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Resumo HARD · Atualizado em 15 de set. de 2026
Panorama Geral das Vulvovaginites
Raciocínio diagnóstico do corrimento vaginal, principais etiologias e tratamento
Arthur MedVerse
·38 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
Vulvovaginites constituem um grupo de condições infecciosas e não infecciosas que cursam com corrimento, odor, prurido, ardor, disúria externa e/ou irritação vulvovaginal. As três causas infecciosas clássicas cobradas em provas são
vaginose bacteriana, candidíase vulvovaginal e tricomoníase
.
O diagnóstico não deve ser baseado apenas na aparência do corrimento. História, exame especular, pH vaginal, teste das aminas e microscopia a fresco, quando disponíveis, permitem separar os principais diagnósticos; testes moleculares aumentam a sensibilidade em situações selecionadas.
Vaginose bacteriana é uma disbiose vaginal com redução de lactobacilos e predomínio de anaeróbios. Classicamente cursa com corrimento fino homogêneo, odor de aminas, pH >4,5 e clue cells. Candidíase costuma causar prurido intenso, eritema e corrimento grumoso, com pH geralmente normal. Tricomoníase é uma infecção sexualmente transmissível por Trichomonas vaginalis, frequentemente associada a corrimento amarelo-esverdeado, pH elevado e colo em framboesa.
A distinção tem consequência terapêutica: vaginose bacteriana e tricomoníase são tratadas principalmente com nitroimidazólicos; candidíase é tratada com azólicos. O manejo de parceiros é obrigatório na tricomoníase, mas não é recomendado rotineiramente na vaginose bacteriana ou na candidíase vulvovaginal não complicada.
Pérola de prova: pH vaginal normal favorece candidíase; pH >4,5 favorece vaginose bacteriana ou tricomoníase. A presença de cervicite, dor pélvica ou sangramento deve ampliar a investigação além das vulvovaginites.
Objetivos de aprendizagem
01
Diferenciar vaginose bacteriana, candidíase vulvovaginal e tricomoníase.
02
Interpretar pH vaginal, teste das aminas e microscopia a fresco.
03
Reconhecer critérios de Amsel e o papel do escore de Nugent.
04
Identificar achados clínicos típicos e limitações do diagnóstico sindrômico.
05
Definir tratamento de primeira linha das principais vulvovaginites.
06
Reconhecer quando tratar parceiros sexuais.
07
Identificar situações de recorrência e falha terapêutica.
08
Diferenciar vaginite de cervicite e doença inflamatória pélvica.
09
Reconhecer diagnósticos não infecciosos que simulam vulvovaginite.
Visão rápida
Definição
Síndromes inflamatórias ou disbióticas vulvovaginais, infecciosas ou não, frequentemente manifestadas por corrimento, prurido, odor ou ardor.
Definir etiologia antes de tratar sempre que possível; metronidazol é central em VB/tricomoníase e azólicos em candidíase.
Pérola de prova
Parceiro deve ser tratado na tricomoníase; não rotineiramente na VB ou candidíase não complicada.
Introdução
Corrimento vaginal é uma das queixas mais frequentes em ginecologia. Parte das pacientes apresenta secreção fisiológica; outras têm infecção, disbiose ou inflamação não infecciosa.
A microbiota vaginal em idade reprodutiva é normalmente dominada por lactobacilos, que contribuem para manutenção do pH ácido. Alterações desse ecossistema ajudam a explicar a vaginose bacteriana e influenciam a avaliação do corrimento.
Como sintomas se sobrepõem e coinfecções podem ocorrer, o objetivo da consulta é transformar uma queixa inespecífica em diagnóstico etiológico.
Conceitos fundamentais
Corrimento fisiológico
Pode variar com ciclo menstrual, gestação e estímulo hormonal.
Em geral não causa odor fétido, prurido intenso, dor ou inflamação significativa.
Vaginose versus vaginite
Vaginose bacteriana é predominantemente uma disbiose, com pouca resposta inflamatória em muitos casos.
Na idade reprodutiva, o pH fisiológico costuma ser ácido.
Candidíase geralmente mantém pH ≤4,5.
Vaginose bacteriana e tricomoníase tipicamente elevam o pH acima de 4,5.
