Exantema vesicular, transmissão, complicações, antivirais e vacinação
Arthur MedVerse
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Neste artigo
Resumo executivo
A varicela, popularmente chamada catapora, é a infecção primária causada pelo vírus varicela-zóster (VVZ), um herpesvírus humano. Após a infecção primária, o vírus permanece latente nos gânglios sensitivos e pode reativar anos depois como herpes-zóster.
A doença é altamente contagiosa e se transmite por aerossóis, secreções respiratórias e contato direto com o conteúdo das vesículas. O período de incubação varia de 10 a 21 dias, com média de 14–16 dias. A transmissão começa 1–2 dias antes do aparecimento do exantema e persiste até que todas as lesões estejam em crosta.
A manifestação clássica é um exantema vesicular pruriginoso em surtos sucessivos, de modo que diferentes estágios de evolução coexistem ao mesmo tempo: máculas, pápulas, vesículas, pústulas e crostas. Essa característica de
polimorfismo regional
é uma das principais pistas diagnósticas.
Em crianças imunocompetentes, a doença costuma ser leve e autolimitada. Adolescentes, adultos, gestantes, imunodeprimidos e determinados recém-nascidos apresentam maior risco de complicações, especialmente pneumonia, doença disseminada e comprometimento neurológico.
As complicações bacterianas de pele e partes moles, frequentemente por Streptococcus pyogenes ou Staphylococcus aureus, são importantes em crianças. Pneumonia por varicela é particularmente relevante em adultos e gestantes. Encefalite, cerebelite e hepatite são complicações menos frequentes, porém potencialmente graves.
O diagnóstico é geralmente clínico em apresentações típicas. Quando confirmação laboratorial é necessária, a reação em cadeia da polimerase (PCR) de material de lesão é o método mais sensível e específico. Sorologia pode ter utilidade em situações selecionadas para comprovação de imunidade.
O tratamento da varicela não complicada na criança saudável é principalmente sintomático. Ácido acetilsalicílico é contraindicado pelo risco de síndrome de Reye. Antiviral é reservado para pessoas com maior risco de evolução moderada/grave ou doença complicada; quando indicado por via oral, o benefício é maior se iniciado nas primeiras 24 horas do exantema.
No Calendário Nacional de Vacinação 2026, a vacinação infantil inclui 1ª dose aos 15 meses e 2ª dose aos 4 anos. A vacina é de vírus vivos atenuados e é contraindicada na gestação e em imunossupressão grave.
Para prova: vesículas em vários estágios + distribuição centrípeta + prurido = varicela; transmissão começa antes do exantema e termina quando todas as lesões estão em crosta; AAS é proibido; adulto/gestante/imunodeprimido = maior risco.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer a apresentação clínica típica da varicela.
02
Entender a relação entre infecção primária por VVZ e herpes-zóster.
03
Conhecer o período de incubação e transmissibilidade.
04
Identificar o polimorfismo das lesões como pista diagnóstica.
05
Reconhecer os grupos de maior risco para doença grave.
06
Identificar as principais complicações bacterianas, pulmonares e neurológicas.
07
Compreender quando o diagnóstico laboratorial é necessário.
08
Definir o tratamento sintomático e as indicações gerais de antiviral.
09
Conhecer contraindicações importantes, especialmente ácido acetilsalicílico.
10
Aplicar o esquema vacinal brasileiro atual contra varicela.
Visão rápida
Definição
Infecção primária pelo vírus varicela-zóster, caracterizada por exantema vesicular pruriginoso em surtos.
Como reconhecer
Lesões simultaneamente em diferentes estágios evolutivos, predominando em tronco e face.
Conduta principal
Caso típico e leve → suporte + isolamento até crostas; maior risco ou doença grave → considerar antiviral e avaliação hospitalar.
Pérola de prova
Varicela apresenta polimorfismo lesional: mácula, pápula, vesícula, pústula e crosta coexistem no mesmo momento.
Introdução
A varicela é uma doença exantemática clássica da infância, mas sua gravidade aumenta com a idade e em grupos vulneráveis. A vacinação modificou significativamente sua epidemiologia, reduzindo internações e complicações.
