Claudicação, diagnóstico hemodinâmico, tratamento clínico, revascularização e isquemia ameaçadora do membro
Arthur MedVerse
·60 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
A doença arterial oclusiva periférica (DAOP)
dos membros inferiores é, na maioria dos casos, manifestação da aterosclerose sistêmica. O paciente não está em risco apenas de claudicação ou amputação: apresenta risco aumentado de infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e morte cardiovascular.
A apresentação varia de doença assintomática à claudicação, isquemia crônica ameaçadora do membro e isquemia aguda. A claudicação intermitente é desconforto muscular reprodutível ao esforço, geralmente em panturrilha, coxa ou nádega, que melhora com repouso. A topografia dos sintomas ajuda a localizar o segmento arterial comprometido.
O índice tornozelo-braquial (ITB) em repouso é o exame fisiológico inicial mais utilizado. ITB ≤0,90 é anormal; 0,91–0,99 é limítrofe; 1,00–1,40 é normal; >1,40 indica artérias não compressíveis. Se houver sintomas típicos com ITB normal ou limítrofe, o ITB após exercício pode revelar doença. Em vasos não compressíveis, deve-se utilizar avaliação complementar, como pressão do hálux e índice hálux-braquial.
Todo paciente com DAOP aterosclerótica necessita tratamento intensivo do risco cardiovascular: cessação do tabagismo, atividade física estruturada, estatina de alta intensidade, controle da pressão arterial e do diabetes e terapia antitrombótica apropriada. Exercício estruturado é tratamento central da claudicação e deve preceder revascularização na maioria dos pacientes com sintomas funcionais estáveis.
A revascularização não é indicada simplesmente porque existe uma estenose na imagem. Na claudicação, é considerada quando os sintomas permanecem funcionalmente limitantes apesar de tratamento clínico e exercício estruturado. Na isquemia crônica ameaçadora do membro (ICAM), caracterizada por dor isquêmica de repouso, ferida que não cicatriza ou gangrena associadas a doença arterial objetiva, a revascularização é recomendada para preservar o membro quando viável.
A isquemia aguda do membro (IAM) é uma emergência vascular. O início súbito de dor, palidez, ausência de pulso, parestesia, paralisia e poiquilotermia exige classificação imediata da viabilidade do membro, anticoagulação com heparina não fracionada na ausência de contraindicação e estratégia urgente de reperfusão quando o membro está ameaçado.
Para prova, o eixo do tema é simples: diagnosticar com fisiologia, tratar a aterosclerose sistêmica, usar exercício como terapia da claudicação e revascularizar quando sintomas refratários ou ameaça ao membro justificarem.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer os principais fatores de risco e apresentações clínicas da DAOP.
02
Relacionar a topografia da claudicação ao nível anatômico provável da obstrução.
03
Interpretar corretamente o índice tornozelo-braquial.
04
Reconhecer situações de índice tornozelo-braquial falsamente elevado ou inconclusivo.
05
Diferenciar claudicação, isquemia crônica ameaçadora do membro e isquemia aguda.
06
Aplicar tratamento clínico intensivo para redução do risco cardiovascular e de eventos do membro.
07
Conhecer o papel do exercício estruturado na claudicação.
08
Definir quando a revascularização está indicada.
09
Comparar princípios das estratégias endovascular e cirúrgica.
10
Aplicar a abordagem inicial da isquemia aguda do membro.
Visão rápida
Definição
Doença arterial periférica obstrutiva dos membros, predominantemente aterosclerótica, associada a risco cardiovascular e de perda do membro.
Como reconhecer
Claudicação reprodutível ao esforço, pulsos reduzidos, alterações tróficas, dor de repouso ou perda tecidual conforme gravidade.
Conduta principal
Estatina de alta intensidade + antitrombótico apropriado + cessar tabagismo + controlar pressão/diabetes + exercício; revascularizar quando houver indicação funcional ou ameaça ao membro.
Pérola de prova
ITB ≤0,90 confirma alteração hemodinâmica; sintomas típicos com ITB normal/limítrofe podem exigir ITB pós-exercício.
