Diagnóstico clínico, diferenciação do testículo retrátil e timing da orquidopexia
Arthur MedVerse
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Neste artigo
Resumo executivo
Criptorquidia ou testículo não descido é a ausência de um ou ambos os testículos em posição escrotal por interrupção do trajeto normal de descida. Deve ser diferenciada de testículo retrátil, testículo ascendente/adquirido e testículo ectópico.
O exame físico é o elemento central do diagnóstico. O testículo deve ser classificado como palpável ou não palpável e sua posição documentada em cada consulta. Ultrassonografia, tomografia ou ressonância não devem ser solicitadas rotineiramente antes do encaminhamento, pois raramente modificam a decisão terapêutica.
A descida espontânea ocorre principalmente nos primeiros meses. Se o testículo permanecer não descido aos 6 meses de idade corrigida, a probabilidade de descida espontânea posterior é baixa e a criança deve ser encaminhada ao especialista.
O tratamento padrão é a orquidopexia precoce. A European Association of Urology recomenda realizar a correção antes dos 12 meses e, no máximo, até 18 meses. A American Urological Association orienta cirurgia dentro do ano seguinte caso não haja descida espontânea aos 6 meses.
Testículo palpável é geralmente tratado por abordagem inguinal ou, em casos baixos selecionados, escrotal. Testículo não palpável requer exame sob anestesia e, quando permanece não palpável, laparoscopia diagnóstica, que permite localizar e frequentemente tratar o testículo intra-abdominal.
Testículos bilateralmente não palpáveis em recém-nascido exigem atenção imediata. Deve-se investigar distúrbio/diferença do desenvolvimento sexual e causas endócrinas antes de assumir criptorquidia isolada, sobretudo se houver hipospádia ou genitália atípica.
Testículo retrátil não é criptorquidia verdadeira. Ele pode ser levado manualmente ao escroto e permanecer temporariamente ali após fadiga do reflexo cremastérico. Não necessita cirurgia, mas deve ser acompanhado regularmente até a puberdade devido ao risco de ascensão secundária.
As principais consequências tardias são comprometimento da fertilidade e aumento do risco de câncer testicular. A orquidopexia precoce melhora o potencial de preservação da função testicular e facilita exame futuro, mas não elimina completamente o risco de malignidade.
Mensagem de prova: não desceu até 6 meses corrigidos → encaminhar; operar preferencialmente antes de 12 meses e até 18 meses no máximo. Não peça ultrassom de rotina antes do encaminhamento. Bilateral não palpável no neonato → investigar distúrbio do desenvolvimento sexual.
Objetivos de aprendizagem
01
Definir criptorquidia e compreender o processo normal de descida testicular.
02
Diferenciar testículo não descido, retrátil, ectópico e ascendente.
03
Reconhecer os principais fatores de risco.
04
Realizar exame físico adequado e classificar o testículo como palpável ou não palpável.
05
Entender por que exames de imagem não são recomendados rotineiramente antes do encaminhamento.
06
Reconhecer o limite de 6 meses corrigidos para aguardar descida espontânea.
07
Conhecer o timing recomendado para orquidopexia.
08
Conhecer as abordagens para testículo palpável.
09
Compreender a investigação e o tratamento do testículo não palpável.
10
Reconhecer a urgência diagnóstica dos testículos bilateralmente não palpáveis no recém-nascido.
11
Diferenciar criptorquidia de testículo retrátil.
12
Conhecer o papel limitado da terapia hormonal.
13
Relacionar criptorquidia com fertilidade futura.
14
Relacionar criptorquidia com risco de câncer testicular.
15
Dominar as principais pegadinhas de provas de residência.
Visão rápida
Definição
Ausência de um ou ambos os testículos no escroto por falha da descida normal; pode ser congênita ou adquirida.
Como reconhecer
Diagnóstico clínico pelo exame físico: localizar, avaliar palpabilidade e distinguir testículo verdadeiro não descido de retrátil.
Conduta principal
Persistência aos 6 meses corrigidos → encaminhar; orquidopexia preferencialmente antes de 12 meses e até 18 meses no máximo. Não palpável → exame sob anestesia ± laparoscopia.
Pérola de prova
Não solicitar ultrassonografia de rotina antes do encaminhamento: ela não exclui testículo intra-abdominal e raramente muda a conduta.
Introdução
A criptorquidia é uma das anomalias genitais congênitas mais frequentes no sexo masculino e é particularmente comum em prematuros. Muitos testículos inicialmente não descidos completam a descida nos primeiros meses de vida.
