Taquicardia sinusal, TSV, taquicardia de complexo largo, adenosina e cardioversão — AHA/AAP 2025
Arthur MedVerse
·60 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
As taquiarritmias em pediatria exigem distinguir taquicardia sinusal de taquicardia supraventricular (TSV) e taquicardia de complexo largo. A decisão terapêutica é guiada principalmente por
comprometimento cardiopulmonar
, regularidade do ritmo e duração do complexo QRS.
No algoritmo da American Heart Association/American Academy of Pediatrics (AHA/AAP) 2025, comprometimento cardiopulmonar é caracterizado por alteração aguda do estado mental, sinais de choque ou hipotensão. A presença desses achados muda a prioridade de tratamento.
A taquicardia sinusal costuma apresentar ondas P normais, intervalo RR variável e frequência geralmente <220/min no lactente e <180/min na criança. Na TSV, as ondas P são ausentes ou anormais, o RR é pouco variável, o início costuma ser abrupto e a frequência geralmente é ≥220/min no lactente ou ≥180/min na criança. Esses limites são pistas, não critérios isolados.
Na TSV sem comprometimento cardiopulmonar, iniciam-se manobras vagais; com acesso intravenoso ou intraósseo (IV/IO) disponível, utiliza-se adenosina. Dose inicial: 0,1 mg/kg em bolus muito rápido, máximo 6 mg; se necessário, repetir 0,2 mg/kg, máximo 12 mg.
Na TSV com comprometimento cardiopulmonar, a cardioversão elétrica sincronizada é tratamento de escolha: 0,5–1 J/kg inicialmente e 2 J/kg se a primeira tentativa falhar. Se acesso IV/IO já estiver disponível e o ritmo for regular de complexo estreito, a adenosina pode ser administrada sem atrasar a cardioversão.
Na taquicardia de complexo largo com pulso e comprometimento cardiopulmonar, realiza-se cardioversão sincronizada. Sem comprometimento, recomenda-se consulta especializada antes de antiarrítmicos; adenosina pode ser considerada apenas quando o ritmo de complexo largo é regular e monomórfico.
A diretriz 2025 reforça que, na TSV refratária a manobras vagais, adenosina e cardioversão, quando consulta especializada não está disponível, podem ser considerados procainamida, amiodarona ou sotalol intravenosos. O uso sequencial indiscriminado de múltiplos antiarrítmicos aumenta risco pró-arrítmico.
Mensagem de prova: taquicardia sinusal → tratar a causa; TSV estável → vagal + adenosina; TSV instável → cardioversão sincronizada; complexo largo instável → cardioversão sincronizada; adenosina no complexo largo somente se regular e monomórfico.
Objetivos de aprendizagem
01
Diferenciar taquicardia sinusal, taquicardia supraventricular e taquicardia de complexo largo em pediatria.
02
Reconhecer critérios de comprometimento cardiopulmonar no algoritmo AHA/AAP 2025.
03
Interpretar frequência, regularidade, ondas P e duração do QRS no contexto clínico.
04
Aplicar manobras vagais corretamente na taquicardia supraventricular estável.
05
Prescrever adenosina com dose, via, velocidade e limites corretos.
06
Indicar e dosar cardioversão elétrica sincronizada.
07
Reconhecer quando adenosina pode ser utilizada em taquicardia de complexo largo.
08
Reconhecer riscos do tratamento farmacológico de taquicardias de complexo largo.
09
Identificar taquicardia sinusal como resposta fisiológica e tratar sua causa.
10
Evitar erros clássicos de prova e de emergência no manejo das taquiarritmias pediátricas.
Visão rápida
Definição
Ritmos com frequência cardíaca elevada para idade e contexto; incluem taquicardia sinusal, taquicardia supraventricular e taquicardias de complexo largo.
Como reconhecer
Avaliar comprometimento cardiopulmonar, ondas P, regularidade do RR, início abrupto ou gradual e QRS ≤0,09 s ou >0,09 s.
Conduta principal
TSV estável: vagal + adenosina. TSV ou taquicardia de complexo largo com comprometimento: cardioversão sincronizada 0,5–1 J/kg, depois 2 J/kg.
Pérola de prova
Adenosina em taquicardia de complexo largo só deve ser considerada se o ritmo for regular e monomórfico.
Introdução
Taquicardia é frequente em crianças e muitas vezes representa resposta fisiológica a febre, dor, ansiedade, hipovolemia ou hipóxia. O desafio é reconhecer quando a frequência elevada resulta de uma arritmia primária.
