Abordagem sindrômica, diagnóstico diferencial e princípios de manejo
Arthur MedVerse
·55 min de leitura·Intermediário
Neste artigo
Resumo executivo
Artrite é a presença de inflamação articular e deve ser diferenciada de artralgia, na qual existe dor sem evidência objetiva de sinovite. O primeiro objetivo diante de uma articulação dolorosa e tumefeita é reconhecer se o quadro é inflamatório, mecânico, infeccioso, microcristalino, autoimune ou relacionado a outra doença sistêmica.
O raciocínio começa pelo padrão de distribuição: monoartrite, oligoartrite ou poliartrite; acometimento axial ou periférico; simetria; pequenas ou grandes articulações; curso agudo, subagudo ou crônico. Rigidez matinal prolongada, calor, edema, limitação dolorosa e melhora com movimento favorecem inflamação; piora com uso, crepitação e rigidez breve favorecem doença mecânico-degenerativa.
A
monoartrite aguda é artrite séptica até que se prove o contrário em contexto compatível
. Nessa situação, a artrocentese é central: o líquido sinovial deve ser analisado quanto a aspecto, contagem celular com diferencial, Gram/cultura e pesquisa de cristais. A presença de cristais não exclui infecção concomitante.
As principais famílias etiológicas incluem artrite reumatoide, espondiloartrites — como artrite psoriásica, espondilite anquilosante e artrite reativa —, artrites microcristalinas, artrite infecciosa, osteoartrite e artrites associadas a doenças sistêmicas. Crianças e adolescentes exigem lembrar artrite idiopática juvenil.
Exames laboratoriais devem responder perguntas clínicas específicas. Proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação medem inflamação, mas são inespecíficas. Fator reumatoide e anticorpos contra peptídeos citrulinados auxiliam na artrite reumatoide; ácido úrico sérico isolado não confirma nem exclui gota durante crise aguda; antígeno leucocitário humano B27 pode apoiar o diagnóstico de espondiloartrite em contexto apropriado, mas não deve ser usado como rastreio indiscriminado.
O princípio terapêutico é tratar a causa. Analgésicos e anti-inflamatórios podem aliviar sintomas, mas artrites inflamatórias autoimunes frequentemente necessitam de medicamentos modificadores do curso da doença, enquanto artrite séptica requer drenagem e antimicrobianos. O reconhecimento precoce e o tratamento orientado por alvo reduzem dano estrutural em doenças inflamatórias crônicas.
Objetivos de aprendizagem
01
Definir artrite e diferenciá-la de artralgia e de condições periarticulares.
02
Classificar o padrão articular em monoartrite, oligoartrite e poliartrite.
03
Diferenciar padrões inflamatório, mecânico, infeccioso e microcristalino.
04
Reconhecer artrite séptica como diagnóstico prioritário na monoartrite aguda.
05
Interpretar corretamente líquido sinovial, provas inflamatórias e autoanticorpos.
06
Reconhecer os padrões típicos de artrite reumatoide, espondiloartrites, gota, osteoartrite e artrite infecciosa.
07
Identificar manifestações extra-articulares que direcionam o diagnóstico.
08
Selecionar exames de imagem conforme a hipótese clínica.
09
Aplicar princípios gerais de tratamento e reconhecer quando encaminhar rapidamente ao reumatologista ou serviço de urgência.
Visão rápida
Definição
Artrite é inflamação articular objetiva, geralmente com dor associada a edema, calor, derrame e/ou limitação do movimento.
Como reconhecer
Classifique número de articulações, duração, simetria, distribuição axial/periférica e padrão inflamatório versus mecânico.
Conduta principal
Monoartrite aguda com suspeita infecciosa → artrocentese urgente antes de antimicrobiano sempre que isso não atrasar tratamento em paciente séptico.
Pérola de prova
Cristais no líquido sinovial não excluem artrite séptica; infecção e artrite por cristais podem coexistir.
Introdução
Artrites formam um grupo heterogêneo de doenças que compartilham inflamação da articulação, mas diferem profundamente em etiologia, prognóstico e tratamento.
