Reconhecimento da obstrução supraglótica, proteção da via aérea e antibioticoterapia
Arthur MedVerse
·30 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
Epiglotite é uma infecção/inflamação aguda da epiglote e estruturas supraglóticas capaz de causar obstrução rapidamente progressiva da via aérea. É uma emergência médica: o risco imediato não é a infecção isoladamente, mas a perda completa da via aérea.
Historicamente, Haemophilus influenzae tipo b (Hib) era o principal agente pediátrico. A vacinação contra Hib reduziu drasticamente a incidência em crianças, mas casos ainda ocorrem, sobretudo em não vacinados, imunocomprometidos e por outros agentes bacterianos.
O quadro clássico é de início abrupto, febre alta, toxemia, odinofagia/disfagia intensa, voz abafada, sialorreia, estridor e posição em tripé, geralmente sem a tosse ladrante típica do crupe. A criança tende a permanecer sentada, inclinada para frente, com pescoço estendido e boca aberta para maximizar a permeabilidade da via aérea.
Na suspeita de epiglotite, a prioridade é NÃO provocar agitação. Exame desnecessário da orofaringe, punção venosa, coleta de exames ou transporte para imagem podem precipitar obstrução completa. Crianças com obstrução moderada ou grave devem ter investigações adiadas até que a via aérea esteja segura e equipe de anestesia/otorrinolaringologia/terapia intensiva esteja disponível.
A via aérea deve ser manejada precocemente em ambiente controlado por profissionais experientes, com plano de resgate cirúrgico. Após estabilização, inicia-se antibioticoterapia parenteral; ceftriaxona é uma opção de primeira linha em protocolos pediátricos. Culturas e outros exames são obtidos somente quando isso puder ser feito com segurança.
Para prova, a comparação mais importante é com crupe: epiglotite cursa com criança tóxica, febre alta, sialorreia, disfagia, voz abafada e posição em tripé; crupe costuma apresentar pródromo viral, tosse ladrante e rouquidão. Na epiglotite, não force a criança a deitar e não manipule a garganta antes de garantir condições para manejo avançado da via aérea.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer a epiglotite como emergência potencialmente fatal de via aérea superior.
02
Identificar a apresentação clássica com febre, disfagia, sialorreia, voz abafada, estridor e posição em tripé.
03
Diferenciar epiglotite de crupe e traqueíte bacteriana.
04
Entender o impacto da vacinação contra Haemophilus influenzae tipo b na epidemiologia.
05
Reconhecer sinais de obstrução grave e falência respiratória iminente.
06
Evitar manobras e exames capazes de precipitar obstrução completa.
07
Organizar o manejo da via aérea em ambiente controlado com equipe experiente.
08
Definir o momento adequado para exames laboratoriais e microbiológicos.
09
Prescrever antibioticoterapia empírica apropriada após estabilização da via aérea.
10
Reconhecer medidas de prevenção e controle relacionadas à doença invasiva por Hib.
Visão rápida
Definição
Infecção/inflamação supraglótica aguda com risco de obstrução completa da via aérea.
Como reconhecer
Febre alta + toxemia + disfagia/sialorreia + voz abafada + estridor + posição em tripé, geralmente sem tosse ladrante.
Conduta principal
Minimizar agitação → chamar anestesia/ENT/UTI → assegurar via aérea em ambiente controlado → antibiótico parenteral.
Pérola de prova
Suspeitou de epiglotite? NÃO deite a criança e NÃO examine a orofaringe à força antes de haver estrutura para controlar a via aérea.
Introdução
Epiglotite é uma causa rara, porém crítica, de obstrução aguda das vias aéreas superiores. A inflamação da epiglote e dos tecidos supraglóticos pode reduzir rapidamente o calibre da via aérea, especialmente em crianças.
A vacinação contra Hib transformou sua epidemiologia e tornou a doença pediátrica muito menos frequente. Essa raridade, contudo, aumenta o risco de atraso diagnóstico quando um caso verdadeiro aparece.
O princípio central do manejo é preservar espontaneamente a melhor posição respiratória da criança e evitar qualquer intervenção que provoque choro, luta ou mudança de posição até que recursos para via aérea avançada estejam imediatamente disponíveis.
Conceitos fundamentais
Localização da obstrução
A inflamação acomete principalmente a epiglote e estruturas supraglóticas.
O edema pode evoluir rapidamente e produzir obstrução crítica.
O estridor indica fluxo turbulento através de via aérea superior estreitada.
