Profilaxia da ITU e Bacteriúria Assintomática na Gestação — MedVerse · MedVerse
Resumo HARD · Atualizado em 15 de set. de 2026
Profilaxia da ITU e Bacteriúria Assintomática na Gestação
Rastreamento, tratamento da bacteriúria e prevenção das infecções urinárias recorrentes na gravidez
Arthur MedVerse
·28 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
Bacteriúria assintomática (BA) na gestação é a presença de bacteriúria significativa em gestante sem sintomas atribuíveis à infecção do trato urinário. Apesar da ausência de manifestações clínicas, deve ser rastreada e tratada porque se associa a maior risco de cistite e, principalmente, pielonefrite durante a gravidez.
O Protocolo da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) de 2024 recomenda rastreamento universal por urocultura na primeira consulta de pré-natal e a cada trimestre. O fluxograma utiliza bacteriúria ≥100.000 unidades formadoras de colônia por mililitro como referência prática para a definição.
Escherichia coli é o uropatógeno predominante. O tratamento deve considerar urocultura, antibiograma, idade gestacional, alergias e segurança materno-fetal. Fosfomicina trometamol 3 g por via oral em dose única e nitrofurantoína 100 mg por via oral a cada 6 horas por 5 dias são opções destacadas no fluxograma FEBRASGO.
Após o tratamento, é necessário confirmar resposta microbiológica e manter vigilância. O protocolo recomenda urocultura mensal após bacteriúria assintomática, estratégia que também facilita a detecção de recorrência.
Infecção do trato urinário (ITU) recorrente na gestação é definida pela FEBRASGO como dois ou mais episódios durante a gravidez. A partir do segundo episódio, o protocolo recomenda tratar conforme a sensibilidade da urocultura e instituir profilaxia durante a gestação e por 2 semanas no puerpério.
As opções profiláticas do fluxograma são nitrofurantoína 100 mg por via oral uma vez ao dia ou cefalexina 500 mg por via oral uma vez ao dia. A escolha deve respeitar a susceptibilidade dos isolados prévios e contraindicações individuais.
Mensagem de prova: gestante sem sintomas não significa ausência de doença relevante: urocultura positiva significativa deve ser tratada. Dois episódios de ITU na gestação = recorrência; considerar profilaxia com nitrofurantoína ou cefalexina.
Objetivos de aprendizagem
01
Definir bacteriúria assintomática na gestação.
02
Compreender por que gestantes devem ser rastreadas mesmo sem sintomas urinários.
03
Aplicar a estratégia de rastreamento recomendada pela FEBRASGO.
04
Interpretar urocultura e diferenciar bacteriúria assintomática de contaminação e ITU sintomática.
05
Selecionar tratamento antimicrobiano seguro e dirigido.
06
Planejar controle microbiológico após o tratamento.
07
Definir ITU recorrente durante a gravidez.
08
Reconhecer quando iniciar profilaxia antimicrobiana.
09
Conhecer os principais esquemas de profilaxia recomendados no protocolo brasileiro.
Visão rápida
Definição
Bacteriúria significativa em gestante sem sintomas atribuíveis à ITU.
Como reconhecer
Urocultura de rastreamento positiva em paciente assintomática; FEBRASGO utiliza ≥100.000 UFC/mL no fluxograma.
Conduta principal
Tratar, realizar seguimento microbiológico e manter vigilância; recorrência pode indicar profilaxia.
Pérola de prova
FEBRASGO 2024: urocultura na primeira consulta e a cada trimestre; ≥2 episódios de ITU na gestação configuram recorrência.
Introdução
A bacteriúria assintomática é uma das situações em que a ausência de sintomas não significa ausência de relevância clínica.
Alterações hormonais e mecânicas da gravidez favorecem estase urinária e ascensão bacteriana. Assim, colonização persistente pode evoluir para infecção sintomática e pielonefrite.
Por esse motivo, a gestação constitui uma das populações clássicas em que o rastreamento e o tratamento da bacteriúria assintomática são recomendados.
Conceitos fundamentais
Bacteriúria assintomática
A paciente não apresenta disúria, polaciúria, urgência, dor suprapúbica, febre ou quadro compatível com pielonefrite.
O diagnóstico é microbiológico e depende de amostra de urina adequadamente coletada.
O fluxograma FEBRASGO 2024 utiliza crescimento ≥100.000 UFC/mL.
Uma vez reconhecida na gestação, deve ser tratada.
Não confundir com cistite
Cistite apresenta sintomas urinários baixos.
Bacteriúria assintomática não apresenta sintomas.
A presença de sintomas muda a classificação e a interpretação da cultura.
