Refluxo Gastroesofágico em Pediatria — MedVerse · MedVerse
Resumo HARD · Atualizado em 02 de set. de 2026
Refluxo Gastroesofágico em Pediatria
RGE fisiológico, DRGE, sinais de alarme, diagnóstico e manejo por faixa etária
Arthur MedVerse
·70 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
Refluxo gastroesofágico (RGE) é a passagem do conteúdo gástrico para o esôfago, com ou sem regurgitação ou vômito. Em lactentes, é extremamente frequente e, na maioria dos casos, representa fenômeno fisiológico relacionado à imaturidade funcional, dieta predominantemente líquida, posição horizontal e grande volume ingerido em relação à capacidade gástrica.
Doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) ocorre quando o RGE provoca sintomas incômodos que comprometem o funcionamento/qualidade de vida ou produz complicações. A distinção entre RGE fisiológico e DRGE é o eixo central do tema e evita investigação e supressão ácida desnecessárias.
O lactente denominado classicamente de happy spitter apresenta regurgitações frequentes, mas mantém bom estado geral, alimentação e ganho ponderal. Nesse cenário, história e exame físico geralmente bastam; exames complementares e tratamento farmacológico não são indicados.
O RGE fisiológico costuma iniciar nas primeiras semanas, atingir maior frequência nos primeiros meses e melhorar progressivamente com a maturação. Início muito precoce, surgimento após 6 meses ou persistência importante além de 12–18 meses exige reavaliação diagnóstica.
Sinais de alarme incluem perda ou falha de ganho ponderal, vômitos biliosos, hematêmese, vômitos persistentemente em jato, distensão abdominal, febre, letargia, sinais neurológicos e início/persistência em faixa etária atípica. Esses achados sugerem diagnóstico alternativo ou complicação e devem direcionar a investigação.
No lactente sem sinais de alarme, o manejo inicial é conservador: evitar superalimentação, ajustar volume e frequência das mamadas e considerar espessamento da alimentação quando houver regurgitação/vômito visível relevante. O aleitamento materno deve ser mantido.
Como alergia à proteína do leite de vaca pode mimetizar sintomas de refluxo, lactentes persistentes após medidas iniciais podem ser submetidos, quando clinicamente apropriado, a teste de 2–4 semanas com fórmula extensamente hidrolisada ou de aminoácidos; no lactente amamentado, pode-se considerar exclusão materna de proteína do leite de vaca, com posterior reintrodução para confirmação.
Inibidores da bomba de prótons (IBP) não devem ser usados para tratar regurgitação visível ou choro em lactentes saudáveis. São primeira escolha para esofagite erosiva relacionada à DRGE e podem ser utilizados por 4–8 semanas em crianças maiores com sintomas típicos, como pirose e dor retroesternal/epigástrica.
Endoscopia digestiva alta não confirma isoladamente todos os casos de DRGE, mas é útil para avaliar complicações e diagnósticos mucosos alternativos. pHmetria e impedanciometria-pH têm indicações selecionadas, especialmente quando é necessário correlacionar sintomas com episódios de refluxo ou caracterizar refluxo ácido e não ácido.
Mensagem de prova: lactente que regurgita, mas cresce bem e não apresenta sinais de alarme geralmente tem RGE fisiológico: orientar, evitar superalimentação e manter aleitamento. Não prescrever IBP apenas para 'golfadas' ou choro.
Objetivos de aprendizagem
01
Diferenciar refluxo gastroesofágico fisiológico de doença do refluxo gastroesofágico.
02
Reconhecer o padrão fisiológico do refluxo no lactente.
03
Identificar sinais de alarme que exigem investigação.
04
Diferenciar regurgitação de vômito.
05
Reconhecer o lactente saudável com regurgitação fisiológica.
06
Selecionar corretamente os exames complementares.
07
Compreender as indicações da pHmetria e da impedanciometria-pH.
08
Aplicar medidas não farmacológicas no lactente.
09
Reconhecer quando considerar alergia à proteína do leite de vaca.
10
Evitar supressão ácida desnecessária.
11
Definir indicações dos inibidores da bomba de prótons.
12
Reconhecer situações de DRGE refratária e indicação de gastroenterologia pediátrica.
Visão rápida
Definição
RGE = passagem de conteúdo gástrico ao esôfago; DRGE = RGE associado a sintomas incômodos e/ou complicações.
Como reconhecer
Lactente com regurgitações, bom estado geral e ganho ponderal adequado geralmente apresenta RGE fisiológico.
Conduta principal
Evitar superalimentação, manter aleitamento, considerar espessamento; investigar red flags e reservar supressão ácida para indicações de DRGE.
Pérola de prova
Regurgitação visível ou choro isolado em lactente saudável NÃO é indicação de IBP ou antagonista H2.
Introdução
O RGE é particularmente comum no primeiro ano de vida. A Sociedade Brasileira de Pediatria ressalta que ele é um evento fisiológico normal, especialmente nos primeiros meses, com resolução espontânea no primeiro ano na maioria das crianças.
