Fraturas, luxações, urgências ortopédicas e princípios do trauma musculoesquelético
Arthur MedVerse
·27 min de leitura·Intermediário
Neste artigo
Resumo executivo
Ortopedia — Panorama Geral organiza o raciocínio das principais condições musculoesqueléticas cobradas em provas: trauma, fraturas, luxações, lesões ligamentares e tendíneas, urgências ameaçadoras do membro, ortopedia pediátrica, doenças degenerativas, infecção osteoarticular e tumores ósseos.
No trauma, a prioridade é reconhecer primeiro situações que ameaçam vida ou membro. Depois da estabilização global, toda lesão de extremidade deve ser examinada sistematicamente quanto a deformidade, pele, perfusão, pulsos, sensibilidade e função motora, documentando o estado neurovascular antes e depois de redução ou imobilização.
Fratura exposta é qualquer fratura que se comunica com o meio externo por uma ferida, ainda que o osso não esteja visível. É uma urgência ortopédica pelo risco de contaminação, infecção e lesão de partes moles.
Síndrome compartimental aguda é emergência cirúrgica. Dor desproporcional e dor à mobilização passiva são sinais precoces importantes; ausência de pulso é achado tardio e não deve ser aguardada.
O tratamento ortopédico pode ser conservador ou cirúrgico. Os objetivos fundamentais são restaurar alinhamento, comprimento e rotação quando necessários, preservar vascularização e partes moles, obter estabilidade suficiente para consolidação e recuperar função com mobilização e reabilitação adequadas.
Objetivos de aprendizagem
01
Estruturar a avaliação inicial de uma lesão musculoesquelética.
02
Diferenciar fraturas fechadas e expostas e reconhecer padrões básicos de fratura.
03
Realizar e documentar avaliação neurovascular antes e após manipulação.
04
Reconhecer síndrome compartimental aguda e outras emergências ortopédicas.
05
Compreender os princípios de redução, imobilização e fixação de fraturas.
06
Reconhecer os principais grupos de doenças ortopédicas cobrados em provas.
07
Identificar particularidades fundamentais da ortopedia pediátrica e do idoso.
Visão rápida
Pérola de prova
Pulso presente não exclui síndrome compartimental; dor desproporcional e dor à extensão passiva são sinais de alerta mais precoces.
Introdução
A ortopedia abrange doenças traumáticas, degenerativas, infecciosas, congênitas, metabólicas e neoplásicas do sistema musculoesquelético. Em provas de residência, o conteúdo costuma privilegiar reconhecimento de padrões, interpretação de radiografias, conduta inicial e identificação de urgências.
Uma estratégia eficiente é separar o raciocínio em trauma versus condições não traumáticas. No trauma, deve-se pensar em estabilidade do paciente, ameaça vascular, exposição óssea, síndrome compartimental, alinhamento e estabilidade. Nas condições não traumáticas, idade, localização, tempo de evolução, sintomas sistêmicos e características da dor direcionam o diagnóstico.
Conceitos fundamentais
Descrição de uma fratura
Osso e segmento anatômico acometido.
Localização: proximal, diáfise ou distal; relação com articulação quando pertinente.
Padrão do traço: transversal, oblíquo, espiral, cominutivo, impactado ou outros.
Desvio: translação, angulação, encurtamento e rotação.
Aberta/exposta ou fechada.
Estável ou instável conforme padrão e contexto.
Consolidação óssea
A consolidação depende de estabilidade mecânica adequada e ambiente biológico favorável.
Consolidação secundária ocorre com formação de calo e é típica de estabilidade relativa.
Consolidação primária pode ocorrer com estabilidade absoluta e mínima formação de calo visível.
Tabagismo, infecção, comprometimento vascular, grande lesão de partes moles e instabilidade podem prejudicar consolidação.
Retenção/estabilização: manter a redução até consolidação.
Reabilitação: preservar ou recuperar mobilidade, força e função.
Nem toda fratura exige redução anatômica perfeita; a necessidade depende do osso, articulação, idade, estabilidade e tolerância funcional ao desvio.
Etiologia e fatores de risco
Mecanismos de lesão
Trauma direto: força aplicada diretamente ao local da lesão.
Trauma indireto: força transmitida à distância, como torção ou queda com apoio.
Alta energia: maior risco de cominuição, lesão vascular, síndrome compartimental e dano de partes moles.
Baixa energia em osso fragilizado: pensar em osteoporose ou fratura patológica.
Fratura por fragilidade
Ocorre após trauma de baixa energia em osso com resistência reduzida.
Em idosos, fratura de quadril, vértebra, úmero proximal e rádio distal são apresentações importantes.
Uma fratura por fragilidade deve motivar avaliação de saúde óssea e prevenção de novas fraturas.
Fratura patológica
Ocorre através de osso alterado por doença focal ou sistêmica.
Neoplasia, doença metabólica e infecção entram no diagnóstico diferencial conforme idade e contexto.
Quadro clínico
Trauma
Dor localizada, edema, equimose, impotência funcional e deformidade podem sugerir fratura ou luxação.