A melhor abordagem não é memorizar listas extensas, e sim construir um fenótipo articular: quantas articulações estão acometidas, quais articulações, por quanto tempo, de forma simétrica ou assimétrica, com ou sem manifestações sistêmicas.
A anamnese e o exame físico frequentemente estreitam o diagnóstico antes mesmo dos exames complementares. Testes laboratoriais e de imagem devem confirmar hipóteses, avaliar gravidade ou excluir diagnósticos perigosos.
Conceitos fundamentais
Artralgia × artrite
Artralgia: dor articular sem evidência objetiva de inflamação da articulação.
Artrite: sinovite ou inflamação articular objetiva, geralmente com edema, calor, derrame e limitação de movimento.
Periarticular: bursites, tendinopatias e entesopatias podem simular artrite, mas o arco de movimento passivo costuma ser menos comprometido do que nas artrites verdadeiras.
Classificação pelo número de articulações
Monoartrite: uma articulação.
Oligoartrite: duas a quatro articulações.
Poliartrite: cinco ou mais articulações.
Classificação temporal
Aguda: instalação em horas a poucos dias; pensar especialmente em infecção, cristais, trauma e hemartrose.
Subaguda: evolução em semanas.
Crônica: persistência por semanas a meses, favorecendo artrites inflamatórias crônicas, degenerativas e algumas infecções indolentes.
Padrão inflamatório
Rigidez matinal prolongada.
Dor em repouso e durante a noite.
Melhora relativa com movimento.
Edema, calor e sinovite.
Elevação de marcadores inflamatórios pode ocorrer, mas não é obrigatória.
Padrão mecânico
Dor predominante com carga e movimento.
Melhora com repouso.
Rigidez matinal geralmente breve.
Crepitação e limitação mecânica podem predominar.
Etiologia e fatores de risco
Inflamatórias autoimunes
Artrite reumatoide.
Artrite psoriásica.
Espondiloartrite axial e espondilite anquilosante.
Artrite reativa.
Artrites associadas a lúpus eritematoso sistêmico e outras colagenoses.
Infecciosas
Artrite bacteriana aguda.
Artrite gonocócica.
Artrite tuberculosa.
Artrites virais e outras infecções específicas.
Microcristalinas
Gota: depósito de cristais de urato monossódico.
Doença por deposição de cristais de pirofosfato de cálcio: pode produzir pseudogota e artropatia crônica.
Degenerativas
Osteoartrite: doença articular degenerativa com perda progressiva da cartilagem e remodelamento ósseo; pode apresentar componentes inflamatórios locais.
Pediátricas
Artrite idiopática juvenil: grupo heterogêneo de artrites com início antes dos 16 anos e persistência por pelo menos seis semanas após exclusão de outras causas.
Fatores que elevam suspeita de artrite séptica
Idade avançada.
Prótese articular ou cirurgia recente.
Imunossupressão.
Diabetes mellitus.
Uso de drogas injetáveis.
Infecção bacteriana concomitante ou bacteremia.
Doença articular estrutural prévia.
Quadro clínico
Monoartrite aguda
Artrite séptica: dor intensa, limitação importante, derrame, calor e eventualmente febre; ausência de febre não exclui.
Gota: início abrupto, frequentemente noturno, com dor intensa; podagra é clássica.
Pseudogota: frequentemente acomete joelho ou punho, sobretudo em idosos.
Trauma/hemartrose: história traumática ou risco hemorrágico direciona a investigação.
Poliartrite simétrica de pequenas articulações
Artrite reumatoide: predomínio em metacarpofalângicas, interfalângicas proximais e punhos; interfalângicas distais costumam ser poupadas.
Artrites virais: podem mimetizar artrite reumatoide, sobretudo quando de início agudo.
Artrite assimétrica de membros inferiores
Artrite reativa: oligoartrite assimétrica após infecção gastrointestinal ou geniturinária.
Artrite psoriásica: pode ser assimétrica e associar-se a dactilite, entesite e alterações ungueais.
