Panorama Geral do Câncer de Ovário — MedVerse · MedVerse
Resumo HARD · Atualizado em 15 de set. de 2026
Panorama Geral do Câncer de Ovário
Epidemiologia, suspeição clínica, investigação, estadiamento e princípios terapêuticos
Arthur MedVerse
·68 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
Câncer de ovário reúne neoplasias biologicamente heterogêneas originadas principalmente do epitélio tubo-ovariano/peritoneal, além de tumores germinativos e do estroma dos cordões sexuais. Na prática e nas provas, o foco principal é o carcinoma epitelial, sobretudo o carcinoma seroso de alto grau.
É uma neoplasia de grande relevância porque frequentemente permanece oligossintomática até doença disseminada. Distensão abdominal persistente, dor pélvica ou abdominal, saciedade precoce, alteração urinária/intestinal, ascite e massa anexial devem motivar investigação, especialmente em mulheres após a menopausa.
Não existe rastreamento populacional recomendado para mulheres assintomáticas de risco habitual. Ultrassonografia transvaginal e antígeno do câncer 125 (CA-125) são ferramentas de investigação de massa anexial e doença suspeita, mas não demonstraram benefício suficiente para rastreamento da população geral.
O diagnóstico definitivo é histopatológico. A ultrassonografia transvaginal caracteriza inicialmente a massa anexial; tomografia computadorizada é fundamental para avaliar extensão e ressecabilidade. Marcadores tumorais auxiliam na avaliação, mas nenhum marcador isolado confirma ou exclui malignidade.
O câncer epitelial de ovário dissemina-se tipicamente por via transcelômica, com implantes peritoneais e acometimento do omento. Disseminação linfática e hematogênica também ocorrem. Ascite e carcinomatose peritoneal são apresentações clássicas de doença avançada.
O tratamento baseia-se em cirurgia citorredutora e quimioterapia sistêmica. Quando há alta probabilidade de citorredução completa e condições clínicas adequadas, cirurgia primária é considerada. Quando a ressecção completa inicial é improvável ou o risco operatório é elevado, pode-se utilizar quimioterapia neoadjuvante seguida de cirurgia de intervalo em pacientes selecionadas.
A avaliação molecular ganhou importância terapêutica. Alterações em BRCA1/BRCA2 e deficiência de recombinação homóloga podem influenciar aconselhamento genético e estratégias de manutenção com inibidores da poli(ADP-ribose) polimerase (PARP), conforme subtipo, estágio, resposta e contexto terapêutico.
Mensagem de prova: massa anexial suspeita + mulher pós-menopausa + CA-125 elevado aumenta a preocupação com malignidade, mas o diagnóstico é histológico; não há rastreamento populacional de rotina; doença epitelial avançada é tratada com estratégia de citorredução máxima associada à quimioterapia.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer os principais grupos histológicos dos tumores malignos do ovário.
02
Identificar fatores de risco e síndromes hereditárias associadas.
03
Reconhecer sintomas e sinais que devem levantar suspeita de câncer de ovário.
04
Compreender por que não se recomenda rastreamento populacional de mulheres assintomáticas de risco habitual.
05
Organizar a investigação inicial de uma massa anexial suspeita.
06
Interpretar adequadamente o papel do CA-125 e de outros marcadores tumorais.
07
Reconhecer padrões de imagem associados a maior risco de malignidade.
08
Compreender as principais vias de disseminação, especialmente a transcelômica/peritoneal.
09
Conhecer os princípios do estadiamento da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO).
10
Diferenciar cirurgia citorredutora primária de quimioterapia neoadjuvante seguida de cirurgia de intervalo.
11
Reconhecer a importância de BRCA1/BRCA2 e deficiência de recombinação homóloga no câncer epitelial de ovário.
12
Identificar as principais pegadinhas cobradas em provas de residência médica.
Visão rápida
Definição
Neoplasia maligna ovariana/tubo-peritoneal, predominantemente epitelial, com forte tendência à disseminação peritoneal.
