Câncer de Estômago: Quadro Clínico e Diagnóstico — MedVerse · MedVerse
Resumo HARD · Atualizado em 02 de set. de 2026
Câncer de Estômago: Quadro Clínico e Diagnóstico
Apresentação clínica, sinais de alarme, confirmação histológica e estadiamento
Arthur MedVerse
·45 min de leitura·Intermediário
Neste artigo
Resumo executivo
O câncer de estômago frequentemente permanece assintomático ou produz sintomas inespecíficos nas fases iniciais. Quando sintomático, pode manifestar-se com dor ou desconforto epigástrico, perda ponderal, anorexia, saciedade precoce, náuseas, vômitos, anemia e sangramento digestivo. A presença de disfagia sugere tumor proximal ou comprometimento da junção esofagogástrica, enquanto vômitos persistentes podem indicar obstrução da saída gástrica.
O exame físico pode ser normal na doença inicial. Achados como massa epigástrica, ascite, hepatomegalia, caquexia ou sinais clássicos de disseminação geralmente indicam doença avançada. Para provas, devem ser reconhecidos o linfonodo de Virchow na região supraclavicular esquerda, o nódulo de Sister Mary Joseph no umbigo, a prateleira de Blumer no fundo de saco pélvico e o tumor de Krukenberg nos ovários.
A endoscopia digestiva alta (EDA) com biópsias é o exame fundamental diante da suspeita e permite confirmação histológica. Lesões ulceradas ou infiltrativas podem exigir múltiplas amostras; diante de forte suspeição e biópsias inicialmente negativas, a investigação deve prosseguir.
Confirmado o adenocarcinoma, o objetivo deixa de ser apenas diagnosticar e passa a ser estadiar e definir ressecabilidade. A tomografia computadorizada (TC) de tórax, abdome e pelve constitui a base da avaliação sistêmica. A ultrassonografia endoscópica (USE) é particularmente útil para avaliar profundidade da invasão e linfonodos regionais quando isso pode modificar a estratégia, sobretudo em doença aparentemente precoce.
A laparoscopia de estadiamento tem papel importante na identificação de metástases peritoneais ocultas em pacientes com doença potencialmente ressecável, principalmente nos tumores localmente avançados. A citologia peritoneal positiva possui relevância de estadiamento mesmo quando não há implantes macroscópicos.
Marcadores tumorais séricos, como antígeno carcinoembrionário e antígeno de carboidrato 19-9, não confirmam nem excluem câncer gástrico. Podem ser utilizados como informação complementar e, quando elevados inicialmente, eventualmente auxiliar no seguimento.
Mensagem de prova: suspeita clínica → EDA + biópsia → confirmação histológica → TC para estadiamento → USE em situações selecionadas → laparoscopia de estadiamento quando houver risco de doença peritoneal oculta.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer manifestações clínicas iniciais e tardias do câncer gástrico.
02
Identificar sinais de alarme que aumentam a suspeição de neoplasia do trato digestivo alto.
03
Memorizar os achados clássicos de disseminação metastática do câncer gástrico.
04
Definir a endoscopia digestiva alta com biópsia como método central de confirmação diagnóstica.
05
Compreender o papel da tomografia computadorizada no estadiamento.
06
Reconhecer as indicações e limitações da ultrassonografia endoscópica.
07
Entender a importância da laparoscopia de estadiamento e da citologia peritoneal.
08
Diferenciar exames diagnósticos, exames de estadiamento e exames complementares.
09
Evitar o uso inadequado de marcadores tumorais séricos como testes diagnósticos.
Visão rápida
Definição
A apresentação clínica varia de sintomas dispépticos inespecíficos a síndrome consumptiva, sangramento, obstrução e sinais de doença metastática.
Como reconhecer
Perda ponderal, anorexia, saciedade precoce, anemia, sangramento, disfagia ou vômitos persistentes aumentam a suspeição.
Conduta principal
Suspeita → endoscopia digestiva alta com biópsias; câncer confirmado → estadiamento, principalmente com tomografia computadorizada, complementado conforme o caso.
Pérola de prova
Virchow = supraclavicular esquerdo; Sister Mary Joseph = umbigo; Krukenberg = ovário; Blumer = fundo de saco pélvico.
Introdução
A apresentação clínica do câncer gástrico depende da localização, do padrão de crescimento e do estágio. A ausência de sintomas específicos na doença inicial é uma das razões para o diagnóstico tardio.