Por que a agitação é perigosa?
Choro, luta e reposicionamento aumentam demanda ventilatória e turbulência.
Em uma via aérea criticamente estreitada, pequena piora do edema ou alteração dinâmica pode causar obstrução completa.
A criança deve permanecer na posição que espontaneamente escolheu para respirar.
Impacto da vacina Hib
Hib foi historicamente a principal causa de epiglotite pediátrica.
A vacinação reduziu drasticamente a doença invasiva por Hib.
Estado vacinal incompleto aumenta a suspeita de Hib, mas vacinação completa não exclui epiglotite por outros agentes.
Etiologia e fatores de risco
Agentes
Haemophilus influenzae tipo b é o agente clássico e permanece particularmente relevante em crianças não imunizadas.
Streptococcus pneumoniae e estreptococos, incluindo Streptococcus pyogenes, podem causar doença supraglótica.
Staphylococcus aureus e outros agentes são possíveis conforme contexto clínico e epidemiológico.
Fatores de risco
Vacinação incompleta contra Hib.
Imunocomprometimento.
Condições que predisponham a infecção bacteriana invasiva.
A epiglotite também ocorre em adultos e não deve ser considerada exclusivamente pediátrica.
Quadro clínico
Apresentação clássica
Início relativamente abrupto.
Febre alta.
Aspecto tóxico ou criança sistemicamente muito doente.
Odinofagia e disfagia intensas.
Sialorreia por incapacidade ou dor ao deglutir secreções.
Voz abafada, descrita como 'hot potato voice'.
Estridor.
Ansiedade e desconforto respiratório.
Posição característica
Criança sentada e inclinada para frente.
Pescoço estendido ou hiperestendido.
Boca aberta.
Pode apoiar os braços para facilitar a respiração — posição em tripé.
Não obrigar a criança a deitar.
Achados que ajudam a diferenciar de crupe
Febre alta e toxemia favorecem epiglotite.
Sialorreia e disfagia importante favorecem epiglotite.
Tosse pode estar ausente; tosse ladrante típica favorece crupe.
Voz abafada favorece epiglotite; rouquidão é mais típica do crupe.
Posição em tripé e recusa em deitar são sinais de alarme.
Sinais de falência respiratória iminente
Cianose.
Exaustão.
Rebaixamento do nível de consciência.
Entrada de ar progressivamente reduzida.
Respiração irregular ou bradipneia.
Redução do estridor associada a piora clínica pode refletir fluxo aéreo criticamente baixo.
Diagnóstico
Diagnóstico inicial
É essencialmente clínico diante de apresentação compatível.
O reconhecimento da ameaça à via aérea precede a confirmação etiológica.
Em obstrução moderada/grave, exames devem ser adiados até a via aérea estar segura.
O que NÃO fazer antes de controlar a via aérea
Não forçar abertura da boca para examinar a orofaringe.
Não utilizar abaixador de língua em criança instável ou com forte suspeita sem equipe preparada para via aérea.
Não obrigar a criança a assumir decúbito.
Não levar criança instável para radiografia ou tomografia apenas para confirmar o diagnóstico.
Não realizar procedimentos desnecessários que provoquem agitação.
Exames após estabilização
Hemograma e marcadores inflamatórios podem mostrar resposta bacteriana, mas não estabelecem o diagnóstico isoladamente.
Hemoculturas podem identificar bacteremia.
Cultura de secreção/epiglote pode ser obtida quando a via aérea estiver protegida e a coleta for segura.
Os exames não devem atrasar antibioticoterapia após estabilização.
Imagem
Não é necessária quando a apresentação é típica e a via aérea está ameaçada.
Radiografia lateral de pescoço pode demonstrar aumento da epiglote ('sinal do polegar'), mas não deve ser perseguida em criança com obstrução relevante.
Imagem é reservada a pacientes estáveis quando houver dúvida diagnóstica e estrutura adequada para resgate de via aérea.
Crupe
Pródromo viral, tosse ladrante e rouquidão são mais típicos.
Febre costuma ser baixa ou moderada.
Sialorreia importante e posição em tripé não são características usuais.
Traqueíte bacteriana
Também pode cursar com febre alta, toxemia e obstrução de via aérea.
Tosse e secreções traqueais espessas/purulentas são pistas importantes.
Pode surgir após infecção viral e responder pouco às medidas usuais do crupe.
Outros diferenciais
Corpo estranho de via aérea.
Abscesso retrofaríngeo.
Abscesso peritonsilar.
