Diagnóstico clínico, critérios do PCDT, tratamento e prevenção de sequelas
Arthur MedVerse
·42 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
Doença Inflamatória Pélvica (DIP) é uma síndrome clínica infecciosa e inflamatória decorrente da ascensão de microrganismos do trato genital inferior para o trato genital superior, podendo envolver endométrio, tubas uterinas, ovários, peritônio pélvico e estruturas adjacentes.
A etiologia é polimicrobiana. Neisseria gonorrhoeae e Chlamydia trachomatis são agentes sexualmente transmissíveis centrais, mas anaeróbios, microrganismos associados à vaginose bacteriana, bactérias Gram-negativas, facultativas e estreptococos também participam. Por isso, o tratamento é empírico, precoce e de amplo espectro.
A apresentação clássica é dor no hipogástrio associada a dor à mobilização do colo uterino e/ou dor anexial. Corrimento anormal, febre, sangramento uterino anormal e dispareunia podem acompanhar o quadro. Entretanto, formas leves e oligossintomáticas são comuns e ainda podem produzir sequelas.
No PCDT brasileiro, o diagnóstico clínico utiliza três critérios maiores associados a pelo menos um critério menor, OU um critério elaborado. Os critérios maiores são dor no hipogástrio, dor à palpação dos anexos e dor à mobilização do colo uterino. Critérios elaborados incluem evidência histopatológica de endometrite, abscesso tubo-ovariano/fundo de saco em imagem ou laparoscopia compatível.
O limiar terapêutico deve ser baixo: diante de suspeita clínica suficiente, o tratamento deve ser iniciado o quanto antes, sem aguardar confirmação microbiológica. O atraso aumenta o risco de infertilidade tubária, gravidez ectópica e dor pélvica crônica.
No tratamento ambulatorial de primeira escolha do PCDT brasileiro: ceftriaxona 500 mg intramuscular em dose única + doxiciclina 100 mg por via oral a cada 12 horas por 14 dias + metronidazol 500 mg por via oral a cada 12 horas por 14 dias.
Internação é indicada diante de abscesso tubo-ovariano, gravidez, doença grave com náuseas/vômitos/febre, intolerância ao tratamento oral ou dificuldade de seguimento, impossibilidade de excluir emergência cirúrgica ou ausência de resposta ao tratamento ambulatorial após 72 horas.
Mensagem de prova: dor pélvica em pessoa sexualmente ativa + dor à mobilização do colo/anexos deve baixar muito o limiar para DIP. Não espere cultura ou imagem para iniciar antibiótico em quadro clínico compatível.
Objetivos de aprendizagem
01
Definir DIP e compreender sua fisiopatologia ascendente e polimicrobiana.
02
Reconhecer gonococo e clamídia como agentes sexualmente transmissíveis centrais.
03
Aplicar os critérios maiores, menores e elaborados do PCDT brasileiro.
04
Reconhecer apresentações leves e oligossintomáticas.
05
Diferenciar DIP de gravidez ectópica, apendicite, torção anexial e outras causas de dor pélvica.
06
Iniciar tratamento empírico precocemente quando houver suspeita suficiente.
07
Prescrever corretamente o esquema ambulatorial brasileiro.
08
Reconhecer critérios de internação e esquemas hospitalares.
09
Diagnosticar e manejar abscesso tubo-ovariano.
10
Orientar tratamento das parcerias e prevenção de reinfecção.
11
Reconhecer infertilidade, gravidez ectópica e dor pélvica crônica como sequelas.
Visão rápida
Definição
Infecção ascendente e geralmente polimicrobiana do trato genital superior.
Como reconhecer
Dor hipogástrica + dor anexial + dor à mobilização do colo, associadas a critérios menores ou critério elaborado.
Conduta principal
Tratar precocemente. Ambulatorial: ceftriaxona IM dose única + doxiciclina + metronidazol por 14 dias.
