Resumo HARDAtualizado em 02 de set. de 2026
Dermatomiosite e Polimiosite
Neste artigo
Resumo executivo
As miopatias inflamatórias idiopáticas (MII) são doenças autoimunes heterogêneas caracterizadas por inflamação muscular e manifestações extramusculares. Entre os fenótipos clássicos estão a dermatomiosite (DM) e a historicamente denominada polimiosite (PM); atualmente, sabe-se que muitos casos antes rotulados como PM correspondem a síndrome antissintetase, miopatia necrosante imunomediada ou outras entidades.
O padrão muscular típico é fraqueza proximal, simétrica e predominantemente de cinturas, geralmente subaguda, com dificuldade para subir escadas, levantar-se de uma cadeira, pentear o cabelo ou elevar os braços. Dor muscular pode ocorrer, mas não é necessária.
A DM diferencia-se pela presença de manifestações cutâneas características. Pápulas/sinal de Gottron e erupção heliotrópica são achados clássicos; também podem ocorrer sinal do xale, sinal do V e alterações periungueais.
A investigação integra enzimas musculares, autoanticorpos, eletroneuromiografia, ressonância magnética e, quando necessário, biópsia muscular ou cutânea. A creatinoquinase (CK) costuma estar elevada, mas níveis normais não excluem todos os fenótipos de DM, especialmente formas amiopáticas.
Autoanticorpos específicos de miosite possuem grande valor fenotípico. Anti-Jo-1 e outros antissintetase sugerem síndrome antissintetase; anti-MDA5 associa-se a DM clinicamente amiopática e risco de doença pulmonar intersticial rapidamente progressiva; anti-TIF1-γ em adultos associa-se a maior risco de neoplasia; anti-Mi-2 associa-se ao fenótipo cutâneo clássico.
A doença pulmonar intersticial (DPI)
Objetivos de aprendizagem
Reconhecer o padrão clínico típico das miopatias inflamatórias idiopáticas.
Diferenciar dermatomiosite de outros fenótipos de miosite.
Reconhecer as limitações atuais do diagnóstico de polimiosite.
Identificar as principais manifestações cutâneas da dermatomiosite.
Interpretar enzimas musculares e autoanticorpos específicos de miosite.
Reconhecer síndrome antissintetase e doença pulmonar intersticial associada.
Relacionar anti-MDA5 e anti-TIF1-γ aos respectivos fenótipos de risco.
Visão rápida
Definição
Miopatias autoimunes sistêmicas que cursam principalmente com fraqueza muscular proximal; a dermatomiosite apresenta manifestações cutâneas características.
Como reconhecer
Fraqueza proximal simétrica + enzimas musculares ± manifestações cutâneas + autoanticorpos, complementados por RM, eletroneuromiografia e/ou biópsia conforme o caso.
Conduta principal
Avaliar gravidade muscular e extramuscular, especialmente disfagia e DPI; iniciar imunossupressão conforme fenótipo e associar reabilitação.
Pérola de prova
Gottron + heliotropo = dermatomiosite; anti-Jo-1 = antissintetase/DPI; anti-MDA5 = risco de DPI rapidamente progressiva.
Introdução
As MII formam um espectro de doenças musculares autoimunes. A classificação contemporânea é mais complexa que a antiga divisão entre DM e PM, pois autoanticorpos, histopatologia e fenótipos clínicos permitiram reconhecer entidades antes agrupadas sob o diagnóstico de PM.
Essa mudança é importante para provas e prática clínica: polimiosite verdadeira é um diagnóstico de exclusão e é menos frequente do que se acreditava. Antes de utilizar esse rótulo, devem ser consideradas síndrome antissintetase, miopatia necrosante imunomediada, miosite por corpos de inclusão, miopatias tóxicas, metabólicas e outras causas.
Conceitos fundamentais
Padrão muscular típico
Fraqueza muscular proximal e geralmente simétrica.
Cinturas escapular e pélvica são predominantemente acometidas.
Instalação costuma ser subaguda ao longo de semanas a meses.
Musculatura ocular é habitualmente poupada; ptose ou oftalmoparesia devem ampliar o diagnóstico diferencial.
Reflexos tendinosos podem permanecer preservados inicialmente.
Disfagia indica acometimento de musculatura orofaríngea e aumenta risco de complicações.
Dermatomiosite
Combina miopatia inflamatória com doença cutânea característica.
Pode existir dermatomiosite clinicamente amiopática, com manifestações cutâneas típicas e pouca ou nenhuma fraqueza muscular clínica.
Fenótipos são fortemente influenciados pelos autoanticorpos específicos.
Polimiosite — conceito moderno
Etiologia e fatores de risco
Mecanismo geral
Doenças autoimunes multifatoriais resultantes de interação entre predisposição genética e fatores ambientais.
DM apresenta importante assinatura imunológica relacionada a interferon e lesão microvascular.
Subtipos imunológicos diferentes apresentam mecanismos e manifestações clínicas distintas.
