Diagnóstico, tratamento, manejo de parceiros e prevenção da reinfecção
Arthur MedVerse
·32 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
Tricomoníase é uma infecção sexualmente transmissível causada pelo protozoário flagelado Trichomonas vaginalis. A infecção pode ser assintomática, especialmente em homens, e a persistência sem tratamento favorece transmissão e reinfecção.
Na mulher sintomática, o quadro clássico inclui corrimento vaginal abundante, amarelo ou amarelo-esverdeado, por vezes espumoso, associado a odor, prurido, ardor, disúria e dispareunia. Ao exame, pode haver hiperemia vaginal e cervical; o chamado
colo em morango ou framboesa
é clássico, mas não é suficientemente sensível para excluir a doença quando ausente.
O pH vaginal geralmente é >4,5. A microscopia a fresco pode revelar protozoários móveis, porém tem sensibilidade limitada e perde rendimento rapidamente após a coleta. Quando disponíveis, os testes de amplificação de ácidos nucleicos são mais sensíveis e constituem método preferencial para confirmação.
O tratamento deve ser sistêmico com nitroimidazólicos. Para mulheres, o CDC recomenda metronidazol 500 mg por via oral, duas vezes ao dia, por 7 dias, esquema superior à dose única em reduzir positividade no reteste. Para homens, o esquema recomendado pelo CDC é metronidazol 2 g por via oral em dose única.
Todos os parceiros sexuais atuais devem receber tratamento concomitante para prevenir reinfecção. Deve-se orientar abstinência sexual até que paciente e parceiros tenham completado o tratamento e os sintomas tenham desaparecido.
Mulheres sexualmente ativas devem ser retestadas aproximadamente 3 meses após o tratamento devido à elevada frequência de reinfecção. Em persistência ou recorrência, diferenciar reinfecção por parceiro não tratado, baixa adesão e resistência a nitroimidazólicos.
Pérola de prova: tricomoníase = IST + corrimento amarelo-esverdeado + pH >4,5 + possível colo em morango. Diferentemente da vaginose bacteriana e da candidíase, o tratamento dos parceiros é parte obrigatória do manejo.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer a tricomoníase como infecção sexualmente transmissível por Trichomonas vaginalis.
02
Identificar a apresentação clínica típica e o colo em morango.
03
Interpretar o pH vaginal e os principais métodos diagnósticos.
04
Reconhecer as limitações da microscopia a fresco.
05
Prescrever o tratamento recomendado para mulheres e homens.
06
Realizar corretamente o manejo dos parceiros sexuais.
07
Orientar abstinência sexual e prevenção de reinfecção.
08
Definir indicação de reteste após tratamento.
09
Abordar infecção persistente ou recorrente.
10
Reconhecer particularidades da tricomoníase na gestação e em pessoas com HIV.
Visão rápida
Definição
Infecção sexualmente transmissível causada pelo protozoário Trichomonas vaginalis.
Como reconhecer
Corrimento amarelo-esverdeado, irritação, pH >4,5 e possível colo em morango; confirmar preferencialmente com teste molecular quando disponível.
Conduta principal
Mulher: metronidazol 500 mg VO 12/12 h por 7 dias; tratar simultaneamente parceiros e retestar mulheres em cerca de 3 meses.
Pérola de prova
Na tricomoníase, ao contrário da VB e da candidíase não complicada, o parceiro deve ser tratado.
Introdução
Trichomonas vaginalis é um protozoário flagelado transmitido predominantemente por contato sexual. A infecção acomete o trato geniturinário e pode permanecer assintomática por períodos prolongados.
A tricomoníase importa tanto pelos sintomas quanto pela transmissão silenciosa, pela alta taxa de reinfecção e pela associação epidemiológica com maior risco de aquisição e transmissão do vírus da imunodeficiência humana.
O reconhecimento correto evita o erro frequente de tratar apenas a mulher sintomática sem abordar os parceiros, situação que favorece novo episódio após aparente cura.
Conceitos fundamentais
Agente
Trichomonas vaginalis é um protozoário flagelado.
O ser humano é o hospedeiro relevante para a transmissão sexual.
Infecção sexualmente transmissível
A transmissão ocorre predominantemente por relação sexual.
Infecção assintomática não elimina a possibilidade de transmissão.
Inflamação vaginal
A tricomoníase provoca resposta inflamatória, diferentemente da vaginose bacteriana, que é predominantemente uma disbiose.
Isso ajuda a explicar hiperemia, ardor, prurido e alterações cervicais.
pH
O pH vaginal costuma ser >4,5.
Esse achado aproxima tricomoníase da vaginose bacteriana e a diferencia da candidíase típica, na qual o pH costuma permanecer ≤4,5.
Colo em morango
Também descrito como colpitis macularis.
Resulta de áreas puntiformes de hemorragia/hiperemia cervical.
É achado clássico, porém sua ausência não exclui tricomoníase.
Etiologia e fatores de risco
Etiologia
Agente único: Trichomonas vaginalis.
Não se trata de bactéria ou fungo; é um protozoário.
Fatores associados
Relações sexuais sem preservativo.
