RCP de alta qualidade, ritmos chocáveis e não chocáveis, desfibrilação, epinefrina e cuidados pós-parada — AHA/AAP 2025
Arthur MedVerse
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Neste artigo
Resumo executivo
A parada cardiorrespiratória (PCR) em pediatria é frequentemente o estágio final de insuficiência respiratória progressiva ou choque, e não um evento cardíaco primário súbito como ocorre com maior frequência em adultos. Reconhecimento da deterioração e ressuscitação cardiopulmonar (RCP) de alta qualidade são determinantes do prognóstico.
Os ritmos iniciais dividem-se em não chocáveis — assistolia e atividade elétrica sem pulso (AESP) — e chocáveis — fibrilação ventricular (FV) e taquicardia ventricular sem pulso (TVSP). Em crianças, ritmos não chocáveis são mais frequentes.
A RCP deve manter frequência de 100–120 compressões/min, profundidade de pelo menos um terço do diâmetro anteroposterior do tórax, retorno completo e interrupções mínimas. Sem via aérea avançada: 30:2 com um socorrista e 15:2 com dois socorristas.
Na assistolia/AESP, a epinefrina deve ser administrada o mais cedo possível. A dose é 0,01 mg/kg por via intravenosa ou intraóssea, repetida a cada 3–5 minutos.
Na FV/TVSP, a prioridade é desfibrilação rápida. A AHA/AAP 2025 considera razoável dose inicial de 2–4 J/kg; para facilidade de ensino, 2 J/kg permanece uma escolha inicial prática. Doses subsequentes de 4 J/kg podem ser utilizadas, podendo aumentar sem exceder 10 J/kg ou a dose máxima adulta.
Nos ritmos chocáveis, a epinefrina pode ser administrada após duas tentativas de desfibrilação; administrá-la antes é razoável apenas quando desfibrilação rápida não é possível. Em FV/TVSP refratária, amiodarona ou lidocaína podem ser consideradas.
Bicarbonato de sódio e cálcio não são recomendados rotineiramente na PCR pediátrica. Existem indicações especiais, como toxicidade por bloqueador de canal de sódio ou hipercalemia para bicarbonato, e hipocalcemia, intoxicação por bloqueador de canal de cálcio ou hipercalemia para cálcio, conforme contexto.
Com pressão arterial invasiva durante a RCP, as diretrizes 2025 incluem como metas hemodinâmicas pressão arterial diastólica ≥25 mmHg em lactentes e ≥30 mmHg em crianças com pelo menos 1 ano.
A capnografia pode auxiliar na avaliação da qualidade da RCP e no reconhecimento do retorno da circulação espontânea (RCE), mas um valor isolado de dióxido de carbono ao final da expiração não deve ser utilizado para decidir interrupção da ressuscitação.
Mensagem de prova: AESP/assistolia = RCP + epinefrina precoce; FV/TVSP = desfibrilação prioritária; epinefrina 0,01 mg/kg IV/IO; choque inicial 2–4 J/kg; bicarbonato e cálcio não são drogas de rotina.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer a epidemiologia e fisiopatologia da PCR pediátrica.
02
Diferenciar ritmos chocáveis e não chocáveis.
03
Executar RCP pediátrica de alta qualidade.
04
Aplicar corretamente o algoritmo de assistolia/AESP.
05
Aplicar corretamente o algoritmo de FV/TV sem pulso.
06
Prescrever epinefrina durante a PCR pediátrica.
07
Aplicar doses atualizadas de desfibrilação.
08
Reconhecer o papel de amiodarona e lidocaína na FV/TV refratária.
09
Evitar uso rotineiro inadequado de bicarbonato e cálcio.
10
Reconhecer causas reversíveis e organizar cuidados após retorno da circulação espontânea.
Visão rápida
Definição
Cessação da atividade circulatória efetiva em lactente ou criança, geralmente após deterioração respiratória ou circulatória.
Como reconhecer
Inconsciência, respiração ausente/anormal e ausência de pulso definido em até 10 segundos para profissional de saúde.
