Estadiamento e Tratamento do Câncer de Ovário — MedVerse · MedVerse
Resumo HARD · Atualizado em 15 de set. de 2026
Estadiamento e Tratamento do Câncer de Ovário
FIGO, cirurgia citorredutora, quimioterapia, biomarcadores e terapia de manutenção
Arthur MedVerse
·70 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
O câncer epitelial de ovário, tuba uterina e peritônio primário utiliza o estadiamento da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO). O estágio é um dos principais determinantes prognósticos e terapêuticos.
FIGO I corresponde à doença limitada aos ovários/tubas; FIGO II à extensão pélvica; FIGO III à disseminação peritoneal extrapelviana e/ou linfonodos retroperitoneais; e FIGO IV à metástase à distância.
No estágio I, detalhes aparentemente pequenos mudam a classificação: derramamento cirúrgico é IC1; cápsula rompida antes da cirurgia ou tumor na superfície é IC2; células malignas em ascite/lavado peritoneal caracterizam IC3.
A cirurgia tem dois objetivos centrais: estadiar adequadamente a doença inicial e obter citorredução completa na doença avançada. A ausência de doença macroscópica residual é um dos principais objetivos prognósticos da cirurgia.
Na doença avançada, cirurgia citorredutora primária é preferida quando a equipe especializada considera factível remover toda doença macroscópica com morbidade aceitável. Quando isso é improvável ou a paciente é má candidata cirúrgica, quimioterapia neoadjuvante seguida de cirurgia de intervalo é estratégia válida.
Carboplatina + paclitaxel permanece a base clássica da quimioterapia de primeira linha. Terapias de manutenção são individualizadas conforme estágio, resposta, histologia e biomarcadores, especialmente BRCA1/BRCA2 e deficiência de recombinação homóloga.
O manejo moderno exige avaliação molecular. Em câncer ovariano de alto grau não mucinoso, recomenda-se testagem para alterações germinativas e/ou somáticas de BRCA1/BRCA2; em doença avançada de alto grau, a avaliação de deficiência de recombinação homóloga auxilia decisões terapêuticas.
Mensagem de prova: FIGO III não significa necessariamente metástase hematogênica: carcinomatose peritoneal extrapelviana e linfonodo retroperitoneal pertencem ao estágio III. Derrame pleural só é IVA com citologia positiva; metástase parenquimatosa hepática/esplênica é IVB.
Objetivos de aprendizagem
01
Aplicar corretamente o estadiamento FIGO do câncer epitelial de ovário.
02
Diferenciar os subestágios IA, IB e IC, incluindo IC1, IC2 e IC3.
03
Distinguir doença pélvica, peritoneal extrapelviana, linfonodal retroperitoneal e metastática à distância.
04
Reconhecer a diferença entre implante capsular hepático/esplênico e metástase parenquimatosa.
05
Compreender os componentes do estadiamento cirúrgico da doença aparentemente inicial.
06
Reconhecer a citorredução completa como objetivo central na doença avançada.
07
Selecionar conceitualmente cirurgia primária versus quimioterapia neoadjuvante.
08
Conhecer a base da quimioterapia sistêmica de primeira linha.
09
Compreender o papel de BRCA1/BRCA2 e deficiência de recombinação homóloga.
10
Reconhecer princípios de manutenção com terapias-alvo.
11
Organizar o raciocínio terapêutico de doença inicial, avançada e recorrente.
12
Identificar pegadinhas frequentes de estadiamento cobradas em provas.
Estadiamento combina distribuição anatômica, achados operatórios, patologia e exames de imagem; detalhes como ruptura capsular, lavado positivo e pleura positiva mudam o estágio.
Conduta principal
Doença inicial: estadiamento cirúrgico adequado ± quimioterapia. Doença avançada: citorredução completa quando factível ou quimioterapia neoadjuvante seguida de cirurgia de intervalo.
Pérola de prova
Cápsula hepática = pode ser FIGO III; parênquima hepático = FIGO IVB. Derrame pleural só é IVA se citologia positiva.
Introdução
O estadiamento do câncer de ovário não é apenas descritivo: ele organiza prognóstico, necessidade de tratamento adjuvante e estratégia cirúrgica.
O sistema FIGO utilizado para câncer de ovário, tuba uterina e peritônio primário considera extensão local, disseminação peritoneal, linfonodos retroperitoneais e metástases à distância.
Na doença aparentemente inicial, uma cirurgia inadequadamente estadiada pode subestimar a extensão e comprometer decisões terapêuticas. Na doença avançada, a pergunta fundamental é se toda doença macroscópica pode ser removida com segurança.
Além da anatomia, o tratamento contemporâneo incorpora histologia e biologia molecular, especialmente alterações em BRCA e deficiência de recombinação homóloga.
