Fisiopatologia, CEAP, eco-Doppler, terapia compressiva e tratamento do refluxo venoso
Arthur MedVerse
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Neste artigo
Resumo executivo
A doença venosa crônica (DVC) compreende alterações morfológicas e funcionais persistentes do sistema venoso, manifestando-se desde telangiectasias e varizes até edema, alterações cutâneas e úlcera venosa. O termo
insuficiência venosa crônica (IVC)
costuma ser reservado às formas mais avançadas, nas quais há edema ou alterações tróficas decorrentes de hipertensão venosa sustentada.
A fisiopatologia central é a hipertensão venosa ambulatorial, causada por refluxo, obstrução venosa ou combinação de ambos. Incompetência valvar e falha da bomba muscular da panturrilha mantêm pressão elevada durante a marcha, levando a inflamação microcirculatória, edema, hiperpigmentação, eczema, lipodermatoesclerose e, nos casos avançados, ulceração.
O diagnóstico é predominantemente clínico, complementado pelo eco-Doppler venoso, exame de escolha para documentar refluxo e obstrução e mapear os sistemas superficial, profundo e perfurante. A classificação Clínica-Etiológica-Anatômica-Fisiopatológica (CEAP) padroniza a descrição da doença: C0 sem sinais visíveis; C1 telangiectasias/veias reticulares; C2 varizes; C3 edema; C4 alterações cutâneas; C5 úlcera cicatrizada; C6 úlcera ativa.
O tratamento conservador inclui exercício, redução de peso quando apropriado, elevação dos membros, cuidados com a pele e terapia compressiva. A compressão melhora sintomas e edema e é pilar no tratamento da úlcera venosa, mas a perfusão arterial deve ser avaliada quando houver suspeita de doença arterial periférica.
Fármacos venoativos podem ser utilizados para alívio de sintomas e edema em pacientes selecionados, mas não corrigem refluxo ou obstrução. Quando há refluxo venoso superficial sintomático, o tratamento intervencionista pode ser indicado. A ablação térmica endovenosa é estratégia preferencial para muitos casos de insuficiência de veia safena; escleroterapia e cirurgia convencional permanecem alternativas conforme anatomia, recursos e perfil do paciente.
Na úlcera venosa ativa associada a refluxo superficial, a correção precoce do refluxo combinada à compressão pode acelerar a cicatrização e reduzir recorrência. Após cicatrização, manutenção da compressão e tratamento da hipertensão venosa são fundamentais.
Para prova, três ideias resolvem grande parte das questões: CEAP classifica gravidade clínica; eco-Doppler define anatomia e fisiopatologia; compressão trata hipertensão venosa, enquanto intervenção corrige refluxo selecionado.
Objetivos de aprendizagem
01
Diferenciar doença venosa crônica de insuficiência venosa crônica.
02
Compreender refluxo, obstrução e hipertensão venosa ambulatorial.
03
Reconhecer manifestações clínicas desde telangiectasias até úlcera.
04
Aplicar corretamente a classificação CEAP.
05
Selecionar o eco-Doppler para avaliação anatômica e fisiopatológica.
06
Conhecer as medidas conservadoras e indicações de compressão.
07
Reconhecer situações que exigem avaliação arterial antes da compressão.
08
Entender o papel dos fármacos venoativos.
09
Conhecer as principais estratégias de tratamento do refluxo superficial.
10
Aplicar os princípios de tratamento e prevenção da úlcera venosa.
Visão rápida
Definição
Doença venosa persistente por refluxo, obstrução ou ambos; IVC refere-se sobretudo às formas com edema e alterações tróficas.
Como reconhecer
Peso/dor ao fim do dia + edema + varizes + hiperpigmentação/eczema/lipodermatoesclerose, podendo evoluir para úlcera.
Conduta principal
Eco-Doppler para mapear refluxo/obstrução; exercício, elevação e compressão; tratar refluxo superficial sintomático quando indicado.