Espondiloartrites: frequentemente associadas a entesite, dor lombar inflamatória e sacroiliíte.
Achados extra-articulares que ajudam
Psoríase e unhas: favorecem artrite psoriásica.
Uveíte anterior: pode ocorrer nas espondiloartrites.
Uretrite/cervicite ou diarreia prévia: sugerem artrite reativa.
Nódulos reumatoides: podem ocorrer em artrite reumatoide soropositiva.
Tofos: sugerem gota crônica.
Febre e toxicidade sistêmica: aumentam a suspeita de artrite infecciosa.
Diagnóstico
Primeira pergunta: há inflamação verdadeira?
Pesquisar edema sinovial, derrame, calor e limitação dolorosa do movimento ativo e passivo.
Comparar com articulações contralaterais.
Diferenciar dor articular de bursite, tendinite, entesite e dor muscular.
Segunda pergunta: qual o padrão?
Número de articulações.
Distribuição proximal ou distal.
Pequenas ou grandes articulações.
Axial ou periférica.
Simétrica ou assimétrica.
Aguda ou crônica.
Migratória, aditiva ou intermitente.
Marcadores inflamatórios
Proteína C reativa (PCR): útil para detectar e acompanhar inflamação, mas inespecífica.
Velocidade de hemossedimentação (VHS): também inespecífica e influenciada por idade, anemia e outras condições.
Valores normais não excluem necessariamente doença inflamatória.
Autoanticorpos
Fator reumatoide (FR): pode apoiar artrite reumatoide, mas não é específico e pode ser positivo em infecções, outras doenças autoimunes e indivíduos saudáveis.
Anticorpo contra peptídeo citrulinado cíclico (anti-CCP): apresenta maior especificidade para artrite reumatoide e associa-se a maior risco de doença erosiva.
Anticorpo antinuclear: deve ser solicitado quando há suspeita clínica de doença do tecido conjuntivo; positividade isolada não diagnostica artrite autoimune.
Antígeno leucocitário humano B27
O antígeno leucocitário humano B27 (HLA-B27) pode aumentar a probabilidade de espondiloartrite em paciente com fenótipo compatível, mas sua presença não confirma doença e sua ausência não a exclui.
Ácido úrico
A uricemia é útil na avaliação metabólica da gota, porém ácido úrico normal durante uma crise aguda não exclui gota. O diagnóstico definitivo quando há dúvida baseia-se na demonstração de cristais.
Artrocentese
É exame central na monoartrite aguda ou derrame inexplicado, especialmente quando artrite séptica ou microcristalina estão no diagnóstico diferencial.
Aspecto macroscópico.
Contagem global de leucócitos e diferencial.
Coloração de Gram e cultura.
Pesquisa de cristais por microscopia com luz polarizada.
Outros testes microbiológicos conforme contexto.
Cristais
Urato monossódico: cristais em forma de agulha, fortemente birrefringentes negativos sob luz polarizada compensada.
Pirofosfato de cálcio: cristais romboides, fracamente birrefringentes positivos.
Artrite séptica: cuidado com pontos de corte
Líquido sinovial intensamente inflamatório aumenta a probabilidade de infecção, mas nenhum ponto de corte isolado de leucócitos confirma ou exclui artrite séptica. A interpretação deve integrar clínica, microbiologia e fatores do paciente.
Imagem
Radiografia simples: útil para alinhamento, fraturas, osteófitos, redução do espaço articular, erosões tardias e condrocalcinose.
Ultrassonografia: detecta derrame, sinovite, tenossinovite, entesite e pode orientar procedimentos.
Ressonância magnética: mais sensível para sinovite, edema ósseo, sacroiliíte precoce e alterações profundas.
Tomografia computadorizada: útil em situações específicas, especialmente anatomia óssea complexa e algumas articulações axiais.
Classificações e estratificação
Monoartrite
Uma articulação inflamada.
Prioridade prática: excluir artrite séptica e artrite microcristalina.
Oligoartrite
Duas a quatro articulações.
