Clínica clássica, diagnóstico, vigilância, tratamento e vacinação
Arthur MedVerse
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Neste artigo
Resumo executivo
O sarampo é uma doença viral aguda, febril, exantemática e extremamente contagiosa, causada pelo vírus do sarampo, pertencente ao gênero Morbillivirus. A transmissão é respiratória e pode ocorrer mesmo após a pessoa infectada deixar o ambiente, pois partículas virais podem permanecer viáveis no ar por até cerca de 2 horas.
A apresentação clássica inicia-se com febre alta, tosse, coriza e conjuntivite. As manchas de Koplik — pequenos pontos esbranquiçados na mucosa jugal, geralmente sobre base eritematosa — surgem antes ou no início do exantema e são altamente sugestivas. O exantema é maculopapular, morbiliforme, geralmente começa na face/região retroauricular e progride em sentido craniocaudal.
O período de incubação é tipicamente de 7 a 21 dias até o início do exantema. Segundo a atualização do Ministério da Saúde de 2025, o período de transmissibilidade considerado para vigilância começa 6 dias antes e vai até 4 dias após o início do exantema.
O diagnóstico clínico deve ser confirmado laboratorialmente sempre que possível. A investigação inclui sorologia com imunoglobulina M (IgM) e imunoglobulina G (IgG), além de reação em cadeia da polimerase com transcriptase reversa (RT-PCR) em amostras respiratórias e, em determinados protocolos, urina.
No Brasil, todo caso suspeito deve ser notificado imediatamente, em até 24 horas, e investigado pela vigilância em até 48 horas. O bloqueio vacinal seletivo dos contatos deve ser iniciado em até 72 horas após a identificação do caso suspeito ou confirmado.
Não existe tratamento antiviral específico de rotina. O manejo é de suporte e dirigido às complicações. A Organização Mundial da Saúde recomenda vitamina A para crianças com sarampo agudo; em crianças menores de 5 anos, a recomendação atual é administrar duas doses, no diagnóstico e no dia seguinte, conforme a idade.
A prevenção é feita com vacina tríplice viral. No Calendário Nacional de Vacinação 2026, o esquema básico infantil inclui duas doses aos 12 e 15 meses. Pessoas de 12 meses a 29 anos sem esquema completo devem completar 2 doses; entre 30 e 59 anos, 1 dose é recomendada quando não há comprovação vacinal adequada; trabalhadores da saúde necessitam 2 doses independentemente da idade, conforme histórico.
Reconhecer a apresentação clínica típica do sarampo.
02
Identificar manchas de Koplik e o padrão de progressão do exantema.
03
Conhecer o período de incubação e transmissibilidade.
04
Definir a abordagem diagnóstica laboratorial.
05
Reconhecer as principais complicações do sarampo.
06
Aplicar a conduta de isolamento e notificação imediata no Brasil.
07
Conhecer a estratégia de bloqueio vacinal dos contatos.
08
Prescrever corretamente vitamina A em crianças quando indicada.
09
Conhecer o esquema atual de vacinação contra sarampo no Brasil.
10
Diferenciar sarampo das principais doenças febris exantemáticas.
Visão rápida
Definição
Doença viral febril exantemática extremamente contagiosa, causada por Morbillivirus.
Como reconhecer
Febre alta + tosse + coriza + conjuntivite + manchas de Koplik + exantema maculopapular craniocaudal.
Conduta principal
Isolamento respiratório imediato, notificação em até 24 h, coleta laboratorial e acionamento da vigilância para rastreamento e bloqueio vacinal.
Pérola de prova
O exantema costuma começar em face/região retroauricular e descer para tronco e extremidades; manchas de Koplik precedem ou acompanham seu início.
Introdução
O sarampo é uma das doenças infecciosas mais transmissíveis conhecidas. A vacinação reduziu drasticamente sua incidência, mas surtos reaparecem quando há acúmulo de pessoas suscetíveis ou importação de casos.
O Brasil recuperou em 2024 a certificação de eliminação da circulação endêmica do vírus do sarampo, mas continua sob risco de casos importados e cadeias secundárias, razão pela qual a vigilância exige resposta imediata a todo caso suspeito.
