Lesões Benignas vs. Malignas do Ovário — MedVerse · MedVerse
Resumo HARD · Atualizado em 15 de set. de 2026
Lesões Benignas vs. Malignas do Ovário
Diagnóstico diferencial, ultrassonografia, marcadores e estratificação das massas anexiais
Arthur MedVerse
·62 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
A maioria das massas anexiais é benigna. O desafio clínico é reconhecer quais lesões podem ser observadas com segurança e quais apresentam risco suficiente de malignidade para exigir avaliação especializada.
A idade e o estado menopausal modificam fortemente o diagnóstico diferencial. Na menacme predominam cistos funcionais, endometriomas e teratomas maduros; após a menopausa, uma massa complexa ou sólida exige maior cautela.
A ultrassonografia transvaginal é o exame inicial de escolha para caracterização morfológica. Devem ser descritos tamanho, uni ou multilocularidade, parede, septos, componentes sólidos, projeções papilares, vascularização, sombras acústicas e sinais de doença extraovariana, como ascite.
Aspectos tipicamente benignos incluem cisto simples unilocular de paredes regulares, endometrioma com conteúdo homogêneo em “vidro fosco” e teratoma maduro com componentes ecogênicos e sombra acústica. Irregularidade, componente sólido vascularizado, múltiplas papilas, ascite e implantes peritoneais aumentam o risco de malignidade.
CA-125 não diferencia sozinho benignidade de malignidade. Pode elevar-se em câncer epitelial, mas também em endometriose, menstruação, gestação, inflamação pélvica e outras condições. Em jovens, marcadores de tumores germinativos ganham importância conforme a morfologia e a suspeita clínica.
Sistemas padronizados como International Ovarian Tumor Analysis (IOTA), modelo Assessment of Different NEoplasias in the adneXa (ADNEX) e Ovarian-Adnexal Reporting and Data System (O-RADS) melhoram a estratificação ultrassonográfica. Na atualização IOTA de 2026, O-RADS 2 corresponde a risco <1%, O-RADS 3 a 1%–<10%, O-RADS 4 a 10%–<50% e O-RADS 5 a 50%–100%.
Mensagem de prova: massa anexial deve ser interpretada pela combinação de idade + sintomas + morfologia ultrassonográfica + marcadores quando indicados. CA-125 isolado não fecha diagnóstico, e massa suspeita deve ser encaminhada para planejamento oncológico adequado antes de cirurgia ou punção.
Objetivos de aprendizagem
01
Diferenciar massas ovarianas funcionais, benignas, borderline e malignas.
02
Reconhecer os principais tumores benignos do ovário e seus padrões ultrassonográficos.
03
Identificar características ultrassonográficas que aumentam a suspeita de malignidade.
04
Aplicar o raciocínio diferencial conforme idade e estado menopausal.
05
Interpretar corretamente CA-125 e marcadores de tumores germinativos.
06
Compreender os princípios dos sistemas IOTA, ADNEX e O-RADS.
07
Reconhecer situações apropriadas para observação, cirurgia eletiva ou encaminhamento à ginecologia oncológica.
08
Distinguir apresentações típicas de cisto funcional, endometrioma, teratoma maduro e neoplasia maligna.
09
Reconhecer situações agudas associadas a massas anexiais, especialmente torção e ruptura.
10
Evitar condutas que possam comprometer o estadiamento ou tratamento de uma neoplasia ovariana.
Visão rápida
Definição
Massa anexial pode representar alteração funcional, tumor benigno, tumor borderline ou neoplasia maligna; a maioria é benigna.
Como reconhecer
Ultrassonografia transvaginal avalia morfologia. Parede regular, conteúdo simples e sombra acústica favorecem benignidade; sólido irregular, papilas, ascite e forte vascularização elevam suspeita.
Conduta principal
Estratificar por idade/menopausa, sintomas, ultrassonografia e marcadores quando indicados; baixo risco pode ser acompanhado, enquanto alto risco exige avaliação ginecológico-oncológica.