A DVC é extremamente prevalente e apresenta espectro amplo. A presença de pequenas telangiectasias não possui o mesmo significado clínico de edema persistente, lipodermatoesclerose ou úlcera; por isso, terminologia e classificação importam.
A diretriz brasileira da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular recomenda a utilização da CEAP para padronização e destaca compressão, terapias venoativas e tratamento invasivo selecionado como componentes do manejo.
O raciocínio clínico deve responder três perguntas: há doença venosa? qual mecanismo — refluxo, obstrução ou ambos? qual a gravidade clínica e o impacto para o paciente?
Conceitos fundamentais
Sistema venoso dos membros inferiores
Sistema superficial: inclui principalmente veia safena magna, veia safena parva e tributárias.
Sistema profundo: acompanha os principais eixos arteriais e conduz a maior parte do retorno venoso.
Veias perfurantes conectam sistemas superficial e profundo.
Válvulas venosas direcionam o fluxo e reduzem refluxo durante ortostatismo e marcha.
Bomba muscular da panturrilha
A contração muscular comprime as veias profundas e impulsiona sangue proximalmente.
Válvulas competentes impedem refluxo durante o relaxamento.
Imobilidade, limitação articular e disfunção da bomba favorecem hipertensão venosa.
Refluxo
Fluxo retrógrado patológico decorrente de incompetência valvar.
Pode envolver sistema superficial, profundo ou perfurantes.
Eco-Doppler documenta segmento, extensão e padrão do refluxo.
Obstrução
Pode decorrer de trombose venosa prévia, alterações pós-trombóticas ou compressões venosas.
A obstrução proximal aumenta pressão venosa distal.
Refluxo e obstrução podem coexistir, especialmente na síndrome pós-trombótica.
Hipertensão venosa ambulatorial
É o mecanismo fisiopatológico central das formas avançadas.
A pressão venosa não cai adequadamente durante a marcha.
Promove extravasamento de fluido, inflamação, alterações microcirculatórias e dano cutâneo.
Etiologia e fatores de risco
Doença venosa primária
Degeneração da parede venosa e incompetência valvar sem evento trombótico prévio identificado.
É causa frequente de varizes e refluxo superficial.
Doença venosa secundária
Síndrome pós-trombótica após trombose venosa profunda.
Obstrução residual e destruição valvar podem coexistir.
Trauma e outras causas adquiridas também podem produzir alterações secundárias.
Fatores associados
Idade.
História familiar.
Obesidade.
Gestação e multiparidade.
Longos períodos em ortostatismo ou sedentarismo.
História de trombose venosa profunda.
Redução da mobilidade da articulação do tornozelo e disfunção da bomba da panturrilha.
Síndrome pós-trombótica
Complicação tardia da trombose venosa profunda.
Pode cursar com edema, dor, peso, alterações cutâneas e úlcera.
O mecanismo combina obstrução venosa residual e refluxo por dano valvar.
Quadro clínico
Sintomas
Peso ou cansaço nas pernas.
Dor ou sensação de pressão.
Edema, tipicamente pior ao longo do dia.
Prurido.
Cãibras e desconforto inespecífico podem ocorrer.
Os sintomas frequentemente pioram com ortostatismo prolongado e melhoram com elevação ou caminhada.
Telangiectasias e veias reticulares
Telangiectasias são pequenos vasos intradérmicos visíveis.
Veias reticulares são subdérmicas, geralmente de maior calibre que telangiectasias.
Podem ser predominantemente estéticas ou associadas a sintomas.
Varizes
Veias subcutâneas dilatadas, alongadas e tortuosas.
Podem resultar de refluxo axial ou tributário.
A presença de varizes não define isoladamente a gravidade da hipertensão venosa.
Edema venoso
Predomina em região maleolar/perna distal e costuma aumentar ao final do dia.
Pode regredir parcialmente com elevação e repouso.
Edema persistente exige diagnóstico diferencial com insuficiência cardíaca, doença renal, linfedema, medicamentos e outras causas.
Alterações cutâneas
Hiperpigmentação por depósito de hemossiderina.
Eczema venoso.