Angioedema/anafilaxia.
Infecções profundas do pescoço.
Classificações e estratificação
Obstrução leve
Sem sinais importantes de dificuldade respiratória.
Boa entrada de ar e oxigenação.
Mesmo pacientes inicialmente estáveis exigem vigilância, pois a deterioração pode ser rápida.
Obstrução moderada/grave
Estridor em repouso.
Retrações ou esforço respiratório significativo.
Posição em tripé.
Incapacidade de lidar com secreções.
Entrada de ar reduzida.
Agitação intensa relacionada à hipóxia/obstrução.
Obstrução crítica
Cianose.
Exaustão ou rebaixamento.
Ventilação inadequada.
Movimento de ar mínimo.
Bradicardia ou deterioração cardiorrespiratória.
Necessidade de intervenção imediata por equipe de via aérea avançada.
Tratamento
Prioridade absoluta — via aérea
Manter a criança calma e em posição de conforto.
Solicitar precocemente anestesiologia, otorrinolaringologia e terapia intensiva pediátrica.
Preparar manejo da via aérea em ambiente com recursos completos e plano de resgate.
Evitar sedação isolada ou procedimentos fora de ambiente preparado em criança com obstrução significativa.
Antibioticoterapia
Após estabilização da via aérea, iniciar antibiótico parenteral com cobertura para Hib e outros agentes bacterianos relevantes.
Ceftriaxona é opção de primeira linha em protocolos pediátricos.
A terapia deve ser ajustada posteriormente conforme microbiologia, evolução e protocolo local.
Corticosteroide
Pode ser considerado em alguns protocolos para reduzir edema, mas a evidência de benefício específico na epiglotite é limitada.
Nunca deve substituir controle da via aérea e antibioticoterapia.
Adrenalina nebulizada
Pode proporcionar alívio temporário em obstrução aguda de via aérea superior enquanto se aguarda manejo definitivo, conforme protocolos de obstrução aguda.
Não deve atrasar nem substituir a abordagem definitiva da via aérea na epiglotite.
Suporte
Oxigênio se necessário, administrado de modo a minimizar agitação.
Hidratação intravenosa após a via aérea estar segura ou quando a obtenção de acesso puder ser feita sem aumentar risco.
Monitorização contínua em ambiente de alta dependência/terapia intensiva.
Conduta na urgência e emergência
Algoritmo prático
Reconhecer febre alta + toxemia + disfagia/sialorreia + voz abafada/estridor como possível epiglotite.
Não deitar a criança; permitir posição espontânea de conforto.
Evitar exame da garganta, punções, exames ou transporte desnecessário que provoquem agitação.
Acionar imediatamente anestesia, otorrinolaringologia e terapia intensiva/equipe de via aérea difícil.
Oferecer oxigênio de forma não ameaçadora se houver hipoxemia.
Preparar ambiente controlado para intubação com material para via aérea difícil e resgate cirúrgico disponível.
Assegurar a via aérea quando houver obstrução significativa, deterioração ou alto risco de progressão.
Após via aérea segura, obter acesso venoso, culturas e exames pertinentes.
Iniciar ceftriaxona parenteral ou esquema equivalente conforme protocolo local.
Internar em terapia intensiva e reavaliar edema, ventilação e resposta antimicrobiana.
Princípios da intubação
É uma via aérea potencialmente difícil.
Deve ser realizada pelo profissional mais experiente disponível.
Preparar tubos endotraqueais de diferentes calibres, inclusive menores que o esperado para idade.
Manter estratégia de resgate imediatamente disponível caso a intubação falhe.
Não insistir repetidamente em tentativas traumáticas que aumentem edema e risco de perda completa da via aérea.
Doses e prescrições
Ceftriaxona — protocolo pediátrico RCH
50 mg/kg por via intravenosa ou intramuscular, 1 vez ao dia.
Máximo: 2 g/dose no protocolo de sore throat/epiglottitis.
Duração: 5 dias no protocolo citado.
Ajustar esquema conforme cultura, agente, gravidade e protocolo institucional.
Dexametasona — quando adotada pelo protocolo local
0,15 mg/kg por via oral, intravenosa ou intramuscular, dose única.
Máximo: 10 mg.
O protocolo RCH admite repetição em 24 horas se necessária.
É medida adjuvante; não substitui manejo da via aérea nem antibiótico.
Observação sobre antibióticos
Em cenários com suspeita de Staphylococcus aureus resistente ou outra epidemiologia específica, cobertura adicional pode ser necessária conforme protocolo local.