O raciocínio diagnóstico deve responder a três perguntas diferentes: há uma lesão gástrica suspeita? A histologia confirma malignidade? Qual é a extensão da doença? A EDA responde principalmente à primeira pergunta e permite obter tecido; a anatomopatologia confirma o diagnóstico; exames de imagem e procedimentos de estadiamento definem extensão e ressecabilidade.
Quadro clínico
Doença inicial
Pode ser completamente assintomática.
Dispepsia, plenitude pós-prandial, desconforto ou dor epigástrica podem ocorrer, mas são inespecíficos.
Náuseas, redução do apetite e saciedade precoce podem aparecer progressivamente.
Sintomas inespecíficos não permitem distinguir com segurança doença benigna de neoplasia.
Sinais e sintomas de alarme
Perda ponderal involuntária.
Anorexia ou redução progressiva da ingestão.
Anemia, particularmente anemia ferropriva.
Sangramento digestivo manifesto ou oculto.
Vômitos persistentes.
Disfagia ou odinofagia.
Massa abdominal ou adenomegalias.
Piora progressiva de sintomas digestivos em contexto clínico suspeito.
Relação entre localização e sintomas
Tumores proximais ou próximos à junção esofagogástrica podem causar disfagia.
Tumores distais/antrais podem causar obstrução da saída gástrica, com plenitude e vômitos.
Lesões ulceradas podem produzir perda crônica de sangue e anemia.
Infiltração difusa da parede pode reduzir a complacência gástrica e produzir saciedade precoce.
Doença avançada
Perda ponderal acentuada e caquexia.
Palidez por anemia.
Massa epigástrica palpável.
Hepatomegalia por metástases hepáticas.
Ascite por disseminação peritoneal ou outras causas relacionadas à doença.
Adenomegalias metastáticas.
Obstrução, sangramento e comprometimento nutricional.
Achados metastáticos clássicos
Linfonodo de Virchow: adenomegalia supraclavicular esquerda decorrente de disseminação linfática.
Nódulo de Sister Mary Joseph: implante metastático umbilical.
Prateleira de Blumer: implante metastático no fundo de saco pélvico, potencialmente palpável ao toque retal ou vaginal.
Tumor de Krukenberg: metástase ovariana, frequentemente bilateral, classicamente associada a neoplasias gastrointestinais, sobretudo gástricas.
Diagnóstico
1. Exame fundamental: EDA com biópsia
A EDA permite localizar e caracterizar a lesão, avaliar extensão macroscópica e coletar material para anatomopatologia.
A confirmação do câncer gástrico é histológica.
Lesões suspeitas devem ser adequadamente amostradas com múltiplas biópsias.
Uma biópsia negativa não encerra a investigação quando o aspecto endoscópico e o contexto clínico mantêm alta suspeição.
Lesões infiltrativas, inclusive padrões semelhantes à linitis plastica, podem ser mais difíceis de diagnosticar com biópsias superficiais.
2. Anatomopatologia
Define o tipo histológico e características morfológicas relevantes.
Em adenocarcinomas, classificações histológicas e biomarcadores serão incorporados conforme estágio e planejamento terapêutico.
O material deve ser suficiente para diagnóstico e, especialmente na doença avançada, para testes preditivos quando indicados.
3. Exames laboratoriais
Hemograma pode demonstrar anemia por sangramento crônico, deficiência nutricional ou doença avançada.
Função renal, eletrólitos e provas hepáticas auxiliam avaliação clínica, planejamento terapêutico e pesquisa indireta de comprometimento sistêmico.
Hipoalbuminemia pode refletir comprometimento nutricional ou doença avançada, mas não é específica.
4. Marcadores tumorais
Antígeno carcinoembrionário (CEA) e antígeno de carboidrato 19-9 (CA 19-9) podem estar elevados.
Não possuem sensibilidade ou especificidade suficientes para rastreamento ou confirmação diagnóstica.
Não devem substituir endoscopia, biópsia ou estadiamento por imagem.
Quando elevados antes do tratamento, podem ser úteis como informação complementar durante acompanhamento.
5. TC para estadiamento
A TC de tórax, abdome e pelve é utilizada para avaliar extensão locorregional, linfonodos, metástases hepáticas, pulmonares, peritoneais e outros sítios.
É essencial para planejamento terapêutico e avaliação inicial de ressecabilidade.