A abordagem pediátrica combina avaliação clínica de perfusão com análise simples do eletrocardiograma: frequência, regularidade, ondas P e largura do QRS. O tratamento depende mais da repercussão hemodinâmica e do mecanismo provável do que de um valor isolado de frequência.
Conceitos fundamentais
Taquicardia sinusal
Origina-se no nó sinusal e geralmente é resposta apropriada a uma condição subjacente.
Ondas P presentes e com morfologia sinusal.
Intervalos RR apresentam variabilidade.
Início e término tendem a ser graduais.
No algoritmo AHA/AAP 2025, frequência geralmente <220/min no lactente e <180/min na criança.
Tratar a causa, e não tentar converter farmacologicamente um ritmo sinusal.
Taquicardia supraventricular
Taquiarritmia originada acima dos ventrículos; mecanismos de reentrada são frequentes.
Ondas P podem estar ausentes, ocultas ou anormais.
Intervalo RR geralmente é regular.
Início e término frequentemente abruptos.
Frequência geralmente ≥220/min no lactente e ≥180/min na criança.
Pode ocorrer em coração estruturalmente normal.
Complexo estreito versus largo
QRS ≤0,09 s: complexo estreito no algoritmo pediátrico.
QRS >0,09 s: complexo largo.
Taquicardia de complexo largo pode representar taquicardia ventricular ou TSV com aberrância.
TSV com aberrância é uma causa importante de complexo largo na população pediátrica.
Etiologia e fatores de risco
Causas de taquicardia sinusal
Febre.
Dor e ansiedade.
Hipovolemia e desidratação.
Hipóxia.
Anemia.
Sepse.
Choque.
Fármacos simpaticomiméticos.
Distúrbios metabólicos e endócrinos.
Contextos associados a TSV
Vias acessórias e mecanismos de reentrada atrioventricular.
Taquicardia por reentrada nodal atrioventricular.
Taquicardias atriais ectópicas.
Taquicardia juncional.
Cardiopatias congênitas e pós-operatório cardíaco em alguns pacientes.
Contextos de maior risco em complexo largo
Cardiomiopatias.
Síndrome do QT longo.
Síndrome de Brugada.
Síndrome de Wolff-Parkinson-White.
Miocardite.
Distúrbios eletrolíticos.
Intoxicações por fármacos pró-arrítmicos ou bloqueadores de canais de sódio.
Quadro clínico
Lactentes
Irritabilidade ou letargia.
Dificuldade alimentar.
Taquipneia.
Palidez.
Sudorese.
TSV prolongada pode evoluir com insuficiência cardíaca e choque.
Crianças maiores
Palpitações.
Dor ou desconforto torácico.
Dispneia.
Tontura ou síncope.
Fraqueza.
Ansiedade.
Comprometimento cardiopulmonar — AHA/AAP 2025
Alteração aguda do estado mental.
Sinais de choque.
Hipotensão.
A presença desses achados exige tratamento urgente da taquiarritmia.
Diagnóstico
Avaliação inicial
Manter via aérea pérvia.
Auxiliar ventilação com pressão positiva e oxigênio conforme necessidade.
Conectar monitor cardiorrespiratório.
Obter acesso IV/IO.
Realizar eletrocardiograma de 12 derivações se disponível e se não atrasar tratamento urgente.
Avaliar presença de comprometimento cardiopulmonar.
Determinar se QRS é estreito ou largo.
Provável taquicardia sinusal
Ondas P presentes e normais.
RR variável.
Lactente: frequência geralmente <220/min.
Criança: frequência geralmente <180/min.
História compatível com causa fisiológica ou sistêmica.
Provável TSV
Ondas P ausentes ou anormais.
RR pouco variável.
Lactente: frequência geralmente ≥220/min.
Criança: frequência geralmente ≥180/min.
História de mudança abrupta da frequência.
Armadilha dos limites de frequência
220/min e 180/min são pistas do algoritmo, não critérios diagnósticos absolutos.
Taquicardia sinusal intensa pode ultrapassar esses valores em situações específicas.
TSV pode ocorrer abaixo desses valores.
Integrar ECG, regularidade, ondas P, início/término e contexto clínico.
Taquicardia de complexo largo
QRS >0,09 s.
Pode ser taquicardia ventricular, TSV com aberrância ou TSV antidrômica.
Ritmo irregular de complexo largo levanta preocupação para mecanismos como fibrilação atrial pré-excitada.
Não utilizar adenosina empiricamente em complexo largo irregular.
Classificações e estratificação
Sem comprometimento cardiopulmonar
Paciente sem alteração aguda do estado mental, sinais de choque ou hipotensão.