A infecção primária produz varicela; a reativação do mesmo vírus latente nos gânglios sensitivos produz herpes-zóster. Essa distinção é frequente em questões de prova.
Conceitos fundamentais
Agente etiológico
Vírus varicela-zóster, pertencente à família Herpesviridae.
Após a infecção primária, estabelece latência em gânglios sensitivos.
Reativação posterior causa herpes-zóster.
Transmissão
Por aerossóis e secreções respiratórias.
Por contato direto com líquido das vesículas.
Herpes-zóster também pode transmitir VVZ para pessoa suscetível, que desenvolverá varicela e não herpes-zóster.
A transmissibilidade entre contatos domiciliares suscetíveis é muito elevada.
Período de incubação
10–21 dias após a exposição.
Média aproximada de 14–16 dias.
Período de transmissibilidade
Começa 1–2 dias antes do exantema.
Persiste até que todas as lesões estejam em crosta.
Em varicela pós-vacinal com lesões que não formam crosta, considerar transmissível até que não surjam novas lesões por 24 horas.
Etiologia e fatores de risco
Maior risco de doença grave
Adolescentes e adultos.
Gestantes sem evidência de imunidade.
Imunodeprimidos.
Recém-nascidos de mães com varicela próxima ao parto.
Prematuros expostos, conforme idade gestacional e imunidade materna.
Pessoas com doença cutânea ou pulmonar crônica podem apresentar maior risco de doença moderada/grave.
Varicela neonatal
Recém-nascido apresenta risco particularmente elevado quando a mãe desenvolve exantema entre 5 dias antes e 2 dias após o parto.
Nesse contexto, a transferência passiva de anticorpos maternos é insuficiente e pode ocorrer doença grave.
Gestação
Varicela materna pode causar pneumonia grave.
Infecção no primeiro ou início do segundo trimestre está associada a pequeno risco de síndrome da varicela congênita.
A vacina contra varicela é contraindicada durante a gestação.
Quadro clínico
Pródromo
Em crianças, pode ser discreto ou ausente.
Em adolescentes e adultos, febre, mal-estar, cefaleia e anorexia podem preceder o exantema por 1–2 dias.
Exantema clássico
Pruriginoso.
Surge em surtos sucessivos.
Predomínio inicial em tronco, face e couro cabeludo, com menor densidade em extremidades — distribuição centrípeta.
Pode acometer mucosas.
Cada lesão evolui de mácula para pápula, vesícula, pústula e crosta.
Polimorfismo lesional
Lesões em diferentes estágios coexistem numa mesma região do corpo.
É uma das características mais úteis para diferenciar varicela de algumas outras doenças vesiculares.
Varicela pós-vacinal
Pode ocorrer em pessoa previamente vacinada.
Em geral apresenta menos lesões, febre mais baixa e doença mais branda.
Lesões podem ser predominantemente maculopapulares e não formar crostas típicas.
Apesar de mais branda, permanece transmissível.
Complicações cutâneas
Infecção bacteriana secundária de pele e partes moles.
Celulite, impetigo, abscessos e infecção invasiva por estreptococo do grupo A podem ocorrer.
Dor intensa, eritema progressivo ou deterioração sistêmica sugerem complicação bacteriana.
Complicações sistêmicas
Pneumonia por varicela, especialmente em adultos e gestantes.
Cerebelite aguda e ataxia.
Encefalite.
Hepatite.
Trombocitopenia.
Doença disseminada em imunodeprimidos.
Diagnóstico
Diagnóstico clínico
Em contexto epidemiológico compatível e exantema típico, o diagnóstico costuma ser clínico.
Polimorfismo das lesões e aparecimento em surtos favorecem varicela.
História vacinal e exposição a varicela ou herpes-zóster devem ser pesquisadas.
PCR
PCR de material de vesícula, crosta ou base de lesão é o método laboratorial preferencial quando confirmação é necessária.
É especialmente útil em apresentações atípicas, surtos, imunodeprimidos ou varicela pós-vacinal.
Sorologia
Imunoglobulina G pode ser utilizada para avaliar evidência de imunidade em situações selecionadas.