Introdução
A DAOP é uma manifestação da aterosclerose sistêmica e deve ser encarada como marcador de alto risco cardiovascular. Mesmo pacientes sem claudicação clássica podem apresentar limitação funcional e prognóstico adverso.
A diretriz norte-americana de 2024 organiza a doença arterial periférica dos membros inferiores em quatro grandes apresentações clínicas: doença assintomática, doença sintomática crônica, isquemia crônica ameaçadora do membro e isquemia aguda.
O raciocínio adequado combina história, exame vascular e testes fisiológicos. Exames anatômicos são utilizados quando a anatomia precisa ser definida, sobretudo no planejamento de revascularização.
Conceitos fundamentais
Aterosclerose sistêmica
DAOP frequentemente coexiste com doença coronariana e cerebrovascular.
O tratamento deve reduzir simultaneamente eventos cardiovasculares maiores e eventos adversos do membro.
Uma intervenção local bem-sucedida não elimina a necessidade de prevenção cardiovascular permanente.
Claudicação intermitente
Desconforto muscular induzido por caminhada ou esforço e aliviado pelo repouso.
É relativamente reprodutível para uma determinada intensidade de exercício.
Pode manifestar-se como dor, cansaço, peso, aperto ou fraqueza, e não apenas como 'dor'.
Isquemia crônica ameaçadora do membro
Forma avançada de DAOP associada a dor isquêmica de repouso, ferida não cicatrizante ou gangrena.
Exige demonstração objetiva de doença arterial e avaliação rápida para preservação do membro.
Substitui o conceito mais antigo de 'isquemia crítica' em muitas diretrizes contemporâneas.
Isquemia aguda
Queda súbita da perfusão com potencial de ameaça imediata à viabilidade do membro.
Pode decorrer de embolia, trombose sobre placa, trombose de enxerto ou endoprótese, aneurisma trombosado ou outras causas.
O grau de déficit neurológico é determinante da urgência da reperfusão.
Etiologia e fatores de risco
Principal etiologia
Aterosclerose é a causa predominante de DAOP em adultos.
Lesões são frequentemente multissegmentares e coexistem com aterosclerose em outros territórios.
Fatores de risco maiores
Tabagismo atual ou prévio.
Diabetes mellitus.
Idade avançada.
Dislipidemia.
Hipertensão arterial.
Doença renal crônica.
Doença aterosclerótica estabelecida em outros territórios.
Tabagismo
É um dos fatores de risco mais fortes para desenvolvimento e progressão da DAOP.
Cessação reduz risco cardiovascular e de eventos do membro.
Todo fumante com DAOP deve receber intervenção ativa para cessação.
Diabetes mellitus
Associa-se a doença mais distal, calcificação arterial, feridas e maior risco de amputação.
Neuropatia pode mascarar dor isquêmica.
Calcificação medial pode tornar o ITB falsamente elevado.
Causas não ateroscleróticas a considerar
Tromboangeíte obliterante.
Vasculites.
Síndrome do aprisionamento da artéria poplítea.
Doença cística adventicial.
Displasia fibromuscular e outras arteriopatias.
Embolização e estados trombóticos conforme apresentação clínica.
Quadro clínico
Doença assintomática
Ausência de sintomas típicos não significa ausência de limitação funcional.
Pode ser detectada por exame físico ou ITB anormal em indivíduos de risco.
Continua associada a aumento do risco cardiovascular.
Claudicação típica
Surge ao caminhar e melhora poucos minutos após interrupção do esforço.
Panturrilha é o território mais frequentemente sintomático.
A distância de caminhada pode diminuir com progressão da doença.
Localização da dor e nível provável
Nádega/quadril → doença aortoilíaca.
Coxa → aortoilíaca ou femoral comum.
Panturrilha → doença femoropoplítea é clássica.
Pé → doença infrapoplítea pode estar presente.
Síndrome de Leriche
Doença oclusiva aortoilíaca importante.
Tríade clássica: claudicação de nádegas/coxa, redução ou ausência de pulsos femorais e disfunção erétil.