Pérola de prova
DIP é diagnóstico predominantemente clínico e o tratamento não deve aguardar exames confirmatórios quando a suspeita é suficiente.
Introdução
A DIP representa um espectro que inclui endometrite, salpingite, ooforite, abscesso tubo-ovariano e pelviperitonite. As diferentes manifestações podem coexistir.
O processo geralmente começa por infecção cervical e ascensão de microrganismos para o endométrio e as tubas. A inflamação tubária pode provocar cicatrização, aderências e perda da função ciliar.
Mesmo episódios pouco sintomáticos podem resultar em dano tubário permanente, justificando a estratégia de diagnóstico clínico sensível e tratamento precoce.
Conceitos fundamentais
Infecção ascendente
Microrganismos do trato genital inferior ultrapassam a barreira cervical e atingem endométrio, tubas e estruturas pélvicas.
A ascensão pode ser favorecida por cervicite, alterações da microbiota e procedimentos que atravessam o colo uterino.
Etiologia polimicrobiana
Neisseria gonorrhoeae e Chlamydia trachomatis são agentes clássicos.
Anaeróbios, incluindo Bacteroides fragilis, têm relevância especialmente em doença mais extensa.
Microrganismos relacionados à vaginose bacteriana, Gram-negativos, facultativos e estreptococos podem participar.
A ausência de gonococo ou clamídia no colo não exclui DIP.
Dano tubário
A inflamação produz edema, exsudato e lesão epitelial.
Cicatrização e aderências podem comprometer anatomia e transporte tubário.
O dano explica infertilidade e maior risco de implantação ectópica futura.
Abscesso tubo-ovariano
Complicação supurativa em que tuba e ovário podem formar massa inflamatória complexa.
Representa doença complicada e é critério de internação.
Rotura pode causar peritonite e sepse, configurando emergência.
Etiologia e fatores de risco
Agentes principais
Neisseria gonorrhoeae.
Chlamydia trachomatis.
Anaeróbios.
Bactérias associadas à vaginose bacteriana.
Bactérias Gram-negativas e facultativas.
Estreptococos.
Fatores associados
Cervicite por gonococo ou clamídia não tratada.
Nova parceria sexual ou múltiplas parcerias em contexto de exposição.
História prévia de IST ou DIP.
Relações sem método de barreira.
Procedimentos transcervicais podem, em circunstâncias específicas, facilitar ascensão bacteriana.
Dispositivo intrauterino
O risco de DIP relacionado à inserção do dispositivo intrauterino concentra-se principalmente nas primeiras semanas após o procedimento e depende da presença de infecção cervical no momento da inserção.
DIP diagnosticada em usuária de dispositivo intrauterino não implica retirada automática do método.
A decisão deve considerar resposta clínica e protocolo específico.
Quadro clínico
Sintomas frequentes
Dor no baixo ventre/hipogástrio.
Dispareunia profunda.
Corrimento vaginal ou endocervical anormal.
Sangramento intermenstrual ou pós-coito.
Febre pode ocorrer, mas sua ausência não exclui DIP.
Náuseas e vômitos sugerem doença mais intensa.
Exame ginecológico
Dor à mobilização do colo uterino.
Dor à palpação anexial.
Dor uterina/hipogástrica.
Secreção cervical anormal ou friabilidade pode coexistir.
Formas oligossintomáticas
Dor discreta ou inespecífica.
Sangramento anormal isolado.
Dispareunia.
Cervicite associada a desconforto pélvico.
Podem produzir sequelas apesar da apresentação branda.
Doença complicada
Febre alta e toxemia.
Vômitos persistentes.
Sinais de irritação peritoneal.
Massa anexial.
Instabilidade hemodinâmica.
Suspeita de abscesso tubo-ovariano roto.
Diagnóstico
Critérios maiores — PCDT brasileiro
Dor no hipogástrio.
Dor à palpação dos anexos.
Dor à mobilização do colo uterino.
Critérios menores
Temperatura axilar >37,5°C ou temperatura retal >38,3°C.
