Cuidados Pré-operatórios: Classificação da Cirurgia e Antibiótico — MedVerse · MedVerse
Resumo HARD · Atualizado em 02 de set. de 2026
Cuidados Pré-operatórios: Classificação da Cirurgia e Antibiótico
Classificação da ferida operatória e princípios da profilaxia antimicrobiana cirúrgica
Arthur MedVerse
·42 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
A avaliação pré-operatória deve integrar o grau de contaminação da cirurgia, o risco de infecção do sítio cirúrgico (ISC), a necessidade de profilaxia antimicrobiana e características individuais do paciente. A classificação clássica da ferida operatória divide os procedimentos em limpos, potencialmente contaminados, contaminados e infectados/sujos.
Cirurgia limpa é realizada em tecido não infectado, sem inflamação e sem entrada nos tratos respiratório, gastrointestinal, genital ou urinário. Em muitos procedimentos limpos sem implante, profilaxia antimicrobiana não é necessária; porém, é indicada em determinadas operações nas quais uma ISC teria consequências importantes ou quando há implantação de prótese/material.
Cirurgia potencialmente contaminada corresponde à entrada controlada nos tratos respiratório, gastrointestinal, genital ou urinário, sem contaminação incomum. Nesses procedimentos, a profilaxia é frequentemente indicada e deve cobrir a microbiota esperada do sítio operado.
Cirurgia contaminada inclui feridas traumáticas recentes e abertas, quebra importante de técnica asséptica, extravasamento gastrointestinal significativo ou inflamação aguda não purulenta. Já a cirurgia infectada/suja envolve infecção clínica estabelecida, pus, víscera perfurada ou tecido desvitalizado/ferida traumática antiga com contaminação retida. Nesses casos, antimicrobianos deixam de ser mera profilaxia e passam a integrar tratamento.
A profilaxia antimicrobiana deve produzir concentração tecidual adequada no momento da incisão. Para a maioria dos antimicrobianos, a administração ocorre nos 60 minutos anteriores à incisão. Vancomicina e fluoroquinolonas exigem infusão mais prolongada e devem ser iniciadas até 120 minutos antes.
Cefazolina é o antimicrobiano profilático padrão em grande número de procedimentos por atividade contra cocos Gram-positivos da pele, segurança e perfil farmacocinético. Quando há necessidade de cobertura para anaeróbios e bacilos Gram-negativos entéricos, o esquema deve ser adaptado ao procedimento.
A dose deve ser adequada ao peso. Cefazolina é usualmente administrada na dose de 2 g intravenosos em adultos e 3 g em pacientes com peso ≥120 kg. Redose intraoperatória é necessária quando a duração do procedimento excede aproximadamente duas meias-vidas do fármaco ou ocorre perda sanguínea importante.
Profilaxia não deve ser prolongada apenas porque há dreno. Na maioria das cirurgias, doses após o fechamento da incisão não trazem benefício e aumentam pressão seletiva, eventos adversos e risco de Clostridioides difficile.
Alergia relatada à penicilina deve ser caracterizada. Muitos pacientes rotulados como alérgicos podem receber cefazolina com segurança quando não há história compatível com reação grave específica a cefalosporinas ou síndrome cutânea grave; protocolos institucionais devem orientar a decisão.
Mensagem de prova: profilaxia cirúrgica é antibiótico certo + dose certa + momento certo + redose quando necessária + suspensão precoce. Ferida infectada não recebe 'profilaxia': recebe tratamento antimicrobiano associado ao controle do foco.
Objetivos de aprendizagem
01
Classificar procedimentos em limpos, potencialmente contaminados, contaminados e infectados/sujos.
02
Relacionar classe de contaminação ao risco de ISC.
03
Diferenciar profilaxia antimicrobiana de tratamento de infecção estabelecida.
04
Definir quando a profilaxia antimicrobiana está indicada.
05
Escolher cobertura conforme microbiota do sítio cirúrgico.
06
Aplicar corretamente o momento de administração pré-incisão.
07
Conhecer doses profiláticas usuais de cefazolina e alternativas pertinentes.