Associação com malignidade
DM de início na idade adulta possui associação reconhecida com câncer.
Risco não é uniforme e depende de idade, fenótipo, autoanticorpos e outras características.
Anti-TIF1-γ é um importante marcador de maior risco de neoplasia em adultos.
Anti-NXP2 também pode integrar avaliação de risco em determinados contextos.
Rastreamento deve combinar rastreamento populacional apropriado à idade/sexo com avaliação individual de risco.
Fatores associados a DPI
Anticorpos antissintetase.
Quadro clínico
Manifestações musculares
Fraqueza proximal simétrica.
Dificuldade para levantar-se de cadeira ou do chão.
Dificuldade para subir escadas.
Dificuldade para elevar os braços, pentear o cabelo ou alcançar objetos altos.
Disfagia e fraqueza cervical podem ocorrer em doença significativa.
Mialgia pode ocorrer, mas não é obrigatória.
Dermatomiosite — pele
Pápulas de Gottron: pápulas eritematovioláceas sobre superfícies extensoras das articulações das mãos.
Sinal de Gottron: eritema/placas sobre superfícies extensoras.
Heliotropo: erupção violácea periorbitária, frequentemente acompanhada de edema.
Sinal do xale: eritema fotodistribuído em ombros e região superior do dorso.
Sinal do V: eritema fotodistribuído na região anterior do tórax.
Alterações periungueais e telangiectasias podem ocorrer.
Diagnóstico
Enzimas musculares
CK é o marcador laboratorial muscular mais utilizado.
Aldolase, lactato desidrogenase e transaminases também podem elevar-se por origem muscular.
AST e ALT elevadas em paciente com miopatia não significam necessariamente doença hepática.
CK normal não exclui DM, especialmente fenótipos amiopáticos ou hipomiopáticos.
Autoanticorpos específicos de miosite
Anti-Jo-1: anticorpo antissintetase mais clássico; associa-se a síndrome antissintetase e DPI.
Outros antissintetase incluem anti-PL-7, anti-PL-12, anti-EJ e anti-OJ.
Anti-Mi-2: associado ao fenótipo clássico de DM cutânea.
Anti-MDA5: associado a DM clinicamente amiopática e DPI rapidamente progressiva.
Anti-TIF1-γ: associado a DM e maior risco de malignidade no adulto.
Anti-NXP2: associado a determinados fenótipos de DM e pode influenciar estratificação de risco.
Anti-SRP e anti-HMGCR sugerem principalmente miopatia necrosante imunomediada, importante diferencial da PM.
Classificações e estratificação
Critérios EULAR/ACR 2017
Utilizam variáveis clínicas, laboratoriais e histopatológicas ponderadas.
Geram probabilidade de MII e permitem classificação em possível, provável ou definida.
Probabilidade ≥90% corresponde a MII definida.
Com biópsia muscular disponível, pontuação ≥8,7 corresponde aproximadamente à categoria definida; sem biópsia, ≥7,5.
Os critérios são classificatórios e não substituem julgamento diagnóstico.
Limitação atual dos critérios
A classificação das MII evoluiu substancialmente desde 2017.
Novos subtipos e autoanticorpos evidenciaram limitações dos critérios existentes.
EULAR e American College of Rheumatology (ACR) mantêm projeto em andamento para revisão dos critérios de classificação.
Portanto, em 2026 os critérios de 2017 continuam referência publicada, mas sua revisão está formalmente em desenvolvimento.
Tratamento
Princípios
Tratamento deve considerar gravidade muscular, pele, pulmão, deglutição e outros órgãos.
Objetivos incluem recuperar força, controlar inflamação, prevenir dano e reduzir toxicidade cumulativa de glicocorticoides.
Abordagem multidisciplinar é recomendada.
Indução da doença muscular ativa
Glicocorticoides sistêmicos em dose alta constituem tratamento inicial tradicional para doença muscular ativa significativa.
British Society for Rheumatology recomenda glicocorticoide em alta dose na indução da inflamação muscular.
Imunossupressor poupador de corticoide deve ser considerado precocemente para reduzir exposição cumulativa.
Imunossupressores
Metotrexato.
Azatioprina.
Micofenolato mofetil.
Tacrolimo ou ciclosporina em situações selecionadas.
Doses e prescrições
Prednisona/prednisolona — referência de indução
Em doença muscular ativa, esquemas frequentemente utilizam aproximadamente 0,5–1 mg/kg/dia por via oral, individualizados conforme gravidade.
Casos graves podem exigir estratégias de alta dose e pulsoterapia conforme avaliação especializada.
Após resposta clínica e laboratorial, realizar redução gradual; evitar manutenção prolongada em alta dose.
Metotrexato
Opção poupadora de glicocorticoide frequentemente utilizada.
Em adultos, doses semanais usuais em doenças reumatológicas situam-se frequentemente entre 15–25 mg por via oral ou subcutânea.