Como reconhecer
Distensão abdominal persistente, dor pélvica/abdominal, saciedade precoce, ascite ou massa anexial suspeita; ultrassonografia transvaginal é central na avaliação inicial.
Conduta principal
Encaminhar suspeita relevante para avaliação ginecológico-oncológica; confirmar histologia e estadiar; tratamento combina cirurgia citorredutora e terapia sistêmica conforme estágio e ressecabilidade.
Pérola de prova
Não há rastreamento populacional recomendado com CA-125 ou ultrassonografia transvaginal em mulheres assintomáticas de risco habitual.
Introdução
O câncer de ovário é uma das neoplasias ginecológicas de maior mortalidade proporcional, em grande parte pela ausência de estratégia eficaz de rastreamento populacional e pela apresentação frequentemente tardia.
No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer estima 8.020 novos casos por ano no triênio 2026–2028. A incidência do carcinoma epitelial aumenta com a idade.
O termo “câncer de ovário” engloba tumores com origens e comportamentos muito diferentes. Para raciocínio clínico, é essencial separar tumores epiteliais, germinativos e do estroma dos cordões sexuais.
O carcinoma seroso de alto grau, atualmente entendido frequentemente como originado no epitélio da tuba uterina distal, domina o cenário do câncer epitelial avançado e está fortemente relacionado a alterações da via BRCA/recombinação homóloga.
Conceitos fundamentais
Principais grupos histológicos
Tumores epiteliais: constituem a grande maioria das neoplasias malignas ovarianas no adulto; incluem seroso de alto grau, seroso de baixo grau, endometrioide, células claras e mucinoso.
Tumores germinativos: predominam em pacientes jovens; incluem disgerminoma, tumor do saco vitelino, carcinoma embrionário, coriocarcinoma não gestacional e teratomas malignos.
Tumores do estroma dos cordões sexuais: são raros e podem produzir hormônios; tumor de células da granulosa é exemplo clássico.
Modelo tubo-ovariano
Grande parte dos carcinomas serosos de alto grau parece surgir de lesões precursoras da porção distal da tuba uterina, especialmente carcinoma intraepitelial seroso tubário.
Isso explica a abordagem contemporânea integrada dos carcinomas de ovário, tuba uterina e peritônio primário.
A salpingectomia oportunística tem sido estudada/empregada como estratégia de redução de risco em contextos apropriados, sem substituir medidas específicas para mulheres com alto risco hereditário.
Padrão de disseminação
Transcelômico/peritoneal: células tumorais esfoliam para a cavidade peritoneal e implantam-se em superfícies peritoneais e omento.
Omento, diafragma, superfícies intestinais e pelve são sítios frequentes.
Ascite pode acompanhar carcinomatose peritoneal.
Disseminação linfática envolve principalmente cadeias pélvicas e para-aórticas.
Metástases hematogênicas podem ocorrer em doença avançada.
Por que é diagnosticado tardiamente?
Os ovários localizam-se profundamente na pelve e pequenas lesões podem não produzir sintomas.
Sintomas iniciais são frequentemente vagos e gastrointestinais/urinários.
Não existe método de rastreamento populacional com benefício comprovado em mortalidade para risco habitual.
A cavidade peritoneal permite disseminação extensa antes de sintomas muito específicos.
Etiologia e fatores de risco
Fatores associados a maior risco
Idade avançada, especialmente após a menopausa, para carcinoma epitelial.
História familiar de câncer de ovário.
História familiar relevante de câncer de mama, pâncreas e próstata pode sugerir síndrome hereditária associada a BRCA.
Variantes patogênicas germinativas em BRCA1 ou BRCA2.
Síndrome de Lynch, associada principalmente a tumores endometrioides e de células claras.
Nuliparidade e infertilidade estão associadas a aumento de risco em estudos epidemiológicos.
Endometriose associa-se particularmente aos carcinomas endometrioide e de células claras.
Excesso de adiposidade corporal pode contribuir para risco em determinados subtipos.
