Estadiamento clínico, interpretação sorológica, tratamento e particularidades na gestação
Arthur MedVerse
·55 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
Sífilis é uma infecção sexualmente transmissível sistêmica causada pela espiroqueta Treponema pallidum. Sua evolução alterna períodos sintomáticos e latentes, sendo classificada clinicamente em sífilis primária, secundária, latente e terciária.
Sífilis primária apresenta classicamente cancro duro: úlcera geralmente única, indolor, de base limpa e endurecida, acompanhada ou não de linfadenopatia regional. A sífilis secundária é sistêmica e pode cursar com exantema difuso, inclusive palmoplantar, placas mucosas, alopecia em clareira e condiloma plano.
Sífilis latente não apresenta sinais ou sintomas e é definida por sorologia reagente. Para fins terapêuticos, o Ministério da Saúde classifica como recente quando há até 1 ano de evolução e tardia quando há mais de 1 ano ou duração ignorada. A sífilis terciária pode acometer sistemas cardiovascular e neurológico e produzir gomas.
Diagnóstico utiliza testes treponêmicos e não treponêmicos. Testes treponêmicos costumam permanecer reagentes por toda a vida, mesmo após tratamento; testes não treponêmicos, como VDRL e RPR, são tituláveis e fundamentais para monitorar resposta terapêutica.
Tratamento de escolha é benzilpenicilina benzatina. Sífilis recente: 2,4 milhões UI intramuscular em dose única. Sífilis tardia, terciária sem neurossífilis ou duração ignorada: 2,4 milhões UI intramuscular semanalmente por 3 semanas, totalizando 7,2 milhões UI.
Neurossífilis exige benzilpenicilina cristalina intravenosa. O envolvimento neurológico pode ocorrer em qualquer estágio; manifestações oculares e otológicas também exigem avaliação específica.
Gestação é um ponto crítico: benzilpenicilina benzatina é a única terapia com eficácia documentada para prevenir transmissão vertical. Gestantes devem ser tratadas imediatamente diante de teste reagente conforme o contexto clínico, e alergia à penicilina exige dessensibilização para permitir tratamento adequado.
Mensagem de prova: cancro duro indolor → sífilis primária; exantema palmoplantar → secundária; VDRL/RPR → atividade e seguimento; teste treponêmico → memória imunológica; penicilina é o tratamento central.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer as manifestações clínicas dos diferentes estágios da sífilis.
02
Diferenciar sífilis recente de tardia para definição terapêutica.
03
Interpretar testes treponêmicos e não treponêmicos.
04
Reconhecer fenômeno prozona, cicatriz sorológica e reinfecção.
05
Prescrever benzilpenicilina conforme o estágio clínico.
06
Identificar situações que exigem investigação de neurossífilis.
07
Conhecer o tratamento da neurossífilis.
08
Reconhecer particularidades do diagnóstico e tratamento na gestação.
09
Monitorar resposta terapêutica por teste não treponêmico.
10
Orientar avaliação e manejo das parcerias sexuais.
Visão rápida
Definição
IST sistêmica causada pelo Treponema pallidum, com fases clínicas e períodos de latência.
Como reconhecer
Cancro duro indolor na primária; exantema inclusive palmoplantar e condiloma plano na secundária; latente assintomática.
Conduta principal
Estadiar, realizar teste não treponêmico quantitativo e tratar com penicilina conforme duração; avaliar neurossífilis quando indicado.
Pérola de prova
Teste treponêmico tende a permanecer reagente; VDRL/RPR tituláveis são usados para monitorar resposta.
Introdução
A sífilis é uma infecção sistêmica de evolução crônica quando não tratada, caracterizada por grande variedade de manifestações clínicas.
Sua importância em provas decorre principalmente do estadiamento, interpretação da sorologia, esquemas de penicilina, neurossífilis e prevenção da transmissão vertical.
A infecção prévia não confere imunidade protetora: uma pessoa adequadamente tratada pode adquirir sífilis novamente.
Conceitos fundamentais
Sífilis recente
Compreende sífilis primária, secundária e latente recente.
Para o protocolo brasileiro atual, corresponde à infecção com até 1 ano de evolução.
Sífilis tardia
Compreende sífilis latente tardia e sífilis terciária.
Inclui também sífilis latente de duração ignorada para definição do esquema terapêutico.
Testes treponêmicos
Detectam anticorpos específicos contra antígenos do Treponema pallidum.
Incluem teste rápido, FTA-Abs, TPHA/TPPA e imunoensaios.
Na maioria das pessoas permanecem reagentes mesmo após tratamento adequado.
Não são utilizados para monitorar resposta terapêutica.
Testes não treponêmicos
VDRL e RPR são exemplos clássicos.
São expressos em títulos, como 1:2, 1:4, 1:8 e 1:16.
São utilizados para avaliação de atividade e monitoramento da resposta terapêutica.
