Estágios clínicos, interpretação sorológica, tratamento e seguimento
Arthur MedVerse
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Neste artigo
Resumo executivo
Sífilis é uma infecção sexualmente transmissível sistêmica causada pela espiroqueta Treponema pallidum. Possui evolução em estágios, períodos de latência e amplo espectro clínico, razão pela qual é conhecida como “grande imitadora”.
A sífilis adquirida é classificada, para fins terapêuticos, em recente — primária, secundária e latente recente, com até um ano de evolução — e tardia — latente tardia, com mais de um ano, latente de duração ignorada e sífilis terciária. A neurossífilis pode ocorrer em qualquer estágio e possui tratamento próprio.
Na sífilis primária, a manifestação clássica é o cancro duro: úlcera geralmente única, indolor, de base limpa e endurecida, acompanhada de linfadenopatia regional. Na sífilis secundária, predominam manifestações sistêmicas e mucocutâneas, destacando-se exantema que pode acometer palmas e plantas, placas mucosas, alopecia em clareira e condiloma plano.
O diagnóstico combina dados clínico-epidemiológicos e testes imunológicos. Os testes treponêmicos, incluindo o teste rápido, tornam-se reagentes precocemente e frequentemente permanecem positivos por toda a vida. Os testes não treponêmicos, como o Venereal Disease Research Laboratory (VDRL) e o Rapid Plasma Reagin (RPR), fornecem títulos e são fundamentais para atividade da doença e monitoramento da resposta terapêutica.
A benzilpenicilina benzatina é o tratamento de escolha. Na sífilis recente: 2,4 milhões de unidades internacionais por via intramuscular em dose única. Na sífilis tardia ou de duração ignorada: 2,4 milhões de unidades internacionais por via intramuscular semanalmente por três semanas, totalizando 7,2 milhões. Neurossífilis exige benzilpenicilina potássica/cristalina intravenosa em altas doses por 14 dias.
Em situações de alto risco de perda de oportunidade — especialmente gestação, violência sexual, sinais de sífilis primária/secundária, risco de perda de seguimento ou pessoa sem diagnóstico prévio — o Ministério da Saúde recomenda tratamento imediato após um único teste reagente, sem dispensar o segundo teste, o estadiamento e o seguimento.
A resposta sorológica é avaliada pelo teste não treponêmico. Mudança de duas diluições corresponde a variação de quatro vezes no título: por exemplo, 1:32 → 1:8 representa queda de duas diluições; 1:8 → 1:32 representa elevação de duas diluições.
A reação de Jarisch-Herxheimer pode surgir nas primeiras 24 horas após o início do tratamento, com febre, cefaleia, mialgia e exacerbação transitória das lesões. Não representa alergia à penicilina.
Mensagem de prova: teste treponêmico ajuda a estabelecer contato com o agente; teste não treponêmico titulado acompanha resposta. Sífilis recente recebe uma dose de benzilpenicilina benzatina; tardia ou de duração ignorada recebe três doses semanais.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer as manifestações da sífilis primária, secundária, latente e terciária.
02
Diferenciar sífilis recente de sífilis tardia para definir o esquema terapêutico.
03
Interpretar corretamente testes treponêmicos e não treponêmicos.
04
Compreender o significado da variação de duas diluições do VDRL ou RPR.
05
Reconhecer cicatriz sorológica, reinfecção e situações de possível falha terapêutica.
06
Prescrever benzilpenicilina benzatina conforme o estágio da doença.
07
Reconhecer neurossífilis, sífilis ocular e otossífilis.
08
Diferenciar reação de Jarisch-Herxheimer de alergia à penicilina.
09
Manejar parcerias sexuais e orientar prevenção de reinfecção.
10
Reconhecer particularidades essenciais da sífilis na gestação.
Visão rápida
Definição
Infecção sistêmica causada por Treponema pallidum, transmitida principalmente por via sexual e vertical.
Como reconhecer
Cancro duro na fase primária; exantema inclusive palmoplantar e manifestações sistêmicas na fase secundária; latência assintomática.
Conduta principal
Benzilpenicilina benzatina: sífilis recente = 2,4 milhões UI IM dose única; tardia/duração ignorada = 2,4 milhões UI IM semanal por 3 semanas.
Pérola de prova
Teste treponêmico costuma permanecer reagente; teste não treponêmico titulado é o principal instrumento de monitoramento.
Introdução
A sífilis alterna períodos sintomáticos e assintomáticos. Sem tratamento, pode persistir por anos e produzir comprometimento neurológico, cardiovascular, ocular, auditivo e outros danos tardios.
A transmissão é mais eficiente nas fases com lesões ricas em treponemas, especialmente sífilis primária e secundária. A transmissão vertical pode ocorrer durante a gestação e tem grande relevância de saúde pública.
O raciocínio de prova exige três passos: reconhecer o estágio clínico, interpretar a combinação dos testes e selecionar o esquema de penicilina correspondente.