É associação clássica de prova, embora pacientes reais possam apresentar quadro incompleto.
Achados do exame
Pulsos reduzidos ou ausentes.
Sopros arteriais.
Pele fria.
Redução de pelos e alterações ungueais.
Palidez à elevação e rubor de dependência em doença avançada.
Feridas distais e gangrena em doença grave.
Isquemia crônica ameaçadora do membro
Dor de repouso isquêmica, frequentemente no antepé e pior à noite ou com elevação.
Ferida arterial que não cicatriza.
Gangrena.
Pode coexistir com infecção, especialmente no diabetes.
Diagnósticos diferenciais da claudicação
Estenose do canal lombar: dor/parestesias relacionadas à postura, frequentemente melhora ao sentar ou flexionar a coluna.
Artrose: dor articular relacionada ao movimento, sem relação fixa com distância de caminhada.
Neuropatia periférica: queimação, parestesias e alteração sensitiva.
Claudicação venosa: sensação de peso/tensão associada a obstrução venosa, com alívio mais lento e benefício da elevação.
Diagnóstico
Quem deve ser investigado
Paciente com sintomas sugestivos de DAOP.
Paciente com achados vasculares anormais no exame físico.
Indivíduos de maior risco podem se beneficiar de avaliação direcionada conforme idade e fatores de risco.
Índice tornozelo-braquial em repouso
ITB ≤0,90: anormal.
ITB 0,91–0,99: limítrofe.
ITB 1,00–1,40: normal.
ITB >1,40: artérias não compressíveis.
ITB pós-exercício
Indicado quando há sintomas de esforço sugestivos de DAOP e ITB de repouso normal ou limítrofe.
A queda da pressão/ITB após exercício pode revelar obstrução hemodinamicamente significativa não evidente em repouso.
Vasos não compressíveis
ITB >1,40 é comum em calcificação medial, especialmente em diabetes e doença renal crônica.
Utilizar pressão do hálux e índice hálux-braquial.
Formas de onda Doppler e outros testes fisiológicos ajudam a confirmar perfusão.
Testes segmentares
Pressões segmentares e registro de volume de pulso ajudam a localizar o nível da doença.
São úteis quando é necessário caracterizar fisiologicamente a distribuição das obstruções.
Eco-Doppler arterial
Define localização, extensão e repercussão hemodinâmica de estenoses.
Não utiliza contraste iodado.
É útil no planejamento e seguimento de intervenções.
Angiotomografia e angiorressonância
São exames anatômicos para planejamento de revascularização.
Não devem ser solicitados rotineiramente apenas para 'confirmar' DAOP quando não há intenção de intervenção e testes fisiológicos já estabeleceram o diagnóstico.
A escolha depende de função renal, disponibilidade, anatomia e estratégia terapêutica.
Angiografia invasiva
Permanece importante quando há intenção de tratamento endovascular ou quando outros métodos são insuficientes.
Permite diagnóstico anatômico e intervenção no mesmo procedimento.
Classificações e estratificação
Categorias clínicas contemporâneas
DAOP assintomática.
DAOP sintomática crônica, incluindo claudicação.
Isquemia crônica ameaçadora do membro.
Isquemia aguda do membro.
Fontaine
Estágio I: assintomático.
Estágio II: claudicação; classicamente subdividido em IIa e IIb conforme limitação da distância.
Estágio III: dor de repouso.
Estágio IV: ulceração ou gangrena.
Rutherford — doença crônica
Categoria 0: assintomático.
Categorias 1–3: claudicação crescente.
Categoria 4: dor isquêmica de repouso.
Categoria 5: perda tecidual menor.
Categoria 6: perda tecidual maior.
WIfI
O sistema Wound, Ischemia and foot Infection (WIfI) integra ferida, isquemia e infecção do pé.
Auxilia na estimativa de risco de amputação e benefício potencial da revascularização em ICAM.
É especialmente útil para organizar doença avançada com perda tecidual.
Rutherford — isquemia aguda
Classe I: membro viável, sem déficit sensitivo ou motor.