Podem apresentar resultados falso-positivos e falso-negativos em situações específicas.
Variação de duas diluições
Uma mudança de duas diluições corresponde a variação de quatro vezes no título.
Transmissão ocorre principalmente por contato sexual com lesões infecciosas.
Também ocorre transmissão vertical transplacentária.
Maior transmissibilidade
Sífilis primária e secundária apresentam elevada transmissibilidade.
Lesões mucocutâneas contêm grande quantidade de treponemas.
Fatores epidemiológicos
Relações sexuais sem preservativo.
Parceria com diagnóstico de sífilis ou outra IST.
Múltiplas ou novas parcerias sexuais.
História prévia de IST.
Ausência ou inadequação de pré-natal aumenta risco de sífilis congênita.
Quadro clínico
Sífilis primária
Incubação geralmente de algumas semanas após a exposição.
Cancro duro: úlcera tipicamente única, indolor, de base limpa, bordas regulares e endurecidas.
Pode ocorrer linfadenopatia regional.
A lesão pode desaparecer espontaneamente mesmo sem tratamento.
Sífilis secundária
Disseminação sistêmica do treponema.
Exantema maculopapular difuso, classicamente envolvendo palmas das mãos e plantas dos pés.
Lesões podem ser ricas em treponemas e altamente contagiosas.
Condiloma plano em regiões úmidas.
Placas mucosas.
Alopecia irregular ou em clareira.
Linfadenopatia generalizada, febre, mal-estar, cefaleia e outros sintomas sistêmicos podem ocorrer.
Sífilis latente
Ausência de manifestações clínicas.
Diagnóstico estabelecido por testes sorológicos em contexto compatível.
Deve ser classificada como recente ou tardia/duração ignorada para tratamento.
Sífilis terciária
Pode surgir anos ou décadas após infecção não tratada.
Gomas sifilíticas podem acometer pele, ossos e órgãos.
Sífilis cardiovascular pode cursar com aortite, aneurisma de aorta ascendente e insuficiência aórtica.
Comprometimento neurológico tardio clássico inclui tabes dorsalis e paresia geral.
Neurossífilis
Pode ocorrer em qualquer estágio da infecção.
Pode ser assintomática ou manifestar meningite, alterações de pares cranianos, doença meningovascular, alterações cognitivas, sensitivas ou motoras.
Sífilis ocular pode causar uveíte e outras manifestações visuais.
Otosífilis pode cursar com perda auditiva, zumbido e sintomas vestibulares.
Diagnóstico
Estratégia sorológica
O diagnóstico deve integrar história clínica, epidemiologia e resultados laboratoriais.
Pode-se iniciar investigação com teste treponêmico ou não treponêmico conforme algoritmo adotado.
Quando o primeiro teste é reagente, utiliza-se teste de metodologia diferente para complementar a investigação conforme protocolo.
Teste treponêmico reagente
Pode representar infecção atual ou infecção antiga previamente tratada.
Não permite, isoladamente, diferenciar doença ativa de memória sorológica.
Teste não treponêmico
Deve ser realizado quantitativamente para estabelecer título basal.
O título basal é comparado com resultados posteriores para avaliar resposta ou possível reinfecção.
Fenômeno prozona
Excesso de anticorpos pode impedir formação adequada da rede antígeno-anticorpo e gerar resultado não reagente em amostra fortemente positiva.
Deve ser lembrado diante de forte suspeita clínica, especialmente em apresentações compatíveis com sífilis secundária.
Diluição da amostra permite revelar a reatividade.
Falso-positivo não treponêmico
Pode ocorrer em doenças autoimunes, infecções, gestação, vacinação e outras condições.
Por isso, resultado deve ser interpretado no contexto clínico e com teste treponêmico.
Avaliação para neurossífilis
Punção lombar é indicada quando há sinais ou sintomas neurológicos compatíveis e em outras situações definidas pelo protocolo.
O diagnóstico integra manifestações clínicas e análise do líquido cefalorraquidiano.
VDRL no líquido cefalorraquidiano é altamente específico quando reagente, mas sensibilidade limitada significa que resultado não reagente não exclui isoladamente neurossífilis.
Diagnósticos diferenciais
Herpes genital e cancroide diante de úlcera genital.
Condiloma acuminado diante de lesões verrucosas, diferenciando-o do condiloma plano.
Exantemas virais, farmacodermias e doenças dermatológicas na sífilis secundária.
Classificações e estratificação
Sífilis primária
Manifestação inicial clássica: cancro duro.
Classificada como sífilis recente.
Sífilis secundária
Fase de disseminação sistêmica com manifestações mucocutâneas.
Classificada como sífilis recente.
Latente recente
Assintomática, com evidência de infecção adquirida há até 1 ano.
Latente tardia ou duração ignorada
Assintomática com duração superior a 1 ano ou sem possibilidade de determinar quando ocorreu a infecção.