Fatores associados à redução de risco
Uso prévio de contraceptivos hormonais combinados está associado a redução do risco de câncer epitelial de ovário.
Maior número de gestações está associado a menor risco.
Amamentação associa-se a redução de risco em estudos observacionais.
Laqueadura tubária e salpingectomia estão associadas a redução de risco em determinados contextos.
Síndrome hereditária de câncer de mama e ovário
BRCA1 e BRCA2 participam do reparo de quebras de dupla fita do DNA por recombinação homóloga.
Variantes patogênicas aumentam substancialmente o risco de câncer de ovário/tuba/peritônio ao longo da vida.
O diagnóstico de carcinoma epitelial de ovário deve motivar avaliação de elegibilidade para aconselhamento e testes genéticos/moleculares conforme diretrizes atuais.
O resultado pode ter implicações para tratamento da paciente e prevenção/rastreamento de familiares.
Síndrome de Lynch
Relaciona-se a variantes germinativas em genes de reparo de erros de pareamento do DNA.
Aumenta risco de câncer colorretal e endométrio, além de câncer de ovário.
Histologia endometrioide ou de células claras e história pessoal/familiar sugestiva devem aumentar a atenção para predisposição hereditária.
Quadro clínico
Sintomas que devem levantar suspeita
Distensão ou aumento persistente do volume abdominal.
Dor abdominal ou pélvica.
Saciedade precoce ou redução do apetite.
Perda ponderal inexplicada.
Alteração do hábito intestinal, incluindo constipação.
Urgência ou aumento da frequência urinária.
Fadiga.
Sangramento vaginal anormal é menos típico, mas pode ocorrer em alguns subtipos hormonais ou tumores concomitantes.
Achados ao exame
Massa anexial ou pélvica.
Massa abdominal.
Ascite.
Nodularidade pélvica ou fundo de saco comprometido em doença disseminada.
Derrame pleural pode ocorrer em doença avançada.
Apresentação avançada
Ascite volumosa.
Carcinomatose peritoneal.
Omental cake em exames de imagem.
Sintomas compressivos gastrointestinais ou urinários.
Derrame pleural maligno.
Obstrução intestinal em doença extensa/recorrente.
Tumores não epiteliais
Tumores germinativos frequentemente apresentam massa de crescimento rápido e dor abdominal em pacientes jovens.
Tumores do estroma dos cordões sexuais podem manifestar hiperestrogenismo, sangramento uterino anormal ou puberdade precoce, dependendo da idade e do subtipo.
Diagnóstico
Avaliação inicial da massa anexial
Realizar história clínica dirigida: idade, estado menopausal, sintomas, antecedentes oncológicos e história familiar.
Exame abdominal e ginecológico.
Realizar ultrassonografia transvaginal, complementada por via abdominal quando necessário.
Avaliar marcadores tumorais de acordo com idade e padrão da massa.
Se houver suspeita de malignidade, realizar imagem de estadiamento e encaminhar para ginecologia oncológica.
Ultrassonografia transvaginal
É o exame de imagem inicial mais importante para caracterizar massa anexial.
Avaliar tamanho, unilateralidade/bilateralidade, componentes sólidos, septações, papilas, irregularidade, vascularização e presença de ascite.
Massa sólida ou sólido-cística irregular, projeções papilares, vascularização suspeita, bilateralidade e ascite aumentam preocupação com malignidade.
Sistemas padronizados de avaliação ultrassonográfica, como regras do International Ovarian Tumor Analysis (IOTA) e O-RADS, podem auxiliar na estratificação de risco.
CA-125
Não é teste diagnóstico isolado e não é exame de rastreamento populacional.
Pode estar elevado no câncer epitelial de ovário, especialmente doença avançada.
Pode ser normal em doença inicial e em determinados subtipos.
Também se eleva em condições benignas como endometriose, menstruação, gestação, doença inflamatória pélvica e doenças peritoneais/hepáticas.