Novo ou múltiplos parceiros sexuais.
História de outras infecções sexualmente transmissíveis.
Parceiro infectado ou não tratado.
Reinfecção
É frequente quando parceiros não são tratados simultaneamente.
Nova exposição sexual antes da conclusão do tratamento também aumenta risco.
Coinfecções
Diagnóstico de tricomoníase deve levar à avaliação de outras infecções sexualmente transmissíveis conforme recomendações e contexto clínico.
Quadro clínico
Mulheres
Grande variação de apresentação, desde ausência de sintomas até vaginite importante.
Corrimento vaginal aumentado, frequentemente amarelo ou amarelo-esverdeado.
Conteúdo pode apresentar pequenas bolhas ou aspecto espumoso.
Odor desagradável pode ocorrer.
Prurido e irritação vulvovaginal.
Ardor genital.
Disúria.
Dispareunia.
Exame ginecológico
Hiperemia vulvar e vaginal.
Corrimento amarelado ou amarelo-esverdeado.
Ectocérvice hiperemiada.
Colo em morango/framboesa pode ocorrer, mas não está presente em todas as pacientes.
Homens
Frequentemente assintomáticos.
Quando sintomáticos, podem apresentar uretrite, disúria ou secreção uretral.
Podem funcionar como reservatório para reinfecção da parceira quando não tratados.
Infecção persistente
Pode decorrer de reinfecção, baixa adesão ou resistência antimicrobiana.
Antes de assumir resistência, é essencial avaliar reexposição a parceiro não tratado.
Diagnóstico
Suspeita clínica
Corrimento vaginal associado a irritação e pH >4,5 aumenta a suspeita.
Colo em morango é sugestivo, mas não obrigatório.
Aspecto do corrimento isoladamente não confirma o diagnóstico.
Microscopia a fresco
Pode demonstrar Trichomonas móveis.
Tem vantagem de fornecer resultado imediato.
Sensibilidade é limitada em comparação aos testes moleculares.
A sensibilidade diminui rapidamente com o tempo após a coleta; a lâmina deve ser examinada imediatamente quando esse método é utilizado.
Testes de amplificação de ácidos nucleicos
Apresentam sensibilidade superior à microscopia a fresco.
São preferíveis para confirmação quando disponíveis.
Podem ser realizados em diferentes tipos de amostras conforme o ensaio utilizado.
Cultura
Tem menor papel na rotina quando testes moleculares estão disponíveis.
Pode ser utilizada em situações específicas, inclusive na investigação de resistência quando necessário.
Citologia cervical
Papanicolau não é considerado teste diagnóstico para tricomoníase.
Achado incidental de T. vaginalis na citologia deve ser confirmado com teste diagnóstico sensível antes do tratamento quando possível.
Avaliação adicional
Testar para outras infecções sexualmente transmissíveis, incluindo HIV, sífilis, gonorreia e clamídia, conforme recomendações e disponibilidade.
Na presença de dor pélvica, febre ou dor à mobilização cervical, avaliar doença inflamatória pélvica.
Diagnósticos diferenciais
Vaginose bacteriana: pH também elevado, mas inflamação costuma ser menos marcante e clue cells favorecem o diagnóstico.
Candidíase: prurido intenso e corrimento grumoso, geralmente com pH ≤4,5.
Cervicite por Chlamydia trachomatis ou Neisseria gonorrhoeae.
Vaginites não infecciosas.
Tratamento
Princípio central
Nitroimidazólicos são a classe com eficácia clínica demonstrada contra T. vaginalis.
O tratamento deve ser sistêmico; terapia vaginal isolada não é adequada para erradicação da infecção.
Mulheres
CDC: metronidazol 500 mg por via oral, duas vezes ao dia, por 7 dias.
O esquema multidose apresentou menor proporção de reteste positivo que metronidazol 2 g em dose única em mulheres.
Homens
CDC: metronidazol 2 g por via oral em dose única.
Na persistência sem reexposição, pode ser necessário esquema prolongado conforme avaliação clínica.
Alternativa
Tinidazol 2 g por via oral em dose única é alternativa para mulheres e homens segundo o CDC.
Tinidazol apresenta meia-vida maior e, em geral, menos efeitos gastrointestinais que metronidazol.
Parceiros sexuais
Tratamento concomitante dos parceiros atuais é essencial.
Parceiros devem receber terapia presuntiva para evitar reinfecção.
Orientar abstinência sexual até que todos tenham completado tratamento e os sintomas tenham resolvido.
Reteste
Mulheres sexualmente ativas devem ser retestadas aproximadamente 3 meses após o tratamento, independentemente de acreditarem que os parceiros foram tratados.
Se o reteste em 3 meses não for possível, testar na próxima oportunidade dentro de 12 meses.
Dados são insuficientes para recomendar reteste rotineiro de homens após tratamento.
Gestação
Gestantes sintomáticas devem ser testadas e tratadas, independentemente da idade gestacional.
Metronidazol apresenta baixo risco fetal nos dados disponíveis e pode ser utilizado quando indicado.
Tinidazol deve ser evitado durante a gestação por limitação de dados.
