Roséola infantil, febre alta, defervescência e convulsão febril
Arthur MedVerse
·40 min de leitura·Básico
Neste artigo
Resumo executivo
O exantema súbito, também chamado roséola infantil ou sexta doença, é uma infecção viral aguda da primeira infância causada principalmente pelo
herpesvírus humano tipo 6B (HHV-6B)
e, menos frequentemente, pelo herpesvírus humano tipo 7 (HHV-7). A apresentação clássica ocorre sobretudo entre 6 meses e 2 anos de idade.
A sequência clínica é extremamente característica: febre alta de início abrupto por aproximadamente 3–5 dias, seguida de defervescência rápida e aparecimento do exantema. A criança frequentemente mantém estado geral relativamente preservado apesar da temperatura elevada.
O exantema é róseo, macular ou maculopapular, geralmente não pruriginoso, começa predominantemente no tronco e pode se disseminar para pescoço e extremidades. Costuma desaparecer espontaneamente em horas a poucos dias.
A principal complicação da infecção primária em crianças pequenas é a convulsão febril, relacionada à febre alta e à rápida elevação da temperatura. Encefalite, hepatite e outras manifestações graves são raras em imunocompetentes.
O diagnóstico da roséola típica é clínico. Exames laboratoriais e testes específicos para HHV-6 não são necessários na maioria dos casos. O desafio prático está na fase febril inicial, quando ainda não existe exantema e é necessário excluir outras causas de febre sem foco conforme idade, estado geral e sinais de alarme.
O tratamento da doença não complicada é exclusivamente de suporte: hidratação, conforto e antitérmico quando necessário. Antibióticos e antivirais não são indicados na roséola típica do imunocompetente.
Mensagem de prova: FEBRE ALTA → DEFERVESCÊNCIA → EXANTEMA. Essa ordem diferencia o exantema súbito de várias outras doenças exantemáticas. A criança melhora da febre e então aparece a erupção cutânea.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer a sequência clínica clássica do exantema súbito.
02
Identificar HHV-6B como principal agente etiológico e HHV-7 como causa menos frequente.
03
Reconhecer a faixa etária típica da doença.
04
Distinguir a fase febril da fase exantemática.
05
Caracterizar distribuição e evolução do exantema.
06
Reconhecer convulsão febril como principal complicação associada.
07
Definir quando o diagnóstico pode ser exclusivamente clínico.
08
Identificar sinais de alarme que exigem investigação de outras causas de febre.
09
Diferenciar exantema súbito de sarampo, rubéola e eritema infeccioso.
10
Definir o tratamento de suporte adequado.
Visão rápida
Definição
Infecção viral aguda da primeira infância causada principalmente pelo HHV-6B, caracterizada por febre alta seguida de exantema após a defervescência.
Como reconhecer
Lactente com febre alta por 3–5 dias, estado geral relativamente preservado e exantema róseo no tronco quando a febre desaparece.
Conduta principal
Avaliar sinais de alarme durante a fase febril; quadro típico e criança bem → tratamento de suporte.
Pérola de prova
Exantema súbito = a febre some e então o exantema aparece.
Introdução
O exantema súbito é uma das doenças exantemáticas clássicas da infância e representa manifestação bem estabelecida da infecção primária pelo HHV-6B. A infecção ocorre precocemente na vida, quando diminuem os anticorpos maternos.
Sua importância em provas decorre menos da gravidade habitual e mais da sequência temporal extremamente característica entre febre e exantema, além da associação com convulsão febril.
Na prática, a fase mais desafiadora é anterior ao exantema: uma criança pequena pode apresentar febre muito alta sem foco evidente. O diagnóstico retrospectivo torna-se claro quando a temperatura cai e surge a erupção típica.
Conceitos fundamentais
Agentes etiológicos
HHV-6B é o agente clássico e principal.
HHV-7 pode causar quadro semelhante, porém com menor frequência.
HHV-6A não é o agente típico da roséola infantil.