Conteúdo vaginal ou secreção endocervical anormal.
Massa pélvica.
Mais de 10 leucócitos por campo de imersão em material de endocérvice.
Leucocitose em sangue periférico.
Proteína C reativa ou velocidade de hemossedimentação elevada.
Comprovação laboratorial de infecção cervical por gonococo, clamídia ou micoplasmas.
Critérios elaborados
Evidência histopatológica de endometrite.
Abscesso tubo-ovariano ou de fundo de saco de Douglas demonstrado por imagem.
Laparoscopia com evidência de DIP.
Regra diagnóstica do PCDT
Três critérios maiores + pelo menos um critério menor; OU
Um critério elaborado.
Teste de gravidez
Deve ser realizado em pessoa em idade reprodutiva com dor pélvica sempre que gestação for possível.
Gravidez ectópica é um diagnóstico diferencial potencialmente fatal.
Gestação associada à suspeita de DIP é critério de hospitalização.
Exames laboratoriais
Hemograma, proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação podem apoiar diagnóstico e gravidade.
Testes moleculares para gonococo e clamídia devem ser realizados quando disponíveis.
Testar para HIV e sífilis e avaliar outras IST conforme contexto.
Ultrassonografia
Não é obrigatória para iniciar tratamento em DIP não complicada clinicamente típica.
É especialmente útil diante de massa, dúvida diagnóstica ou suspeita de abscesso tubo-ovariano.
Pode demonstrar espessamento tubário, líquido pélvico, piossalpinge ou massa tubo-ovariana complexa.
Laparoscopia
Pode demonstrar hiperemia, edema e exsudato tubário.
É mais específica, porém invasiva e não é necessária na maioria dos casos.
Não se deve atrasar tratamento esperando laparoscopia.
Diagnósticos diferenciais
Gravidez ectópica.
Apendicite aguda.
Infecção urinária/pielonefrite.
Litíase ureteral.
Torção anexial.
Rotura de cisto ovariano.
Endometriose/endometrioma roto.
Diverticulite.
Outras emergências abdominais ou ginecológicas.
Classificações e estratificação
DIP não complicada
Quadro leve/moderado.
Sem pelviperitonite.
Sem abscesso tubo-ovariano.
Tolerância ao tratamento oral.
Seguimento ambulatorial confiável.
DIP complicada
Abscesso tubo-ovariano.
Pelviperitonite.
Sepse ou estado geral grave.
Vômitos que impedem terapia oral.
Suspeita de emergência cirúrgica.
Critérios de internação — PCDT
Abscesso tubo-ovariano.
Gravidez.
Ausência de resposta clínica após 72 horas de antibioticoterapia oral.
Intolerância a antibióticos orais ou dificuldade de seguimento ambulatorial.
Estado geral grave, com náuseas, vômitos e febre.
Dificuldade para excluir emergência cirúrgica, como apendicite ou gravidez ectópica.
Tratamento
Princípios
Iniciar tratamento assim que houver suspeita clínica suficiente.
Cobrir gonococo, clamídia, anaeróbios e flora polimicrobiana associada.
Monoterapia não é recomendada.
Resultado cervical negativo para gonococo/clamídia não autoriza retirar cobertura do esquema inicial.
Tratamento ambulatorial — primeira opção brasileira
Ceftriaxona 500 mg intramuscular, dose única.
MAIS doxiciclina 100 mg por via oral a cada 12 horas por 14 dias.
MAIS metronidazol 500 mg por via oral a cada 12 horas por 14 dias.
Segunda opção ambulatorial
Cefotaxima 500 mg intramuscular, dose única.
MAIS doxiciclina 100 mg por via oral a cada 12 horas por 14 dias.
MAIS metronidazol 500 mg por via oral a cada 12 horas por 14 dias.
Tratamento hospitalar — primeira opção
Ceftriaxona 1 g intravenosa uma vez ao dia.
MAIS doxiciclina 100 mg por via oral a cada 12 horas.