Infecção sexualmente transmissível
Tricomoníase é uma infecção sexualmente transmissível.
Vaginose bacteriana está associada à atividade sexual, mas não é classificada simplesmente como uma infecção sexualmente transmissível.
Candidíase vulvovaginal não é habitualmente adquirida por relação sexual.
Etiologia e fatores de risco
Vaginose bacteriana
Disbiose polimicrobiana com redução de Lactobacillus e aumento de bactérias anaeróbias, incluindo Gardnerella e outras espécies.
Associa-se a novos ou múltiplos parceiros, ausência de preservativo e duchas vaginais.
Recorrência é frequente e biofilme vaginal participa da persistência.
Candidíase vulvovaginal
Candida albicans é a espécie mais comum.
Antibioticoterapia, diabetes mal controlado, gestação e imunossupressão podem favorecer episódios.
Espécies não-albicans ganham importância em doença complicada ou recorrente.
Tricomoníase
Causada pelo protozoário Trichomonas vaginalis.
Transmitida sexualmente.
Pode ser assintomática e persistir por períodos prolongados sem tratamento.
Causas não infecciosas
Dermatite de contato ou irritativa.
Corpo estranho.
Vaginite atrófica/síndrome geniturinária da menopausa.
Vaginite inflamatória descamativa e outras condições menos comuns.
Quadro clínico
Vaginose bacteriana
Corrimento fino, homogêneo, branco-acinzentado.
Odor desagradável ou de peixe, frequentemente mais perceptível após relação sexual ou durante menstruação.
Prurido e inflamação intensa não são características dominantes.
Candidíase vulvovaginal
Prurido vulvar intenso é manifestação clássica.
Ardor, disúria externa e dispareunia podem ocorrer.
Eritema, edema, escoriações e fissuras podem estar presentes.
Corrimento branco espesso ou grumoso é típico, mas não obrigatório.
Tricomoníase
Corrimento difuso, frequentemente amarelo-esverdeado e por vezes espumoso.
Odor, prurido, irritação e disúria podem ocorrer.
Colo com aspecto pontilhado/hemorrágico, chamado colo em framboesa, é clássico porém não obrigatório.
Sinais de alerta para outro diagnóstico
Dor pélvica importante.
Dor à mobilização cervical ou anexial.
Febre.
Sangramento pós-coital ou intermenstrual.
Corrimento cervical mucopurulento.
Lesões ulceradas ou vesiculares.
Diagnóstico
Avaliação inicial
Caracterizar corrimento, odor, prurido, ardor, disúria, dor pélvica e sangramento.
Investigar uso recente de antibióticos, diabetes, gestação, imunossupressão, práticas intravaginais e risco de infecção sexualmente transmissível.
Examinar vulva, vagina e colo uterino.
Quando disponível, medir pH e realizar teste das aminas e microscopia.
Vaginose bacteriana — critérios de Amsel
Diagnóstico clínico quando pelo menos 3 de 4 critérios estão presentes.
Corrimento vaginal fino e homogêneo.
pH vaginal >4,5.
Teste das aminas positivo após adição de hidróxido de potássio.
Clue cells na microscopia.
Vaginose bacteriana — Nugent
Coloração de Gram com escore baseado na morfologia bacteriana.
É método laboratorial de referência clássico para caracterização da microbiota em estudos e contextos específicos.
Candidíase
Quadro clínico compatível associado à demonstração de leveduras, hifas ou pseudohifas em preparação com solução salina ou hidróxido de potássio apoia o diagnóstico.
pH vaginal geralmente permanece ≤4,5.
Cultura ou outro teste pode ser útil em sintomas persistentes, recorrentes, doença complicada ou suspeita de Candida não-albicans.
Tricomoníase
Microscopia a fresco pode demonstrar tricomonas móveis, mas sua sensibilidade é limitada e cai rapidamente após a coleta.
Testes de amplificação de ácidos nucleicos apresentam maior sensibilidade e são preferíveis quando disponíveis.
Diagnóstico de tricomoníase deve motivar avaliação para outras infecções sexualmente transmissíveis conforme risco e protocolos.
Diagnósticos diferenciais
Cervicite por Chlamydia trachomatis ou Neisseria gonorrhoeae.
Doença inflamatória pélvica.