Imunoglobulina M apresenta limitações de sensibilidade e especificidade e não é o método preferencial para confirmar casos agudos quando PCR está disponível.
Diagnósticos diferenciais
Doença mão-pé-boca.
Impetigo bolhoso.
Herpes simples disseminado.
Herpes-zóster disseminado.
Erupção variceliforme de Kaposi.
Picadas de insetos e outras dermatoses vesiculares.
Medidas para reduzir prurido incluem banho, higiene suave, unhas curtas e anti-histamínico quando clinicamente indicado.
Evitar coçar para reduzir risco de infecção bacteriana secundária.
Ácido acetilsalicílico
É contraindicado em crianças e adolescentes com varicela pelo risco de síndrome de Reye.
Essa associação é uma pegadinha clássica de prova.
Anti-inflamatórios não esteroides
Há preocupação com associação entre alguns anti-inflamatórios não esteroides e complicações cutâneas graves em varicela.
Quando possível, preferir opções analgésicas/antitérmicas mais seguras e evitar automedicação.
Quando considerar antiviral oral
Pessoas saudáveis com mais de 12 anos.
Pessoas com doença cutânea ou pulmonar crônica.
Uso prolongado de salicilatos.
Pessoas que utilizam determinadas formas de corticosteroide.
Outros grupos de maior risco definidos pela avaliação clínica.
Quando indicado, iniciar preferencialmente nas primeiras 24 horas do exantema.
Quando usar aciclovir intravenoso
Doença grave ou disseminada.
Pneumonia por varicela.
Encefalite.
Hepatite grave ou trombocitopenia relevante.
Varicela em imunodeprimidos com risco elevado de disseminação.
Infecção bacteriana secundária
Antibiótico não é indicado para varicela viral isolada.
Prescrever antibiótico quando houver evidência de infecção bacteriana secundária, direcionando para os agentes prováveis e gravidade.
Conduta na urgência e emergência
Indicações de avaliação hospitalar
Dificuldade respiratória ou hipoxemia.
Alteração neurológica, ataxia importante ou convulsões.
Instabilidade hemodinâmica.
Doença disseminada.
Infecção cutânea extensa, dor desproporcional ou suspeita de infecção invasiva.
Imunodepressão relevante.
Gestante com sinais de doença moderada/grave.
Recém-nascido de alto risco exposto ou sintomático.
Isolamento hospitalar
Precauções para transmissão aérea e contato.
Manter até todas as lesões estarem em crosta.
Pacientes imunodeprimidos podem necessitar período maior conforme evolução.
Exposição de pessoa de alto risco
Determinar se há evidência de imunidade.
Se não houver imunidade e a vacina for contraindicada, considerar imunoglobulina específica contra varicela-zóster conforme disponibilidade e protocolo.
Imunoglobulina deve ser administrada o mais rapidamente possível após a exposição; protocolos internacionais permitem uso até 10 dias após exposição.
Doses e prescrições
Aciclovir oral — quando o antiviral estiver indicado
Crianças a partir de 2 anos: 20 mg/kg/dose por via oral, 4 vezes ao dia, por 5 dias; máximo de 800 mg por dose.
Crianças acima de 40 kg e adultos: 800 mg por via oral, 4 vezes ao dia, por 5 dias.
O maior benefício ocorre quando iniciado precocemente, idealmente nas primeiras 24 horas do exantema.
Não é recomendado rotineiramente para toda criança saudável com varicela típica.
Aciclovir 10 mg/kg/dose por via intravenosa a cada 8 horas é um esquema de referência para doença grave em adolescentes/adultos e imunodeprimidos, com duração individualizada conforme resposta e quadro clínico.
Em pediatria e imunodepressão, protocolos podem utilizar dose por peso ou superfície corporal; ajustar à idade, função renal e diretriz específica.
Hidratação e monitorização de função renal são importantes durante terapia intravenosa.
Vacinação infantil — Brasil 2026
15 meses: 1ª dose da vacina varicela.
4 anos: 2ª dose da vacina varicela.
Na indisponibilidade da varicela monovalente, a vacina tetraviral pode ser utilizada conforme orientação do Ministério da Saúde.