Pérola de prova
CA-125 elevado não significa câncer e CA-125 normal não exclui malignidade; a morfologia ultrassonográfica é central.
Introdução
Massas anexiais são achados frequentes e incluem alterações do ovário, tuba uterina e estruturas adjacentes. Muitas são descobertas incidentalmente e não representam neoplasia.
A avaliação busca responder três perguntas: a lesão é provavelmente fisiológica/benigna? existe risco relevante de malignidade? há complicação aguda que exige intervenção imediata?
O diagnóstico diferencial muda com a idade. Lesões funcionais e tumores germinativos são mais relevantes em jovens; neoplasias epiteliais tornam-se progressivamente mais importantes com o envelhecimento.
A interpretação deve integrar contexto clínico e morfologia. Sistemas ultrassonográficos padronizados reduzem descrições vagas e permitem estimar o risco de malignidade de forma reprodutível.
Conceitos fundamentais
Massa anexial não é sinônimo de tumor ovariano
Pode originar-se do ovário, tuba uterina, ligamento largo ou estruturas não ginecológicas.
Diagnósticos não ovarianos incluem hidrossalpinge, abscesso tubo-ovariano, gestação ectópica, miomas pediculados e massas gastrointestinais/urinárias.
Antes de classificar uma lesão, deve-se confirmar sua provável origem anatômica.
Lesões funcionais
Cisto folicular: resulta da persistência de folículo; geralmente simples e autolimitado.
Cisto de corpo lúteo: pode ter parede mais espessa, vascularização periférica e conteúdo hemorrágico.
Cisto hemorrágico: pode apresentar ecos internos e padrão reticular por fibrina; frequentemente regride espontaneamente em mulheres na menacme.
Tumores benignos clássicos
Cistadenoma seroso: geralmente cístico, de paredes finas e frequentemente unilocular.
Cistadenoma mucinoso: pode atingir grande volume e apresentar múltiplos lóculos.
Teratoma cístico maduro (cisto dermoide): tumor germinativo benigno contendo tecidos maduros; pode apresentar gordura, calcificações e sombra acústica.
Endometrioma: cisto associado à endometriose, tipicamente com conteúdo homogêneo de baixa ecogenicidade em “vidro fosco”.
Fibroma/fibrotecoma: tumor sólido estromal, frequentemente com sombra acústica e pouca vascularização; pode associar-se a ascite e derrame pleural na síndrome de Meigs.
Tumores borderline
Apresentam proliferação epitelial e atipia sem invasão estromal destrutiva típica do carcinoma invasivo.
Ocorrem frequentemente em pacientes mais jovens que os carcinomas epiteliais invasivos.
Podem apresentar projeções papilares e características suspeitas à ultrassonografia.
Diagnóstico definitivo é anatomopatológico e o manejo depende de estágio, histologia e desejo reprodutivo.
Malignidade
Carcinomas epiteliais constituem o principal grupo maligno ovariano em adultas.
Carcinoma seroso de alto grau é o subtipo dominante na doença epitelial avançada.
Em adolescentes e adultas jovens, tumores germinativos malignos têm maior relevância relativa.
Tumores do estroma dos cordões sexuais podem produzir hormônios e manifestar alterações endócrinas.
Etiologia e fatores de risco
Contexto que favorece lesões benignas
Idade reprodutiva.
Massa com padrão funcional ou clássico benigno à ultrassonografia.
Lesão que reduz ou desaparece no acompanhamento.
Ausência de ascite, implantes ou sinais sistêmicos suspeitos.
Contexto que aumenta preocupação com malignidade
Pós-menopausa.
História familiar importante de câncer de ovário ou mama.
Variante patogênica hereditária associada, como BRCA1 ou BRCA2.
Síndrome de Lynch.
Massa persistente com morfologia complexa ou progressiva.
Ascite ou sinais de disseminação peritoneal.
Sintomas persistentes como distensão abdominal, saciedade precoce e perda ponderal.
Endometriose
Endometrioma é lesão benigna associada à endometriose.
Endometriose está epidemiologicamente associada a maior risco de alguns subtipos de câncer ovariano, especialmente endometrioide e células claras.