Herpes genital e outras lesões vulvares.
Vaginite atrófica.
Dermatoses vulvares.
Corpo estranho vaginal.
Classificações e estratificação
Candidíase não complicada
Episódica ou infrequente.
Leve a moderada.
Provavelmente causada por Candida albicans.
Paciente imunocompetente.
Candidíase complicada
Recorrente, intensa, por espécie não-albicans ou em hospedeira com fatores como diabetes mal controlado ou imunossupressão.
Requer confirmação diagnóstica e esquemas terapêuticos específicos/prolongados.
Recorrência
Definições variam entre documentos.
FEBRASGO em publicação de 2026 descreve candidíase recorrente como quatro ou mais episódios em 12 meses.
Para vaginose bacteriana recorrente não existe definição universal; três ou mais episódios ao ano é critério frequentemente utilizado.
Tratamento
Vaginose bacteriana
Metronidazol oral ou intravaginal e clindamicina intravaginal são opções recomendadas.
Tratar mulheres sintomáticas.
Tratamento rotineiro do parceiro masculino não é recomendado pelas diretrizes tradicionais.
Recorrência é comum; confirmar diagnóstico e considerar estratégias supressivas em múltiplas recorrências.
Candidíase vulvovaginal não complicada
Azólicos tópicos em esquemas curtos ou fluconazol oral em dose única são opções eficazes em pacientes não gestantes sem contraindicações.
Na gestação, utilizar apenas azólicos tópicos por 7 dias; fluconazol oral não é recomendado.
Tratamento de parceiro não é rotineiramente indicado, exceto parceiro sintomático com balanite.
Candidíase recorrente
Confirmar diagnóstico e considerar cultura/identificação de espécie.
Para Candida albicans recorrente, realizar fase de indução mais longa seguida de manutenção.
Esquema clássico de manutenção: fluconazol semanal por 6 meses após indução adequada, quando apropriado.
Tricomoníase
Em mulheres, metronidazol 500 mg por via oral duas vezes ao dia por 7 dias é esquema recomendado pelo CDC.
Tratar simultaneamente todos os parceiros sexuais atuais.
Orientar abstinência sexual até que paciente e parceiros tenham completado tratamento e sintomas tenham resolvido.
Repetir teste em mulheres sexualmente ativas aproximadamente 3 meses após tratamento devido à alta taxa de reinfecção.
Medidas gerais
Evitar duchas vaginais.
Orientar preservativo conforme risco de infecção sexualmente transmissível.
Evitar tratamentos empíricos repetidos sem confirmação em quadros recorrentes.
Doses e prescrições
Vaginose bacteriana — primeira linha
Metronidazol 500 mg por via oral, 2 vezes ao dia, por 7 dias.
Metronidazol gel 0,75%: 5 g intravaginal, 1 vez ao dia, por 5 dias.
Clindamicina creme 2%: 5 g intravaginal ao deitar, por 7 dias.
Candidíase vulvovaginal não complicada
Fluconazol 150 mg por via oral, dose única, para pacientes não gestantes quando apropriado.
Azólicos tópicos podem ser usados em diferentes apresentações e durações conforme formulação.
Gestação: azólico tópico por 7 dias.
Candidíase vulvovaginal recorrente por Candida albicans
Indução: fluconazol 100–200 mg por via oral a cada 3 dias, total de 3 doses nos dias 1, 4 e 7; alternativa é terapia tópica por 7–14 dias.
Manutenção: fluconazol 100–200 mg por via oral 1 vez por semana por 6 meses, quando elegível.
Tricomoníase — mulheres
Metronidazol 500 mg por via oral, 2 vezes ao dia, por 7 dias.
Tricomoníase — homens
Metronidazol 2 g por via oral, dose única.
Observações
Tinidazol 2 g por via oral, dose única, é alternativa para tricomoníase em adultos conforme diretriz CDC.
Na candidíase, fluconazol oral deve ser evitado na gestação.
Clindamicina creme vaginal é oleosa e pode enfraquecer preservativos e diafragmas de látex por alguns dias após o uso; orientar conforme produto.
Algoritmos e fluxogramas
Corrimento vaginal
Confirmar se há sintomas patológicos: odor, prurido, ardor, dor ou inflamação.