Gonorreia, clamídia, diagnóstico molecular, tratamento e manejo das parcerias
Arthur MedVerse
·38 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
Cervicites e uretrites são síndromes inflamatórias do trato genital inferior frequentemente relacionadas a infecções sexualmente transmissíveis. Neisseria gonorrhoeae
e
Chlamydia trachomatis
são os agentes prioritários por frequência, transmissibilidade e risco de complicações, embora outras etiologias, como Mycoplasma genitalium e Trichomonas vaginalis, possam participar de quadros persistentes ou específicos.
A uretrite manifesta-se principalmente por corrimento uretral, disúria e prurido/meatalgia. Na cervicite, muitas pessoas são assintomáticas; quando presentes, podem ocorrer corrimento endocervical mucopurulento, sangramento pós-coito/intermenstrual e friabilidade cervical.
O diagnóstico etiológico ideal utiliza testes de amplificação de ácido nucleico para gonococo e clamídia, com amostra do sítio exposto. Entretanto, em pessoas sintomáticas, especialmente quando o retorno é incerto ou há risco de complicações, o tratamento sindrômico não deve ser atrasado aguardando o resultado.
No Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas brasileiro para Infecções Sexualmente Transmissíveis, o esquema clássico para infecção não complicada por gonococo em cérvice, uretra ou reto é ceftriaxona 500 mg por via intramuscular em dose única associada a azitromicina 1 g por via oral em dose única. Para clamídia, azitromicina 1 g por via oral em dose única ou doxiciclina 100 mg por via oral a cada 12 horas por 7 dias são opções, observando contraindicações e situações especiais como gestação.
Diretrizes internacionais mais recentes, como as do Centers for Disease Control and Prevention, diferem parcialmente do protocolo brasileiro ao recomendar ceftriaxona isoladamente para gonorreia não complicada e adicionar tratamento anticlâmidia se esta não tiver sido excluída. Para provas brasileiras, deve-se priorizar o PCDT nacional vigente e reconhecer a divergência.
O manejo inclui investigação de doença inflamatória pélvica, epididimite, proctite e infecção disseminada quando houver sinais compatíveis; testagem para outras IST, especialmente HIV e sífilis; tratamento/avaliação das parcerias sexuais; orientação para evitar relações até conclusão do tratamento e resolução dos sintomas; e reteste quando recomendado.
Mensagem de prova: corrimento uretral ou cervicite mucopurulenta → pense primeiro em gonococo e clamídia. Não se limite ao antibiótico: investigue complicações, trate parcerias e procure coinfecções.
Objetivos de aprendizagem
01
Diferenciar uretrite e cervicite pela apresentação clínica.
02
Reconhecer Neisseria gonorrhoeae e Chlamydia trachomatis como agentes prioritários.
03
Identificar achados clínicos sugestivos de uretrite gonocócica e não gonocócica.
04
Indicar testes moleculares e selecionar corretamente o sítio de coleta.
05
Conhecer o tratamento recomendado no PCDT brasileiro para gonorreia e clamídia.
06
Reconhecer divergências relevantes entre o protocolo brasileiro e diretrizes internacionais.
07
Identificar cervicite/uretrite persistente e ampliar o diagnóstico diferencial.
08
Reconhecer sinais de doença inflamatória pélvica, epididimite e infecção gonocócica disseminada.
09
Realizar abordagem adequada das parcerias sexuais e prevenção de reinfecção.
Visão rápida
Definição
Inflamação infecciosa da uretra ou colo uterino, frequentemente causada por gonococo e/ou clamídia.
Como reconhecer
Uretrite: corrimento + disúria. Cervicite: secreção endocervical mucopurulenta, friabilidade e/ou sangramento pós-coito; pode ser assintomática.
Conduta principal
Coletar teste molecular quando disponível, tratar precocemente se sintomático/alto risco, testar outras IST e abordar parcerias.
Pérola de prova
Gonorreia costuma ser mais exuberante; clamídia frequentemente é assintomática, especialmente em pessoas com colo uterino.