Não confundir com pielonefrite
Febre, dor lombar/flanco e punho-percussão lombar dolorosa sugerem infecção do trato urinário superior.
Pielonefrite exige internação e antibiótico com penetração renal adequada.
Fosfomicina oral e nitrofurantoína são opções para trato urinário baixo/bacteriúria, não para pielonefrite.
Recorrência
A FEBRASGO define ITU recorrente na gestação como dois ou mais episódios durante a gravidez.
Recorrência deve ser documentada microbiologicamente.
Após o segundo episódio, profilaxia antimicrobiana pode ser indicada.
Etiologia e fatores de risco
Microbiologia
Escherichia coli é o agente predominante.
Klebsiella, Proteus, Enterobacter, Enterococcus e Streptococcus agalactiae também podem ser isolados.
O antibiograma é particularmente importante diante de recorrência ou exposição antimicrobiana prévia.
Fatores associados
História prévia de ITU.
ITU recorrente em gestação anterior.
Diabetes mellitus.
Anormalidades estruturais ou funcionais do trato urinário.
Urolitíase.
Refluxo vesicoureteral.
Bexiga neurogênica.
Condições que aumentem estase urinária ou colonização.
Por que tratar
Reduz risco de progressão para pielonefrite.
Previne parte da morbidade infecciosa materna.
ITU na gestação está associada a desfechos obstétricos adversos, incluindo prematuridade e baixo peso ao nascer.
Quadro clínico
Característica essencial
Ausência de sintomas urinários ou sistêmicos atribuíveis à ITU.
A paciente pode sentir-se completamente bem.
O diagnóstico surge no rastreamento pré-natal.
Se houver sintomas, reclassifique
Disúria, urgência, polaciúria ou dor suprapúbica → avaliar cistite.
Febre, calafrios, dor lombar/flanco ou punho-percussão lombar positiva → avaliar pielonefrite.
Corrimento e prurido predominantes → considerar vulvovaginite/cervicite.
Recorrência
Pode ocorrer novamente mesmo após tratamento adequado.
Culturas seriadas permitem reconhecer persistência ou novo episódio.
Episódios repetidos aumentam a importância de profilaxia e avaliação de fatores predisponentes.
Diagnóstico
Rastreamento
FEBRASGO 2024 recomenda rastreamento universal.
Realizar urocultura na primeira consulta de pré-natal.
Repetir urocultura a cada trimestre gestacional segundo o protocolo brasileiro.
Urinálise ou fita reagente não substituem a urocultura para rastreamento.
Interpretação da urocultura
O fluxograma FEBRASGO utiliza ≥100.000 unidades formadoras de colônia por mililitro como bacteriúria significativa.
Amostra deve ser coletada com técnica adequada para reduzir contaminação.
Crescimento de múltiplos organismos ou resultado inconsistente pode exigir nova coleta conforme contexto.
Identificação do agente e antibiograma orientam terapia.
Streptococcus agalactiae
A identificação de Streptococcus agalactiae na urina tem implicações obstétricas adicionais.
Bacteriúria significativa deve ser tratada como ITU durante a gestação.
Bacteriúria por Streptococcus agalactiae também sinaliza colonização materna relevante para a estratégia de profilaxia intraparto conforme protocolos obstétricos.
Controle microbiológico
Após tratamento, confirmar resposta por urocultura.
FEBRASGO recomenda seguimento com urocultura mensal após bacteriúria assintomática.
Nova positividade deve ser interpretada considerando agente, susceptibilidade, sintomas e intervalo desde o tratamento.
Quando ampliar investigação
Recorrências frequentes.
Persistência do mesmo agente apesar de tratamento adequado.
Suspeita de urolitíase.
História de anormalidade anatômica ou obstrução urinária.
Episódios de pielonefrite recorrente.
Classificações e estratificação
Primeiro episódio de bacteriúria assintomática
Confirmar urocultura significativa.
Tratar com antimicrobiano apropriado.
Realizar controle microbiológico e vigilância.
ITU recorrente
Dois ou mais episódios durante a gestação.
Tratar o episódio atual conforme urocultura.
Instituir profilaxia conforme FEBRASGO.
Recidiva versus reinfecção
Recidiva: reaparecimento precoce do mesmo organismo/cepa após tratamento, sugerindo persistência.
Reinfecção: novo episódio, frequentemente por organismo diferente, após resolução do anterior.
A distinção pode orientar investigação de fatores complicadores.
Tratamento
Princípios
Toda bacteriúria assintomática significativa na gestação deve receber tratamento antimicrobiano.
Preferir terapia orientada pela urocultura e susceptibilidade sempre que disponível.
Considerar idade gestacional, função renal, alergias e contraindicações.