Trauma contuso e penetrante, FAST, tomografia, manejo não operatório, angioembolização, órgãos sólidos, víscera oca e retroperitônio
Arthur MedVerse
·90 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
O trauma abdominal pode envolver vísceras sólidas, vísceras ocas, mesentério, grandes vasos, retroperitônio e sistema geniturinário. Sua abordagem é guiada principalmente pela
estabilidade hemodinâmica, mecanismo, exame físico e imagem
. Em prova e na prática, a pergunta central é menos “qual órgão foi lesado?” e mais
“o paciente está sangrando ou tem lesão que exige controle operatório imediato?”
.
No trauma abdominal contuso, baço e fígado estão entre os órgãos sólidos mais frequentemente lesados. Rim, pâncreas, intestino e mesentério também podem ser afetados. No trauma penetrante, o padrão depende do trajeto, da arma e das estruturas atingidas; ferimentos por projétil tendem a produzir maior transferência de energia e trajetórias menos previsíveis.
A abordagem começa dentro do xABCDE. Em paciente instável, o abdome é uma das grandes fontes potenciais de hemorragia oculta. O FAST/eFAST pode demonstrar líquido livre rapidamente e ajudar a definir o destino. Um paciente instável com FAST positivo e quadro compatível com hemoperitônio geralmente necessita de controle operatório imediato, sem atraso para tomografia.
Em pacientes estáveis ou suficientemente estabilizados, a TC de abdome e pelve com contraste intravenoso é o principal exame anatômico. Ela define lesões de órgãos sólidos, extravasamento ativo, hematomas, lesões retroperitoneais e achados indiretos de lesão de víscera oca ou mesentério.
O manejo não operatório (NOM) é hoje o padrão para muitas lesões de fígado, baço e rim em pacientes hemodinamicamente estáveis, inclusive em lesões de alto grau selecionadas, desde que exista monitorização adequada, disponibilidade cirúrgica e acesso a radiologia intervencionista quando necessário. A estabilidade fisiológica importa mais que o grau anatômico isolado.
Angioembolização é ferramenta fundamental no controle de sangramento arterial de órgãos sólidos em pacientes selecionados, especialmente quando há blush/extravasamento vascular ou outras evidências de sangramento ativo sem indicação imediata de laparotomia.
As lesões de víscera oca e mesentério merecem atenção porque podem ser inicialmente sutis. Dor progressiva, peritonite, pneumoperitônio, espessamento de alça, líquido livre sem lesão de órgão sólido, hematoma mesentérico e extravasamento de contraste aumentam suspeita. Atraso no diagnóstico eleva morbidade.
No trauma penetrante, instabilidade, peritonite, evisceração com sinais de comprometimento, impalamento e hemorragia significativa são fortes indicações de exploração. Entretanto, em centros experientes, pacientes estáveis e selecionados podem ser manejados de forma não operatória com exame seriado e TC.
O retroperitônio exige raciocínio por zonas. Hematomas centrais têm maior preocupação vascular e gastrointestinal; hematomas laterais podem estar associados a rim e cólon; hematomas pélvicos frequentemente se relacionam a fraturas pélvicas e não devem ser explorados indiscriminadamente.
Em questões de residência, a grande chave é: instável + hemoperitônio = controle da fonte; estável = TC e estratégia órgão-específica. O exame físico deve ser repetido, porque tanto lesões intestinais quanto sangramentos inicialmente contidos podem se manifestar progressivamente.
Objetivos de aprendizagem
01
Organizar o atendimento ao trauma abdominal pela estabilidade hemodinâmica.
02
Diferenciar trauma contuso de trauma penetrante e reconhecer padrões de lesão.
03
Utilizar FAST/eFAST corretamente na avaliação do paciente instável.
04
Entender as limitações do FAST e quando a TC é necessária.
05
Definir indicações de laparotomia imediata no trauma abdominal.
06
Aplicar manejo não operatório em lesões de órgãos sólidos quando apropriado.
07
Reconhecer o papel da angioembolização no sangramento arterial abdominal.
08
Identificar princípios de manejo das lesões hepáticas, esplênicas e renais.