Após a infecção primária, os herpesvírus estabelecem latência no organismo.
Faixa etária
Ocorre predominantemente em lactentes e crianças pequenas.
É particularmente comum entre 6 meses e 2 anos.
A maioria das infecções primárias pelo HHV-6 ocorre nos primeiros anos de vida.
Incubação
O período de incubação é geralmente de aproximadamente 5–15 dias.
A apresentação começa abruptamente com febre.
Transmissão
A transmissão é associada principalmente ao contato com secreções salivares.
Adultos e outras pessoas com infecção latente podem apresentar eliminação assintomática do vírus pela saliva.
A prevenção específica por vacina não está disponível.
Infecção primária versus reativação
Roséola é manifestação da infecção primária, tipicamente na infância.
Reativação do HHV-6 possui maior relevância em imunodeprimidos, especialmente receptores de transplante.
Doença por reativação em imunodeprimidos é cenário distinto da roséola infantil clássica.
Etiologia e fatores de risco
Agente principal
HHV-6B é responsável pela grande maioria dos quadros clássicos.
HHV-7 é causa menos frequente.
Fatores associados à apresentação típica
Idade entre aproximadamente 6 meses e 2 anos.
Ausência de imunidade prévia à infecção primária.
Contato próximo com indivíduos que eliminam o vírus pela saliva.
Risco de doença grave
Imunossupressão importante.
Transplante de células-tronco hematopoéticas ou de órgãos sólidos.
Reativação viral nesses pacientes pode produzir encefalite e outras manifestações sistêmicas graves.
Quadro clínico
Fase 1 — febril
Início abrupto.
Febre geralmente alta, frequentemente 39,5–40,5 °C.
Duração típica de aproximadamente 3–5 dias.
Pode não haver foco clínico evidente.
Apesar da febre alta, muitas crianças permanecem alertas, ativas e com estado geral surpreendentemente preservado.
Irritabilidade, sintomas respiratórios leves e linfadenopatia cervical ou retroauricular podem ocorrer.
Convulsão febril
Pode ocorrer durante a fase de febre alta.
É a complicação mais característica e frequente da roséola.
Estudos descrevem convulsão febril em aproximadamente 10–15% das crianças com roséola.
O episódio deve ser classificado e manejado conforme os princípios gerais de convulsão febril; não se deve atribuir automaticamente toda convulsão com febre à roséola.
Fase 2 — defervescência
A febre desaparece de forma rápida, geralmente por volta do terceiro ao quinto dia.
O estado geral tende a melhorar.
O aparecimento do exantema coincide tipicamente com a queda da febre.
Fase 3 — exantema
Máculas ou pequenas pápulas róseas.
Lesões geralmente desaparecem à digitopressão.
Predomínio inicial no tronco, especialmente tórax e abdome.
Pode disseminar-se para pescoço e extremidades e, menos intensamente, para a face.
Geralmente não é pruriginoso nem doloroso.
Pode desaparecer em poucas horas ou persistir por até aproximadamente 2 dias.
Nem toda infecção por HHV-6 apresenta o exantema clássico.
Achados menos frequentes
Manchas de Nagayama: pequenas lesões eritematosas em palato mole e úvula, descritas na roséola.
Encefalite é rara, mas possível.
Hepatite é rara.
Doença multissistêmica grave é excepcional em criança imunocompetente.
Diagnóstico
Diagnóstico típico
É essencialmente clínico.
A sequência temporal é o dado mais importante.
Febre alta sem foco por alguns dias → defervescência → exantema troncular sugere fortemente exantema súbito.
Não há indicação de investigação virológica rotineira na criança imunocompetente com quadro típico.
Durante a fase febril
Antes do aparecimento do exantema, o quadro pode ser indistinguível de outras causas de febre sem foco.
A avaliação deve considerar idade, vacinação, duração da febre, estado geral e sinais de localização.
Infecção do trato urinário, bacteremia, meningite e outras infecções relevantes devem ser consideradas conforme o contexto clínico.