Introdução
Gonorreia e clamídia estão entre as IST bacterianas mais relevantes por causa do grande número de infecções assintomáticas e do potencial de ascensão para o trato genital superior.
A cervicite não tratada pode evoluir para doença inflamatória pélvica, infertilidade tubária e gravidez ectópica. Uretrites podem complicar com epididimite e facilitar transmissão de outras IST.
A consulta deve ser utilizada tanto para tratamento quanto para prevenção de reinfecção e rastreamento de coinfecções.
Conceitos fundamentais
Uretrite
Inflamação da uretra, geralmente infecciosa.
Caracteriza-se por corrimento uretral, disúria, prurido ou desconforto uretral.
Pode ser gonocócica ou não gonocócica.
Cervicite
Inflamação do epitélio endocervical.
Pode produzir exsudato mucopurulento e sangramento facilmente induzido pelo toque.
Grande parte das infecções por clamídia é assintomática.
Gonorreia
Causada por Neisseria gonorrhoeae, diplococo Gram-negativo.
Pode infectar uretra, cérvice, reto, faringe e conjuntiva.
Apresentação uretral costuma ser mais sintomática e purulenta.
Clamídia
Causada por Chlamydia trachomatis.
Bactéria intracelular obrigatória.
Infecção genital frequentemente é assintomática.
Pode ascender para endométrio e tubas.
Uretrite não gonocócica
Chlamydia trachomatis é uma causa importante.
Mycoplasma genitalium deve ser lembrado sobretudo em uretrite persistente ou recorrente.
Trichomonas vaginalis pode ser relevante conforme população e contexto epidemiológico.
Etiologia e fatores de risco
Principais agentes
Neisseria gonorrhoeae.
Chlamydia trachomatis.
Mycoplasma genitalium em parte das uretrites/cervicites persistentes.
Trichomonas vaginalis em determinados cenários.
Fatores associados
Nova parceria sexual.
Múltiplas parcerias.
Parceria com IST.
História prévia de gonorreia ou clamídia.
Relações sexuais sem método de barreira.
Idade jovem em populações com alta prevalência.
Sítios extragenitais
Exposição anal pode resultar em infecção retal.
Exposição oral pode resultar em infecção faríngea.
Esses sítios frequentemente são assintomáticos e exigem coleta específica quando indicada.
Quadro clínico
Uretrite gonocócica
Corrimento uretral frequentemente purulento e abundante.
Disúria intensa.
Eritema/meatalgia podem ocorrer.
Incubação costuma ser mais curta que na clamídia, mas há sobreposição.
Uretrite não gonocócica
Corrimento pode ser escasso, claro ou mucoso.
Disúria e desconforto uretral podem predominar.
Clamídia pode causar sintomas discretos.
Cervicite
Secreção endocervical mucopurulenta.
Friabilidade cervical.
Sangramento pós-coito.
Sangramento intermenstrual.
Dispareunia ou desconforto pélvico podem coexistir.
Muitas pessoas permanecem assintomáticas.
Complicações
Doença inflamatória pélvica.
Infertilidade tubária.
Gravidez ectópica.
Dor pélvica crônica.
Epididimite.
Infecção gonocócica disseminada.
Conjuntivite neonatal e outras consequências da transmissão vertical.
Infecção gonocócica disseminada
Febre.
Poliartralgia migratória.
Tenossinovite.
Lesões cutâneas pustulosas.
Artrite séptica pode ocorrer.
Exige tratamento sistêmico e investigação ampliada.
Diagnóstico
Avaliação inicial
Caracterizar corrimento, disúria, dor pélvica, sangramento e tempo de evolução.
Perguntar sobre práticas sexuais e sítios de exposição.
Pesquisar gestação.
Examinar genitais e, quando pertinente, realizar exame especular e bimanual.
Pesquisar dor à mobilização do colo, dor uterina ou anexial para não perder doença inflamatória pélvica.
Evidência de uretrite
Corrimento uretral visível é forte evidência clínica.
Microscopia com leucócitos pode apoiar diagnóstico quando disponível.