Conduta principal
RCP de alta qualidade, monitor/desfibrilador, classificar ritmo, desfibrilar FV/TVSP, epinefrina precoce na AESP/assistolia e corrigir causas reversíveis.
Pérola de prova
Ritmo chocável: choque vem antes da epinefrina quando desfibrilação está imediatamente disponível.
Introdução
A PCR pediátrica possui etiologia e trajetória diferentes da PCR adulta. Hipoxemia, insuficiência respiratória e choque são precursores frequentes, tornando prevenção e reconhecimento da deterioração partes essenciais da cadeia de sobrevivência.
A atualização AHA/AAP 2025 reforça RCP de alta qualidade, epinefrina precoce em ritmos inicialmente não chocáveis e desfibrilação prioritária nos ritmos chocáveis.
Conceitos fundamentais
Ritmos da PCR
Assistolia: ausência de atividade elétrica ventricular organizada; não chocável.
AESP: atividade elétrica organizada sem pulso/perfusão efetiva; não chocável.
FV: atividade ventricular caótica sem débito cardíaco efetivo; chocável.
TV sem pulso: taquicardia ventricular sem circulação efetiva; chocável.
Qualidade da RCP
Frequência de 100–120 compressões/min.
Profundidade ≥1/3 do diâmetro anteroposterior do tórax.
Aproximadamente 4 cm no lactente e 5 cm na criança.
Permitir retorno completo do tórax.
Minimizar interrupções.
Evitar ventilação excessiva.
Ventilação
Sem via aérea avançada: 30:2 com um socorrista e 15:2 com dois socorristas.
Com via aérea avançada: compressões contínuas e 1 ventilação a cada 2–3 segundos, aproximadamente 20–30/min.
A hipóxia é causa frequente da PCR pediátrica; ventilação adequada é parte central da ressuscitação.
Etiologia e fatores de risco
Causas frequentes
Insuficiência respiratória e hipóxia.
Choque hipovolêmico, distributivo, cardiogênico ou obstrutivo.
Afogamento.
Trauma.
Sepse.
Intoxicações.
Cardiopatias congênitas ou adquiridas.
Arritmias primárias e canalopatias são menos frequentes, mas relevantes.
Causas reversíveis — Hs
Hipovolemia.
Hipóxia.
Hidrogênio — acidose.
Hipo/hipercalemia e distúrbios metabólicos relevantes.
Hipotermia.
Causas reversíveis — Ts
Pneumotórax hipertensivo.
Tamponamento cardíaco.
Toxinas.
Trombose pulmonar.
Trombose coronariana é rara em pediatria, mas pode ocorrer em contextos específicos.
Diagnóstico
Reconhecimento
Verificar responsividade.
Avaliar respiração e pulso simultaneamente por no máximo 10 segundos quando profissional de saúde.
Gasping não é respiração normal.
Se não houver pulso definitivamente palpável, iniciar compressões.
Conectar monitor/desfibrilador assim que disponível.
Monitorização durante RCP
Capnografia quantitativa pode auxiliar na avaliação da qualidade da RCP quando há via aérea avançada.
Aumento abrupto do ETCO2 pode sugerir RCE.
ETCO2 isolado não deve determinar interrupção da ressuscitação.
Quando pressão arterial invasiva já está disponível, parâmetros hemodinâmicos podem orientar qualidade das compressões.
Metas hemodinâmicas invasivas — AHA/AAP 2025
Lactente: pressão arterial diastólica ≥25 mmHg durante RCP.
Criança ≥1 ano: pressão arterial diastólica ≥30 mmHg durante RCP.
Essas metas se aplicam quando monitorização arterial invasiva já está presente.
Tratamento
Assistolia/AESP
Iniciar/manter RCP de alta qualidade.
Administrar epinefrina o mais cedo possível.
Obter acesso IV ou IO sem interromper compressões.
Repetir epinefrina a cada 3–5 minutos.
Reavaliar ritmo aproximadamente a cada 2 minutos.
Pesquisar e tratar causas reversíveis.
Se o ritmo se tornar chocável, migrar imediatamente para algoritmo de FV/TVSP.