Classe IIa: marginalmente ameaçado; perda sensitiva mínima, sem fraqueza relevante.
Classe IIb: imediatamente ameaçado; déficit sensitivo mais amplo e fraqueza muscular; exige reperfusão imediata.
Classe III: dano irreversível; anestesia profunda e paralisia, com inviabilidade do membro.
Tratamento
Objetivos
Reduzir infarto, acidente vascular cerebral e morte cardiovascular.
Prevenir isquemia aguda, amputação e outros eventos adversos do membro.
Melhorar capacidade de caminhada, função e qualidade de vida.
Preservar o membro em pacientes com ICAM.
Cessação do tabagismo
Deve ser abordada em toda consulta.
Combinar aconselhamento e farmacoterapia quando apropriado aumenta chance de sucesso.
Evitar também exposição contínua a produtos de tabaco.
Terapia hipolipemiante
Estatina de alta intensidade é recomendada para pacientes com DAOP aterosclerótica.
O objetivo é redução intensa do colesterol associado à lipoproteína de baixa densidade e do risco cardiovascular global.
Se a meta de redução lipídica não for alcançada, terapias adicionais podem ser necessárias conforme risco e diretriz.
Terapia antitrombótica
Na DAOP sintomática, terapia antiplaquetária simples é recomendada para reduzir eventos cardiovasculares.
Ácido acetilsalicílico ou clopidogrel são opções usuais conforme perfil clínico.
Rivaroxabana em dose vascular associada a ácido acetilsalicílico reduz eventos cardiovasculares e do membro em pacientes selecionados sem alto risco hemorrágico.
Após revascularização, a estratégia antitrombótica depende do procedimento, risco hemorrágico e contexto clínico.
Rutherford IIb: imediatamente ameaçado; revascularização imediata, frequentemente sem tolerância a atrasos diagnósticos.
Rutherford III: dano irreversível; revascularização pode causar dano sistêmico grave e amputação primária pode ser necessária.
Síndrome de reperfusão
Após revascularização de isquemia grave, monitorar hipercalemia, acidose, rabdomiólise, lesão renal e síndrome compartimental.
Síndrome compartimental pode exigir fasciotomia.
Reperfusão não encerra o cuidado: o período pós-procedimento pode ser crítico.
ICAM com infecção
Infecção profunda, abscesso, sepse ou gangrena úmida exigem abordagem urgente.
Controle infeccioso, drenagem/desbridamento e revascularização devem ser coordenados conforme prioridade clínica.
Evitar amputação maior antes de avaliação vascular adequada quando o membro ainda possui possibilidade razoável de salvamento, salvo situações de ameaça imediata à vida.
Doses e prescrições
Rivaroxabana em dose vascular + ácido acetilsalicílico
Rivaroxabana 2,5 mg por via oral a cada 12 horas associada a ácido acetilsalicílico em baixa dose.
A diretriz norte-americana de 2024 exemplifica ácido acetilsalicílico 81 mg/dia.
Utilizar em pacientes apropriados sem risco hemorrágico aumentado; não confundir essa dose com anticoagulação plena para fibrilação atrial ou tromboembolismo venoso.
Cilostazol
100 mg por via oral a cada 12 horas é o regime habitual para claudicação.
Contraindicado em insuficiência cardíaca.
Reavaliar benefício clínico e tolerabilidade.
Heparina não fracionada na isquemia aguda
Anticoagulação sistêmica deve ser iniciada imediatamente na ausência de contraindicação enquanto se define a reperfusão.
A dose deve seguir protocolo institucional de anticoagulação com heparina não fracionada e monitorização apropriada.
Não atrasar avaliação vascular/reperfusão para completar investigação extensa.
Algoritmos e fluxogramas
Claudicação
História e exame vascular sugestivos.
Solicitar ITB em repouso.
ITB ≤0,90 → DAOP hemodinamicamente demonstrada.
ITB 0,91–1,40 com sintomas típicos → considerar ITB pós-exercício.
ITB >1,40 → avaliar pressão do hálux/índice hálux-braquial e ondas Doppler.