Crepitação não precisa ser provocada e manipulações desnecessárias devem ser evitadas.
Ferida próxima a uma fratura deve levantar suspeita de fratura exposta até avaliação adequada.
Exame neurovascular
Avaliar pulsos, perfusão e enchimento capilar distal.
Documentar sensibilidade em territórios nervosos relevantes.
Testar função motora dos nervos periféricos quando possível.
Repetir o exame após redução, imobilização e qualquer mudança clínica.
Sinais de alarme
Extremidade fria, pálida ou sem perfusão adequada.
Déficit neurológico progressivo.
Dor intensa desproporcional ou crescente apesar de analgesia.
Dor provocada por alongamento passivo dos músculos do compartimento.
Fratura exposta, luxação com comprometimento neurovascular ou deformidade com tensão importante da pele.
Diagnóstico
Radiografia
É o exame inicial de escolha na maioria das suspeitas de fratura e luxação.
Sempre que possível, obter pelo menos duas incidências ortogonais.
Incluir as articulações adjacentes quando o padrão da lesão ou localização exigir.
Radiografia normal não exclui todas as fraturas; fraturas ocultas podem exigir repetição de imagem, tomografia computadorizada ou ressonância magnética conforme suspeita.
Tomografia computadorizada
Útil para caracterizar fraturas complexas, especialmente articulares, pelve, acetábulo e algumas lesões da coluna.
Auxilia planejamento cirúrgico e compreensão tridimensional do padrão de fratura.
Ressonância magnética
Tem grande valor em lesões ligamentares, meniscais, tendíneas, medulares, osteocondrais e fraturas ocultas selecionadas.
Também é importante na investigação de infecção, tumores e alterações da medula óssea.
Ultrassonografia
Pode avaliar tendões, músculos, derrames e algumas estruturas superficiais de forma dinâmica.
Em crianças pequenas, possui aplicações específicas, como avaliação do quadril no contexto apropriado.
Classificações e estratificação
Fraturas expostas — conceito de Gustilo-Anderson
Classifica fraturas expostas conforme energia, extensão da lesão de partes moles, contaminação e comprometimento vascular.
Tipo I: ferida pequena e baixa energia, com menor dano de partes moles.
Tipo II: ferida maior, sem extensa destruição de partes moles.
Tipo III: trauma de alta energia ou lesão extensa; subdivide-se em IIIA, IIIB e IIIC.
IIIC envolve lesão arterial que requer reparo, independentemente do tamanho da ferida.
A classificação definitiva é mais confiável após avaliação cirúrgica da ferida.
Fraturas fisárias — Salter-Harris
Tipo I: atravessa a fise.
Tipo II: fise + metáfise.
Tipo III: fise + epífise.
Tipo IV: metáfise + fise + epífise.
Tipo V: compressão/esmagamento da fise.
Lesões que atravessam a superfície articular, especialmente III e IV, exigem atenção ao alinhamento anatômico.
Tratamento
Tratamento conservador
Indicado em diversas fraturas estáveis ou com alinhamento aceitável.
Pode incluir tipoia, órtese, tala ou aparelho gessado.
Requer acompanhamento para detectar perda secundária da redução, complicações da imobilização e evolução da consolidação.
Redução fechada
Manipulação sem exposição cirúrgica do foco.
Indicada em diversas fraturas desviadas e luxações quando redução urgente ou restauração do alinhamento é necessária.
Exame neurovascular deve ser registrado antes e depois.
Tratamento cirúrgico
Pode ser indicado em fraturas instáveis, intra-articulares desviadas, expostas, associadas a lesões vasculares, falha do tratamento conservador e outras situações específicas.
Fixação interna pode utilizar placas, parafusos, hastes intramedulares ou outros implantes.
Fixação externa pode ser temporária em controle de danos ou definitiva em situações selecionadas.
Reabilitação
Mobilização apropriada reduz rigidez e perda funcional.
Carga e amplitude de movimento dependem da estabilidade da lesão, método de tratamento e orientação especializada.
Conduta na urgência e emergência
Fratura exposta
Realizar avaliação inicial do trauma e controlar hemorragias ameaçadoras à vida.
Documentar exame neurovascular.
Cobrir a ferida com curativo estéril; evitar exploração repetida no pronto atendimento.
Imobilizar o membro.
Administrar antibiótico sistêmico precocemente conforme protocolo institucional e perfil da lesão.
Avaliar profilaxia antitetânica.
Acionar ortopedia para irrigação/desbridamento cirúrgico e estabilização conforme indicação.
Síndrome compartimental aguda
Suspeitar diante de dor progressiva/desproporcional, compartimento tenso e dor ao alongamento passivo.
Remover ou afrouxar curativos, talas ou gessos constritivos enquanto ocorre avaliação urgente.
Manter avaliação clínica seriada; em pacientes com exame pouco confiável ou quadro duvidoso, pressão compartimental pode auxiliar.
Não aguardar ausência de pulso, paralisia ou outros sinais tardios.