Mudança de padrão de uma lesão previamente típica, crescimento ou componente sólido/papilar exige reavaliação.
Quadro clínico
Lesão benigna assintomática
Muitas massas são incidentais.
Cistos funcionais podem desaparecer espontaneamente.
Cistos benignos maiores podem causar sensação de peso, pressão pélvica ou aumento abdominal.
Sintomas de alerta
Distensão abdominal persistente.
Saciedade precoce.
Dor abdominal ou pélvica persistente.
Perda ponderal inexplicada.
Alterações urinárias ou intestinais persistentes.
Ascite.
Massa fixa, irregular ou nodular ao exame, quando palpável.
Torção anexial
Dor pélvica súbita, geralmente unilateral, associada frequentemente a náuseas e vômitos.
A presença de massa ovariana aumenta o risco de torção.
Teratoma maduro é uma das massas classicamente associadas à torção.
Instabilidade hemodinâmica, queda de hemoglobina ou hemoperitônio importante indicam maior gravidade.
Em paciente em idade fértil, gestação ectópica deve sempre integrar o diagnóstico diferencial da dor aguda com líquido livre.
Diagnóstico
Primeiro passo: excluir situações específicas
Em paciente com potencial reprodutivo, solicitar teste de gestação quando clinicamente pertinente.
Avaliar sinais de abdome agudo, torção, ruptura, hemorragia ou infecção.
Definir idade e estado menopausal.
Revisar história familiar e sintomas associados a malignidade.
Realizar ultrassonografia transvaginal, complementada pela via abdominal quando necessário.
Achados que favorecem benignidade
Cisto unilocular.
Parede fina e regular.
Conteúdo anecoico em cisto simples.
Ausência de componentes sólidos ou papilas.
Sombra acústica em determinadas lesões benignas, como teratoma e fibroma.
Padrão clássico de endometrioma em paciente pré-menopausa.
Ausência de ascite e sinais de disseminação.
Achados que aumentam risco de malignidade
Componente sólido irregular.
Projeções papilares, especialmente múltiplas.
Irregularidade de paredes/septos.
Massa multilocular-sólida de morfologia suspeita.
Vascularização relevante de componentes sólidos.
Ascite.
Implantes peritoneais ou omentais.
Linfonodomegalias ou doença metastática em exames complementares.
Descritores benignos IOTA atualizados em 2026
Cisto unilocular com ecogenicidade em vidro fosco e diâmetro <10 cm em mulher pré-menopausa: padrão presumido de endometrioma.
Cisto unilocular de ecogenicidade mista com sombra acústica e diâmetro <10 cm em mulher pré-menopausa: padrão presumido de dermoide.
Cisto unilocular regular, anecoico e <10 cm: padrão de cisto simples ou cistadenoma.
Outros cistos uniloculares de paredes regulares e <10 cm podem preencher descritor benigno no algoritmo IOTA atualizado.
CA-125
Pode auxiliar na avaliação de massa suspeita, especialmente no contexto pós-menopausa.
Não deve ser interpretado isoladamente.
Pode elevar-se em endometriose, menstruação, gestação, inflamação pélvica, cirrose e outras condições.
Pode ser normal em neoplasia inicial ou em alguns subtipos.
A morfologia ultrassonográfica e o contexto clínico têm papel central na estratificação.
Marcadores em adolescentes e mulheres jovens
Alfafetoproteína (AFP): considerar diante de suspeita de tumor germinativo, especialmente tumor do saco vitelino.
Gonadotrofina coriônica humana beta (β-hCG): pode estar elevada em tumores germinativos específicos; também é indispensável para excluir gestação quando aplicável.
Desidrogenase lática (LDH): associação clássica com disgerminoma.
Inibina: pode ser útil em suspeita de tumor de células da granulosa.
Antígeno carcinoembrionário (CEA) pode auxiliar em massas mucinosas e na investigação de possível origem gastrointestinal.
Ressonância magnética
É método de segunda linha útil quando a ultrassonografia é indeterminada.
