Abordagem sindrômica, diagnóstico diferencial e tratamento das principais etiologias
Arthur MedVerse
·41 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
Úlcera genital é uma síndrome clínica caracterizada por perda da integridade do epitélio ou mucosa genital, anal ou perianal. Entre as principais causas sexualmente transmissíveis estão sífilis, herpes genital, cancroide, linfogranuloma venéreo e donovanose
.
O primeiro passo é reconhecer o padrão clínico sem depender exclusivamente dele. Coinfecções, apresentações atípicas e uso prévio de antimicrobianos reduzem a acurácia do diagnóstico apenas pela morfologia. Sempre que disponíveis, testes etiológicos devem complementar a avaliação.
Sífilis primária produz classicamente cancro duro: úlcera geralmente única, indolor, de base limpa e endurecida. Herpes genital costuma iniciar com vesículas agrupadas que evoluem para erosões ou úlceras dolorosas, podendo haver ardor, prurido e recorrências.
Cancroide, causado por Haemophilus ducreyi, tipicamente provoca úlceras dolorosas, múltiplas, de fundo sujo ou purulento e bordas irregulares, associadas a linfadenopatia inguinal dolorosa que pode supurar.
No linfogranuloma venéreo, causado por Chlamydia trachomatis sorovariantes L1, L2 e L3, a lesão inicial costuma ser pequena, transitória e frequentemente despercebida; posteriormente surgem linfadenopatia inguinal/femoral dolorosa ou proctite/proctocolite, especialmente após exposição anal.
A donovanose, causada por Klebsiella granulomatis, caracteriza-se por úlcera crônica, progressiva, geralmente indolor, de aspecto vermelho-vivo e friável, que sangra facilmente. Linfadenopatia regional verdadeira é incomum.
A abordagem sindrômica continua relevante quando testes etiológicos não estão disponíveis ou quando há risco de perda de seguimento. O tratamento deve contemplar os diagnósticos mais prováveis, com atenção especial à sífilis e ao herpes genital.
Além das infecções sexualmente transmissíveis, úlceras podem decorrer de trauma, erupção fixa por drogas, doença de Behçet, doenças bolhosas, líquen erosivo e neoplasias. Lesão persistente, atípica ou sem resposta ao tratamento exige reconsideração diagnóstica e, frequentemente, biópsia.
Reconhecer a síndrome de úlcera genital e suas principais etiologias infecciosas.
02
Diferenciar os padrões clássicos de sífilis, herpes genital, cancroide, linfogranuloma venéreo e donovanose.
03
Reconhecer as limitações do diagnóstico exclusivamente morfológico.
04
Selecionar exames etiológicos quando disponíveis.
05
Aplicar abordagem sindrômica quando houver necessidade clínica.
06
Prescrever os esquemas terapêuticos principais do protocolo brasileiro.
07
Reconhecer proctite/proctocolite por linfogranuloma venéreo.
08
Manejar bubão inguinal associado ao cancroide.
09
Identificar causas não sexualmente transmissíveis e sinais de alerta para neoplasia.
10
Orientar investigação de outras infecções sexualmente transmissíveis e manejo das parcerias.
Visão rápida
Definição
Síndrome ulcerativa anogenital causada principalmente por sífilis, herpes, cancroide, linfogranuloma venéreo e donovanose.
Como reconhecer
Dor, número de lesões, bordas, fundo, vesículas, adenopatia e evolução ajudam no diferencial, mas não substituem testes quando disponíveis.
Conduta principal
Investigar etiologia e outras IST; tratar precocemente conforme diagnóstico ou abordagem sindrômica quando necessária.
Pérola de prova
Sífilis = geralmente indolor; herpes = doloroso e vesicular; cancroide = doloroso + bubão; LGV = lesão inicial fugaz + adenopatia/proctite; donovanose = indolor e friável.