A hipótese futura de roséola nunca deve justificar ignorar sinais de toxicidade ou gravidade.
Testes específicos
Sorologia e métodos moleculares existem, mas raramente são necessários na roséola típica.
A reação em cadeia da polimerase (PCR) possui maior utilidade em investigação de doença grave ou reativação em imunodeprimidos.
A detecção de HHV-6 deve ser interpretada cuidadosamente porque o vírus estabelece latência e pode estar integrado ao genoma humano em alguns indivíduos.
Diagnósticos diferenciais
Sarampo.
Rubéola.
Eritema infeccioso.
Escarlatina.
Enteroviroses.
Exantema medicamentoso.
Doença de Kawasaki na criança com febre persistente e sinais compatíveis.
Infecções bacterianas invasivas durante a fase febril, conforme idade e apresentação.
Diferença temporal de alto rendimento
Exantema súbito: exantema surge tipicamente após a defervescência.
Sarampo: febre permanece elevada e pode se intensificar no período de surgimento do exantema.
Eritema infeccioso: pródromo costuma ser leve e o padrão clássico é face esbofeteada seguida de exantema rendilhado.
Rubéola: febre geralmente baixa e linfadenopatia retroauricular/suboccipital é característica.
Tratamento
Doença não complicada
Tratamento de suporte.
Manter hidratação adequada.
Roupas leves e medidas de conforto.
Antitérmico pode ser utilizado para desconforto associado à febre.
Não há tratamento específico para o exantema.
O exantema desaparece espontaneamente.
O que não fazer
Não utilizar antibiótico para tratar roséola não complicada.
Não indicar antiviral de rotina em criança imunocompetente.
Não utilizar corticosteroide para tratar o exantema típico.
Não utilizar anticonvulsivante profilático apenas pelo diagnóstico de roséola.
Doença grave ou imunossupressão
Reativação grave de HHV-6, especialmente encefalite em transplantados, é situação diferente da roséola infantil habitual.
Ganciclovir e foscarnet são utilizados em determinados cenários de doença grave por HHV-6 em imunodeprimidos.
Esses antivirais não fazem parte do tratamento rotineiro do exantema súbito em criança saudável.
Conduta na urgência e emergência
Lactente com febre alta sem foco
Avaliar via aérea, respiração, circulação, perfusão e nível de consciência.
Confirmar idade, duração e curva da febre.
Pesquisar sinais de toxicidade, meningismo, dificuldade respiratória, desidratação, petéquias/púrpura e outros sinais de alarme.
Pesquisar foco infeccioso e definir necessidade de exames conforme idade e apresentação clínica.
Se criança estável e sem sinais de alarme, realizar tratamento sintomático e orientar retorno.
Se ocorrer defervescência seguida de exantema troncular típico, o diagnóstico de exantema súbito torna-se provável.
Convulsão associada à febre
Durante crise ativa, proteger a criança contra trauma e avaliar via aérea, respiração e circulação.
Não conter movimentos à força e não introduzir objetos na boca.
Crise prolongada deve ser tratada conforme protocolo de estado de mal epiléptico pediátrico.
Após a crise, avaliar se o episódio preenche critérios de convulsão febril simples ou complexa.
Pesquisar sinais de infecção do sistema nervoso central quando clinicamente indicados.
Roséola pode ser a causa da febre, mas não deve ser presumida antes da avaliação adequada.
Algoritmos e fluxogramas
Algoritmo clássico de prova
Criança entre 6 meses e 2 anos.
Febre alta abrupta por 3–5 dias.
Poucos ou nenhum sinal localizatório e estado geral relativamente preservado.
Febre desaparece rapidamente.
Surge exantema róseo maculopapular predominantemente no tronco.
Diagnóstico provável: exantema súbito.
Febre + exantema: raciocínio rápido
Febre desaparece e então aparece exantema → exantema súbito.
Face esbofeteada + padrão rendilhado → eritema infeccioso.
Febre alta + tosse + coriza + conjuntivite + manchas de Koplik → sarampo.