Transmissão vertical, imunoprofilaxia neonatal, vacinação e seguimento pós-exposição
Arthur MedVerse
·28 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
A exposição perinatal ao vírus da hepatite B (HBV) ocorre principalmente quando a gestante apresenta antígeno de superfície da hepatite B (HBsAg) reagente. Sem imunoprofilaxia adequada, a transmissão vertical é especialmente relevante porque a infecção adquirida no período neonatal apresenta risco muito elevado de cronificação, podendo chegar a cerca de 90%.
A medida central é imediata: todo recém-nascido de mãe HBsAg reagente deve receber vacina monovalente contra hepatite B + imunoglobulina humana anti-hepatite B (IGHAHB) em sítios musculares distintos, preferencialmente ainda na sala de parto ou nas primeiras 12 horas de vida. A IGHAHB é administrada na dose de 0,5 mL por via intramuscular.
No Calendário Nacional de Vacinação brasileiro, após a dose monovalente ao nascimento, a criança completa a proteção contra hepatite B com as doses da vacina pentavalente aos 2, 4 e 6 meses. A dose de nascimento é particularmente importante para prevenção da transmissão vertical.
Se o HBsAg materno for desconhecido no parto, deve-se colher o exame materno imediatamente e administrar a vacina ao recém-nascido sem atraso. Se a mãe for posteriormente confirmada como HBsAg reagente, a IGHAHB deve ser administrada o mais rapidamente possível, podendo ser utilizada até o 7º dia de vida; quanto mais precoce, melhor.
Após completar o esquema, crianças expostas devem realizar avaliação de resposta e infecção. No protocolo brasileiro, a avaliação da soroconversão é feita com anti-HBs após a última dose; em crianças de mães HBsAg reagentes, a investigação pós-vacinal deve incluir também HBsAg para identificar eventual infecção.
A gestante com HBsAg reagente deve ser avaliada com HBV-DNA. Carga viral elevada pode indicar tenofovir durante a gestação para reduzir adicionalmente a transmissão vertical, sem substituir a imunoprofilaxia neonatal.
Diferentemente do HIV, a hepatite B materna não contraindica o aleitamento materno quando a imunoprofilaxia do recém-nascido é realizada adequadamente.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer o risco de transmissão vertical e de cronificação da hepatite B adquirida no período neonatal.
02
Interpretar HBsAg materno e compreender o papel do HBV-DNA na gestação.
03
Prescrever corretamente vacina contra hepatite B e IGHAHB ao recém-nascido exposto.
04
Manejar o recém-nascido quando o HBsAg materno é desconhecido no momento do parto.
05
Conhecer o esquema vacinal subsequente no Calendário Nacional de Vacinação.
06
Realizar seguimento pós-vacinal da criança exposta.
07
Reconhecer falha de imunoprofilaxia e necessidade de avaliação especializada.
08
Diferenciar as recomendações de aleitamento na hepatite B das recomendações aplicáveis ao HIV.
Visão rápida
Definição
RN exposto ao HBV por mãe com HBsAg reagente ou situação materna ainda não esclarecida no parto.
Como reconhecer
HBsAg materno reagente exige prevenção imediata da transmissão vertical.
Conduta principal
Vacina hepatite B + IGHAHB 0,5 mL IM, preferencialmente ≤12 h, em locais distintos; completar vacinação aos 2, 4 e 6 meses.
Pérola de prova
Hepatite B materna não contraindica amamentação após imunoprofilaxia adequada do recém-nascido.
Introdução
O HBV é transmitido por sangue, fluidos corporais e via vertical. No contexto perinatal, a transmissão ocorre principalmente durante o parto, embora infecção intrauterina também possa ocorrer.
A idade no momento da infecção modifica profundamente o prognóstico: quanto mais precoce a aquisição, maior o risco de persistência viral e hepatite B crônica.
Por isso, a prevenção da transmissão vertical combina rastreamento materno, tratamento antiviral materno quando indicado e imunoprofilaxia neonatal imediata.
Conceitos fundamentais
HBsAg
Marcador de infecção atual pelo HBV.
Toda gestante deve ser investigada para hepatite B no pré-natal conforme recomendações brasileiras.
Em filhos de mães HBsAg reagentes, as duas estratégias são utilizadas simultaneamente em sítios diferentes.
Etiologia e fatores de risco
Maior risco de transmissão vertical
HBsAg materno reagente.
HBV-DNA materno elevado.
HBeAg reagente, especialmente como marcador de replicação elevada.
Ausência ou atraso da imunoprofilaxia neonatal.
Falha na administração da IGHAHB.
Infecção materna aguda próxima ao parto.
Por que prevenir agressivamente?
Infecção perinatal frequentemente é assintomática no início.
Apesar disso, o risco de cronificação é muito alto.
Infecção crônica aumenta risco futuro de cirrose e carcinoma hepatocelular.
Quadro clínico
Recém-nascido exposto
Geralmente assintomático.
A ausência de sinais clínicos não permite excluir infecção.
A prevenção deve ocorrer antes de qualquer manifestação.
Infecção perinatal
A maioria dos lactentes infectados não apresenta hepatite aguda clinicamente evidente.
Icterícia, hepatomegalia e alterações de transaminases podem ocorrer, mas não são necessárias para o diagnóstico.
A principal consequência é evolução silenciosa para infecção crônica.
Evolução tardia
Hepatite crônica.
Fibrose e cirrose ao longo dos anos.
Carcinoma hepatocelular.
Por isso, o seguimento laboratorial após imunização é essencial para detectar falha profilática.
Diagnóstico
Diagnóstico materno
HBsAg é o marcador fundamental para identificar infecção materna atual.
Gestante HBsAg reagente deve realizar avaliação complementar, incluindo HBV-DNA.
Outros marcadores sorológicos ajudam a caracterizar fase da infecção.
No momento do parto
Se HBsAg materno é conhecido e reagente → tratar o RN como exposto.
Se o resultado é desconhecido → colher HBsAg materno imediatamente e não atrasar a vacina neonatal.
Se posteriormente HBsAg reagente → administrar IGHAHB ao RN o mais rapidamente possível, respeitando a janela máxima recomendada.
Avaliação pós-vacinal
Após conclusão do esquema, avaliar resposta vacinal e possível infecção.
Anti-HBs ≥10 mUI/mL indica resposta protetora quando HBsAg é não reagente.
HBsAg reagente indica infecção e exige encaminhamento para acompanhamento especializado.
O momento exato da testagem deve seguir o protocolo vigente; evitar testagem excessivamente precoce devido à interferência de anticorpos passivos da imunoglobulina.
Interpretação prática
HBsAg não reagente + anti-HBs ≥10 mUI/mL → protegido, sem evidência de infecção.