Lipodermatoesclerose com fibrose e endurecimento da pele/subcutâneo.
Atrofia branca.
Corona phlebectatica pode indicar doença venosa mais avançada.
Úlcera venosa
Localiza-se tipicamente na região gaiter, especialmente próximo ao maléolo medial.
É geralmente superficial, irregular e exsudativa.
Edema e alterações cutâneas venosas costumam coexistir.
Recorrência é frequente se hipertensão venosa não for controlada.
Diagnóstico
Avaliação clínica
Caracterize sintomas e relação com ortostatismo, marcha e elevação.
Investigue trombose venosa profunda prévia, gestação, procedimentos e história familiar.
Examine o paciente em ortostatismo quando possível.
Mapeie varizes, edema e alterações cutâneas.
Palpe pulsos e procure sinais de doença arterial antes de indicar compressão relevante.
Classifique clinicamente pela CEAP.
Eco-Doppler venoso
É o principal exame complementar para avaliação da DVC.
Identifica refluxo, obstrução, permeabilidade e anatomia venosa.
Deve mapear os segmentos relevantes antes de intervenção.
É realizado com manobras provocativas e posicionamento adequado para avaliação do refluxo.
Tempos de refluxo
Refluxo >0,5 segundo é critério amplamente utilizado em veias superficiais e perfurantes.
Em veias profundas femoral comum, femoral e poplítea, refluxo >1 segundo é critério utilizado por diretrizes internacionais.
Os valores devem ser interpretados junto à técnica do exame e ao segmento estudado.
Quando investigar obstrução proximal
Edema unilateral importante sem explicação superficial suficiente.
História de trombose venosa profunda iliofemoral.
Colaterais suprapúbicas ou abdominais.
Alterações Doppler sugestivas de obstrução proximal.
Doença avançada desproporcional ao refluxo superficial.
Outros exames
Tomografia ou ressonância venosa podem avaliar obstruções pélvicas/abdominais em casos selecionados.
Ultrassonografia intravascular pode ser utilizada durante avaliação/intervenção de obstrução venosa profunda em centros especializados.
Flebografia invasiva não é exame de rotina para varizes simples.
Classificações e estratificação
CEAP — componente clínico
C0: sem sinais visíveis ou palpáveis de doença venosa.
C1: telangiectasias ou veias reticulares.
C2: varizes.
C3: edema.
C4: alterações cutâneas/subcutâneas relacionadas à doença venosa.
C5: úlcera venosa cicatrizada.
C6: úlcera venosa ativa.
Detalhamento de C4
C4a: pigmentação ou eczema.
C4b: lipodermatoesclerose ou atrofia branca.
C4c: corona phlebectatica.
CEAP — demais componentes
E: etiologia — congênita, primária, secundária ou sem causa identificada.
A: anatomia — sistemas superficial, profundo, perfurante ou sem localização identificada.
P: fisiopatologia — refluxo, obstrução, ambos ou sem fisiopatologia identificada.
Sintomático versus assintomático
A classificação pode registrar presença ou ausência de sintomas.
Sintomas incluem dor, peso, sensação de inchaço, prurido e outros atribuíveis à doença venosa.
Venous Clinical Severity Score
O Venous Clinical Severity Score (VCSS) quantifica gravidade e resposta ao tratamento.
Complementa a CEAP em seguimento clínico e pesquisa.
CEAP descreve a doença; VCSS é mais sensível a mudanças ao longo do tempo.
Tratamento
Medidas comportamentais
Estimular caminhada e atividade física.
Exercícios que ativem a bomba muscular da panturrilha são úteis.
Elevação periódica dos membros reduz edema e sintomas em muitos pacientes.
Redução de peso deve ser incentivada quando houver sobrepeso ou obesidade.
Cuidados com a pele são importantes em eczema, ressecamento e doença avançada.
Terapia compressiva
É recomendada para tratamento sintomático da IVC.
Reduz edema e hipertensão venosa e melhora sintomas.
Pode ser realizada com meias, bandagens ou sistemas de compressão conforme indicação.
