Avaliação inicial, ventilação, compressões, epinefrina e algoritmo de reanimação em sala de parto
Arthur MedVerse
·50 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
A reanimação neonatal é uma sequência de intervenções realizadas imediatamente após o nascimento para favorecer a transição cardiorrespiratória. O princípio central é simples e extremamente cobrado em prova:
ventilar adequadamente os pulmões é a intervenção mais importante
para corrigir a bradicardia neonatal.
A avaliação inicial considera respiração/choro, tônus e condições de transição. Quando o recém-nascido apresenta apneia, gasping ou frequência cardíaca inferior a 100 batimentos por minuto após os passos iniciais, deve-se iniciar ventilação com pressão positiva rapidamente, idealmente dentro do primeiro minuto de vida.
A resposta à ventilação é avaliada principalmente pela elevação da frequência cardíaca. Se não houver resposta, a prioridade é corrigir a técnica ventilatória e assegurar movimento torácico antes de avançar para compressões.
As compressões torácicas são indicadas quando a frequência cardíaca permanece inferior a 60 batimentos por minuto apesar de pelo menos 30 segundos de ventilação efetiva com expansão torácica. Utiliza-se relação 3:1, totalizando aproximadamente 90 compressões e 30 ventilações por minuto.
Se a frequência cardíaca permanecer inferior a 60 batimentos por minuto após cerca de 60 segundos de compressões coordenadas com ventilação adequada, indica-se epinefrina, preferencialmente por via intravascular. A reanimação avançada exige ainda investigação de hipovolemia, pneumotórax e falha de ventilação.
Para provas brasileiras, a base nacional continua sendo o Programa de Reanimação Neonatal da Sociedade Brasileira de Pediatria, com diretrizes específicas para recém-nascidos com idade gestacional ≥34 semanas e prematuros <34 semanas. Recomendações internacionais de 2025 reforçam a prioridade absoluta da ventilação e incorporam evidências mais recentes sobre clampeamento do cordão, oxigênio e vias alternativas.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer quais recém-nascidos necessitam apenas de cuidados de rotina e quais precisam de reanimação.
02
Executar mentalmente a sequência dos passos iniciais da estabilização neonatal.
03
Identificar as indicações de ventilação com pressão positiva.
04
Reconhecer ventilação ineficaz e aplicar medidas corretivas antes de avançar no algoritmo.
05
Definir quando indicar via aérea alternativa.
06
Indicar corretamente compressões torácicas e compreender a relação 3:1.
07
Conhecer indicações, vias e doses de epinefrina na reanimação neonatal.
08
Reconhecer situações em que expansão volêmica deve ser considerada.
09
Diferenciar aspectos relevantes da reanimação do recém-nascido ≥34 semanas e do prematuro <34 semanas.
10
Reconhecer os principais cuidados pós-reanimação e as pegadinhas de prova.
Visão rápida
Definição
Suporte à transição cardiorrespiratória do recém-nascido imediatamente após o nascimento, com ventilação como intervenção central.
Como reconhecer
Apneia, gasping ou frequência cardíaca <100/min após passos iniciais indicam ventilação com pressão positiva.
Conduta principal
Ventilar → confirmar expansão torácica e resposta da frequência cardíaca → corrigir ventilação → compressões se frequência cardíaca <60/min → epinefrina se persistir <60/min.
Pérola de prova
Na reanimação neonatal, bradicardia geralmente é consequência de ventilação/oxigenação inadequadas; antes de comprimir ou medicar, garanta ventilação efetiva.
Introdução
A maioria dos recém-nascidos realiza a transição para a vida extrauterina sem necessidade de intervenções avançadas. Entretanto, uma parcela necessita de auxílio para iniciar a respiração, e uma minoria requer reanimação avançada.
Diferentemente da parada cardiorrespiratória típica do adulto, a deterioração cardiovascular neonatal é predominantemente consequência de falha das trocas gasosas. Por isso, a ventilação ocupa o centro do algoritmo.
A equipe deve antecipar riscos antes de cada nascimento, verificar equipamentos, definir funções e estar preparada para iniciar ventilação rapidamente quando necessária.
Conceitos fundamentais
Preparação antes do nascimento
Realizar avaliação de risco materno, fetal e obstétrico antes do parto.
Definir liderança, funções da equipe e plano para situações inesperadas.
Checar fonte de calor, equipamentos de ventilação, oxigênio, aspiração, via aérea alternativa, monitorização, acesso vascular e medicamentos.
Todo nascimento deve contar com profissional capaz de executar os passos iniciais e iniciar ventilação com pressão positiva.
Perguntas imediatamente após o nascimento
Avaliar se o recém-nascido respira ou chora.
Avaliar tônus muscular.