O desafio clínico não é provar que algum refluxo ocorre — isso acontece também em indivíduos saudáveis —, mas determinar se existe relação entre o refluxo e sintomas clinicamente relevantes ou complicações.
A medicalização do RGE fisiológico expõe lactentes a exames, fórmulas especiais e medicamentos sem benefício demonstrado. Por isso, diretrizes atuais enfatizam educação familiar, redução da supressão ácida e investigação guiada por sinais de alarme.
Conceitos fundamentais
RGE fisiológico
Passagem de conteúdo gástrico para o esôfago com ou sem exteriorização.
Comum em lactentes saudáveis.
Não compromete crescimento ou estado geral.
Tende a melhorar espontaneamente com maturação.
Não exige tratamento farmacológico.
DRGE
O refluxo causa sintomas incômodos e/ou complicações.
Pode associar-se a esofagite, dor, disfagia, hematêmese ou prejuízo nutricional.
Em crianças maiores, sintomas típicos incluem pirose e dor retroesternal/epigástrica.
O diagnóstico depende da integração entre clínica e, quando necessário, investigação dirigida.
Regurgitação versus vômito
Regurgitação: retorno passivo do conteúdo gástrico à boca.
Vômito: expulsão mais vigorosa do conteúdo gástrico, geralmente acompanhada de contrações musculares.
Vômitos persistentes, biliosos ou em jato exigem avaliação para diagnósticos alternativos.
Happy spitter
Lactente com regurgitação frequente, porém confortável.
Alimenta-se adequadamente.
Apresenta crescimento normal.
Não possui sinais de alarme.
Representa apresentação clássica de RGE fisiológico.
Etiologia e fatores de risco
Por que o refluxo é comum no lactente?
Imaturidade funcional da junção gastroesofágica.
Relaxamentos transitórios do esfíncter esofágico inferior.
Alimentação predominantemente líquida.
Grande volume alimentar em relação à capacidade gástrica.
Maior tempo em posição horizontal.
Maturação progressiva reduz a frequência do fenômeno ao longo do primeiro ano.
Condições associadas a maior risco de DRGE/complicações
Doenças neurológicas.
Alterações anatômicas do esôfago.
Atresia de esôfago previamente corrigida.
Hérnia hiatal.
Doenças respiratórias crônicas selecionadas.
Obesidade em crianças maiores.
Outras condições crônicas complexas podem modificar apresentação e manejo.
Diagnósticos que podem mimetizar refluxo
Alergia à proteína do leite de vaca.
Estenose hipertrófica do piloro.
Malrotação intestinal/volvo.
Infecção urinária.
Infecções sistêmicas.
Doenças metabólicas.
Doenças neurológicas.
Esofagite eosinofílica em crianças maiores.
Quadro clínico
RGE fisiológico
Regurgitação pós-prandial.
Pequenas golfadas.
Bom estado geral.
Boa aceitação alimentar.
Ganho ponderal adequado.
Ausência de sinais de complicação.
Achados que podem ocorrer na DRGE
Recusa alimentar.
Dor ou irritabilidade relacionada à alimentação.
Disfagia ou odinofagia.
Pirose em crianças capazes de relatá-la.
Dor retroesternal ou epigástrica.
Hematêmese.
Anemia secundária a sangramento gastrointestinal em situações selecionadas.
Falha de crescimento.
Esofagite erosiva.
Sintomas extraesofágicos
Tosse, sibilância, rouquidão e outros sintomas respiratórios podem coexistir com refluxo.
A associação temporal não estabelece necessariamente causalidade.
Diretrizes atuais desencorajam atribuir automaticamente sintomas respiratórios ou laríngeos à DRGE.
Na ausência de sintomas típicos ou testes sugestivos, não se recomenda supressão ácida apenas por manifestações extraesofágicas.
Sinais de alarme
Perda de peso ou falha de crescimento.
Letargia.
Febre.
Irritabilidade excessiva ou dor persistente.
Vômitos biliosos.
Vômitos persistentemente em jato.
Hematêmese.
Distensão abdominal.
Sangramento retal.
Diarreia crônica.
Fontanela abaulada ou sinais neurológicos.
Convulsões.
Macrocefalia ou microcefalia.
Início de regurgitação/vômitos após 6 meses.
Persistência importante além de 12–18 meses.
Diagnóstico
Avaliação inicial
História clínica e exame físico são a base.
Documentar curva de crescimento.
Avaliar volume e frequência das mamadas.
Caracterizar regurgitação/vômito: frequência, volume, relação com alimentação, presença de bile ou sangue.
Pesquisar disfagia, dor, sintomas respiratórios e sinais de alarme.
Em lactente saudável com crescimento normal e apresentação típica, exames geralmente não são necessários.
Diagnóstico de DRGE
Não existe um único teste considerado padrão-ouro para todos os pacientes.
Em crianças maiores com sintomas típicos, a resposta a um curso curto de supressão ácida pode integrar a abordagem clínica.
Em lactentes, teste empírico com IBP não deve ser utilizado como método diagnóstico para choro ou regurgitação inespecífica.
Endoscopia digestiva alta
Não deve ser utilizada isoladamente como teste para diagnosticar ou excluir toda DRGE.