Após identificação microbiológica, desescalonar/ajustar quando apropriado.
Algoritmos e fluxogramas
Epiglotite versus crupe
Criança com estridor → avaliar aspecto geral, febre, tosse, capacidade de engolir e posição espontânea.
Tosse ladrante + rouquidão + pródromo viral + pouca toxemia → crupe é mais provável.
Febre alta + toxemia + sialorreia/disfagia + voz abafada + tripé → epiglotite até prova em contrário.
Se epiglotite provável → NÃO examinar garganta à força e NÃO deitar.
Acionar equipe de via aérea e preparar ambiente controlado.
Após via aérea segura → culturas/exames + cefalosporina de 3ª geração.
Deterioração
Identificar aumento do esforço, redução da entrada de ar, cianose, exaustão ou alteração de consciência.
Minimizar qualquer manipulação adicional.
Oxigenar sem forçar máscara se isso gerar luta.
Proceder ao manejo avançado da via aérea pela equipe mais experiente.
Se falha da via aérea convencional, executar imediatamente o plano de resgate previamente preparado.
Imagens e achados
Radiografia lateral do pescoço
O achado clássico é o 'sinal do polegar', produzido pela epiglote aumentada e edemaciada.
É um achado de prova, mas a radiografia NÃO é requisito para diagnóstico.
Em criança com obstrução moderada/grave, transportar para radiografia pode ser perigoso e a imagem deve ser adiada.
Laringoscopia
Pode demonstrar epiglote e estruturas supraglóticas intensamente edemaciadas.
A visualização direta deve ocorrer somente em ambiente preparado para controle imediato da via aérea quando houver risco de obstrução.
O que mais cai
Epiglotite é uma EMERGÊNCIA de via aérea superior.
Hib é o agente clássico; vacinação reduziu drasticamente a incidência pediátrica.
Febre alta + toxemia + disfagia + SIALORREIA + voz abafada = pensar em epiglotite.
Posição em TRIPÉ e recusa em deitar são sinais clássicos.
Tosse ladrante favorece CRUPE, não epiglotite.
Na suspeita importante, NÃO examinar a orofaringe à força.
Não transportar criança instável para imagem apenas para confirmar diagnóstico.
Sinal do POLEGAR na radiografia lateral é o achado clássico.
Prioridade terapêutica = assegurar a VIA AÉREA em ambiente controlado.
Intubação deve ser feita pela equipe mais experiente, com plano de resgate.
Ceftriaxona é uma opção de primeira linha para antibioticoterapia parenteral.
Exames e culturas vêm DEPOIS da estabilização da via aérea quando houver ameaça significativa.
Ausência de vacinação Hib aumenta a suspeita, mas doença pode ocorrer por outros agentes.
Redução do estridor acompanhada de piora clínica pode significar fluxo aéreo criticamente baixo.
Erros comuns
Confundir epiglotite com crupe em criança tóxica e com sialorreia.
Obrigar criança dispneica a deitar para examiná-la.
Usar abaixador de língua para examinar a garganta antes de preparar controle da via aérea.
Levar criança instável para radiografia ou tomografia.
Priorizar coleta de sangue antes da segurança da via aérea.
Tentar múltiplas intubações por profissional pouco experiente.
Interpretar vacinação completa contra Hib como exclusão de epiglotite.
Considerar adrenalina nebulizada como tratamento definitivo.
Atrasar antibiótico após estabilização para aguardar culturas.
Ignorar diminuição do estridor quando associada a exaustão e piora da entrada de ar.
Presumir que toda obstrução febril com estridor seja crupe.
Não preparar estratégia de resgate para via aérea difícil.
Para lembrar
EPIGLOTITE = FEBRE ALTA + SIALORREIA + DISFAGIA + TRIPÉ.
Tosse ladrante → pense primeiro em CRUPE.
Suspeitou? NÃO DEITE e NÃO FORCE exame da garganta.
Primeiro objetivo → preservar/assegurar a VIA AÉREA.
Intubação → ambiente CONTROLADO + equipe EXPERIENTE + resgate preparado.
Sinal do POLEGAR = epiglote aumentada na radiografia lateral.
Imagem NÃO vale o risco de descompensar uma criança instável.
Após via aérea segura → CULTURAS + CEFTRIAXONA.
Vacina Hib reduziu muito a doença, mas NÃO zerou epiglotite.
Menos estridor + pior estado clínico = possível OBSTRUÇÃO CRÍTICA.
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