08
Reconhecer indicações de redose intraoperatória.
09
Evitar prolongamento desnecessário da profilaxia.
10
Interpretar adequadamente história de alergia a betalactâmicos.
Visão rápida
Definição
A classe da ferida reflete o grau de contaminação bacteriana esperado e auxilia na prevenção de ISC.
Como reconhecer
Limpa → sem entrada em tratos colonizados; potencialmente contaminada → entrada controlada; contaminada → contaminação importante; infectada/suja → infecção já presente.
Conduta principal
Quando indicada, administrar profilaxia antes da incisão, com dose adequada e redose conforme duração/perda sanguínea.
Pérola de prova
Cefazolina: 2 g IV; 3 g IV se peso ≥120 kg. Administrar geralmente até 60 min antes da incisão.
Introdução
A prevenção de ISC começa antes da incisão. A escolha do antimicrobiano depende do procedimento, da flora provável e do perfil epidemiológico, e não de uma tentativa de cobrir indiscriminadamente todos os microrganismos.
O objetivo da profilaxia é reduzir o inóculo bacteriano no período de maior risco de contaminação, sem transformar uma exposição curta em tratamento antimicrobiano prolongado.
A classificação da ferida é uma linguagem padronizada para estimar contaminação e contextualizar o risco infeccioso.
Conceitos fundamentais
Profilaxia versus tratamento
Profilaxia: antimicrobiano administrado para prevenir infecção em procedimento sem infecção estabelecida.
Tratamento: antimicrobiano administrado diante de infecção existente ou contaminação que configura processo infeccioso terapêutico.
Em cirurgia suja/infectada, a duração depende da infecção e do controle de foco, não das regras de profilaxia.
Objetivos da profilaxia
Concentração sérica e tecidual adequada no momento da incisão.
Cobertura dos patógenos mais prováveis para aquele procedimento.
Menor espectro eficaz possível.
Menor duração eficaz possível.
Infecção do sítio cirúrgico
Pode ser incisional superficial, incisional profunda ou órgão/espaço.
Risco depende de contaminação, técnica, duração, fatores do hospedeiro e características do procedimento.
Etiologia e fatores de risco
Fatores do paciente
Diabetes mellitus e hiperglicemia.
Tabagismo.
Obesidade.
Desnutrição.
Imunossupressão.
Colonização por microrganismos específicos em procedimentos selecionados.
Infecção ativa em outro sítio.
Fatores operatórios
Maior grau de contaminação.
Duração prolongada.
Implante de prótese ou material estranho.
Trauma tecidual e perfusão inadequada.
Hematoma e espaço morto.
Falha de técnica asséptica.
Profilaxia inadequada em escolha, dose ou tempo.
Diagnóstico
Avaliação pré-operatória
Definir o procedimento e a classe de contaminação esperada.
Identificar se existe infecção ativa.
Avaliar necessidade de implante/prótese.
Pesquisar alergias antimicrobianas e caracterizar reação.
Avaliar peso e função renal quando relevantes.
Considerar colonização por Staphylococcus aureus resistente à meticilina quando o protocolo do procedimento indicar.
Definir antimicrobiano, dose, horário e necessidade provável de redose.
Perguntas antes da profilaxia
Há indicação real de antibiótico?
Qual flora deve ser coberta?
Qual é o peso do paciente?
Quando será feita a incisão?
Quanto tempo deve durar a cirurgia?
Há perda sanguínea importante prevista?
Existe alergia verdadeira que mude o esquema?
Classificações e estratificação
Classe I — limpa
Ferida não infectada.
Ausência de inflamação.
Não há entrada nos tratos respiratório, gastrointestinal, genital ou urinário.
Fechamento primário em condições assépticas.
Exemplos típicos: herniorrafia sem entrada em víscera, tireoidectomia e algumas cirurgias mamárias.
Classe II — potencialmente contaminada
Entrada controlada em trato respiratório, gastrointestinal, genital ou urinário.
Sem contaminação incomum ou quebra importante de técnica.