MAIS metronidazol 400 mg intravenoso a cada 12 horas.
Após melhora clínica, transicionar para esquema oral apropriado e completar 14 dias de tratamento.
Alternativa hospitalar
Clindamicina 900 mg intravenosa a cada 8 horas.
MAIS gentamicina 3–5 mg/kg intravenosa ou intramuscular uma vez ao dia.
A continuação oral após melhora deve completar 14 dias conforme protocolo e cenário clínico.
Outra alternativa hospitalar
Ampicilina/sulbactam 3 g intravenosa a cada 6 horas.
MAIS doxiciclina 100 mg por via oral a cada 12 horas.
Completar 14 dias de terapia.
Reavaliação
Melhora clínica deve ocorrer em até aproximadamente 72 horas.
Reavaliar dor, febre, sensibilidade abdominal/pélvica e tolerância oral.
Ausência de resposta exige internação ou revisão diagnóstica, adesão, abscesso e necessidade de intervenção.
Parcerias sexuais
Parcerias dos 60 dias anteriores ao início dos sintomas devem ser avaliadas e tratadas empiricamente para gonococo e clamídia conforme protocolo.
Orientar abstinência sexual até que paciente e parcerias tenham completado tratamento e os sintomas tenham resolvido.
Reinfecção é causa importante de novos episódios.
Conduta na urgência e emergência
Abordagem inicial
Avaliar estabilidade hemodinâmica e sinais de sepse/peritonite.
Realizar teste de gravidez quando aplicável.
Excluir gravidez ectópica e outras emergências cirúrgicas.
Realizar exame abdominal e ginecológico.
Aplicar critérios diagnósticos de DIP.
Coletar testes para gonococo/clamídia e outras IST sem atrasar antibiótico.
Classificar necessidade de tratamento ambulatorial versus internação.
Iniciar antibioticoterapia imediatamente.
Suspeita de abscesso tubo-ovariano
Internar.
Solicitar ultrassonografia transvaginal ou outro exame de imagem adequado.
Iniciar antibiótico intravenoso de amplo espectro.
Monitorar resposta clínica e sinais de rotura/sepse.
Discutir drenagem guiada por imagem ou cirurgia quando não houver resposta, quando o abscesso for volumoso/complexo ou houver rotura.
Rotura de abscesso
Pode causar abdome agudo, peritonite e choque séptico.
Requer ressuscitação, antibiótico de amplo espectro e avaliação cirúrgica urgente.
Doses e prescrições
Esquema ambulatorial — primeira escolha
Ceftriaxona 500 mg IM — dose única.
Doxiciclina 100 mg VO — 12/12 h por 14 dias.
Metronidazol 500 mg VO — 12/12 h por 14 dias.
Esquema hospitalar — primeira escolha
Ceftriaxona 1 g IV — 1 vez/dia.
Doxiciclina 100 mg VO — 12/12 h.
Metronidazol 400 mg IV — 12/12 h.
Após melhora, completar 14 dias totais conforme transição para terapia oral.
Clindamicina + gentamicina
Clindamicina 900 mg IV — 8/8 h.
Gentamicina 3–5 mg/kg IV ou IM — 1 vez/dia.
Ajustar gentamicina à função renal e protocolos de monitorização.
Ampicilina/sulbactam
Ampicilina/sulbactam 3 g IV — 6/6 h.
Associar doxiciclina 100 mg VO — 12/12 h.
Completar 14 dias de tratamento.
Gestação
Doxiciclina é contraindicada durante a gestação.
Suspeita de DIP na gestante é indicação de internação e manejo especializado.
O esquema deve ser individualizado conforme idade gestacional, diagnóstico diferencial e protocolo obstétrico.
Algoritmos e fluxogramas
Dor pélvica em pessoa com risco de IST
Avaliar estabilidade e teste de gravidez.
Excluir emergência cirúrgica/obstétrica.
Pesquisar dor hipogástrica, anexial e à mobilização cervical.