A ausência de doença peritoneal evidente na TC não exclui micrometástases ou pequenos implantes.
6. USE
A USE fornece melhor avaliação das camadas da parede gástrica e pode estimar a profundidade de invasão tumoral.
Também auxilia na avaliação de linfonodos regionais.
É especialmente útil quando a distinção entre doença superficial e invasiva pode alterar a indicação de tratamento endoscópico ou cirúrgico.
Não substitui a investigação de metástases à distância.
7. Tomografia por emissão de pósitrons
A tomografia por emissão de pósitrons associada à TC (PET-TC) não é obrigatória para todos os pacientes.
Pode complementar o estadiamento em situações selecionadas.
A sensibilidade é menor em alguns tumores mucinosos, pouco coesos ou de padrão difuso, que podem apresentar menor avidez pelo radiofármaco.
8. Laparoscopia de estadiamento
Pode detectar pequenos implantes peritoneais e metástases superficiais não identificadas pelos exames de imagem.
É particularmente importante em pacientes com doença localmente avançada aparentemente ressecável, antes de estratégia com intenção curativa.
Permite coleta de líquido/lavado peritoneal para citologia.
Citologia peritoneal positiva é considerada evidência de doença metastática no sistema de estadiamento, mesmo sem implantes macroscópicos.
9. Biomarcadores relevantes
Na doença avançada, o tecido tumoral deve ser avaliado para biomarcadores que possam modificar a terapia sistêmica.
Receptor 2 do fator de crescimento epidérmico humano (HER2) é biomarcador terapêutico clássico.
Instabilidade de microssatélites (MSI) e deficiência do reparo de incompatibilidade (dMMR) têm implicações terapêuticas e prognósticas.
Expressão do ligante de morte programada 1 (PD-L1), usualmente avaliada por escore positivo combinado, pode influenciar uso de imunoterapia.
Claudina 18.2 (CLDN18.2) tornou-se alvo terapêutico relevante em adenocarcinoma gástrico avançado em cenários específicos.
Classificações e estratificação
TNM: visão aplicada ao diagnóstico
O sistema tumor, linfonodo e metástase (TNM) é a base do estadiamento.
A categoria T depende da profundidade de invasão através das camadas da parede e do comprometimento de estruturas adjacentes.
A categoria N é determinada pelo número de linfonodos regionais comprometidos.
A categoria M identifica metástase à distância.
O estágio final resulta da combinação de T, N e M.
Câncer gástrico precoce
É definido pela invasão limitada à mucosa ou submucosa, independentemente da presença de metástase linfonodal.
É um conceito anatomopatológico de profundidade e não sinônimo automático de doença sem linfonodos.
A avaliação adequada da profundidade é decisiva para selecionar pacientes candidatos a tratamento endoscópico.
Algoritmos e fluxogramas
Paciente com suspeita de câncer gástrico
Identificar sintomas, sinais de alarme, fatores de risco e condição clínica.
Realizar endoscopia digestiva alta.
Identificar lesão suspeita e obter biópsias adequadas.
Confirmar histologia.
Realizar tomografia computadorizada de tórax, abdome e pelve para estadiamento.
Se necessário para avaliação locorregional, realizar ultrassonografia endoscópica.
Em doença potencialmente ressecável com risco relevante de disseminação peritoneal, considerar laparoscopia de estadiamento com citologia.
Definir estágio clínico, ressecabilidade e estratégia terapêutica em discussão multidisciplinar.
Biópsia negativa, mas lesão muito suspeita
Não considerar malignidade excluída apenas pela primeira amostra.
Reavaliar qualidade, número e profundidade das biópsias.
Repetir endoscopia e amostragem quando indicado.
Considerar métodos complementares para lesões infiltrativas/subepiteliais conforme o padrão encontrado.
Manter investigação até obter explicação compatível com os achados clínicos e endoscópicos.
O que mais cai
Câncer gástrico inicial pode ser assintomático ou apresentar sintomas inespecíficos.
Perda ponderal, anemia, sangramento, disfagia, vômitos persistentes e saciedade precoce são achados de alarme.
EDA com biópsia é o eixo da confirmação diagnóstica.
TC de tórax, abdome e pelve é base do estadiamento sistêmico.
USE é particularmente útil para avaliar profundidade tumoral e linfonodos regionais.
Laparoscopia de estadiamento pode revelar carcinomatose oculta não visualizada na TC.