Teste de esterase leucocitária/urina de primeiro jato pode contribuir em serviços específicos.
Teste molecular
Teste de amplificação de ácido nucleico é preferencial para gonococo e clamídia quando disponível.
Urina de primeiro jato é útil em pessoas com uretra masculina.
Swab vaginal ou endocervical pode ser utilizado conforme plataforma e protocolo.
Swab retal e faríngeo devem ser obtidos quando houver exposição e indicação de rastreamento.
Cultura para gonococo
Tem papel especial quando há suspeita de falha terapêutica.
Permite teste de sensibilidade antimicrobiana.
Deve ser coletada antes de retratamento sempre que possível na suspeita de resistência.
Microscopia
Diplococos Gram-negativos intracelulares em secreção uretral sintomática têm alto valor preditivo para gonorreia em alguns cenários.
Microscopia cervical é menos sensível e não exclui gonorreia.
Diagnósticos diferenciais
Vulvovaginites podem produzir corrimento sem cervicite.
Infecção urinária pode causar disúria sem corrimento.
Herpes genital pode causar disúria intensa por lesões externas.
Prostatite e epididimite devem ser consideradas conforme sintomas.
Doença inflamatória pélvica deve ser pesquisada em pacientes com dor pélvica.
Uretrite/cervicite persistente
Primeiro verificar adesão ao tratamento e reexposição a parceria não tratada.
Confirmar persistência objetiva de inflamação antes de prescrever antibióticos sucessivos.
Investigar Mycoplasma genitalium quando teste estiver disponível e contexto for compatível.
Considerar Trichomonas vaginalis conforme epidemiologia e exposição.
Tratamento
Princípios gerais
Coletar testes antes do antibiótico quando isso não atrasar tratamento necessário.
Em síndrome sintomática e risco de perda de seguimento, tratar na primeira consulta.
Evitar esquemas inadequados que favoreçam resistência do gonococo.
Gonorreia não complicada — PCDT brasileiro
Cérvice, uretra ou reto: ceftriaxona 500 mg por via intramuscular, dose única, associada a azitromicina 1 g por via oral, dose única.
Administrar preferencialmente os medicamentos no mesmo atendimento.
O esquema deve ser atualizado caso o Ministério da Saúde publique nova recomendação nacional.
Clamídia — PCDT brasileiro
Azitromicina 1 g por via oral, dose única.
Alternativa: doxiciclina 100 mg por via oral a cada 12 horas por 7 dias.
Na gestação, evitar doxiciclina e utilizar esquema compatível com gravidez, como azitromicina conforme protocolo.
Divergência internacional importante
Diretrizes do Centers for Disease Control and Prevention passaram a recomendar ceftriaxona 500 mg intramuscular isoladamente para gonorreia não complicada em pessoas <150 kg.
Se clamídia não tiver sido excluída, adiciona-se tratamento específico, preferencialmente doxiciclina fora da gestação.
Para prova brasileira, priorizar o PCDT nacional vigente.
Parcerias sexuais
Devem ser avaliadas e tratadas conforme diagnóstico e janela epidemiológica.
A ausência de sintomas na parceria não exclui infecção.
Reinfecção é causa frequente de recorrência após tratamento correto.
Relações sexuais após tratamento
Orientar abstinência sexual até completar o período necessário após terapia e até que as parcerias tenham sido adequadamente tratadas.
Em esquemas de dose única, recomenda-se evitar relações por pelo menos 7 dias e até resolução dos sintomas.
No tratamento de 7 dias, aguardar conclusão do esquema e resolução clínica.
Testagem adicional
Ofertar testagem para HIV e sífilis.
Avaliar hepatites virais conforme risco e situação vacinal.
Considerar PrEP para HIV em pessoas com risco persistente.
Conduta na urgência e emergência
Quando a síndrome deixa de ser simples
Dor pélvica + dor à mobilização cervical/uterina/anexial → avaliar doença inflamatória pélvica e tratar precocemente.
Dor escrotal aguda → excluir torção testicular antes de atribuir a epididimite.