Após aproximadamente 6 meses de idade corrigida, a descida espontânea torna-se improvável. O objetivo do manejo precoce é colocar o testículo em posição escrotal em tempo adequado para preservar o máximo possível do potencial germinativo, permitir acompanhamento e reduzir consequências tardias.
Conceitos fundamentais
Descida testicular
O testículo fetal origina-se no retroperitônio e migra até o escroto durante a gestação.
A descida possui fases reguladas por fatores anatômicos e hormonais, incluindo ação do gubernáculo e andrógenos.
Prematuridade aumenta a prevalência porque parte importante da descida ocorre no final da gestação.
Conceitos que não podem ser confundidos
Testículo não descido verdadeiro: encontra-se interrompido ao longo do trajeto normal de descida.
Testículo ectópico: desviou-se do trajeto normal após atravessar o canal inguinal, podendo localizar-se em regiões como períneo, base peniana ou região femoral.
Testículo retrátil: é trazido ao escroto manualmente e permanece ali ao menos temporariamente, devido a reflexo cremastérico exuberante.
Testículo ascendente/adquirido: havia alcançado posição escrotal previamente, mas posteriormente passa a permanecer fora do escroto e não pode mais ser mantido adequadamente em posição escrotal.
Por que tratar cedo?
Alterações histológicas com perda progressiva de células germinativas podem ocorrer no testículo mantido fora do escroto.
A correção precoce está associada a melhor potencial de crescimento e preservação de fertilidade em comparação com cirurgia tardia.
O risco de malignidade permanece aumentado em relação à população geral mesmo após correção, embora atraso da orquidopexia esteja associado a maior risco.
Etiologia e fatores de risco
Fatores associados
Prematuridade.
Baixo peso ao nascer.
Restrição de crescimento fetal.
História familiar de criptorquidia.
Alterações hormonais ou genéticas em subgrupos de pacientes.
Malformações congênitas e distúrbios do desenvolvimento sexual em situações específicas.
Unilateral versus bilateral
A maioria dos casos é unilateral.
Na criptorquidia unilateral, a fertilidade pode estar reduzida, mas a taxa de paternidade costuma ser próxima da população geral.
Nos casos bilaterais, tanto fertilidade quanto paternidade apresentam comprometimento mais significativo.
Quadro clínico
Achado principal
Hemiescroto vazio ou escroto pouco desenvolvido do lado afetado.
Testículo pode ser palpado no canal inguinal, região pré-escrotal ou outra posição.
Em uma parcela dos casos, o testículo não é palpável.
Exame físico correto
Examinar em ambiente aquecido, com a criança relaxada, reduzindo ativação do reflexo cremastérico.
Inspecionar o escroto e palpar sistematicamente da região inguinal em direção ao escroto.
Tentar conduzir delicadamente o testículo até a posição escrotal.
Documentar lado, posição, palpabilidade, tamanho aproximado e se permanece no escroto após manipulação.
Testículo retrátil
Pode inicialmente estar alto devido ao reflexo cremastérico.
É possível conduzi-lo ao escroto sem tensão importante e ele permanece temporariamente após liberação.
Não necessita orquidopexia de rotina.
Deve ser acompanhado periodicamente até a puberdade porque pode ocorrer ascensão secundária.
Criptorquidia adquirida
Pode ser identificada em criança que previamente possuía testículo documentado no escroto.
Após 6 meses de idade, suspeita de ascensão adquirida também é indicação de encaminhamento ao especialista.
Diagnóstico
Diagnóstico clínico
História + exame físico são suficientes para iniciar a conduta.
Confirmar se o testículo foi palpável no escroto anteriormente ajuda a distinguir forma congênita de adquirida.
Avaliar genitália externa, meato uretral e presença de hipospádia ou outras anomalias.
Por que NÃO pedir ultrassonografia de rotina?
Ultrassonografia não possui sensibilidade suficiente para localizar com segurança todos os testículos não palpáveis, especialmente intra-abdominais.
Um ultrassom negativo não comprova ausência do testículo.
O resultado geralmente não modifica a necessidade de avaliação cirúrgica.
AUA e EAU desaconselham exames de imagem rotineiros antes do encaminhamento.
Testículo não palpável
Pode representar testículo intra-abdominal, testículo inguinal difícil de palpar, testículo atrófico/vanishing testis ou ausência verdadeira.
O exame deve ser repetido sob anestesia porque alguns testículos tornam-se palpáveis com relaxamento.
