Anatomia, classificação, diagnóstico, complicações e princípios do tratamento das hérnias da parede abdominal
Arthur MedVerse
·64 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
Hérnia da parede abdominal é a protrusão de conteúdo intra-abdominal ou pré-peritoneal através de um defeito ou área de fraqueza da parede. As hérnias podem ser inguinais, femorais, umbilicais, epigástricas, incisionais e outras menos frequentes.
As hérnias da virilha são as mais comuns. Na região inguinal, a relação do saco herniário com os vasos epigástricos inferiores diferencia as formas clássicas: hérnia inguinal indireta é lateral aos vasos; hérnia inguinal direta é medial. A hérnia femoral emerge inferiormente ao ligamento inguinal e apresenta maior risco de encarceramento e estrangulamento.
O diagnóstico é predominantemente clínico. Abaulamento que surge ou aumenta com ortostatismo, tosse ou manobra de Valsalva e pode reduzir espontaneamente ou à manipulação é apresentação típica. Ultrassonografia, tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética (RM) são reservadas principalmente para dúvida diagnóstica, hérnia oculta, recorrência, obesidade ou planejamento de casos complexos.
Redutibilidade e perfusão definem a urgência. Hérnia encarcerada é aquela cujo conteúdo não pode ser reduzido; estrangulamento implica comprometimento vascular e risco de isquemia/necrose. Dor intensa e progressiva, sinais de obstrução intestinal, peritonismo, toxicidade sistêmica ou alterações inflamatórias importantes sobre a hérnia exigem avaliação cirúrgica urgente.
Em adultos, hérnias inguinais sintomáticas são tratadas cirurgicamente. Em homens com hérnia inguinal assintomática ou minimamente sintomática, vigilância expectante pode ser segura, embora muitos evoluam para cirurgia ao longo dos anos, principalmente por dor. Em mulheres com hérnia da virilha, a possibilidade de hérnia femoral torna a estratégia expectante menos apropriada.
A correção pode ser aberta ou por abordagem laparoendoscópica. Técnicas com tela reduzem recorrência e são padrão na maioria dos adultos; a escolha depende do tipo de hérnia, bilateralidade, recorrência, experiência do cirurgião, condições clínicas e preferência do paciente.
Mensagem de prova: indireta = lateral aos vasos epigástricos inferiores e pode alcançar o escroto; direta = medial, pelo triângulo de Hesselbach; femoral = abaixo do ligamento inguinal e maior risco de estrangulamento. Hérnia estrangulada é emergência cirúrgica.
Objetivos de aprendizagem
01
Definir hérnia da parede abdominal e reconhecer seus principais tipos.
02
Revisar a anatomia do canal inguinal e do orifício miopectíneo de Fruchaud.
03
Diferenciar hérnia inguinal direta, indireta e femoral por seus marcos anatômicos.
04
Reconhecer fatores predisponentes e apresentações clínicas típicas.
05
Diferenciar hérnia redutível, encarcerada e estrangulada.
06
Identificar sinais de obstrução intestinal e isquemia associados à hérnia.
07
Definir quando exames de imagem são necessários.
08
Conhecer indicações gerais de tratamento cirúrgico e vigilância expectante.
09
Comparar princípios das abordagens aberta e laparoendoscópica.
10
Reconhecer situações que exigem cirurgia urgente.
11
Conhecer princípios de manejo das hérnias umbilicais e incisionais.
12
Identificar pegadinhas anatômicas e clínicas frequentes em provas de residência.
Visão rápida
Definição
Protrusão de víscera, peritônio ou gordura pré-peritoneal através de defeito ou área de fraqueza da parede abdominal.
Como reconhecer
Abaulamento relacionado a esforço/Valsalva, frequentemente redutível; dor intensa, irredução e sinais obstrutivos sugerem complicação.
Conduta principal
Sintomáticas geralmente são corrigidas; estrangulamento exige cirurgia urgente. Vigilância pode ser considerada em homens selecionados com hérnia inguinal assintomática ou minimamente sintomática.
Pérola de prova
Inguinal indireta = lateral aos vasos epigástricos inferiores; direta = medial; femoral = inferior ao ligamento inguinal e com maior risco de estrangulamento.
Introdução
As hérnias da parede abdominal constituem uma das condições cirúrgicas mais frequentes. O defeito pode ser congênito, adquirido ou relacionado a uma incisão cirúrgica prévia.
