Enterovírus, lesões orais e acras, complicações, diagnóstico e manejo
Arthur MedVerse
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Neste artigo
Resumo executivo
A doença mão-pé-boca é uma síndrome viral aguda, altamente contagiosa, causada por enterovírus, principalmente o Coxsackievirus A16
, embora o Coxsackievirus A6 e o enterovírus A71 também sejam causas importantes. Ocorre predominantemente em crianças menores de 5 anos, mas pode acometer pessoas de qualquer idade.
A apresentação típica combina febre, lesões dolorosas na cavidade oral e exantema vesicular ou papulovesicular em mãos e pés. As lesões orais costumam envolver língua, gengivas e mucosa jugal; as lesões cutâneas aparecem principalmente em palmas e plantas, podendo também comprometer nádegas, pernas, braços e região perioral.
O período de incubação é geralmente curto, em torno de 3–6 dias. A transmissão ocorre por gotículas e secreções respiratórias, contato direto com saliva e conteúdo das vesículas, superfícies contaminadas e via fecal-oral. O vírus pode continuar sendo eliminado nas fezes por semanas após a melhora clínica.
A maioria dos casos é autolimitada e melhora espontaneamente em 7–10 dias. A principal complicação prática é a desidratação, porque as úlceras orais podem tornar a ingestão de líquidos dolorosa.
O diagnóstico é geralmente clínico. Exames laboratoriais não são necessários na apresentação típica. Reação em cadeia da polimerase (PCR) pode ser utilizada em doença grave, apresentação atípica, surtos ou investigação epidemiológica.
O tratamento é de suporte: hidratação, analgesia/antitérmico conforme necessidade e alimentação fria ou pastosa quando houver odinofagia importante. Antibióticos não têm indicação na doença viral não complicada.
Embora complicações graves sejam raras, o enterovírus A71 possui associação mais importante com encefalite e outras manifestações neurológicas graves. Coxsackievirus A6 pode produzir doença cutânea mais extensa e, posteriormente, descamação ou onicomadese.
Não há vacina contra doença mão-pé-boca incorporada ao Calendário Nacional de Vacinação (CNV) brasileiro de 2026. A prevenção baseia-se em higiene das mãos, limpeza de superfícies, não compartilhamento de utensílios e redução do contato com secreções de pessoas sintomáticas.
Mensagem de prova: febre + úlceras orais + vesículas em mãos e pés = doença mão-pé-boca; a complicação mais comum na prática é desidratação; EV-A71 lembra complicação neurológica.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer os principais enterovírus associados à doença mão-pé-boca.
02
Identificar a apresentação típica de lesões orais e cutâneas.
03
Conhecer as principais vias de transmissão.
04
Reconhecer a desidratação como complicação prática frequente.
05
Identificar sinais de alarme para doença neurológica ou cardiopulmonar grave.
06
Diferenciar doença mão-pé-boca de varicela, herpes e outras doenças vesiculares.
07
Definir quando o diagnóstico pode ser exclusivamente clínico.
08
Reconhecer quando exames moleculares podem ser úteis.
09
Estabelecer tratamento de suporte adequado.
10
Orientar medidas de prevenção e controle em creches e domicílios.
Visão rápida
Definição
Infecção aguda por enterovírus caracterizada por febre, lesões orais e exantema em mãos e pés.
Como reconhecer
Úlceras/vesículas dolorosas na boca + lesões papulovesiculares em palmas e plantas, especialmente em criança pequena.
Conduta principal
Tratamento de suporte, foco em hidratação e analgesia; investigar sinais neurológicos, desidratação ou doença grave.
Pérola de prova
Enterovírus A71 associa-se mais a complicações neurológicas graves; Coxsackievirus A6 pode causar exantema mais extenso e onicomadese.
Introdução
A doença mão-pé-boca é uma das síndromes exantemáticas mais comuns em crianças pequenas e produz surtos frequentes em creches, escolas e domicílios.