Se continuar não palpável, laparoscopia diagnóstica é a abordagem padrão para localizar um testículo intra-abdominal e orientar tratamento.
Bilateralmente não palpáveis
Situação especial e potencialmente urgente no recém-nascido.
É necessária avaliação para possível distúrbio do desenvolvimento sexual e avaliação endócrina.
A associação com hipospádia proximal, micropênis ou genitália atípica aumenta ainda mais a suspeita.
A investigação deve ocorrer antes de decisões irreversíveis e ser coordenada por equipe especializada.
Exames endócrinos/genéticos
Não são necessários rotineiramente na criptorquidia unilateral isolada.
São fundamentais ou considerados em apresentações bilaterais não palpáveis e quando há suspeita de distúrbio do desenvolvimento sexual.
Classificações e estratificação
Quanto à palpabilidade
Palpável: maioria dos casos; frequentemente inguinal ou pré-escrotal.
Não palpável: pode ser intra-abdominal, atrófico, ausente ou ocasionalmente inguinal não detectado no exame acordado.
Quanto à posição
Abdominal.
Canalicular/inguinal.
Pré-escrotal.
Ectópico.
Escrotal alto/ascendente em apresentações adquiridas.
Congênita versus adquirida
Congênita: testículo nunca documentado adequadamente no escroto desde o nascimento.
Adquirida/ascendente: testículo previamente escrotal passa a permanecer fora do escroto.
Retrátil versus ascendente
Retrátil: chega ao escroto e permanece temporariamente sem tensão → observar.
Ascendente: não pode ser mantido adequadamente no escroto → encaminhar como criptorquidia adquirida.
Tratamento
Quando encaminhar
Aos 6 meses de idade corrigida se não ocorreu descida espontânea.
Qualquer criptorquidia recém-diagnosticada após 6 meses também deve ser encaminhada.
Bilateral não palpável no recém-nascido exige avaliação especializada imediata para distúrbio do desenvolvimento sexual.
Timing da cirurgia
EAU: realizar orquidopexia antes dos 12 meses e, no máximo, até 18 meses.
AUA: se não houver descida aos 6 meses corrigidos, realizar cirurgia dentro do ano subsequente.
A cirurgia precoce busca preservar potencial de fertilidade e facilitar vigilância futura.
Testículo palpável
Orquidopexia com mobilização do testículo e cordão espermático e fixação em posição escrotal.
Abordagem inguinal é clássica.
Abordagem escrotal pode ser utilizada em testículos baixos selecionados.
Processo vaginal patente ou hérnia associada são tratados quando identificados.
Testículo não palpável
Realizar exame sob anestesia.
Se permanecer não palpável → laparoscopia diagnóstica.
Testículo intra-abdominal com comprimento vascular adequado pode ser mobilizado para orquidopexia em um tempo.
Testículos altos podem exigir técnica em estágios, como procedimentos baseados em Fowler-Stephens, conforme anatomia vascular e experiência cirúrgica.
Não é recomendada rotineiramente para induzir descida em criptorquidia unilateral.
A EAU admite consideração de tratamento endócrino em casos bilaterais visando potencial benefício futuro sobre fertilidade, mas a recomendação é fraca e o manejo deve ser especializado.
Orquidopexia permanece o tratamento padrão para posicionamento testicular.
Testículo retrátil
Não realizar tratamento cirúrgico ou hormonal de rotina.
Acompanhar regularmente até a puberdade para identificar eventual ascensão.
Adolescente/pós-púbere com testículo intra-abdominal
A estratégia é individualizada conforme idade, anatomia, aspecto/volume testicular, testículo contralateral e risco oncológico.
Em alguns pacientes pós-púberes com testículo contralateral normal, orquiectomia pode ser discutida em vez de orquidopexia.
Conduta na urgência e emergência
Criptorquidia isolada não é emergência
O encaminhamento é programado, porém deve respeitar o timing recomendado para não atrasar a correção.
Não há benefício em solicitar ultrassom apenas para 'confirmar' antes de encaminhar.
Exceção: recém-nascido com ambos os testículos não palpáveis
Não assumir automaticamente criptorquidia bilateral simples.
Avaliar cuidadosamente a genitália externa.
Acionar endocrinologia/urologia pediátrica ou equipe de distúrbios do desenvolvimento sexual.
Realizar investigação hormonal, eletrolítica e genética conforme protocolo especializado.
Considerar causas potencialmente graves, incluindo hiperplasia adrenal congênita em recém-nascido com genitália atípica cuja atribuição sexual ainda não esteja estabelecida.