A região inguinal é particularmente vulnerável por concentrar estruturas que atravessam a parede abdominal. O conceito do orifício miopectíneo de Fruchaud integra as hérnias inguinais diretas, indiretas e femorais em uma mesma área anatômica de fraqueza.
Para provas, a anatomia é decisiva. Para a prática, o ponto crítico é reconhecer quando uma hérnia aparentemente simples evoluiu para encarceramento, obstrução ou estrangulamento.
O tratamento definitivo é cirúrgico, mas nem toda hérnia precisa ser operada imediatamente. Tipo, sintomas, sexo, risco de complicação, condições clínicas e preferência do paciente orientam o momento e a técnica.
Conceitos fundamentais
Componentes de uma hérnia
Anel/colo: região do defeito por onde o conteúdo protrui.
Saco herniário: evaginação peritoneal que pode envolver o conteúdo.
Conteúdo: gordura pré-peritoneal, omento, intestino e, menos frequentemente, outras estruturas.
Nem toda hérnia apresenta um saco clássico facilmente identificável.
Anatomia do canal inguinal
Canal oblíquo na porção inferior da parede abdominal anterior.
No homem contém o funículo espermático; na mulher, o ligamento redondo do útero.
Anel inguinal profundo situa-se lateralmente aos vasos epigástricos inferiores.
Anel inguinal superficial é abertura na aponeurose do músculo oblíquo externo.
Triângulo de Hesselbach
Limite medial: borda lateral do músculo reto abdominal.
Limite lateral: vasos epigástricos inferiores.
Limite inferior: ligamento inguinal.
É o território clássico de protrusão da hérnia inguinal direta.
Orifício miopectíneo de Fruchaud
Área anatômica de fraqueza da região inguinofemoral.
É atravessada por estruturas do canal inguinal e vasos femorais.
O ligamento inguinal separa funcionalmente os compartimentos inguinal e femoral.
O conceito explica por que uma cobertura ampla dessa região é objetivo das correções pré-peritoneais.
Redutível, encarcerada e estrangulada
Redutível: conteúdo retorna espontaneamente ou com manipulação suave.
Encarcerada/irredutível: conteúdo permanece preso no saco; não implica obrigatoriamente isquemia.
Estrangulada: há comprometimento vascular do conteúdo herniado, com risco de isquemia, necrose e perfuração.
Obstruída: conteúdo intestinal herniado causa obstrução mecânica; pode ocorrer com ou sem estrangulamento.
Etiologia e fatores de risco
Mecanismos
Persistência de estruturas embrionárias, como processo vaginal patente, favorece hérnia inguinal indireta.
Fraqueza adquirida da fáscia transversalis e alterações do tecido conjuntivo contribuem para hérnia direta.
Defeito de cicatrização fascial após laparotomia ou laparoscopia pode originar hérnia incisional.
Defeitos umbilicais podem persistir desde a infância ou surgir/adquirir importância na vida adulta.
Fatores associados
Sexo masculino e idade avançada aumentam a ocorrência de hérnia inguinal.
História familiar e alterações do metabolismo do colágeno.
Tabagismo.
Doença pulmonar crônica e tosse persistente.
Constipação e esforços repetidos podem aumentar pressão intra-abdominal.
Ascite.
Obesidade tem relação particularmente importante com hérnias ventrais/incisionais e complicações de parede.
Cirurgia abdominal prévia é fator essencial para hérnia incisional.
Fatores de hérnia incisional
Infecção do sítio cirúrgico.
Obesidade.
Tabagismo.
Diabetes mellitus e condições que prejudicam cicatrização.
Desnutrição.
Técnica de fechamento inadequada e fatores relacionados à incisão.
Aumento persistente da pressão intra-abdominal.
Quadro clínico
Apresentação típica
Abaulamento inguinal, umbilical ou sobre cicatriz cirúrgica.
Aumento ao ficar em pé, tossir, levantar peso ou realizar Valsalva.
Redução em decúbito ou após manipulação.
Desconforto, peso ou dor local aos esforços.
Hérnias pequenas podem produzir dor sem abaulamento evidente.
Hérnia inguinal indireta
Pode ocorrer em qualquer idade e tem forte relação com persistência do processo vaginal em indivíduos mais jovens.
Saco entra pelo anel inguinal profundo e percorre o canal inguinal.
Localiza-se lateralmente aos vasos epigástricos inferiores.