09
Reconhecer sinais clínicos e tomográficos de lesão de víscera oca e mesentério.
10
Entender a avaliação seriada no trauma abdominal de diagnóstico inicialmente incerto.
11
Reconhecer particularidades do trauma penetrante por arma branca e projétil.
12
Conhecer a abordagem prática dos hematomas retroperitoneais por zonas.
13
Reconhecer sinais de lesão pancreática e duodenal.
14
Entender quando a laparoscopia diagnóstica pode ser útil em trauma penetrante selecionado.
15
Resolver questões de residência envolvendo FAST, TC, laparotomia, NOM e embolização.
Visão rápida
Definição
Trauma abdominal é a lesão de vísceras, mesentério, retroperitônio ou vasos abdominais causada por mecanismo contuso ou penetrante.
Como reconhecer
Dor, defesa, distensão, equimoses, feridas penetrantes ou choque podem sugerir lesão; exame inicial normal não exclui hemorragia ou lesão de víscera oca.
Conduta principal
Instável → FAST/eFAST e controle da fonte; estável → TC contrastada e manejo dirigido, com NOM frequente em órgãos sólidos selecionados.
Pérola de prova
FAST responde 'há líquido livre?'; TC responde 'qual lesão e quão grave?'. Instável com FAST positivo não deve esperar tomografia.
Introdução
O abdome é uma fonte importante de hemorragia oculta porque pode acomodar grande volume de sangue antes que sinais externos apareçam. Além disso, o retroperitônio pode esconder sangramento volumoso e lesões difíceis de detectar clinicamente.
O trauma abdominal contuso frequentemente resulta de compressão e desaceleração, enquanto o penetrante depende do trajeto. O exame físico pode ser prejudicado por TCE, intoxicação, sedação, lesão medular e dor de outras regiões.
Por isso, a avaliação deve combinar fisiologia, ultrassom, TC e exame seriado. A estabilidade hemodinâmica determina a velocidade e o tipo de investigação.
O tratamento moderno deslocou muitas lesões sólidas do centro cirúrgico para o manejo não operatório, mas isso só é seguro quando existe capacidade de monitorar, reconhecer falha e intervir rapidamente.
Conceitos fundamentais
Trauma contuso
Produz lesão por compressão, cisalhamento e desaceleração. Baço e fígado são alvos frequentes; intestino e mesentério podem sofrer ruptura ou desvascularização.
Trauma penetrante
Arma branca produz trajeto relativamente localizado; projétil pode gerar cavitação e múltiplas lesões. A localização externa não define com segurança todas as estruturas envolvidas.
FAST
Pesquisa líquido livre principalmente nas janelas hepatorrenal, esplenorrenal, pélvica e pericárdica. No contexto do trauma, líquido livre em paciente instável é presumido como sangue até prova em contrário.
Limitações do FAST
Pode ser negativo em sangramento pequeno, retroperitoneal, lesão de víscera oca e fases muito precoces. Deve ser repetido quando necessário.
TC contrastada
É o exame de escolha no paciente estável. Define lesão anatômica, extravasamento vascular, pseudoaneurisma, hematoma e sinais indiretos de lesão intestinal.
Manejo não operatório
É estratégia ativa, não simples “observação”. Inclui monitorização, exames seriados, hemoglobina conforme necessidade, disponibilidade de cirurgia e radiologia intervencionista.
Angioembolização
Permite controlar sangramento arterial sem laparotomia em pacientes selecionados. É particularmente útil em baço, fígado, rim e pelve.
Damage control surgery
Em paciente fisiologicamente exaurido, cirurgia abreviada prioriza controle de hemorragia e contaminação, seguida de ressuscitação em UTI e reconstrução posterior.
Víscera oca
Perfuração intestinal e lesão mesentérica podem ser discretas inicialmente. Peritonite ou achados tomográficos fortes favorecem exploração.
Retroperitônio
Divide-se didaticamente em zonas centrais, laterais e pélvicas. O manejo depende do mecanismo e da localização do hematoma.