Conceitos fundamentais
Agente e transmissão
Treponema pallidum é uma espiroqueta.
Transmissão ocorre principalmente por contato sexual com lesões infectantes.
Transmissão vertical pode ocorrer durante a gestação.
A infecção prévia não produz imunidade protetora: reinfecção é possível.
Sífilis recente
Inclui sífilis primária, secundária e latente recente.
Para o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas brasileiro, corresponde à infecção com até um ano de evolução.
Sífilis tardia
Inclui sífilis latente tardia, com mais de um ano de evolução.
Quando não é possível determinar a duração, classificar como latente de duração ignorada e tratar como tardia.
Sífilis terciária também utiliza esquema de tratamento de doença tardia quando não há neurossífilis.
Neuroinvasão
Treponema pallidum pode atingir o sistema nervoso central precocemente.
Neurossífilis sintomática pode ocorrer em qualquer estágio.
Sífilis ocular e otossífilis exigem atenção específica e tratamento compatível com neurossífilis.
Etiologia e fatores de risco
Exposição
Relação sexual sem método de barreira com pessoa infectada.
Parceria sexual com sífilis.
Múltiplas exposições e redes sexuais com maior prevalência de infecções sexualmente transmissíveis.
História prévia de sífilis não impede nova infecção.
Condições associadas
Coinfecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) pode ocorrer e deve ser pesquisada.
Diagnóstico de outra infecção sexualmente transmissível indica oportunidade para testagem de sífilis.
Gestação torna o diagnóstico e tratamento imediatos especialmente importantes devido ao risco de transmissão vertical.
Quadro clínico
Sífilis primária
Cancro duro surge no local de inoculação.
Classicamente é uma úlcera única, indolor, de base limpa, bordas bem definidas e consistência endurecida.
Pode ocorrer linfadenopatia regional, geralmente não supurativa.
Lesões podem ser múltiplas ou atípicas, especialmente em alguns contextos clínicos.
A lesão regride espontaneamente mesmo sem tratamento, o que não significa cura.
Sífilis secundária
Resulta da disseminação sistêmica do treponema.
Exantema difuso pode acometer tronco, membros, palmas das mãos e plantas dos pés.
Lesões podem ser maculares, papulares ou papuloescamosas.
Condiloma plano corresponde a placas úmidas, achatadas e altamente infectantes em áreas intertriginosas.
Placas mucosas podem ocorrer.
Alopecia em clareira é achado clássico.
Febre, mal-estar, cefaleia, linfadenopatia generalizada, artralgia e mialgia podem acompanhar o quadro.
Sífilis latente
Ausência de sinais e sintomas com testes imunológicos compatíveis com infecção.
Latente recente: até um ano de evolução.
Latente tardia: mais de um ano.
Duração ignorada: quando não é possível determinar o tempo de infecção.
Sífilis terciária
Pode surgir anos ou décadas após a infecção não tratada.
Pode causar gomas sifilíticas em pele, ossos e outros órgãos.
Comprometimento cardiovascular clássico inclui aortite, aneurisma de aorta ascendente e insuficiência aórtica.
Manifestações neurológicas tardias clássicas incluem tabes dorsalis e paresia geral, embora neurossífilis possa ocorrer em qualquer estágio.
Neurossífilis, sífilis ocular e otossífilis
Neurossífilis pode manifestar-se com meningite, déficit de pares cranianos, acidente vascular cerebral, alterações cognitivas, motoras ou sensitivas.
Sífilis ocular pode produzir uveíte, neurite óptica e outras alterações visuais.
Otossífilis pode causar perda auditiva neurossensorial, zumbido e sintomas vestibulares.
Sintomas neurológicos, oculares ou auditivos em pessoa com sífilis exigem avaliação dirigida.
Diagnóstico
Princípio geral
Interpretar testes sempre em conjunto com história clínica, tratamento prévio e risco epidemiológico.
Nenhum resultado isolado deve ser interpretado sem contexto quando existe história prévia de sífilis.
Testes treponêmicos
Detectam anticorpos específicos contra antígenos treponêmicos.
Incluem teste rápido, testes de quimioluminescência e outros ensaios treponêmicos.
Tendem a tornar-se reagentes antes dos testes não treponêmicos.
Na maioria das pessoas permanecem reagentes mesmo após tratamento adequado.
Por isso, não são adequados para monitorar resposta terapêutica.
Testes não treponêmicos
Venereal Disease Research Laboratory (VDRL) e Rapid Plasma Reagin (RPR) são os exemplos clássicos.
Devem ser reportados quantitativamente em títulos, como 1:2, 1:4, 1:8, 1:16 e 1:32.
São utilizados para estimar atividade e, principalmente, monitorar resposta ao tratamento.
Podem apresentar falso-reagente por condições infecciosas, autoimunes, gestação e outras situações.
Podem tornar-se não reagentes após tratamento ou permanecer em baixos títulos, caracterizando possível cicatriz sorológica.