Grupos especiais no calendário brasileiro
Trabalhadores da saúde e povos indígenas sem história de doença ou com dúvida podem ter indicação de 2 doses conforme histórico vacinal.
A vacina é de vírus vivos atenuados e é contraindicada na gestação e em imunossupressão grave.
Algoritmos e fluxogramas
Suspeita de varicela
Exantema vesicular pruriginoso em surtos + lesões em vários estágios → pensar em varicela.
Confirmar história de exposição e situação vacinal.
Identificar fatores de risco para doença grave.
Se típico e baixo risco → diagnóstico clínico + tratamento sintomático.
Se atípico, imunodeprimido, surto ou necessidade epidemiológica → coletar PCR de lesão.
Se doença grave ou grupo de alto risco → avaliar antiviral e necessidade de internação.
Manter isolamento até todas as lesões estarem em crosta.
Contato exposto
Verificar evidência de imunidade.
Se suscetível e elegível para vacina → realizar vacinação pós-exposição conforme protocolo.
Se suscetível e vacina contraindicada + alto risco de doença grave → avaliar imunoglobulina específica.
Monitorar aparecimento de sintomas durante o período de incubação.
O que mais cai
Varicela é a infecção primária pelo vírus varicela-zóster.
Herpes-zóster é reativação do vírus latente.
Incubação: 10–21 dias.
Transmissibilidade começa 1–2 dias antes do exantema.
Transmissão persiste até todas as lesões estarem em crosta.
Exantema é vesicular, pruriginoso e surge em surtos.
Polimorfismo lesional é característica clássica.
Distribuição costuma ser centrípeta, com maior acometimento de tronco e face.
Complicação bacteriana de pele/partes moles é comum em crianças.
Pneumonia é importante em adultos e gestantes.
Gestantes, adultos, imunodeprimidos e determinados recém-nascidos têm maior risco de doença grave.
Varicela materna de 5 dias antes a 2 dias após o parto aumenta risco de varicela neonatal grave.
PCR de lesão é o melhor teste confirmatório quando necessário.
AAS é contraindicado por risco de síndrome de Reye.
Aciclovir não é rotina para toda criança saudável.
Antiviral oral, quando indicado, funciona melhor se iniciado nas primeiras 24 horas.
Doença grave/imunodeprimido → lembrar aciclovir IV.
Vacina infantil no Brasil: 15 meses e 4 anos.
Erros comuns
Confundir varicela com herpes-zóster; a primeira é infecção primária e o segundo é reativação.
Esperar que todas as lesões estejam no mesmo estágio.
Confundir distribuição centrípeta com padrão craniocaudal do sarampo.
Considerar criança contagiosa apenas depois do surgimento das vesículas.
Liberar retorno escolar antes de todas as lesões estarem em crosta.
Prescrever ácido acetilsalicílico em criança com varicela.
Prescrever antibiótico de rotina sem infecção bacteriana.
Prescrever aciclovir para toda criança saudável com quadro típico.
Esquecer que adultos e gestantes têm maior risco de pneumonia.
Vacinar gestante contra varicela.
Esquecer imunoglobulina específica em contato suscetível de alto risco que não pode receber vacina.
Usar IgM isolada como melhor exame confirmatório quando PCR de lesão está disponível.
Para lembrar
VARICELA = infecção PRIMÁRIA pelo VVZ.
ZÓSTER = REATIVAÇÃO.
INCUBAÇÃO = 10–21 DIAS.
TRANSMITE = 1–2 dias ANTES do exantema até CROSTAS.
EXANTEMA = VESÍCULAS PRURIGINOSAS EM SURTOS.
POLIMORFISMO = várias fases ao mesmo tempo.
CENTRÍPETA = mais tronco/face.
CRIANÇA saudável → geralmente SUPORTE.
AAS = NÃO.
ADULTO/GESTANTE → maior risco de PNEUMONIA.
IMUNODEPRIMIDO → maior risco de disseminação.
PCR DA LESÃO = melhor confirmação.
ACICLOVIR oral → só quando indicado e quanto mais cedo melhor.