Etiologia e fatores de risco
Colisão automobilística
Cinto de segurança, volante e desaceleração podem causar lesões de vísceras sólidas, intestino, mesentério e pâncreas.
Sinal do cinto
Equimose abdominal associada ao cinto aumenta suspeita de lesão intestinal/mesentérica e deve levar a observação cuidadosa e imagem apropriada.
Queda
Transferência de energia pode causar lesões sólidas e retroperitoneais.
Arma branca
A profundidade e direção da penetração determinam o risco. Algumas feridas podem ser manejadas seletivamente em pacientes estáveis.
Arma de fogo
Maior probabilidade de múltiplas lesões e cavitação. NOM é possível em casos altamente selecionados em centros experientes.
Anticoagulação
Pode ampliar sangramento e modificar a estratégia de ressuscitação/reversão.
Idoso
Pode apresentar sinais menos exuberantes de choque e menor reserva fisiológica.
Quadro clínico
Hemorragia abdominal
Taquicardia, hipotensão, pele fria, alteração do sensório, dor ou distensão podem ocorrer. A ausência de dor não exclui sangramento.
Peritonite
Defesa involuntária, rigidez e dor à descompressão sugerem irritação peritoneal e são importantes indicações de exploração em contexto traumático.
Lesão esplênica
Dor em hipocôndrio esquerdo e dor referida ao ombro esquerdo podem ocorrer, mas não são obrigatórias.
Lesão hepática
Dor em hipocôndrio direito e hemoperitônio; lesões graves podem cursar com choque.
Víscera oca
Dor progressiva, peritonite, febre e leucocitose podem surgir tardiamente. O exame seriado é crítico.
Pâncreas/duodeno
Dor epigástrica ou dorsal após impacto contra guidão/volante pode ocorrer. Amilase/lipase podem ser normais inicialmente.
Retroperitônio
Pode haver dor lombar/flanco, hematúria ou choque sem grande quantidade de líquido intraperitoneal.
Trauma penetrante
Ferida, evisceração, hemorragia e peritonite orientam urgência. A ausência de peritonite em paciente estável permite investigação seletiva em centros adequados.
Diagnóstico
FAST no instável
Paciente instável + FAST positivo + suspeita de hemoperitônio geralmente segue para laparotomia. FAST negativo exige busca de outras fontes de choque e pode ser repetido.
TC com contraste
Exame central no paciente estável. Avalia órgãos sólidos, mesentério, intestino, retroperitônio e vasos.
Blush/extravasamento
Extravasamento arterial ou pseudoaneurisma pode indicar necessidade de angioembolização em paciente estável.
Víscera oca na TC
Achados preocupantes: pneumoperitônio sem explicação, extravasamento de contraste entérico, descontinuidade de parede, líquido livre sem lesão sólida, espessamento de alça, hematoma/stranding mesentérico e redução de realce.
Exame seriado
Em pacientes selecionados sem indicação imediata de cirurgia, repetir exame físico e sinais vitais pode revelar lesão intestinal inicialmente silenciosa.
Lavado peritoneal diagnóstico
Hoje é menos utilizado devido ao FAST e à TC, mas pode ter papel em cenários específicos quando ultrassom é inconclusivo ou indisponível.
Laparoscopia diagnóstica
Pode ser útil em trauma penetrante estável para avaliar violação peritoneal, diafragma e lesões selecionadas, evitando laparotomia não terapêutica.
Hematúria
Ajuda a levantar suspeita de lesão urinária, mas ausência de hematúria não exclui lesão renal ou vascular renal grave.
Classificações e estratificação
AAST
Fígado, baço, rim e outros órgãos possuem escalas anatômicas AAST que variam de lesões menores a destruição/lesão vascular grave. Elas ajudam na comunicação e prognóstico.
Grau não é sinônimo de cirurgia
Uma lesão sólida de alto grau pode ser tratada sem operação se o paciente estiver estável e houver estrutura adequada. Fisiologia supera anatomia isolada.
Retroperitônio por zonas
Zona I: central — grandes vasos/pâncreas/duodeno; maior preocupação vascular.
Zona II: flancos — rim e cólon.