Em mulher pós-menopausa com massa anexial suspeita, elevação aumenta preocupação com malignidade.
Outros marcadores
Antígeno carcinoembrionário (CEA): pode auxiliar quando há suspeita de tumor mucinoso ou origem gastrointestinal.
Alfafetoproteína (AFP): importante em tumores germinativos, especialmente tumor do saco vitelino.
Gonadotrofina coriônica humana beta (β-hCG): pode estar elevada em determinados tumores germinativos.
Desidrogenase lática (LDH): pode elevar-se no disgerminoma.
Inibina pode auxiliar na avaliação de tumores de células da granulosa.
Imagem para extensão da doença
Tomografia computadorizada de tórax, abdome e pelve é amplamente utilizada para avaliar extensão, implantes peritoneais, linfonodos, doença torácica e ressecabilidade.
Ressonância magnética pode ser útil na caracterização de massas indeterminadas e em situações selecionadas.
Tomografia por emissão de pósitrons não substitui rotineiramente a avaliação anatômica inicial e é reservada a cenários selecionados.
Confirmação diagnóstica
O diagnóstico definitivo é histopatológico.
Quando a estratégia é cirurgia primária, a confirmação pode ocorrer no procedimento cirúrgico.
Quando se planeja quimioterapia neoadjuvante, deve-se obter confirmação histológica antes do tratamento sistêmico sempre que possível, geralmente por biópsia de sítio acessível.
Citologia isolada pode ser utilizada em circunstâncias específicas, mas tecido histológico permite melhor classificação e avaliação molecular.
Rastreamento
Mulheres assintomáticas de risco habitual: não rastrear rotineiramente com CA-125, ultrassonografia transvaginal ou combinação dos dois.
O exame citopatológico do colo uterino não rastreia câncer de ovário.
Mulheres com predisposição hereditária exigem aconselhamento especializado e estratégias próprias de redução de risco; isso não transforma CA-125/ultrassonografia em rastreamento populacional eficaz.
Classificações e estratificação
Estadiamento FIGO — visão de prova
Estágio I: doença limitada aos ovários e/ou tubas uterinas.
Estágio II: extensão pélvica abaixo do estreito superior.
Estágio III: disseminação peritoneal fora da pelve e/ou comprometimento linfonodal retroperitoneal.
Estágio IV: metástase à distância, excluindo metástases peritoneais.
Estágio I
IA: um ovário/tuba, cápsula íntegra, sem tumor na superfície e lavado/ascite negativos.
IB: ambos os ovários/tubas, cápsulas íntegras, sem tumor na superfície e lavado/ascite negativos.
IC1: derramamento cirúrgico intraoperatório.
IC2: cápsula rompida antes da cirurgia ou tumor na superfície ovariana/tubária.
IC3: células malignas na ascite ou lavado peritoneal.
Estágio II
IIA: extensão e/ou implantes em útero e/ou tubas/ovários.
IIB: extensão para outros tecidos intraperitoneais pélvicos.
Estágio III
IIIA1: linfonodos retroperitoneais positivos sem disseminação peritoneal extrapelviana.
IIIA2: envolvimento peritoneal extrapelviano microscópico, com ou sem linfonodos retroperitoneais.
IIIB: metástases peritoneais extrapelvianas macroscópicas ≤2 cm, com ou sem linfonodos retroperitoneais.
IIIC: metástases peritoneais extrapelvianas >2 cm, com ou sem linfonodos retroperitoneais; extensão à cápsula hepática/esplênica sem invasão parenquimatosa permanece estágio III.
Estágio IV
IVA: derrame pleural com citologia positiva.
IVB: metástases parenquimatosas e metástases para órgãos/linfonodos fora da cavidade abdominal, incluindo linfonodos inguinais.
Ponto-chave do estadiamento
No carcinoma epitelial, o estadiamento FIGO é estabelecido integrando achados cirúrgicos, anatomopatológicos e extensão da doença.