Permite abordagem diagnóstica e farmacológica mais controlada.
Complexo largo estável requer consulta especializada antes de antiarrítmicos.
Com comprometimento cardiopulmonar
Alteração aguda do estado mental, choque ou hipotensão.
TSV: cardioversão sincronizada é tratamento prioritário.
Sedação pode ser realizada quando viável, mas não deve atrasar cardioversão.
Classificação pelo QRS
Estreito: QRS ≤0,09 s.
Largo: QRS >0,09 s.
A largura do QRS orienta o algoritmo, mas não substitui avaliação clínica.
Tratamento
Taquicardia sinusal
Pesquisar e tratar a causa.
Corrigir hipóxia, hipovolemia, febre, dor, choque ou outras condições precipitantes.
Adenosina e cardioversão não são tratamento da taquicardia sinusal fisiológica.
TSV sem comprometimento cardiopulmonar
Realizar manobras vagais.
Se acesso IV/IO estiver disponível, administrar adenosina.
Se persistir após manobras vagais e adenosina, solicitar consulta especializada.
Evitar empilhar antiarrítmicos sem orientação especializada.
Manobras vagais
Lactente: estímulo facial com frio pode ser utilizado como manobra vagal.
Criança cooperativa: manobra de Valsalva pode ser tentada.
Não realizar compressão ocular.
Massagem do seio carotídeo não é uma manobra pediátrica de rotina.
TSV com comprometimento cardiopulmonar
Cardioversão elétrica sincronizada é tratamento de escolha.
Começar com 0,5–1 J/kg.
Se não converter, aumentar para 2 J/kg.
Se acesso IV/IO já estiver presente, adenosina pode ser administrada no ritmo regular de complexo estreito sem atrasar cardioversão.
Sedação é desejável quando possível, mas não deve atrasar o choque em paciente comprometido.
Taquicardia de complexo largo sem comprometimento
Consulta especializada é recomendada antes da administração de antiarrítmicos.
Se regular e monomórfica, adenosina pode ser útil em conjunto com consulta especializada.
A adenosina pode ser terapêutica em TSV com aberrância e também fornecer informação diagnóstica.
Se irregular ou polimórfica, não administrar adenosina.
Taquicardia de complexo largo com comprometimento
Realizar cardioversão elétrica sincronizada.
Começar com 0,5–1 J/kg.
Se ineficaz, aumentar para 2 J/kg.
Não atrasar terapia elétrica para tentar múltiplos medicamentos.
TSV refratária
Se refratária a manobras vagais, adenosina e cardioversão e consulta especializada não estiver disponível, AHA/AAP 2025 considera razoável considerar procainamida, amiodarona ou sotalol IV.
Esses fármacos exigem monitorização e experiência devido ao risco de hipotensão, prolongamento do QT e pró-arritmia.
Evitar associação ou administração sequencial indiscriminada de múltiplos antiarrítmicos.
Conduta na urgência e emergência
Algoritmo prático
Criança com taquicardia e pulso → ABC + monitor + IV/IO + ECG de 12 derivações se possível.
Determinar se é provável taquicardia sinusal ou taquiarritmia.
Se taquicardia sinusal → procurar e tratar causa.
Se provável taquiarritmia → avaliar comprometimento cardiopulmonar.
Sem comprometimento + QRS estreito → manobra vagal → adenosina.
Com comprometimento + QRS estreito → adenosina se IV/IO presente OU cardioversão sincronizada; não atrasar cardioversão.
Sem comprometimento + QRS largo → consulta especializada; se regular e monomórfico, considerar adenosina.
Com comprometimento + QRS largo → cardioversão sincronizada.
Após conversão → ECG de 12 derivações, investigar mecanismo/causa e discutir recorrência com cardiologia.
Se perder o pulso
Interromper o algoritmo de taquicardia com pulso.
Reconhecer parada cardiorrespiratória.
Se fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular sem pulso, seguir algoritmo de ritmo chocável.
Iniciar ressuscitação cardiopulmonar de alta qualidade e desfibrilação conforme protocolo.
Doses e prescrições
Adenosina — primeira dose
0,1 mg/kg IV/IO.
Máximo: 6 mg.
Administrar em bolus extremamente rápido.
Fazer flush salino imediatamente após o bolus.
Utilizar acesso o mais proximal possível quando viável.
Registrar tira de ritmo durante a administração quando possível.
Adenosina — segunda dose
0,2 mg/kg IV/IO.
Máximo: 12 mg.