Evitar decisões irreversíveis até esclarecimento diagnóstico.
Dor aguda em testículo não descido
Torção testicular também pode ocorrer em testículo criptorquídico.
Dor inguinal/abdominal aguda, massa dolorosa e sintomas sistêmicos em criança com hemiescroto vazio devem levantar suspeita.
Suspeita de torção é emergência cirúrgica e não deve aguardar investigação eletiva.
Algoritmos e fluxogramas
Testículo fora do escroto
Realizar exame físico cuidadoso.
Consegue levar ao escroto e permanece temporariamente sem tensão? → provável retrátil → acompanhamento até puberdade.
Não permanece no escroto → testículo não descido/ascendente.
Idade < 6 meses corrigidos → acompanhar possibilidade de descida espontânea.
Aos 6 meses corrigidos ainda não desceu → encaminhar ao especialista.
Palpável → orquidopexia por abordagem apropriada.
Não palpável → exame sob anestesia.
Continua não palpável → laparoscopia diagnóstica e tratamento conforme anatomia.
Concluir correção preferencialmente antes de 12 meses e até 18 meses no máximo.
Bilateral não palpável no neonato
Avaliar genitália e procurar hipospádia/micropênis/ambiguidade genital.
Solicitar avaliação especializada imediata.
Investigar distúrbio do desenvolvimento sexual e função endócrina.
Somente após avaliação apropriada seguir para definição anatômica e tratamento da criptorquidia.
O que mais cai
Criptorquidia = testículo não descido para o escroto.
Prematuridade é importante fator associado.
A maioria das descidas espontâneas ocorre nos primeiros meses.
Após 6 meses corrigidos, descida espontânea é improvável.
Persistência aos 6 meses corrigidos → encaminhar.
Orquidopexia deve ocorrer preferencialmente antes de 12 meses e até 18 meses no máximo.
Não pedir ultrassonografia rotineiramente antes do encaminhamento.
Ultrassom negativo não exclui testículo intra-abdominal.
Testículo palpável → abordagem inguinal ou escrotal selecionada.
Testículo não palpável → exame sob anestesia + laparoscopia se persistir não palpável.
Bilateral não palpável no recém-nascido → investigar distúrbio do desenvolvimento sexual.
Testículo retrátil não é indicação de cirurgia.
Retrátil deve ser acompanhado até puberdade por risco de ascensão.
Terapia hormonal não é recomendada rotineiramente para descida em criptorquidia unilateral.
Criptorquidia bilateral compromete fertilidade/paternidade mais que unilateral.
Orquidopexia reduz riscos, mas não elimina completamente risco futuro de câncer testicular.
Testículo criptorquídico também pode sofrer torção.
Erros comuns
Esperar descida espontânea por vários anos.
Usar idade cronológica sem correção para prematuridade nos primeiros meses.
Pedir ultrassonografia como etapa obrigatória antes do encaminhamento.
Interpretar ultrassom negativo como ausência testicular.
Operar testículo verdadeiramente retrátil sem evidência de ascensão.
Não acompanhar testículo retrátil até a puberdade.
Confundir testículo retrátil com testículo ascendente.
Não encaminhar criptorquidia adquirida diagnosticada após 6 meses.
Tratar criptorquidia unilateral rotineiramente com hormônio em vez de cirurgia.
Adiar orquidopexia para depois dos 2 anos sem justificativa.
Considerar bilateral não palpável no neonato apenas uma questão cirúrgica e esquecer distúrbio do desenvolvimento sexual.
Afirmar que orquidopexia elimina o risco de câncer testicular.
Esquecer possibilidade de torção em testículo inguinal/intra-abdominal.
Para lembrar
6 MESES corrigidos = limite para esperar descida espontânea.
Não desceu aos 6 meses → ENCAMINHE.
ORQUIDOPEXIA < 12 meses; no máximo até 18 meses.
NÃO peça US de rotina antes do encaminhamento.
Palpável → inguinal/escrotal conforme posição.
Não palpável → exame sob anestesia → LAPAROSCOPIA.
Bilateral não palpável no RN = investigar DSD imediatamente.
Retrátil chega ao escroto e permanece → observar.
Ascendente não permanece adequadamente no escroto → encaminhar.
Hormônio não é tratamento rotineiro da criptorquidia unilateral.
Bilateral = maior impacto sobre fertilidade.
Orquidopexia reduz, mas NÃO zera risco de câncer.
Dor aguda + testículo ausente do escroto → lembre de TORÇÃO.
Referências
1.
European Association of Urology / European Society for Paediatric Urology.