Em 2026, o Ministério da Saúde reforçou medidas de vacinação em áreas com transmissão ativa, demonstrando a importância de manter alta cobertura vacinal e resposta rápida à suspeita clínica.
Conceitos fundamentais
Agente etiológico
Vírus do sarampo, gênero Morbillivirus, família Paramyxoviridae.
Possui genoma de ácido ribonucleico de fita simples.
Existe um único sorotipo, o que favorece proteção duradoura após vacinação ou infecção.
Transmissão
Ocorre principalmente por aerossóis e secreções respiratórias.
O vírus pode permanecer viável no ar ou em superfícies por até aproximadamente 2 horas.
A transmissibilidade é muito alta entre pessoas suscetíveis.
Fisiopatologia resumida
O vírus entra pelo trato respiratório e infecta células locais e do sistema imune.
Segue-se viremia com disseminação sistêmica.
O exantema é fortemente relacionado à resposta imune celular contra células infectadas.
A infecção produz imunossupressão transitória e pode aumentar suscetibilidade a infecções secundárias.
Etiologia e fatores de risco
Fatores de risco para adoecimento
Ausência de vacinação ou esquema vacinal incompleto.
Contato próximo com caso suspeito ou confirmado.
Viagem ou permanência em área com circulação do vírus.
Ambientes com baixa cobertura vacinal.
Maior risco de complicações
Crianças menores de 5 anos, especialmente lactentes.
Adultos jovens e idosos podem apresentar doença mais grave que crianças maiores.
Gestantes.
Pessoas imunodeprimidas.
Desnutrição e deficiência de vitamina A.
Quadro clínico
Pródromo
Febre alta.
Tosse.
Coriza.
Conjuntivite não purulenta.
Mal-estar, anorexia e sintomas respiratórios podem acompanhar o quadro.
Manchas de Koplik
Pequenos pontos esbranquiçados ou azul-esbranquiçados na mucosa jugal, geralmente opostos aos molares.
Apresentam halo eritematoso.
Costumam surgir 1–2 dias antes do exantema e podem persistir por curto período após seu início.
São altamente sugestivas de sarampo quando presentes.
Exantema
Maculopapular, eritematoso e morbiliforme.
Começa tipicamente na face, linha de implantação dos cabelos e região retroauricular.
Progride em sentido craniocaudal para tronco e extremidades.
Pode tornar-se confluente em áreas do corpo.
A febre frequentemente permanece elevada no início do exantema.
Evolução
Após alguns dias, o exantema desaparece na mesma direção em que surgiu.
Pode ocorrer descamação fina residual.
Persistência de febre após os primeiros dias do exantema deve levantar suspeita de complicação, especialmente infecção bacteriana secundária.
Complicações
Otite média.
Diarreia e desidratação.
Pneumonia viral ou bacteriana secundária.
Laringotraqueobronquite.
Encefalite aguda.
Ceratoconjuntivite e complicações oculares, especialmente na deficiência de vitamina A.
Panencefalite esclerosante subaguda, complicação neurológica tardia rara e grave.
Diagnóstico
Suspeita clínica
Febre associada a exantema maculopapular e sintomas respiratórios deve levantar suspeita, especialmente quando há tosse, coriza ou conjuntivite.
Manchas de Koplik reforçam fortemente a hipótese.
História de viagem, contato com caso e situação vacinal são dados essenciais.
Sorologia
Amostra de sangue deve ser coletada preferencialmente no primeiro atendimento.
Segundo a Nota Técnica nº 345/2025 do Ministério da Saúde, o soro para IgM/IgG pode ser coletado entre o 1º e o 30º dia após o início do exantema.
IgM reagente exige interpretação no contexto clínico, epidemiológico e laboratorial.
Resultados devem seguir o fluxo da Rede Nacional de Laboratórios de Saúde Pública.
Diagnóstico molecular
RT-PCR em swab combinado de nasofaringe/orofaringe é importante para confirmação e caracterização viral.
A coleta respiratória é preferencialmente realizada entre o 1º e o 7º dia do exantema e pode ser realizada até o 14º dia segundo orientação ministerial de 2025.
Urina pode ser utilizada para diagnóstico molecular e caracterização viral em protocolos de vigilância; a coleta é preferencialmente até o 7º dia e no máximo até o 10º dia após o início do exantema.
Diagnósticos diferenciais
Rubéola.