FV/TV sem pulso
Iniciar RCP e conectar desfibrilador.
Desfibrilar imediatamente quando o ritmo chocável for reconhecido.
Retomar RCP imediatamente após cada choque.
Após aproximadamente 2 minutos, reavaliar o ritmo.
Se persistir chocável, realizar novo choque.
Após duas tentativas de desfibrilação, administrar epinefrina durante o ciclo de RCP; se desfibrilação rápida não for possível, epinefrina pode ser antecipada.
Em FV/TVSP refratária, considerar amiodarona ou lidocaína.
Continuar ciclos de RCP, desfibrilação e tratamento das causas reversíveis.
Acesso vascular
IV ou IO são preferíveis à via endotraqueal para medicamentos.
A via mais rápida e segura disponível deve ser escolhida.
IO é uma alternativa rápida e efetiva quando IV não pode ser obtido prontamente.
Não interromper compressões para obtenção de acesso.
Medicamentos não rotineiros
Bicarbonato de sódio não deve ser administrado rotineiramente na PCR.
Considerar bicarbonato em circunstâncias especiais, como intoxicação por bloqueador de canal de sódio ou hipercalemia, conforme contexto.
Cálcio não deve ser administrado rotineiramente.
Considerar cálcio em hipocalcemia, intoxicação por bloqueador de canal de cálcio ou hipercalemia, conforme situação clínica.
Conduta na urgência e emergência
Após RCE
Reavaliar imediatamente via aérea, ventilação e circulação.
Titular oxigênio para evitar hipóxia e exposição desnecessária à hiperóxia.
Monitorar pressão arterial e tratar hipotensão.
Identificar e tratar a causa da parada.
Monitorar temperatura e evitar febre.
Avaliar glicemia e eletrólitos conforme contexto.
Reconhecer convulsões e disfunção neurológica.
Considerar ecocardiografia e monitorização hemodinâmica conforme disponibilidade.
Quando considerar causas especiais
Trauma: procurar hemorragia, pneumotórax hipertensivo e tamponamento.
Afogamento: hipóxia é mecanismo central; ventilação é especialmente importante.
Intoxicação: identificar toxíndrome e antídotos/intervenções específicas.
Hipercalemia: tratar a causa metabólica além do algoritmo padrão.
Cardiopatia congênita: fisiologia específica pode modificar prioridades e exigir especialista.
Doses e prescrições
Epinefrina
0,01 mg/kg IV/IO.
Na solução 0,1 mg/mL (1:10.000): 0,1 mL/kg.
Dose máxima por administração: 1 mg.
Repetir a cada 3–5 minutos.
Em ritmo inicialmente não chocável: administrar o mais cedo possível.
Em ritmo chocável: considerar após duas tentativas de desfibrilação, salvo impossibilidade de desfibrilar rapidamente.
Desfibrilação
Primeiro choque: 2–4 J/kg; 2 J/kg é razoável para facilidade de ensino.
Choques subsequentes: 4 J/kg.
Em FV/TVSP refratária, doses maiores podem ser consideradas.
Não exceder 10 J/kg ou a dose máxima adulta.
Realizar choque único seguido imediatamente de RCP, em vez de choques empilhados rotineiramente.
Amiodarona
FV/TVSP refratária: 5 mg/kg IV/IO em bolus.
Pode ser considerada como antiarrítmico durante PCR refratária.
Não atrasar desfibrilação para administrá-la.
Lidocaína
FV/TVSP refratária: 1 mg/kg IV/IO.
Alternativa à amiodarona.
Não há indicação de administrar amiodarona e lidocaína rotineiramente em conjunto.
Algoritmos e fluxogramas
Algoritmo geral
PCR reconhecida → iniciar RCP de alta qualidade + oxigenação/ventilação + monitor/desfibrilador.
Analisar ritmo.
ASSISTOLIA/AESP → não chocar.
RCP por aproximadamente 2 min + epinefrina o mais cedo possível + IV/IO + Hs/Ts.
Reavaliar ritmo.
FV/TVSP → desfibrilar 2–4 J/kg.
