Desidratação: Diagnóstico e Conduta — MedVerse · MedVerse
Resumo HARD · Atualizado em 02 de set. de 2026
Desidratação: Diagnóstico e Conduta
Avaliação clínica, déficit hídrico, Planos A/B/C, choque e distúrbios do sódio na criança
Arthur MedVerse
·70 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
A desidratação pediátrica é a redução do conteúdo corporal de água, geralmente acompanhada de perdas eletrolíticas. Na infância, gastroenterite aguda é uma das causas mais frequentes, mas vômitos, febre, baixa ingestão, perdas renais, queimaduras e outras condições também podem produzi-la.
Lactentes apresentam maior vulnerabilidade por possuírem maior proporção de água corporal, maior superfície corporal relativa, maior necessidade hídrica por quilograma e menor capacidade de comunicar ou corrigir voluntariamente as perdas.
Na criança com diarreia, o Ministério da Saúde utiliza uma classificação clínica em sem desidratação, com desidratação e desidratação grave. A decisão terapêutica deve ser baseada no conjunto dos sinais, e não em um achado isolado.
Os sinais mais úteis incluem estado mental, olhos, capacidade e padrão de ingestão, sede, pulso, perfusão e retorno da prega cutânea. Letargia, incapacidade de beber, pulso fraco/ausente e retorno muito lento da prega sugerem maior gravidade.
Quando existe peso prévio confiável, a perda percentual de peso é uma das melhores formas de estimar déficit hídrico: percentual de desidratação = (peso habitual − peso atual) / peso habitual × 100.
A solução de sais de reidratação oral (SRO) é preferível sempre que a criança não apresenta choque, alteração grave de consciência, íleo ou outra contraindicação. No Plano B, a referência internacional clássica é 75 mL/kg em aproximadamente 4 horas, com ajuste pela sede e pelas perdas em curso.
Na desidratação grave associada à diarreia, o Plano C utiliza solução isotônica por via endovenosa. Em menores de 1 ano, 30 mL/kg são administrados na primeira hora e 70 mL/kg nas 5 horas seguintes; em crianças ≥1 ano, 30 mL/kg em 30 minutos e 70 mL/kg nas 2 horas e 30 minutos seguintes.
Choque hipovolêmico exige estabilização imediata. A expansão deve utilizar cristaloide isotônico, com reavaliação frequente de frequência cardíaca, pulsos, enchimento capilar, pressão arterial, estado mental e diurese. Crianças com desnutrição grave, cardiopatia ou doença renal exigem estratégias específicas e maior cautela.
A composição sérica de sódio permite classificar a desidratação em isotônica, hipotônica e hipertônica. A desidratação hipernatrêmica exige correção controlada, pois queda excessivamente rápida da natremia aumenta risco de edema cerebral.
A glicemia deve ser verificada precocemente na criança gravemente enferma, especialmente lactentes, pacientes com alteração de consciência ou baixa ingestão prolongada. Distúrbios de sódio, potássio, bicarbonato e função renal devem ser pesquisados quando a desidratação é grave ou o quadro é atípico.
Mensagem de prova: criança com desidratação e capacidade de beber → SRO; desidratação grave → Plano C; choque → estabilização com cristaloide isotônico e reavaliação; hipernatremia → corrigir lentamente.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer a fisiopatologia da desidratação na infância.
02
Classificar clinicamente o estado de hidratação.
03
Estimar o déficit hídrico pela perda percentual de peso.
04
Diferenciar desidratação isotônica, hipotônica e hipertônica.
05
Aplicar os Planos A, B e C na doença diarreica.
06
Reconhecer quando a reidratação oral é preferível.
07
Indicar expansão endovenosa na desidratação grave e no choque.
08
Calcular déficit hídrico e necessidades de manutenção.
09
Reconhecer riscos da correção inadequada da hipernatremia.
10
Identificar situações que exigem investigação laboratorial e internação.
Visão rápida
Definição
Déficit de água corporal acompanhado, em graus variáveis, de alterações eletrolíticas e hemodinâmicas.
Como reconhecer
Estado mental, olhos, sede/capacidade de beber, pulso, perfusão e prega cutânea são fundamentais; perda de peso é a referência quantitativa quando disponível.
Conduta principal
Via oral sempre que possível; Plano B para desidratação sem gravidade; Plano C para desidratação grave; choque requer ressuscitação imediata.
Pérola de prova
Não espere hipotensão para reconhecer choque em criança: hipotensão é sinal tardio de falência circulatória.
Introdução
A criança pode perder proporcionalmente grandes volumes de água em curto intervalo. A avaliação precoce da perfusão e do déficit hídrico é essencial para impedir progressão para choque e lesão renal.
Nenhum sinal clínico isolado possui sensibilidade e especificidade suficientes para definir o grau de desidratação. A avaliação deve integrar múltiplos achados e ser repetida após cada intervenção.
Na gastroenterite, a terapia de reidratação oral revolucionou a redução de mortalidade e permanece o tratamento preferencial para desidratação leve a moderada quando a via gastrointestinal é utilizável.