Administrar em bolus extremamente rápido seguido imediatamente de flush.
Cardioversão elétrica sincronizada
Primeira tentativa: 0,5–1 J/kg.
Se ineficaz: 2 J/kg.
Confirmar modo sincronizado antes do choque.
Sedação se necessária e viável, sem atrasar cardioversão urgente.
Antiarrítmicos em TSV refratária
Procainamida, amiodarona ou sotalol IV podem ser considerados em cenário refratário específico conforme AHA/AAP 2025.
A escolha e a dose devem ser individualizadas com suporte especializado sempre que possível.
Não combinar procainamida e amiodarona rotineiramente devido ao risco de hipotensão e pró-arritmia.
Algoritmos e fluxogramas
TSV — memorização rápida
TSV provável.
Há alteração mental, choque ou hipotensão?
NÃO → vagal.
Persistiu → adenosina 0,1 mg/kg, máximo 6 mg.
Persistiu → adenosina 0,2 mg/kg, máximo 12 mg.
Refratária estável → consulta especializada.
SIM → cardioversão sincronizada 0,5–1 J/kg.
Não converteu → 2 J/kg.
Adenosina pode ser tentada se IV/IO já disponível e não atrasar cardioversão.
Regular + monomórfico → pode considerar adenosina.
Irregular/polimórfico → NÃO usar adenosina empiricamente.
Perdeu pulso → algoritmo de PCR.
O que mais cai
Taquicardia sinusal: P normal + RR variável + início/término gradual.
TSV: P ausente/anormal + RR regular + início abrupto.
Lactente: taquicardia sinusal geralmente <220/min; TSV geralmente ≥220/min.
Criança: taquicardia sinusal geralmente <180/min; TSV geralmente ≥180/min.
Os limites de 220 e 180/min são pistas, não critérios absolutos.
QRS estreito no algoritmo pediátrico: ≤0,09 s.
QRS largo: >0,09 s.
TSV estável: manobra vagal e adenosina.
Adenosina inicial: 0,1 mg/kg, máximo 6 mg.
Segunda adenosina: 0,2 mg/kg, máximo 12 mg.
Adenosina deve ser bolus muito rápido seguido de flush.
TSV instável: cardioversão sincronizada.
Cardioversão: 0,5–1 J/kg → 2 J/kg.
Complexo largo estável: consulta especializada.
Adenosina no complexo largo: somente se regular e monomórfico.
Complexo largo instável: cardioversão sincronizada.
Sedação não deve atrasar cardioversão urgente.
Erros comuns
Confundir taquicardia sinusal febril com TSV apenas pela frequência.
Usar 180 ou 220/min como critério diagnóstico absoluto.
Tratar taquicardia sinusal com adenosina sem procurar a causa.
Administrar adenosina lentamente.
Esquecer o flush imediatamente após adenosina.
Realizar cardioversão sem ativar sincronização em paciente com pulso.
Atrasar cardioversão do paciente com comprometimento para obter ECG completo.
Atrasar cardioversão para sedar um paciente criticamente instável.
Usar adenosina em taquicardia de complexo largo irregular ou polimórfica.
Administrar antiarrítmicos em complexo largo estável sem consulta especializada quando ela está disponível.
Empilhar procainamida, amiodarona e outros antiarrítmicos sem considerar pró-arritmia.
Continuar algoritmo de taquicardia com pulso após o paciente perder o pulso.
Para lembrar
TAQUICARDIA SINUSAL → TRATE A CAUSA.
TSV → regular + início abrupto + P ausente/anormal.
LACTENTE: TSV geralmente ≥220/min.
CRIANÇA: TSV geralmente ≥180/min.
ESTÁVEL + QRS ESTREITO → VAGAL + ADENOSINA.
ADENOSINA 1 → 0,1 mg/kg; máximo 6 mg.
ADENOSINA 2 → 0,2 mg/kg; máximo 12 mg.
ADENOSINA → BOLUS RÁPIDO + FLUSH.
INSTÁVEL → CARDIOVERSÃO SINCRONIZADA.
CARDIOVERSÃO → 0,5–1 J/kg → 2 J/kg.
QRS LARGO ESTÁVEL → ESPECIALISTA.
QRS LARGO + ADENOSINA → somente REGULAR + MONOMÓRFICO.
QRS LARGO INSTÁVEL → CARDIOVERSÃO.
SEM PULSO → ALGORITMO DE PCR.
Referências
1.
American Heart Association; American Academy of Pediatrics.
Part 8: Pediatric Advanced Life Support: 2025 American Heart Association and American Academy of Pediatrics Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care.