Zona III: pelve — vasos pélvicos e fraturas.
Contuso versus penetrante no retroperitônio
Hematomas por trauma penetrante tendem a ser explorados mais liberalmente; no contuso, algumas zonas são manejadas seletivamente conforme estabilidade e imagem.
Falha do NOM
Deterioração hemodinâmica, necessidade transfusional crescente, peritonite ou progressão do sangramento podem indicar mudança para intervenção.
Tratamento
Instabilidade
Ressuscitação hemostática e controle da fonte. Paciente instável com hemoperitônio e indicação clara não deve esperar TC.
Manejo não operatório
É preferido em muitas lesões de fígado, baço e rim em pacientes estáveis, com monitorização e recursos adequados.
Fígado
NOM é padrão em pacientes estáveis. Angioembolização pode tratar sangramento arterial. Cirurgia pode exigir packing, controle vascular temporário e estratégias de damage control.
Baço
NOM é frequente em pacientes estáveis. Angioembolização aumenta sucesso em lesões selecionadas. Esplenectomia é necessária em instabilidade persistente ou sangramento não controlável.
Rim
Muitas lesões são manejadas conservadoramente. Embolização é útil no sangramento arterial; cirurgia é reservada para instabilidade, lesões vasculares graves ou falha do manejo.
Víscera oca
Perfuração, isquemia ou peritonite geralmente exigem cirurgia, com reparo ou ressecção conforme extensão.
Pâncreas
Conduta depende especialmente de lesão do ducto pancreático principal. Lesões ductais significativas frequentemente exigem intervenção especializada.
Duodeno
Diagnóstico precoce é importante. Muitas lesões podem ser reparadas primariamente; lesões complexas exigem abordagem individualizada.
Trauma penetrante seletivo
Paciente estável, confiável e sem peritonite pode ser candidato a NOM com TC e exame seriado em centros experientes.
Conduta na urgência e emergência
Algoritmo inicial
xABCDE + controle hemorrágico.
Avaliar estabilidade hemodinâmica.
Instável: FAST/eFAST rápido.
FAST positivo + quadro abdominal → laparotomia/controle da fonte.
FAST negativo → buscar tórax, pelve, externo, retroperitônio e outras causas.
Estável: TC abdome/pelve com contraste.
Órgão sólido sem indicação operatória → NOM ± angioembolização.
Peritonite, perfuração ou sangramento não controlado → cirurgia.
Trauma penetrante
Instabilidade, peritonite, hemorragia significativa ou lesões evidentemente cirúrgicas → exploração. Estável sem peritonite → seleção por exame, TC e protocolo.
Evisceração
Proteger vísceras com compressas estéreis úmidas, não reduzir à força na sala de emergência e obter avaliação cirúrgica imediata.
Objeto empalado
Não remover no pronto atendimento. Estabilizar o objeto e retirar em ambiente cirúrgico controlado.
Damage control
Choque profundo, coagulopatia, acidose, hipotermia e necessidade de cirurgia prolongada favorecem estratégia abreviada com controle inicial da hemorragia/contaminação.
Doses e prescrições
Ressuscitação
O manejo farmacológico é secundário ao controle da fonte. Hemorragia grave requer protocolo de transfusão e estratégia hemostática, evitando excesso de cristaloide.
Ácido tranexâmico
Pode ser indicado precocemente no trauma hemorrágico de acordo com protocolo, idealmente dentro de 3 horas da lesão.
Antibióticos
Trauma penetrante com violação gastrointestinal ou lesão de víscera oca requer cobertura antibiótica conforme protocolo cirúrgico e contaminação.
Analgesia
Deve ser oferecida sem atrasar diagnóstico ou cirurgia; analgesia apropriada não “mascara” de forma clinicamente relevante um abdome que está sendo avaliado de maneira seriada.
Profilaxia antitetânica
Atualizar conforme tipo de ferida e situação vacinal.
Importante
Não existe “medicação que trate hemoperitônio”. Controle definitivo é cirúrgico, endovascular ou espontâneo sob NOM conforme a fisiologia e o órgão lesado.