Considerar idade gestacional e condições clínicas para organização da assistência, especialmente na aplicação das diretrizes brasileiras.
Recém-nascido com boa transição deve permanecer aquecido e, quando possível, em contato pele a pele, com cuidados de rotina.
O primeiro minuto
A ventilação deve ser iniciada dentro de 60 segundos após o nascimento quando houver apneia, gasping ou bradicardia persistente com frequência cardíaca <100/min após os passos iniciais.
O conceito de 'minuto de ouro' enfatiza rapidez de avaliação, estabilização inicial e início da ventilação quando indicada.
A frequência cardíaca é o principal indicador da eficácia das manobras.
Frequência cardíaca: números-chave
≥100/min: em geral, não há indicação de ventilação por bradicardia; avaliar respiração e oxigenação.
60–99/min: ventilação efetiva é a prioridade.
<60/min após ventilação efetiva: indicar compressões torácicas.
<60/min apesar de ventilação + compressões adequadas: indicar epinefrina.
Classificações e estratificação
Recém-nascido com idade gestacional ≥34 semanas
A Sociedade Brasileira de Pediatria possui algoritmo específico para recém-nascidos com idade gestacional ≥34 semanas.
A estratégia de oxigênio, suporte respiratório e manejo do cordão deve considerar condição clínica e diretriz vigente.
Máscara laríngea pode ser opção de via aérea alternativa em recém-nascidos maiores quando ventilação por máscara é ineficaz e intubação não é possível ou falha.
Prematuro com idade gestacional <34 semanas
A Sociedade Brasileira de Pediatria utiliza diretriz específica para prematuros <34 semanas.
Há maior risco de hipotermia, lesão pulmonar por ventilação excessiva e hiperóxia.
Controle térmico rigoroso, suporte respiratório gentil e titulação de oxigênio pela oximetria são especialmente importantes.
Prematuros respirando espontaneamente com desconforto podem se beneficiar de pressão positiva contínua nas vias aéreas.
Tratamento
Controle térmico
Evitar hipotermia e hipertermia durante toda a estabilização.
Monitorar temperatura quando a reanimação é prolongada.
Prematuros, especialmente os muito imaturos, necessitam medidas adicionais para reduzir perda de calor.
Clampeamento do cordão umbilical
Em recém-nascidos que não necessitam de reanimação imediata, o clampeamento tardio é favorecido pelas recomendações contemporâneas.
As diretrizes internacionais de 2025 apoiam clampeamento tardio por pelo menos 60 segundos na maioria dos recém-nascidos em transição adequada.
A necessidade de intervenção imediata deve ser ponderada com a estratégia de manejo do cordão conforme cenário e protocolo institucional.
Aspiração de vias aéreas e mecônio
Aspiração rotineira da boca, nariz ou traqueia não é recomendada em recém-nascidos vigorosos.
Presença de líquido meconial, isoladamente, não justifica intubação e aspiração traqueal de rotina.
Se houver ventilação ineficaz por suspeita de obstrução por secreções, aspiração pode ser necessária.
A prioridade no recém-nascido não vigoroso é estabelecer ventilação efetiva.
Pressão positiva contínua nas vias aéreas
Pode ser considerada em recém-nascido respirando espontaneamente, mas com desconforto respiratório.
Tem papel particularmente importante em prematuros para favorecer capacidade residual funcional e reduzir necessidade de intubação.
Conduta na urgência e emergência
1. Passos iniciais
Prover calor e manter temperatura corporal adequada.
Posicionar a cabeça e o pescoço para manter a via aérea pérvia.
Secar quando apropriado e remover campos úmidos; em prematuros muito pequenos, utilizar estratégias específicas de proteção térmica.
Estimular suavemente quando necessário.
Aspirar secreções apenas quando houver indicação clínica, especialmente suspeita de obstrução das vias aéreas.
2. Avaliar respiração e frequência cardíaca
Respiração eficaz e frequência cardíaca adequada → cuidados de transição e monitorização conforme necessidade.
Apneia ou gasping → iniciar ventilação com pressão positiva.
Frequência cardíaca <100/min apesar dos passos iniciais → iniciar ventilação com pressão positiva.
3. Ventilação com pressão positiva
Iniciar rapidamente quando indicada, idealmente dentro do primeiro minuto de vida.
Frequência inicial usual: aproximadamente 40–60 ventilações por minuto.
Pressão inspiratória inicial frequentemente na faixa de 20–30 cmH₂O, ajustada para obter expansão torácica e elevação da frequência cardíaca.
A elevação da frequência cardíaca é o melhor sinal de ventilação efetiva.
Se a frequência cardíaca não aumenta, verificar primeiro se há movimento do tórax.
4. Ventilação não está movendo o tórax
Reajustar a máscara e melhorar a vedação.