Associar ácido fólico conforme protocolo.
Evitar na gestação e avaliar função hepática, renal, hemograma e doença pulmonar conforme contexto.
Azatioprina
Opção poupadora de glicocorticoide.
Dose frequentemente titulada na faixa de 1,5–3 mg/kg/dia por via oral.
Algoritmos e fluxogramas
Fraqueza proximal — abordagem
Confirmar fraqueza objetiva e padrão proximal.
Pesquisar manifestações cutâneas típicas.
Solicitar CK e demais enzimas musculares.
Revisar medicamentos, função tireoidiana e diagnósticos alternativos.
Solicitar autoanticorpos de miosite conforme disponibilidade e fenótipo.
Avaliar pulmão e sintomas de disfagia.
Utilizar RM e eletroneuromiografia conforme necessidade.
Considerar biópsia muscular se diagnóstico permanecer incerto ou fenótipo exigir confirmação.
Classificar o subtipo antes de rotular como polimiosite.
Dermatomiosite no adulto
Confirmar manifestações cutâneas características.
Avaliar presença e intensidade da miopatia.
Pesquisar DPI.
Solicitar perfil de autoanticorpos específicos.
O que mais cai
Fraqueza proximal simétrica é o padrão muscular clássico das MII.
Pápulas de Gottron e heliotropo são manifestações clássicas da dermatomiosite.
CK elevada apoia o diagnóstico, mas CK normal não exclui dermatomiosite amiopática.
AST e ALT podem aumentar por lesão muscular.
Anti-Jo-1 é o anticorpo antissintetase clássico.
Síndrome antissintetase = combinação variável de miosite, DPI, artrite, Raynaud, febre e mãos de mecânico.
Anti-MDA5 associa-se a dermatomiosite amiopática e DPI rapidamente progressiva.
Anti-TIF1-γ em adulto com dermatomiosite aumenta preocupação com malignidade.
Anti-Mi-2 associa-se ao fenótipo clássico de dermatomiosite.
Anti-SRP e anti-HMGCR sugerem miopatia necrosante imunomediada, não polimiosite clássica.
Polimiosite verdadeira é diagnóstico de exclusão.
DM adulta possui associação com neoplasia.
Disfagia é manifestação de gravidade e aumenta risco de aspiração.
Exercício supervisionado faz parte do tratamento.
Erros comuns
Chamar toda miopatia inflamatória sem rash de polimiosite.
Excluir dermatomiosite porque a CK está normal.
Interpretar transaminases elevadas automaticamente como hepatopatia sem avaliar CK.
Ignorar doença pulmonar intersticial em paciente com miosite.
Não reconhecer mãos de mecânico como pista para síndrome antissintetase.
Confundir anti-HMGCR com marcador de polimiosite clássica.
Ignorar risco de neoplasia na dermatomiosite do adulto.
Não avaliar disfagia em doença muscular importante.
Prescrever repouso prolongado como estratégia de tratamento.
Usar autoanticorpo isolado sem integrar o fenótipo clínico.
Aplicar critérios classificatórios como se fossem critérios diagnósticos absolutos.
Para lembrar
FRAQUEZA PROXIMAL SIMÉTRICA → PENSE EM MIOPATIA.
GOTTRON + HELIOTROPO → DERMATOMIOSITE.
PM VERDADEIRA → DIAGNÓSTICO DE EXCLUSÃO.
ANTI-Jo-1 → ANTISSINTETASE + DPI.
MÃOS DE MECÂNICO → ANTISSINTETASE.
ANTI-MDA5 → DPI RAPIDAMENTE PROGRESSIVA.
ANTI-TIF1-γ → PENSE EM RISCO DE NEOPLASIA.
ANTI-SRP/ANTI-HMGCR → MIOPATIA NECROSANTE IMUNOMEDIADA.
CK NORMAL NÃO EXCLUI DM AMIOPÁTICA.
DISFAGIA → RISCO DE ASPIRAÇÃO.
DM ADULTA → ESTRATIFIQUE RISCO ONCOLÓGICO.
EXERCÍCIO SUPERVISIONADO → PARTE DO TRATAMENTO.
Referências
- 1.
Oldroyd A, Lilleker J, Chinoy H, et al..
British Society for Rheumatology guideline on management of paediatric, adolescent and adult patients with idiopathic inflammatory myopathy.
Rheumatology (Oxford), 2022.
- 2.
Lundberg IE, Tjärnlund A, Bottai M, et al..
2017 EULAR/ACR Classification Criteria for Adult and Juvenile Idiopathic Inflammatory Myopathies and Their Major Subgroups.
Arthritis & Rheumatology, 2017.
- 3.
Johnson SR, Bernstein EJ, Bolster MB, et al..
2023 ACR/CHEST Guideline for the Screening and Monitoring of Interstitial Lung Disease in People with Systemic Autoimmune Rheumatic Diseases.
Arthritis & Rheumatology / Arthritis Care & Research, 2024.
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