida.
Exames no ofidismo
Tempo de coagulação/coagulograma conforme disponibilidade.
Hemograma e plaquetas.
Creatinina, ureia e eletrólitos.
Creatinofosfoquinase e urina no crotalismo.
Monitorar diurese.
Loxoscelismo
Hemograma com atenção a queda da hemoglobina.
Bilirrubina, desidrogenase lática, haptoglobina quando disponíveis.
Função renal e urina.
A lesão inicial pode ser inespecífica; diagnóstico pode depender da evolução.
Escorpionismo
Diagnóstico é clínico.
ECG, troponina, radiografia de tórax e gasometria podem ser indicados em formas moderadas/graves.
Crianças pequenas exigem observação rigorosa pela possibilidade de progressão rápida.
Classificações e estratificação
Botrópico
Leve: dor e edema de até um segmento; sangramento discreto/ausente; coagulopatia pode estar presente.
Moderado: dor e edema envolvendo dois segmentos.
Grave: edema de três segmentos ou hemorragia grave, choque/hipotensão ou lesão renal aguda.
Crotálico
Leve: neurotoxicidade discreta, sem mialgia importante, mioglobinúria ou oligúria.