Implante na superfície/cápsula do fígado não equivale automaticamente a estágio IV; invasão do parênquima hepático caracteriza metástase à distância.
Tratamento
Princípio geral
O manejo deve ser planejado por equipe especializada em ginecologia oncológica.
Histologia, estágio, distribuição da doença, possibilidade de ressecção completa, condição clínica, idade, preferências e perfil molecular influenciam a estratégia.
Ausência de doença macroscópica residual após citorredução é objetivo cirúrgico central quando factível.
Doença inicial
Cirurgia realiza diagnóstico, estadiamento e tratamento.
O procedimento depende do subtipo histológico, extensão e desejo reprodutivo.
Preservação de fertilidade pode ser considerada em pacientes cuidadosamente selecionadas com doença inicial e histologia apropriada, sob equipe especializada.
Necessidade de quimioterapia adjuvante depende de estágio, grau e histologia.
Doença avançada — cirurgia primária
Considerar quando a paciente tem condições clínicas adequadas e existe alta probabilidade de citorredução completa com morbidade aceitável.
Pode exigir procedimentos multiviscerais para remoção completa da doença macroscópica.
A avaliação pré-operatória por equipe experiente é essencial para selecionar pacientes.
Quimioterapia neoadjuvante
É estratégia apropriada quando a citorredução completa inicial parece improvável, a carga tumoral é inadequada para ressecção segura ou o risco operatório é excessivo.
Confirmar malignidade invasiva antes de iniciar quimioterapia sempre que possível.
Após resposta e reavaliação, realiza-se cirurgia citorredutora de intervalo em pacientes selecionadas, seguida da conclusão da quimioterapia.
Quimioterapia sistêmica
Para carcinoma epitelial de alto grau avançado, combinação de platina e taxano constitui base terapêutica clássica.
Carboplatina associada a paclitaxel é esquema amplamente utilizado.
Bevacizumabe pode ser incorporado em cenários selecionados de doença avançada conforme risco, disponibilidade, contraindicações e protocolo.
Terapia de manutenção e biomarcadores
Testagem de BRCA1/BRCA2 e avaliação de deficiência de recombinação homóloga têm implicações terapêuticas no carcinoma epitelial de alto grau.
Inibidores de PARP podem ser utilizados como manutenção em cenários definidos, especialmente após resposta à terapia baseada em platina, conforme biomarcadores e diretrizes vigentes.
A escolha depende de linha terapêutica, mutação BRCA, status de recombinação homóloga, resposta, toxicidade, tratamentos prévios e disponibilidade.
Seguimento
Seguimento é predominantemente clínico, com investigação dirigida por sintomas e achados.
CA-125 pode ser acompanhado quando estava elevado e é clinicamente útil, mas elevação isolada sem correlação clínica não deve automaticamente determinar intervenção sem avaliação especializada.
Imagem é solicitada conforme sintomas, exame físico, marcadores e contexto clínico.
Algoritmos e fluxogramas
Massa anexial suspeita
Caracterizar sintomas, idade, menopausa e história familiar.
Exame abdominal e ginecológico.
Ultrassonografia transvaginal com descrição morfológica padronizada.
Solicitar CA-125 e marcadores adicionais conforme idade e suspeita histológica.
Achados de alto risco → encaminhar para ginecologia oncológica.
Realizar imagem para extensão/ressecabilidade.
Definir estratégia para obtenção histológica e tratamento.
Estadiar e individualizar terapia conforme histologia, extensão e perfil molecular.
Suspeita de carcinoma epitelial avançado
Avaliar condição clínica e distribuição da doença.
Estimar possibilidade de citorredução completa por equipe especializada.
Alta probabilidade de ressecção completa + risco aceitável → considerar cirurgia citorredutora primária.
Baixa probabilidade de ressecção completa ou risco operatório elevado → obter confirmação histológica e considerar quimioterapia neoadjuvante.
Reavaliar resposta.
Paciente selecionada com resposta adequada → cirurgia de intervalo.
Completar tratamento sistêmico e avaliar estratégia de manutenção conforme biomarcadores.