É indicada para avaliar complicações, como esofagite erosiva.
Permite biópsias quando há suspeita de doença mucosa alternativa, como esofagite eosinofílica.
Pode ser considerada antes de escalonamento terapêutico em casos selecionados.
pHmetria esofágica
Quantifica exposição esofágica ao ácido.
Pode auxiliar na correlação entre sintomas e refluxo ácido.
Não detecta adequadamente episódios não ácidos, particularmente relevantes em lactentes alimentados frequentemente.
Impedanciometria intraluminal multicanal associada à pHmetria
Detecta episódios de refluxo ácido e não ácido.
Permite avaliar direção e extensão do bolus no esôfago.
Pode correlacionar eventos de refluxo com sintomas.
É especialmente útil em situações selecionadas nas quais a relação sintoma-refluxo precisa ser esclarecida.
Estudo contrastado do trato gastrointestinal superior
Não diagnostica DRGE.
Pode ser útil para excluir alterações anatômicas, como malrotação, estenoses ou outras anormalidades estruturais.
Ultrassonografia
Não é recomendada para diagnosticar DRGE.
Pode ser utilizada para investigar diagnósticos anatômicos alternativos, especialmente estenose hipertrófica do piloro em contexto compatível.
Diagnósticos diferenciais
Alergia à proteína do leite de vaca.
Estenose hipertrófica do piloro.
Obstrução intestinal.
Malrotação/volvo.
Infecção urinária.
Gastroenterite.
Doença celíaca em faixa etária pertinente.
Esofagite eosinofílica.
Distúrbios de motilidade.
Doenças metabólicas e neurológicas.
Tratamento
Lactente com RGE fisiológico
Orientar e tranquilizar os cuidadores.
Explicar história natural e tendência à resolução espontânea.
Manter aleitamento materno.
Evitar superalimentação.
Ajustar volume e frequência das mamadas conforme idade e peso.
Não utilizar supressão ácida para simples regurgitação.
Espessamento da alimentação
Pode ser considerado em lactentes com regurgitação ou vômito visível frequente.
Reduz principalmente episódios de regurgitação visível; não significa necessariamente redução equivalente de todos os eventos de refluxo.
Escolha do espessante deve considerar idade, tipo de alimentação e segurança.
Não utilizar estratégias que comprometam aporte nutricional.
Posicionamento e sono seguro
Apesar de determinadas posições reduzirem refluxo em estudos fisiológicos, a segurança do sono prevalece.
Lactentes devem dormir em decúbito dorsal sobre superfície firme e plana.
Não recomendar posição prona ou lateral durante o sono como tratamento de refluxo.
Não elevar rotineiramente o berço como estratégia de tratamento do lactente.
Quando considerar proteína do leite de vaca
Sintomas de alergia à proteína do leite de vaca e DRGE podem se sobrepor.
Se medidas iniciais falharem e a hipótese for plausível, considerar teste de 2–4 semanas.
Em lactente alimentado por fórmula: utilizar fórmula extensamente hidrolisada; fórmula de aminoácidos pode ser necessária em situações selecionadas.
Em aleitamento materno: considerar exclusão materna de proteína do leite de vaca quando clinicamente indicada.
Reintrodução/provocação posterior é importante para evitar diagnóstico e dieta de exclusão indevidos.
Supressão ácida
Não utilizar IBP ou antagonista do receptor H2 para choro/irritabilidade isolados em lactentes saudáveis.
Não utilizar IBP ou antagonista H2 para regurgitação visível isolada em lactentes saudáveis.
IBP é primeira escolha para esofagite erosiva relacionada à DRGE.
Antagonista H2 pode ser considerado quando IBP não está disponível ou é contraindicado.
Em crianças com sintomas típicos de DRGE, considerar tratamento por 4–8 semanas e reavaliar.
Utilizar a menor duração necessária e revisar periodicamente a indicação.
Procinéticos
Metoclopramida não é recomendada para tratamento rotineiro da DRGE pediátrica.
Domperidona não é recomendada rotineiramente.
Eritromicina e outros procinéticos não são primeira linha para DRGE.
Baclofeno pode ser considerado apenas em casos selecionados e refratários, geralmente sob especialista e antes de cirurgia.
Cirurgia antirrefluxo
Fundoplicatura pode ser considerada em pacientes cuidadosamente selecionados.
Indicações possíveis incluem DRGE confirmada com complicações graves e falha de tratamento otimizado.
É fundamental excluir diagnósticos alternativos antes da cirurgia.
Riscos, recorrência e complicações pós-operatórias devem ser discutidos.
Seguimento
Reavaliar eficácia após 4–8 semanas de terapia para DRGE.
Se não houver resposta, verificar adesão e reconsiderar diagnósticos diferenciais.
Tentar retirada da supressão ácida quando clinicamente possível.
Encaminhar à gastroenterologia pediátrica diante de sinais de alarme, refratariedade ou impossibilidade de retirada do tratamento farmacológico em 6–12 meses.
Doses e prescrições
Inibidores da bomba de prótons
Utilizados principalmente na esofagite erosiva e em crianças maiores com sintomas típicos selecionados.