Conceitos fundamentais
Compartimentos corporais
Água corporal total é proporcionalmente maior no lactente do que no adulto.
O líquido extracelular representa parcela relativamente maior nos primeiros meses de vida.
Perdas gastrointestinais rápidas podem produzir redução importante do volume extracelular e da perfusão.
Déficit hídrico
1 kg de perda aguda de peso corresponde aproximadamente a 1 litro de perda de água.
Déficit em mL ≈ percentual de desidratação × peso prévio em kg × 10.
Exemplo: criança de 10 kg com perda de 5% apresenta déficit aproximado de 500 mL.
O cálculo é uma estimativa e deve ser confrontado com exame clínico e evolução.
Manutenção hídrica — Holliday-Segar
Primeiros 10 kg: 100 mL/kg/dia.
De 10 a 20 kg: acrescentar 50 mL/kg/dia para cada kg acima de 10.
Acima de 20 kg: acrescentar 20 mL/kg/dia para cada kg acima de 20.
Regra horária 4-2-1: 4 mL/kg/h para os primeiros 10 kg; 2 mL/kg/h para os próximos 10 kg; 1 mL/kg/h para cada kg acima de 20.
Reposição não é manutenção
Ressuscitação corrige hipoperfusão ameaçadora à vida.
Perdas em curso devem ser repostas separadamente quando clinicamente relevantes.
Etiologia e fatores de risco
Causas frequentes
Gastroenterite aguda com diarreia e/ou vômitos.
Febre e aumento de perdas insensíveis.
Baixa ingestão oral.
Diabetes mellitus com diurese osmótica.
Diabetes insipidus.
Uso de diuréticos.
Doenças renais com perda de sal.
Queimaduras e perdas cutâneas extensas.
Maior risco
Lactentes, especialmente <6 meses.
Baixo peso e desnutrição.
Vômitos persistentes.
Evacuações muito frequentes ou volumosas.
Febre alta.
Impossibilidade de acesso regular a líquidos.
Doença neurológica ou incapacidade de comunicar sede.
Doença renal ou cardíaca.
Imunossupressão.
Quadro clínico
Achados iniciais
Sede.
Irritabilidade.
Redução de lágrimas.
Mucosas secas.
Olhos fundos.
Taquicardia.
Redução da diurese.
Progressão
Enchimento capilar prolongado.
Pulsos periféricos reduzidos.
Extremidades frias.
Taquipneia.
Letargia.
Oligúria importante.
Prega cutânea com retorno lento ou muito lento.
Choque hipovolêmico
Taquicardia geralmente precede hipotensão.
Pulsos periféricos fracos.
Extremidades frias e perfusão reduzida.
Alteração do estado mental.
Oligúria/anúria.
Hipotensão é sinal tardio e indica descompensação.
Desidratação hipernatrêmica
Pode apresentar sinais externos de desidratação menos exuberantes do que o déficit real.
Irritabilidade, hipertonia, hiperreflexia ou alteração neurológica podem ocorrer.
Convulsões podem surgir em hipernatremia grave ou durante correção inadequadamente rápida.
Diagnóstico
Avaliação clínica sistemática
Obter peso atual e peso habitual recente quando disponível.
Avaliar estado mental.
Avaliar olhos e mucosas.
Observar lágrimas.
Avaliar sede e capacidade de beber.
Palpar pulsos e verificar enchimento capilar.
Avaliar temperatura das extremidades.
Examinar prega cutânea.
Quantificar diurese.
Reavaliar após intervenção.
Classificação do Ministério da Saúde na diarreia
Sem desidratação: ausência de sinais suficientes para classificar desidratação.
Com desidratação: combinação de sinais como irritabilidade, olhos fundos, sede intensa e prega que retorna lentamente.
Desidratação grave: combinação de sinais de maior gravidade, incluindo letargia/inconsciência, incapacidade de beber, pulso fraco ou ausente e prega com retorno muito lento.
Na dúvida entre duas categorias, adotar a de maior gravidade.
Após estabilização inicial, soluções de manutenção frequentemente necessitam glicose para prevenir cetose e hipoglicemia, especialmente em crianças pequenas.
Conduta na urgência e emergência
Abordagem inicial
Avaliar via aérea, respiração e circulação.
Reconhecer imediatamente choque ou alteração grave de consciência.
Obter peso e glicemia quando possível sem atrasar ressuscitação.
Obter acesso vascular/intraósseo se instabilidade.
Iniciar cristaloide isotônico quando indicado.
Reavaliar perfusão após cada intervenção.
Critérios que favorecem internação
Desidratação grave.
Choque.
Alteração do estado mental.
Falha de reidratação oral supervisionada.
Vômitos persistentes impedindo hidratação.
Distúrbio eletrolítico relevante.
Hipernatremia significativa.
Doença renal ou cardíaca relevante.
Condição social que impeça hidratação e vigilância seguras em casa.
Metas de resposta
Melhora do estado mental.
Normalização progressiva da frequência cardíaca.
Pulsos periféricos melhores.
Enchimento capilar adequado.
Extremidades aquecidas.
Retorno da diurese.