Introdução
As úlceras anogenitais são uma das principais síndromes clínicas das infecções sexualmente transmissíveis. Podem apresentar-se como erosões, úlceras francas ou lesões precedidas por vesículas e pústulas.
A presença de ulceração aumenta a vulnerabilidade à aquisição e transmissão do vírus da imunodeficiência humana (HIV), tornando a testagem e a prevenção combinada componentes importantes da consulta.
Para provas brasileiras, é essencial dominar a associação entre morfologia, dor, linfadenopatia, agente etiológico e tratamento de primeira escolha.
Conceitos fundamentais
Sífilis primária
Agente: Treponema pallidum.
Cancro duro: geralmente único, indolor, de base limpa e bordas endurecidas.
Adenopatia regional pode ocorrer e costuma ser não supurativa.
A lesão desaparece espontaneamente mesmo sem tratamento; isso não representa cura.
Herpes genital
Agentes: vírus herpes simples tipos 1 e 2 (HSV-1 e HSV-2).
Vesículas agrupadas sobre base eritematosa evoluem para erosões e úlceras dolorosas.
Pródromos com ardor, prurido ou parestesias podem preceder recorrências.
A infecção permanece latente e pode reativar.
Cancroide ou cancro mole
Agente: Haemophilus ducreyi.
Úlcera geralmente dolorosa, de bordas irregulares e fundo purulento/necrótico.
Lesões múltiplas podem ocorrer por autoinoculação.
Bubão inguinal doloroso, geralmente unilateral, pode flutuar e supurar.
Linfogranuloma venéreo
Agente: Chlamydia trachomatis sorovariantes L1, L2 e L3.
A lesão de inoculação pode ser pequena, indolor e desaparecer sem ser percebida.
Fase secundária clássica: linfadenopatia inguinal/femoral dolorosa, frequentemente unilateral.
Exposição retal pode produzir proctite ou proctocolite com dor anorretal, secreção, sangramento, tenesmo e constipação.
Donovanose
Agente: Klebsiella granulomatis.
Doença crônica e progressiva.
Úlcera geralmente indolor, vermelho-vivo, granulosa e friável.
Sangramento ao contato é característico.
Linfadenopatia regional verdadeira é incomum.
Etiologia e fatores de risco
Principais agentes sexualmente transmissíveis
Treponema pallidum — sífilis.
Vírus herpes simples tipos 1 e 2 — herpes genital.
Haemophilus ducreyi — cancroide.
Chlamydia trachomatis L1, L2 e L3 — linfogranuloma venéreo.
Klebsiella granulomatis — donovanose.
Causas não sexualmente transmissíveis
Trauma.
Erupção fixa por drogas.
Doença de Behçet.
Eritema multiforme.
Doenças bolhosas autoimunes.
Líquen plano erosivo e outras dermatoses inflamatórias.
Neoplasias, especialmente diante de lesão persistente, infiltrada ou atípica.
Fatores que alteram apresentação
Imunossupressão.
Coinfecção por mais de um agente.
Uso prévio de antimicrobianos.
Trauma local.
Tempo de evolução da lesão.
Quadro clínico
Sífilis
Úlcera primária classicamente indolor.
Base limpa.
Endurecimento característico.
Adenopatia regional não supurativa.
Pode haver apresentações atípicas; ausência do padrão clássico não exclui sífilis.
Herpes genital
Vesículas dolorosas que se rompem e formam erosões/úlceras.
Lesões múltiplas são comuns.
Primeiro episódio pode cursar com febre, mal-estar e adenopatia.
Disúria intensa pode ocorrer quando lesões acometem vulva ou meato uretral.
Recorrências tendem a ser mais localizadas e menos intensas.
Cancroide
Úlcera dolorosa.
Bordas irregulares e socavadas.
Fundo com exsudato purulento e aspecto sujo.
Pode sangrar à manipulação.
Adenopatia inguinal dolorosa com supuração é característica.
Linfogranuloma venéreo
Lesão inicial transitória e frequentemente despercebida.