Ajuda a caracterizar tecido adiposo, sangue, fibrose e componentes sólidos.
Não substitui a avaliação ultrassonográfica inicial de rotina.
Princípio definitivo
Imagem estima risco; anatomopatológico define a natureza tumoral.
Massa com alta suspeita de malignidade deve ter abordagem planejada para evitar ruptura tumoral, cirurgia inadequada e perda da oportunidade de estadiamento/citorredução apropriados.
Classificações e estratificação
O-RADS ultrassonográfico — risco de malignidade
O-RADS 1: ovário normal ou alteração fisiológica; não representa lesão de risco oncológico.
O-RADS 2: quase certamente benigno; descritor benigno IOTA ou risco ADNEX <1%.
O-RADS 3: baixo risco; ADNEX 1% a <10%.
O-RADS 4: risco intermediário; ADNEX 10% a <50%.
O-RADS 5: alto risco; ADNEX 50% a 100%.
Variáveis do modelo ADNEX
Idade da paciente.
Diâmetro máximo da lesão.
Diâmetro máximo do maior componente sólido.
Número de lóculos, incluindo avaliação de lesões com >10 lóculos.
Número de projeções papilares.
Presença de sombras acústicas.
Presença de ascite.
O modelo completo também incorpora informações clínicas/laboratoriais conforme sua versão e aplicação.
Interpretação prática
O-RADS 2: geralmente permite manejo conservador quando assintomático e clinicamente apropriado.
O-RADS 3: baixo risco, usualmente manejado pela ginecologia geral com seguimento/caracterização conforme tipo de lesão.
O-RADS 4 e 5: exigem maior atenção e, no algoritmo IOTA atualizado, direcionam avaliação por ginecologia oncológica.
A categoria de risco não substitui julgamento clínico, sobretudo em sintomas agudos.
Tratamento
Princípios gerais
Não existe tratamento único para toda massa ovariana.
A decisão depende de sintomas, idade, menopausa, tamanho, morfologia, evolução, risco de torção/ruptura, desejo reprodutivo e risco de malignidade.
Massas funcionais ou classicamente benignas podem frequentemente ser observadas.
Massas suspeitas devem ser encaminhadas antes de procedimento definitivo para planejamento adequado.
Observação
É apropriada para diversas lesões de baixo risco, especialmente cistos funcionais e lesões classicamente benignas em pacientes assintomáticas.
A necessidade e o intervalo de ultrassonografia de controle dependem do tipo de lesão, tamanho, menopausa e sistema de estratificação utilizado.
Mudança morfológica durante seguimento exige nova estratificação.
Indicações gerais para considerar cirurgia
Sintomas persistentes ou importantes.
Suspeita de torção ou outra complicação aguda.
Crescimento significativo ou mudança de morfologia.
Massa grande com risco mecânico/complicações, conforme contexto.
Lesão indeterminada persistente que não pode ser adequadamente caracterizada.
Suspeita relevante de malignidade.
Preservação ovariana
Em pacientes jovens com lesão provavelmente benigna, priorizar preservação de tecido ovariano quando tecnicamente possível.
Cistectomia pode ser preferida à ooforectomia em cenários benignos selecionados.
A abordagem deve considerar reserva ovariana, recorrência, risco de torção e natureza da lesão.
Suspeita de malignidade
Encaminhar para equipe de ginecologia oncológica.
Planejar cirurgia de modo a permitir estadiamento e tratamento adequados.
Evitar ruptura deliberada ou punção não planejada de massa suspeita.
O tratamento definitivo dependerá da histologia e do estágio.
Conduta na urgência e emergência
Dor aguda + massa anexial
Avaliar estabilidade hemodinâmica e sinais de irritação peritoneal.
Em paciente com potencial reprodutivo, excluir gestação ectópica.
Solicitar ultrassonografia pélvica com Doppler quando disponível e sem atrasar conduta necessária.
Terms, definitions and measurements to describe the sonographic features of adnexal tumors: updated consensus opinion from the International Ovarian Tumor Analysis (IOTA) Group.