Reposicionar cabeça e via aérea.
Verificar e remover secreções se houver obstrução.
Abrir a boca.
Aumentar gradualmente a pressão ventilatória conforme necessidade.
Considerar via aérea alternativa se a ventilação continuar ineficaz.
5. Via aérea alternativa
Intubação traqueal é indicada quando ventilação por máscara permanece ineficaz, quando são necessárias compressões ou em situações clínicas específicas.
Durante compressões, a via aérea traqueal é preferida para assegurar ventilação efetiva.
Máscara laríngea pode ser alternativa em recém-nascidos selecionados quando ventilação por máscara falha e intubação não é possível ou não tem sucesso.
6. Compressões torácicas
Indicação: frequência cardíaca <60/min após pelo menos 30 segundos de ventilação efetiva que produza expansão pulmonar.
Relação compressão:ventilação = 3:1.
Realizar aproximadamente 90 compressões + 30 ventilações por minuto, totalizando 120 eventos por minuto.
Técnica preferida: dois polegares com as mãos envolvendo o tórax.
Comprimir o terço inferior do esterno, evitando o apêndice xifoide.
Profundidade aproximada: um terço do diâmetro anteroposterior do tórax.
Utilizar oxigênio a 100% durante compressões segundo recomendações atuais; após recuperação, reduzir a concentração conforme metas de saturação.
7. Epinefrina
Indicação: frequência cardíaca permanece <60/min após ventilação efetiva e aproximadamente 60 segundos de compressões coordenadas.
Via preferida: intravascular, especialmente veia umbilical.
Acesso intraósseo pode ser considerado quando o acesso intravenoso/umbilical não é viável.
A via endotraqueal pode ser utilizada temporariamente enquanto o acesso vascular é obtido, porém requer dose maior e apresenta absorção menos previsível.
8. Hipovolemia
Suspeitar diante de história de perda sanguínea, palidez, pulsos fracos, má perfusão e ausência de resposta adequada às medidas de reanimação.
Expansão volêmica não é rotina para todo recém-nascido bradicárdico.
Solução cristaloide isotônica ou sangue podem ser utilizados quando perda sanguínea significativa é provável.
Administrar volume com cautela, especialmente em prematuros.
Doses e prescrições
Epinefrina — via intravascular
Concentração utilizada na reanimação: 0,1 mg/mL (1:10.000).
Dose: 0,01–0,03 mg/kg.
Equivale a 0,1–0,3 mL/kg da solução 0,1 mg/mL.
Preferir acesso venoso umbilical; acesso intraósseo é alternativa quando necessário.
Pode ser repetida a cada 3–5 minutos se a frequência cardíaca permanecer <60/min.
Após administração intravascular, recomendações internacionais atuais orientam flush com solução salina para facilitar a chegada do fármaco à circulação central.
Epinefrina — via endotraqueal
Utilizar apenas enquanto o acesso vascular está sendo estabelecido.
Dose recomendada nas diretrizes internacionais de 2025: 0,05–0,1 mg/kg.
Equivale a 0,5–1 mL/kg da solução 0,1 mg/mL.
Administrar dose intravascular assim que o acesso estiver disponível se não houver resposta adequada.
Expansão volêmica
Considerar apenas quando houver suspeita de hipovolemia/perda sanguínea e resposta inadequada à reanimação.
Solução de cloreto de sódio 0,9% é opção cristaloide.
Sangue tipo O Rh-negativo não cruzado ou sangue compatível imediatamente disponível é preferível quando a perda sanguínea é importante.
A velocidade e o volume devem seguir a diretriz neonatal e o contexto clínico, com atenção especial ao risco de sobrecarga e hemorragia intracraniana em prematuros.
Oxigênio
Não utilizar oxigênio a 100% rotineiramente desde o início em todo recém-nascido.
A concentração inicial depende da idade gestacional e da diretriz aplicada.
Titular oxigênio conforme oximetria pré-ductal e metas de saturação durante a transição.
Durante compressões torácicas, recomendações atuais permitem/indicam aumento para 100%; após recuperação da frequência cardíaca, reduzir conforme a saturação.
Algoritmos e fluxogramas
Algoritmo mental de prova
Nasceu → avaliar respiração/choro, tônus e condições de transição.
Boa transição → aquecimento, contato pele a pele e cuidados de rotina.
Apneia/gasping ou frequência cardíaca <100/min → passos iniciais rápidos + ventilação com pressão positiva.
Após ventilação → avaliar elevação da frequência cardíaca e movimento torácico.
Sem expansão torácica → corrigir ventilação; não avançar automaticamente para compressões.
Part 5: Neonatal Resuscitation: 2025 American Heart Association and American Academy of Pediatrics Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care.