O nome descreve sua distribuição mais característica, mas as lesões não ficam obrigatoriamente restritas a mãos, pés e boca. Variantes, especialmente associadas ao Coxsackievirus A6, podem apresentar acometimento cutâneo mais disseminado.
Conceitos fundamentais
Agentes etiológicos
Coxsackievirus A16 é uma das causas clássicas e mais frequentes.
Coxsackievirus A6 pode produzir doença mais extensa ou mais intensa.
Enterovírus A71 está associado a surtos e, embora complicações graves sejam incomuns, apresenta maior associação com encefalite e outras formas neurológicas graves.
Todos pertencem ao grupo dos enterovírus não poliovírus.
Incubação e evolução
Incubação geralmente de 3–6 dias.
Pródromo febril e sintomas de garganta podem preceder as lesões.
A maioria dos pacientes melhora espontaneamente em 7–10 dias.
Transmissão
Gotículas e secreções respiratórias.
Contato direto com saliva e secreções das lesões.
Contato com fezes, especialmente durante troca de fraldas.
Objetos e superfícies contaminados.
A eliminação fecal do vírus pode persistir por semanas mesmo após melhora clínica.
Etiologia e fatores de risco
Fatores de exposição
Idade pré-escolar.
Frequência a creches e ambientes coletivos.
Contato domiciliar próximo com pessoa infectada.
Higiene inadequada das mãos após troca de fraldas ou uso do banheiro.
Compartilhamento de copos, talheres, brinquedos ou objetos contaminados.
Maior risco de complicações
Lactentes e crianças pequenas com baixa ingestão por dor oral.
Pacientes com sinais neurológicos.
Imunodeprimidos e pacientes com condições clínicas relevantes devem ser avaliados individualmente.
Infecção por enterovírus A71 merece atenção especial quando há sintomas neurológicos.
Quadro clínico
Pródromo
Febre, geralmente baixa a moderada.
Mal-estar.
Dor de garganta.
Redução do apetite.
Irritabilidade em lactentes e crianças pequenas.
Lesões orais
Vesículas que rapidamente podem romper e formar úlceras dolorosas.
Acometem língua, gengivas, mucosa jugal e outras regiões da cavidade oral.
A dor pode reduzir importante ingestão de líquidos e alimentos.
Lesões cutâneas
Máculas, pápulas ou vesículas.
Distribuição característica em palmas das mãos e plantas dos pés.
Podem envolver dorso das mãos/pés, nádegas, pernas, braços e região perioral.
Em muitos pacientes as lesões não são intensamente pruriginosas.
Coxsackievirus A6 — apresentação atípica
Pode produzir maior extensão cutânea.
Lesões podem comprometer face, tronco e extremidades além das áreas clássicas.
Descamação tardia pode ocorrer.
Onicomadese — desprendimento temporário da unha — pode surgir semanas após a infecção e geralmente é autolimitada.
Complicações
Desidratação por recusa hídrica secundária à dor oral.
Meningite asséptica, rara.
Encefalite, particularmente associada ao enterovírus A71.
Paralisia flácida aguda e disfunção autonômica são manifestações neurológicas raras e graves.
Comprometimento cardiopulmonar grave é incomum, mas descrito em formas graves por enterovírus.
Diagnóstico
Diagnóstico clínico
Na apresentação típica, o diagnóstico é clínico.
A combinação de úlceras orais e lesões em mãos/pés é altamente sugestiva.
História de casos semelhantes em creche, escola ou família reforça a hipótese.
Quando exames podem ser úteis
Doença grave ou com sinais neurológicos.
Apresentação atípica importante.
Investigação de surto.
Necessidade de caracterização epidemiológica do enterovírus.
Diagnóstico molecular
PCR pode detectar enterovírus em amostras clínicas apropriadas.
A escolha da amostra depende do contexto e do protocolo laboratorial.
A identificação do subtipo viral não é necessária para o manejo da maioria dos casos leves.