Pode ocorrer em espondiloartrites, artrite reativa, artrite psoriásica e alguns subtipos pediátricos.
Poliartrite
Cinco ou mais articulações.
Artrite reumatoide, artrites virais, doenças autoimunes sistêmicas e algumas formas de artrite psoriásica entram fortemente no diferencial.
Axial
Predomínio em coluna e articulações sacroilíacas.
Característica central das espondiloartrites axiais.
Periférica
Acometimento predominante de membros.
O padrão das articulações afetadas e a simetria têm alto valor diagnóstico.
Tratamento
Princípio geral
O tratamento depende da etiologia. Alívio sintomático não substitui terapia modificadora da doença quando existe artrite inflamatória crônica.
Artrites inflamatórias crônicas
Medicamentos modificadores do curso da doença devem ser iniciados precocemente quando indicados.
Artrite reumatoide é manejada com estratégia de tratamento orientado por alvo, buscando remissão ou baixa atividade.
Metotrexato permanece fármaco central em muitas artrites periféricas inflamatórias, especialmente artrite reumatoide e artrite psoriásica periférica.
Biológicos e medicamentos sintéticos alvo-específicos são utilizados conforme diagnóstico, atividade, prognóstico, comorbidades e resposta prévia.
Anti-inflamatórios e glicocorticoides
Anti-inflamatórios não esteroides podem aliviar dor e inflamação em diversas artrites, considerando risco gastrointestinal, renal e cardiovascular.
Glicocorticoides podem ter papel de curto prazo em situações selecionadas, mas o uso crônico deve ser evitado quando possível.
Infiltração intra-articular pode ser útil em situações específicas após exclusão de infecção.
Artrite séptica
Exige drenagem da articulação e tratamento antimicrobiano.
Coletar líquido sinovial e culturas antes dos antimicrobianos sempre que possível, exceto quando isso atrasaria tratamento em paciente com sepse ou choque séptico.
A escolha antimicrobiana inicial depende de fatores do hospedeiro, Gram, epidemiologia local e foco provável.
Gota
Crise aguda pode ser tratada com anti-inflamatório não esteroide, colchicina ou glicocorticoide conforme características individuais.
Terapia redutora de urato é indicada conforme frequência de crises, tofos, dano estrutural e outras situações definidas em diretrizes.
Alopurinol é terapia de primeira linha para redução de urato na maioria dos pacientes que têm indicação de tratamento crônico.
Osteoartrite
Exercício, fortalecimento, controle de peso quando indicado e educação são pilares.
Analgésicos e anti-inflamatórios podem ser usados conforme sintomas e risco individual.
Não se trata como doença autoimune com medicamentos modificadores do curso da doença.
Conduta na urgência e emergência
Artrite que não pode esperar
A principal emergência é suspeita de artrite séptica, especialmente monoartrite aguda dolorosa com derrame, febre, imunossupressão, prótese ou bacteremia.
Abordagem prática
Estabilizar o paciente e procurar sinais de sepse.
Examinar a articulação e pesquisar porta de entrada/infeção à distância.
Coletar hemoculturas quando indicado.
Realizar artrocentese urgente e enviar líquido sinovial para cultura, Gram, contagem celular e cristais.
Se o paciente está estável, obter material microbiológico antes do antimicrobiano sempre que possível.
Se há sepse ou choque séptico, não atrasar antimicrobiano para aguardar artrocentese.
Acionar ortopedia ou equipe responsável por drenagem/irrigação conforme articulação e gravidade.
Reavaliar resposta clínica, microbiologia e necessidade de novos procedimentos.
Sinais de alarme
Prótese articular dolorosa e inflamada.
Febre ou bacteremia associada à artrite.
Incapacidade abrupta de movimentar ou apoiar a articulação.
Imunossupressão importante.
Suspeita de osteomielite adjacente.
Instabilidade hemodinâmica.
Algoritmos e fluxogramas
Raciocínio inicial diante de dor articular
Confirmar se o problema é articular e se existe inflamação objetiva.
Classificar como monoartrite, oligoartrite ou poliartrite.