Capacidade de beber.
Redução dos sinais clínicos de desidratação.
Doses e prescrições
Plano B
SRO: aproximadamente 75 mL/kg VO ou por sonda nasogástrica em 4 horas.
Faixa operacional utilizada em protocolos nacionais: 50–100 mL/kg em 4–6 horas, guiada por sede e resposta.
Reavaliar continuamente; não aguardar obrigatoriamente 4 horas se a criança piorar.
Plano C — <1 ano
Solução isotônica: 30 mL/kg EV na primeira hora.
Depois: 70 mL/kg EV nas 5 horas seguintes.
Total programado: 100 mL/kg em 6 horas, com reavaliações frequentes.
Plano C — ≥1 ano
Solução isotônica: 30 mL/kg EV em 30 minutos.
Depois: 70 mL/kg EV nas 2 horas e 30 minutos seguintes.
Total programado: 100 mL/kg em 3 horas, com reavaliações frequentes.
Manutenção diária — Holliday-Segar
0–10 kg: 100 mL/kg/dia.
10–20 kg: 1000 mL + 50 mL/kg para cada kg acima de 10.
>20 kg: 1500 mL + 20 mL/kg para cada kg acima de 20.
Manutenção horária — regra 4-2-1
Primeiros 10 kg: 4 mL/kg/h.
Próximos 10 kg: 2 mL/kg/h.
Acima de 20 kg: 1 mL/kg/h para cada kg adicional.
Exemplo de déficit
Criança com peso habitual de 10 kg e perda estimada de 8%: déficit ≈ 800 mL.
Esse déficit não inclui manutenção nem perdas que continuarem ocorrendo.
Algoritmos e fluxogramas
Criança com suspeita de desidratação
Pesquisar choque.
Se choque → ressuscitação com cristaloide isotônico + reavaliação.
Se sem choque → avaliar sinais clínicos de hidratação.
Sem desidratação → Plano A.
Com desidratação e consegue beber → Plano B.
Desidratação grave → Plano C.
Reavaliar após tratamento.
Investigar eletrólitos/glicemia quando gravidade ou contexto indicarem.
Hipernatremia
Confirmar sódio elevado.
Se choque → restaurar perfusão com isotônico.
Calcular déficit e necessidades de manutenção.
Planejar correção lenta.
Monitorizar sódio seriado.
Ajustar velocidade para evitar queda excessiva.
Vigiar alterações neurológicas.
O que mais cai
Peso prévio confiável é a melhor referência quantitativa para estimar desidratação.
1 kg de perda aguda de peso ≈ 1 L de água.
Plano B → SRO, referência de 75 mL/kg em 4 horas.
Plano C → solução isotônica EV.
<1 ano: 30 mL/kg em 1 h + 70 mL/kg em 5 h.
≥1 ano: 30 mL/kg em 30 min + 70 mL/kg em 2,5 h.
Choque pediátrico pode existir com pressão arterial normal.
Hipotensão é sinal tardio de choque.
Reidratação oral é preferível à EV quando clinicamente possível.
Vômito isolado não contraindica SRO.
Desidratação hipernatrêmica pode parecer clinicamente menos intensa.
Hipernatremia deve ser corrigida lentamente.
Potássio só deve ser acrescentado após avaliação renal e diurese.
Déficit, manutenção e perdas em curso são componentes diferentes da fluidoterapia.
Erros comuns
Esperar hipotensão para diagnosticar choque.
Classificar desidratação por um único sinal.
Usar acesso venoso automaticamente em toda criança desidratada.
Abandonar SRO porque a criança vomitou uma vez.
Confundir ressuscitação, déficit e manutenção.
Administrar solução hipotônica para expansão inicial.
Dar grandes volumes repetidos sem reavaliar perfusão.
Adicionar potássio antes de confirmar diurese.
Corrigir hipernatremia rapidamente.
Não verificar glicemia em criança grave ou com alteração de consciência.
Não contabilizar perdas em curso.
Usar fórmula de manutenção como se corrigisse o déficit.
Ignorar cardiopatia, nefropatia ou desnutrição grave ao planejar fluidos.
Para lembrar
DESIDRATAÇÃO → OLHE PERFUSÃO PRIMEIRO.
PRESSÃO NORMAL NÃO EXCLUI CHOQUE.
PESO PERDIDO → melhor estimativa do déficit.
1 kg ≈ 1 L.
PLANO A → SEM DESIDRATAÇÃO.
PLANO B → SRO.
PLANO B → ~75 mL/kg / 4 h.
PLANO C → EV ISOTÔNICO.
<1 ANO → 30/70 em 1 h + 5 h.
≥1 ANO → 30/70 em 30 min + 2,5 h.
VÔMITO ≠ contraindicação absoluta à SRO.
HIPERNATREMIA → CORRIGIR DEVAGAR.
K+ → somente após diurese/função renal.
DÉFICIT ≠ MANUTENÇÃO ≠ PERDAS EM CURSO.
Referências
1.
Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Ministério da Saúde.
Manejo do paciente com diarreia: avaliação do estado do paciente.