Diagnósticos diferenciais
Varicela: lesões em diferentes estágios, distribuição mais centrípeta e vesículas disseminadas.
Herpangina: úlceras predominantemente posteriores na orofaringe, geralmente sem exantema típico em mãos e pés.
Herpes simples: vesículas/úlceras agrupadas e gengivoestomatite em algumas apresentações.
Impetigo bolhoso.
Eczema herpético.
Mpox em contexto epidemiológico compatível.
Eritema multiforme e outras reações cutâneas.
Classificações e estratificação
Doença não complicada
Bom estado geral.
Ingestão oral preservada ou apenas discretamente reduzida.
Sem sinais neurológicos ou cardiopulmonares.
Pode ser manejada ambulatorialmente.
Sinais de alerta
Incapacidade de ingerir líquidos.
Redução importante da diurese.
Sonolência excessiva, irritabilidade intensa ou alteração do nível de consciência.
Mioclonias, tremores, convulsões ou fraqueza.
Taquicardia persistente, dispneia ou sinais de má perfusão.
Febre prolongada ou deterioração clínica.
Tratamento
Tratamento de suporte
Oferecer líquidos em pequenos volumes e com frequência.
Preferir alimentos frios, macios e pouco ácidos quando houver dor oral importante.
Analgésicos e antitérmicos podem ser utilizados conforme idade e necessidade.
Manter higiene da cavidade oral e da pele.
O que não fazer
Não prescrever antibiótico para doença viral não complicada.
Não existe antiviral específico de rotina.
Evitar anestésicos tópicos orais potencialmente tóxicos em crianças pequenas sem indicação e orientação apropriada.
Não romper deliberadamente as vesículas.
Desidratação
Leve e com aceitação oral possível → reidratação oral fracionada.
Incapacidade de ingerir líquidos, vômitos persistentes ou sinais de desidratação moderada/grave → avaliação em serviço de urgência.
Reposição intravenosa pode ser necessária quando a via oral não é viável.
Doença grave
Sinais neurológicos ou cardiopulmonares exigem internação e monitorização.
O tratamento é principalmente de suporte intensivo e dirigido às complicações.
Não há antiviral específico comprovado de rotina para doença mão-pé-boca.
Conduta na urgência e emergência
Criança com lesões típicas + recusa hídrica
Avaliar estado geral, perfusão, mucosas, frequência cardíaca e diurese.
Determinar capacidade de ingerir líquidos.
Oferecer analgesia e tentativa de hidratação oral fracionada.
Se houver melhora e aceitação → manejo ambulatorial com orientação de retorno.
Se houver desidratação relevante ou incapacidade de hidratar → terapia de reidratação apropriada e considerar internação.
Sinais neurológicos
Avaliar via aérea, respiração, circulação e nível de consciência.
Pesquisar convulsões, mioclonias, tremores, fraqueza e sinais meníngeos.
Internar e monitorar pacientes com suspeita de complicação neurológica.
Investigar etiologia e complicações conforme protocolos de encefalite/meningite.
Considerar discussão com infectologia e neurologia pediátrica.
Critérios práticos de retorno imediato
Não consegue beber líquidos.
Diurese muito reduzida.
Sonolência ou prostração intensa.
Convulsão ou movimentos anormais.
Dificuldade respiratória.
Piora progressiva ou febre persistente.
Algoritmos e fluxogramas
Raciocínio rápido
Febre + dor oral em criança pequena.
Examinar boca: vesículas/úlceras.
Examinar palmas e plantas: pápulas/vesículas.
Padrão típico + bom estado geral → diagnóstico clínico.
Avaliar hidratação.
Sem sinais de alarme → suporte domiciliar.
Desidratação ou sinais neurológicos/cardiopulmonares → avaliação hospitalar.
Diferencial visual
MÃO-PÉ-BOCA → boca + palmas + plantas.
VARICELA → polimorfismo lesional e distribuição centrípeta.