História familiar ou carcinoma epitelial de ovário
Revisar história pessoal e familiar de câncer.
Encaminhar para aconselhamento genético quando indicado.
Realizar avaliação germinativa e/ou tumoral conforme diretriz e subtipo.
Identificar BRCA1/BRCA2 e outros marcadores relevantes.
Usar resultado para decisões terapêuticas e orientação de risco familiar.
Imagens e achados
Ultrassonografia — achados suspeitos
Componente sólido irregular.
Projeções papilares.
Septações espessas/irregulares.
Vascularização aumentada em componentes sólidos.
Ascite.
Massa bilateral ou multilocular-sólida, dependendo do contexto.
A morfologia deve ser integrada à idade, menopausa e marcadores; nenhum achado isolado confirma câncer.
Tomografia computadorizada — doença avançada
Ascite.
Espessamento ou implantes peritoneais.
Omental cake: infiltração tumoral difusa do omento, achado clássico de carcinomatose.
Implantes diafragmáticos.
Linfonodomegalias retroperitoneais.
Derrame pleural.
Metástases parenquimatosas em doença estágio IV.
O que mais cai
Carcinoma epitelial é o principal grupo maligno ovariano no adulto.
Carcinoma seroso de alto grau é o subtipo epitelial mais importante na doença avançada.
Muitos carcinomas serosos de alto grau têm origem provável na tuba uterina distal.
Câncer epitelial aumenta em frequência com a idade e é mais preocupante após a menopausa.
Não há rastreamento populacional recomendado com CA-125 ou ultrassonografia transvaginal em risco habitual.
Papanicolaou não rastreia câncer de ovário.
CA-125 pode elevar-se em várias condições benignas e pode ser normal no câncer inicial.
Ultrassonografia transvaginal é central na caracterização inicial da massa anexial.
Diagnóstico definitivo é histopatológico.
Disseminação transcelômica/peritoneal é característica do carcinoma epitelial.
Omento é sítio clássico de disseminação.
FIGO III = doença peritoneal extrapelviana e/ou linfonodos retroperitoneais.
Derrame pleural só é FIGO IVA quando há citologia positiva.
Metástase na cápsula hepática pode permanecer estágio III; invasão parenquimatosa é estágio IV.
Objetivo cirúrgico na doença avançada: citorredução completa, sem doença macroscópica residual, quando factível.
Carboplatina + paclitaxel é base clássica da quimioterapia do carcinoma epitelial avançado.
BRCA1/BRCA2 e deficiência de recombinação homóloga têm importância terapêutica e hereditária.
Erros comuns
Solicitar CA-125 como rastreamento anual de mulher assintomática de risco habitual.
Interpretar CA-125 elevado como diagnóstico de câncer.
Excluir malignidade porque o CA-125 está normal.
Acreditar que Papanicolaou detecta câncer de ovário.
Avaliar massa anexial apenas pelo tamanho, ignorando morfologia, menopausa, sintomas e vascularização.
Puncionar rotineiramente massa ovariana suspeita sem planejamento oncológico.
Iniciar quimioterapia neoadjuvante sem buscar confirmação histológica adequada.
Confundir implante na cápsula hepática com metástase parenquimatosa hepática.
Considerar qualquer derrame pleural como FIGO IVA sem citologia positiva.
Priorizar cirurgia radical quando a avaliação especializada prevê baixa chance de citorredução completa e morbidade inaceitável.
Ignorar avaliação genética/molecular em carcinoma epitelial de ovário.
Considerar todos os tumores ovarianos iguais, sem distinguir epiteliais, germinativos e estromais.
Para lembrar
Massa anexial pós-menopausa = elevar grau de suspeição.
CA-125 ajuda; não confirma e não rastreia.
Ultrassonografia transvaginal caracteriza a massa.
Diagnóstico definitivo = histopatologia.
Seroso de alto grau → pense em origem tubo-fimbrial e via BRCA/recombinação homóloga.