Pode atravessar o anel superficial e atingir o escroto ou grande lábio.
Hérnia inguinal direta
Geralmente adquirida e mais comum em adultos mais velhos.
Protrui através da parede posterior do canal inguinal no triângulo de Hesselbach.
Situa-se medialmente aos vasos epigástricos inferiores.
Em geral apresenta colo mais amplo e menor tendência ao estrangulamento que a femoral, embora complicações sejam possíveis.
Hérnia femoral
Projeta-se pelo canal femoral, inferiormente ao ligamento inguinal.
É proporcionalmente mais frequente em mulheres.
Pode ser pequena e pouco evidente ao exame.
Possui alto risco de encarceramento e estrangulamento.
Deve ser lembrada em mulher com dor/abaulamento na virilha, mesmo quando inicialmente rotulada como hérnia inguinal.
Hérnia umbilical
Abaulamento no anel umbilical.
Na criança, grande parte fecha espontaneamente nos primeiros anos de vida.
No adulto, obesidade, gestação, ascite e aumento crônico da pressão intra-abdominal são associações frequentes.
Hérnia incisional
Surge em cicatriz de cirurgia abdominal prévia.
Pode variar de pequeno defeito a perda complexa da função da parede abdominal.
Sintomas incluem abaulamento, dor, limitação funcional e episódios de encarceramento.
TC é útil no planejamento de hérnias grandes/complexas.
Sinais de complicação
Dor súbita ou progressivamente intensa.
Irredutibilidade recente.
Náuseas e vômitos.
Distensão abdominal e parada de eliminação de gases/fezes.
Febre, taquicardia ou toxicidade sistêmica.
Peritonismo.
Alteração de cor da pele sobre o abaulamento é sinal tardio e preocupante.
Diagnóstico
Exame físico
Examinar preferencialmente em ortostatismo e decúbito.
Inspecionar a região em repouso e durante tosse ou Valsalva.
Palpar o defeito, estimar tamanho e avaliar sensibilidade.
Testar redutibilidade apenas quando não houver sinais de estrangulamento/peritonite.
Avaliar região contralateral e procurar hérnia femoral quando pertinente.
Quando a clínica basta
Hérnia evidente ao exame geralmente não necessita de imagem para confirmação.
A diferenciação clínica entre inguinal direta e indireta é imprecisa e raramente modifica a decisão inicial de tratamento.
A identificação de hérnia femoral é mais relevante por seu risco de complicações.
Ultrassonografia
Útil em abaulamento intermitente, dúvida diagnóstica e algumas hérnias ocultas.
Deve ser dinâmica, com Valsalva e avaliação em posições adequadas quando possível.
É operador-dependente.
Pode ajudar a diferenciar hérnia de linfonodo, lipoma, hidrocele e outras massas.
Tomografia computadorizada
Útil em hérnias ventrais/incisionais complexas, obesidade, recorrência, suspeita de obstrução ou complicação.
Define conteúdo herniado, transição intestinal, sinais inflamatórios e anatomia da parede.
Pode demonstrar sinais de sofrimento intestinal, mas decisão cirúrgica não deve ser atrasada em quadro clínico inequívoco.
Ressonância magnética
Pode ser útil em dor inguinal com suspeita de hérnia oculta quando ultrassonografia é negativa ou inconclusiva.
Apresenta excelente avaliação de partes moles e diagnósticos musculotendíneos alternativos.
Não é exame rotineiro em hérnia clinicamente evidente.
Diagnósticos diferenciais de massa inguinal
Adenopatia.
Lipoma.
Hidrocele do cordão.
Varicocele.
Aneurisma/pseudoaneurisma vascular.
Abscesso.
Tumores de partes moles.
Dor musculotendínea sem hérnia verdadeira.
Classificações e estratificação
Classificação anatômica simplificada
Inguinal indireta: lateral aos vasos epigástricos inferiores; entra pelo anel profundo.
Inguinal direta: medial aos vasos epigástricos inferiores; protrui no triângulo de Hesselbach.
Femoral: inferior ao ligamento inguinal, pelo canal femoral.
Umbilical/epigástrica: defeitos primários da linha média anterior.
Incisional: defeito em cicatriz de acesso cirúrgico prévio.
Classificação clínica
Redutível: retorna à cavidade abdominal.
Irredutível/encarcerada: não retorna, sem prova obrigatória de isquemia.