Eritema infeccioso.
Exantema súbito.
Escarlatina.
Dengue e outras arboviroses.
Mononucleose infecciosa.
Doença mão-pé-boca.
Reações medicamentosas.
Tratamento
Tratamento de suporte
Não existe antiviral específico de rotina para sarampo não complicado.
Manter hidratação adequada.
Antitérmicos e analgesia podem ser utilizados conforme necessidade.
Tratar desidratação e distúrbios hidroeletrolíticos quando presentes.
Monitorar sinais de pneumonia, otite, encefalite e outras complicações.
Antibióticos
Não são indicados para o sarampo viral isoladamente.
Devem ser utilizados quando houver suspeita ou confirmação de complicação bacteriana, como pneumonia ou otite média bacteriana.
Vitamina A
A Organização Mundial da Saúde recomenda vitamina A para crianças com sarampo agudo.
Em crianças menores de 5 anos, administrar duas doses em dias consecutivos, conforme a faixa etária.
A vitamina A não substitui vacinação e não é medida preventiva para pessoas saudáveis expostas.
Critérios práticos para internação
Hipoxemia ou dificuldade respiratória.
Pneumonia grave.
Desidratação importante ou incapacidade de ingerir líquidos.
Alteração neurológica ou suspeita de encefalite.
Complicações graves.
Imunossupressão importante ou condição clínica de alto risco, conforme avaliação individual.
Conduta na urgência e emergência
Diante de caso suspeito em serviço de saúde
Colocar máscara no paciente se tolerada e afastá-lo imediatamente da sala de espera comum.
Instituir precaução para transmissão aérea; preferir ambiente de isolamento adequado quando disponível.
Profissionais devem utilizar respirador apropriado, como PFF2/N95, conforme protocolos de controle de infecção.
Notificar imediatamente a vigilância epidemiológica, em até 24 horas.
Coletar amostras laboratoriais no primeiro atendimento sempre que possível.
Orientar isolamento durante o período de transmissibilidade.
Acionar a vigilância para rastreamento de contatos e bloqueio vacinal.
Período de isolamento
Para fins de vigilância brasileira atual, considerar transmissibilidade de 6 dias antes até 4 dias após o início do exantema.
O paciente deve permanecer isolado durante o período em que ainda pode transmitir a doença.
Em imunodeprimidos, o período de eliminação viral pode ser mais prolongado e deve ser individualizado.
Bloqueio vacinal
Deve ser iniciado em até 72 horas após a identificação do caso suspeito ou confirmado.
É seletivo: avaliar situação vacinal e vacinar suscetíveis conforme o Calendário Nacional de Vacinação e orientações da vigilância.
Após 72 horas, a vacinação ainda é importante como intensificação vacinal para reduzir suscetíveis, embora não seja mais classificada como bloqueio oportuno.
Doses e prescrições
Vitamina A no sarampo — crianças
Menores de 6 meses: 50.000 unidades internacionais por via oral, 1 vez ao dia por 2 dias.
6 a 11 meses: 100.000 unidades internacionais por via oral, 1 vez ao dia por 2 dias.
12 meses ou mais: 200.000 unidades internacionais por via oral, 1 vez ao dia por 2 dias.
Em sinais clínicos de deficiência de vitamina A com complicações oculares, pode ser indicada dose adicional posteriormente conforme protocolo especializado.
Vacina tríplice viral — Calendário Nacional 2026
Crianças: 1ª dose aos 12 meses.
2ª dose aos 15 meses.
Pessoas de 12 meses a 29 anos sem comprovação de esquema completo: iniciar ou completar 2 doses, usualmente com intervalo de 30 dias.
Pessoas de 30 a 59 anos sem comprovação adequada: 1 dose.
Trabalhadores da saúde: 2 doses, independentemente da idade, conforme situação vacinal, com intervalo mínimo de 30 dias.
A vacina é de vírus vivos atenuados e possui contraindicações específicas, especialmente em gestação e imunossupressão grave.
Dose zero em situações epidemiológicas especiais
Crianças entre 6 e 11 meses podem receber dose antecipada quando recomendada pelas autoridades de saúde em cenários de risco ou surto.
Essa dose é denominada dose zero e não substitui as doses de rotina aos 12 e 15 meses.