Regra das duas diluições
Uma mudança clinicamente relevante corresponde a duas diluições, isto é, variação de quatro vezes no título.
Exemplo de queda: 1:32 → 1:16 → 1:8 = queda de duas diluições.
Exemplo de elevação: 1:8 → 1:16 → 1:32 = aumento de duas diluições.
Elevação sustentada de duas diluições em relação ao menor título documentado após tratamento sugere reinfecção ou possível falha terapêutica e exige reavaliação.
Cicatriz sorológica
Persistência de teste não treponêmico reagente, geralmente em baixos títulos, após tratamento adequado e sem evidências de reinfecção.
Não significa automaticamente doença ativa.
Teste treponêmico persistentemente reagente após tratamento é esperado e não define cicatriz sorológica por si só.
Tratamento imediato após um teste reagente
O Ministério da Saúde recomenda não perder a oportunidade de tratar em gestantes.
Também recomenda tratamento imediato em vítimas de violência sexual.
Inclui pessoas com chance de perda de seguimento.
Inclui pessoas com sinais ou sintomas de sífilis primária ou secundária.
Inclui pessoas sem diagnóstico prévio de sífilis.
O tratamento imediato não elimina a necessidade do segundo teste, do estadiamento, do monitoramento e da abordagem das parcerias.
Quando avaliar líquido cefalorraquidiano
Sinais ou sintomas neurológicos compatíveis com neurossífilis exigem investigação específica.
Alterações do líquido cefalorraquidiano devem ser interpretadas no contexto clínico.
O VDRL no líquido cefalorraquidiano tem alta especificidade quando reagente, mas sensibilidade limitada; resultado não reagente não exclui sozinho neurossífilis.
Fenômeno prozona
Concentração muito elevada de anticorpos pode interferir em testes não treponêmicos e produzir resultado falsamente não reagente.
Deve ser lembrado diante de forte suspeita clínica, especialmente na sífilis secundária, apesar de teste não treponêmico inicialmente não reagente.
Classificações e estratificação
Sífilis recente — até 1 ano
Primária.
Secundária.
Latente recente.
Sífilis tardia
Latente tardia: mais de 1 ano.
Latente de duração ignorada.
Terciária sem evidência de neurossífilis.
Neurossífilis
Pode ocorrer em qualquer estágio.
Não deve ser entendida apenas como manifestação terciária.
Possui esquema terapêutico diferente da benzilpenicilina benzatina intramuscular.
Tratamento
Sífilis recente
Benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões de unidades internacionais por via intramuscular em dose única.
Administrar 1,2 milhão de unidades internacionais em cada região de aplicação intramuscular quando a apresentação/volume exigir divisão.
Sífilis tardia ou duração ignorada
Benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões de unidades internacionais por via intramuscular uma vez por semana por 3 semanas.
Dose total: 7,2 milhões de unidades internacionais.
O esquema inclui sífilis latente tardia, latente de duração ignorada e sífilis terciária sem neurossífilis.
Neurossífilis
Benzilpenicilina potássica/cristalina 18–24 milhões de unidades internacionais por dia por via intravenosa.
Administrar 3–4 milhões de unidades internacionais a cada 4 horas ou por infusão contínua.
Duração recomendada no protocolo brasileiro: 14 dias.
Alternativas em não gestantes
Na sífilis recente, doxiciclina 100 mg por via oral a cada 12 horas por 15 dias é alternativa quando penicilina não puder ser utilizada.
Na sífilis tardia, doxiciclina 100 mg por via oral a cada 12 horas por 30 dias é alternativa.
Alternativas exigem seguimento clínico e laboratorial rigoroso.
Na neurossífilis, ceftriaxona 2 g por via intravenosa uma vez ao dia por 10–14 dias é alternativa prevista em protocolos.
Gestação
Benzilpenicilina benzatina é a única opção com eficácia documentada para prevenção da transmissão vertical.
Gestante com alergia verdadeira à penicilina deve ser dessensibilizada e tratada com penicilina.
Doxiciclina não é opção para tratamento da gestante.
Sífilis na gestação possui particularidades próprias de seguimento e prevenção da sífilis congênita.
Reação de Jarisch-Herxheimer
Pode ocorrer nas primeiras 24 horas após o tratamento, especialmente em fases recentes.
Caracteriza-se por febre, cefaleia, mialgia, calafrios e piora transitória das lesões.
É consequência da resposta inflamatória ao tratamento e não constitui alergia à penicilina.
O manejo é sintomático; a reação não é indicação para suspender o tratamento.
Seguimento
Monitorar com teste não treponêmico quantitativo.
Comparar os títulos com o teste realizado no momento do diagnóstico/tratamento.
Elevação de duas diluições deve levantar hipótese de reinfecção ou falha terapêutica.
Avaliar novas exposições e tratamento das parcerias antes de atribuir o achado a falha.