Pessoas com HIV
Tricomoníase é relevante pela associação com maior risco de transmissão/aquisição do HIV.
Para mulheres com HIV, o CDC recomenda metronidazol 500 mg por via oral duas vezes ao dia por 7 dias.
Reteste também é importante devido à elevada frequência de reinfecção.
Doses e prescrições
Mulheres — esquema recomendado pelo CDC
Metronidazol 500 mg por via oral, a cada 12 horas, por 7 dias.
Homens — esquema recomendado pelo CDC
Metronidazol 2 g por via oral, dose única.
Alternativa — mulheres e homens
Tinidazol 2 g por via oral, dose única.
Persistência/recorrência em mulher após metronidazol 500 mg 12/12 h por 7 dias
Se houve reexposição a parceiro não tratado: repetir o mesmo esquema de metronidazol 500 mg 12/12 h por 7 dias.
Se não houve reexposição: metronidazol ou tinidazol 2 g por via oral, uma vez ao dia, por 7 dias, conforme CDC.
Persistência em homem após dose única
Se houve reexposição a parceira não tratada: repetir metronidazol 2 g por via oral em dose única.
Se não houve reexposição: metronidazol 500 mg por via oral, duas vezes ao dia, por 7 dias.
Resistência suspeita
Persistência sem reexposição após tratamento adequado deve motivar avaliação de resistência e discussão com serviço especializado.
CDC disponibiliza suporte para teste de suscetibilidade de T. vaginalis resistente a nitroimidazólicos.
Algoritmos e fluxogramas
Suspeita de tricomoníase
Identificar corrimento, irritação, disúria, dispareunia e risco sexual.
Examinar vulva, vagina e colo.
Medir pH vaginal quando disponível.
Se pH >4,5 e quadro compatível → realizar teste para T. vaginalis.
Preferir teste molecular quando disponível; microscopia a fresco pode ser usada se examinada imediatamente.
Se confirmado → tratar paciente e parceiros simultaneamente.
Investigar outras infecções sexualmente transmissíveis conforme protocolo.
Programar reteste da mulher em aproximadamente 3 meses.
Recorrência ou persistência
Confirmar se houve adesão adequada.
Investigar relação sexual com parceiro não tratado ou nova exposição.
Se houve reexposição → tratar novamente conforme esquema recomendado.
Se não houve reexposição → considerar falha terapêutica ou resistência.
Utilizar regime de maior dose/duração conforme recomendação.
Persistência apesar de tratamento adequado → avaliação especializada e teste de suscetibilidade quando disponível.
O que mais cai
Tricomoníase é uma infecção sexualmente transmissível.
O agente é o protozoário Trichomonas vaginalis.
Corrimento clássico: abundante, amarelo ou amarelo-esverdeado, podendo ser espumoso.
pH vaginal geralmente >4,5.
Colo em morango/framboesa é clássico, mas não obrigatório.
Microscopia a fresco pode mostrar protozoários móveis.
Microscopia a fresco tem sensibilidade inferior aos testes moleculares.
Teste de amplificação de ácidos nucleicos é preferível quando disponível.
Papanicolau não é teste diagnóstico para tricomoníase.
Mulher: metronidazol 500 mg VO 12/12 h por 7 dias.
Homem: metronidazol 2 g VO em dose única segundo CDC.
Tinidazol 2 g VO dose única é alternativa.
Todos os parceiros sexuais atuais devem ser tratados.
Abstinência até paciente e parceiros concluírem tratamento e sintomas desaparecerem.
Mulheres devem ser retestadas aproximadamente 3 meses após tratamento.
Recorrência exige primeiro excluir reinfecção por parceiro não tratado.
Gestante sintomática deve ser testada e tratada.
Erros comuns
Confundir tricomoníase com vaginose bacteriana apenas porque ambas elevam o pH.
Excluir tricomoníase porque não há colo em morango.
Excluir a doença por microscopia a fresco negativa.
Usar Papanicolau como teste confirmatório.
Tratar apenas a paciente e não os parceiros.
Permitir retomada imediata das relações antes de todos completarem tratamento.
Usar tratamento vaginal isolado como terapia definitiva.
Esquecer de investigar outras infecções sexualmente transmissíveis.
Não programar reteste da mulher após tratamento.
Considerar toda recorrência como resistência antes de investigar reinfecção.
Repetir tratamentos sem perguntar sobre adesão e reexposição.
Deixar de tratar gestante sintomática por medo injustificado do metronidazol.
Para lembrar
Trichomonas vaginalis = protozoário + IST.
Amarelo-esverdeado + pH >4,5 + inflamação = pense em tricomoníase.
Colo em morango ajuda, mas sua ausência não exclui.
NAAT > microscopia a fresco em sensibilidade.
Mulher: metronidazol 500 mg 12/12 h × 7 dias.
Homem: metronidazol 2 g dose única.
Trate os parceiros ao mesmo tempo.
Sem sexo até todos concluírem tratamento e sintomas resolverem.
Mulher tratada → reteste em cerca de 3 meses.
Recidivou? Primeiro pergunte: parceiro foi tratado?
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