Na úlcera venosa, compressão adequada é pilar do tratamento.
A adesão é determinante para eficácia.
Antes de comprimir
Avaliar pulsos e risco de doença arterial periférica.
Quando houver suspeita arterial, obter avaliação objetiva de perfusão, como ITB.
Doença arterial significativa exige adaptação ou contraindicação à compressão intensa.
Artérias não compressíveis exigem métodos complementares de perfusão.
Fármacos venoativos
Podem ser utilizados para tratamento sintomático da IVC.
Podem reduzir edema e sintomas em pacientes selecionados.
Fração flavonoide purificada micronizada, dobesilato de cálcio, sulodexida e outros agentes possuem evidências variáveis.
Não substituem compressão nem correção de refluxo/obstrução quando indicada.
Refluxo superficial sintomático
Pacientes com varizes sintomáticas e refluxo axial documentado podem ser candidatos a intervenção.
Ablação térmica endovenosa por laser ou radiofrequência é estratégia preferencial em muitos cenários para veias safenas incompetentes.
Escleroterapia com espuma e técnicas não térmicas podem ser utilizadas em anatomias e situações selecionadas.
Cirurgia convencional com ligadura e stripping permanece alternativa quando métodos endovenosos não são adequados ou disponíveis.
Tributárias varicosas
Flebectomia ambulatorial e escleroterapia são opções frequentes.
O tratamento deve considerar a fonte de refluxo e não apenas as veias visualmente aparentes.
Recorrência é favorecida quando refluxo axial relevante permanece sem tratamento.
Úlcera venosa ativa
Compressão é o tratamento básico quando a perfusão arterial é adequada.
Cuidado local da ferida deve controlar exsudato e proteger pele perilesional.
Refluxo superficial tratável deve ser identificado.
Ablação precoce do refluxo superficial associada à compressão pode acelerar cicatrização em pacientes apropriados.
Após cicatrização, compressão de manutenção e correção da hipertensão venosa reduzem recorrência.
Obstrução venosa profunda
Pacientes com obstrução ilíaca sintomática importante e doença avançada podem ser avaliados para tratamento endovascular em centros especializados.
A indicação depende de sintomas, anatomia, gravidade, síndrome pós-trombótica e resposta ao tratamento conservador.
Stents venosos exigem seguimento específico.
Conduta na urgência e emergência
A IVC isolada raramente é emergência
Edema e varizes crônicas sem sinais de complicação podem ser manejados ambulatorialmente.
Quadros agudos exigem procurar diagnósticos associados ou complicações.
Sangramento de variz
Coloque o paciente em decúbito e eleve o membro.
Realize compressão direta firme sobre o ponto de sangramento.
Utilize curativo compressivo após controle inicial.
Avalie repercussão hemodinâmica quando sangramento for significativo.
Encaminhe para avaliação vascular e tratamento definitivo da fonte para prevenir recorrência.
Suspeita de trombose venosa profunda
Edema unilateral agudo, dor, aumento de circunferência ou fatores de risco devem levantar suspeita.
Não atribuir edema agudo automaticamente à IVC conhecida.
Aplicar estratégia diagnóstica específica para trombose venosa profunda.
Úlcera infectada
Celulite em expansão, secreção purulenta, dor crescente, febre ou sinais sistêmicos exigem avaliação de infecção.
Antibiótico sistêmico é reservado para infecção clínica, não colonização.
Infecção profunda, sepse ou necrose progressiva requerem avaliação urgente.
Algoritmos e fluxogramas
Suspeita de IVC
História de peso, edema, varizes ou alterações cutâneas.
Examinar em ortostatismo e avaliar pulsos.
Classificar CEAP.
Se sintomas relevantes, doença avançada ou planejamento de intervenção → eco-Doppler venoso.
Identificar refluxo, obstrução ou ambos.
Iniciar medidas conservadoras e compressão quando apropriada.
Se refluxo superficial sintomático persistente → discutir tratamento intervencionista.
Se obstrução profunda relevante → encaminhar para avaliação especializada.