Retomar RCP imediatamente por aproximadamente 2 min.
Persistiu FV/TVSP → desfibrilar 4 J/kg.
RCP + epinefrina após duas tentativas de choque.
Persistiu FV/TVSP → novo choque, podendo aumentar energia dentro dos limites.
RCP + amiodarona OU lidocaína + causas reversíveis.
Continuar ciclos até RCE ou decisão apropriada de encerramento.
Checklist da RCP
100–120 compressões/min.
Profundidade ≥1/3 do tórax.
Retorno completo.
Interrupções mínimas.
Ventilação suficiente sem hiperventilar.
30:2 com 1 socorrista.
15:2 com 2 socorristas.
Via aérea avançada → 20–30 ventilações/min com compressões contínuas.
Trocar compressor aproximadamente a cada 2 minutos quando possível.
O que mais cai
PCR pediátrica é frequentemente secundária à insuficiência respiratória ou choque.
Assistolia e AESP são não chocáveis.
FV e TV sem pulso são chocáveis.
RCP: 100–120/min e profundidade ≥1/3 do tórax.
Assistolia/AESP → epinefrina o mais cedo possível.
Epinefrina: 0,01 mg/kg IV/IO a cada 3–5 min.
Solução 0,1 mg/mL → 0,1 mL/kg.
FV/TVSP → desfibrilação rápida é prioridade.
Primeiro choque AHA/AAP 2025: 2–4 J/kg; 2 J/kg facilita o ensino.
Choques subsequentes: 4 J/kg, podendo aumentar até 10 J/kg ou máximo adulto.
Em ritmo chocável, epinefrina pode ser dada após duas tentativas de desfibrilação.
FV/TVSP refratária → amiodarona ou lidocaína.
Amiodarona: 5 mg/kg.
Lidocaína: 1 mg/kg.
Bicarbonato não é rotina.
Cálcio não é rotina.
Com pressão invasiva: PAD ≥25 mmHg no lactente e ≥30 mmHg na criança ≥1 ano.
ETCO2 não deve ser usado isoladamente para encerrar RCP.
Erros comuns
Desfibrilar assistolia ou AESP.
Atrasar epinefrina em ritmo não chocável.
Dar epinefrina antes do choque quando desfibrilação imediata está disponível em FV/TVSP.
Confundir epinefrina 0,01 mg/kg com 0,1 mg/kg.
Confundir solução 1 mg/mL com solução 0,1 mg/mL.
Empilhar choques sem RCP entre eles.
Não retomar compressões imediatamente após desfibrilação.
Interromper RCP por tempo excessivo para intubação ou acesso vascular.
Usar bicarbonato rotineiramente em toda PCR.
Usar cálcio rotineiramente em toda PCR.
Hiperventilar após via aérea avançada.
Usar ETCO2 isoladamente como critério para interromper ressuscitação.
Esquecer de pesquisar e tratar causas reversíveis.
Encerrar o raciocínio no RCE e negligenciar cuidados pós-parada.
Para lembrar
PCR PEDIÁTRICA → frequentemente HIPÓXIA/CHOQUE.
AESP/ASSISTOLIA → NÃO CHOCA.
FV/TVSP → CHOCA.
EPI → 0,01 mg/kg IV/IO.
EPI 0,1 mg/mL → 0,1 mL/kg.
NÃO CHOCÁVEL → EPI CEDO.
CHOCÁVEL → CHOQUE PRIMEIRO.
CHOQUE 1 → 2–4 J/kg.
CHOQUE SEGUINTE → 4 J/kg.
MÁXIMO → 10 J/kg ou máximo adulto.
REFRATÁRIA → AMIODARONA 5 mg/kg OU LIDOCAÍNA 1 mg/kg.
American Heart Association; American Academy of Pediatrics.
Part 8: Pediatric Advanced Life Support: 2025 American Heart Association and American Academy of Pediatrics Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care.
American Heart Association; American Academy of Pediatrics.
Part 6: Pediatric Basic Life Support: 2025 American Heart Association and American Academy of Pediatrics Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care.