Conceitos fundamentais
Estadiamento cirúrgico e clínico
A extensão da doença é estimada antes do tratamento por exame clínico e imagem.
Na doença aparentemente inicial, a avaliação cirúrgica e anatomopatológica é fundamental para definir o estágio real.
Doença avançada evidente pode ser confirmada histologicamente antes de quimioterapia neoadjuvante quando esta for a estratégia escolhida.
Citorredução
Citorredução completa: ausência de doença macroscópica residual ao término da cirurgia.
É o objetivo preferencial quando alcançável com morbidade aceitável.
A estratégia não é simplesmente “retirar o ovário”: doença peritoneal avançada pode exigir cirurgia extensa em centro especializado.
Origem tubo-ovariana/peritoneal
Carcinomas de ovário, tuba uterina e peritônio primário de histologia epitelial são tratados em conjunto em grande parte das diretrizes.
O carcinoma seroso de alto grau frequentemente tem origem na tuba uterina distal.
O sítio primário deve ser designado quando possível; quando não é possível, pode ser classificado como origem tubo-ovariana/peritoneal indeterminada conforme avaliação patológica.
Biomarcadores
BRCA1 e BRCA2 participam da recombinação homóloga.
Deficiência de recombinação homóloga identifica tumores com deficiência em reparo de DNA por essa via.
Esses biomarcadores influenciam aconselhamento hereditário e estratégias de manutenção com inibidores da poli(ADP-ribose) polimerase (PARP).
Diagnóstico
Avaliação antes do tratamento
História, exame físico e avaliação do estado funcional.
Ultrassonografia pélvica especializada quando aplicável.
CA-125 como marcador auxiliar.
Tomografia computadorizada de tórax, abdome e pelve para extensão da doença avançada.
Revisão por equipe multidisciplinar especializada.
Definição da probabilidade de citorredução completa e do risco operatório.
Obtenção de diagnóstico histológico antes de quimioterapia neoadjuvante.
Patologia
Classificar o subtipo histológico conforme critérios atuais da Organização Mundial da Saúde.
Diferenciar carcinoma seroso de alto grau, seroso de baixo grau, endometrioide, células claras e mucinoso.
A revisão por patologista ginecológico experiente é desejável em casos complexos.
Histologia influencia prognóstico, quimiossensibilidade e tratamento.
Avaliação molecular
Pacientes com câncer ovariano epitelial de alto grau não mucinoso devem ser avaliadas para alterações germinativas e/ou somáticas de BRCA1/BRCA2 conforme diretrizes contemporâneas.
Em doença avançada de alto grau, avaliação de deficiência de recombinação homóloga é recomendada para orientar opções de manutenção.
Resultados germinativos têm implicações para familiares e aconselhamento genético.
Classificações e estratificação
FIGO I — limitado aos ovários/tubas
IA: tumor limitado a um ovário ou uma tuba; cápsula íntegra; ausência de tumor na superfície; ascite/lavado sem células malignas.
IB: tumor limitado a ambos os ovários ou tubas; cápsulas íntegras; ausência de tumor na superfície; ascite/lavado negativos.
IC1: derramamento cirúrgico intraoperatório.
IC2: cápsula rompida antes da cirurgia ou tumor na superfície ovariana/tubária.
IC3: células malignas na ascite ou no lavado peritoneal.
FIGO II — extensão pélvica
IIA: extensão e/ou implantes em útero e/ou tubas/ovários.
IIB: extensão para outros tecidos intraperitoneais pélvicos.
FIGO III — peritônio extrapelviano e/ou linfonodos retroperitoneais
IIIA1: linfonodos retroperitoneais positivos, sem disseminação peritoneal extrapelviana.
IIIA1(i): metástase linfonodal ≤10 mm.
IIIA1(ii): metástase linfonodal >10 mm.
IIIA2: envolvimento peritoneal extrapelviano microscópico, com ou sem linfonodos retroperitoneais positivos.
IIIB: metástase peritoneal extrapelviana macroscópica ≤2 cm, com ou sem linfonodos retroperitoneais.
IIIC: metástase peritoneal extrapelviana macroscópica >2 cm, com ou sem linfonodos retroperitoneais.
Extensão para cápsula do fígado ou baço sem invasão parenquimatosa é classificada como doença peritoneal estágio III.
FIGO IV — metástase à distância
IVA: derrame pleural com citologia positiva para células malignas.
IVB: metástases parenquimatosas e metástases para órgãos/linfonodos fora da cavidade abdominal, incluindo linfonodos inguinais.
Metástase no parênquima hepático ou esplênico é IVB.
Pegadinha anatômica
Fígado por fora: implante na cápsula/superfície sem invasão parenquimatosa → pode ser FIGO III.
Fígado por dentro: metástase no parênquima → FIGO IVB.
Pleura: derrame isolado não basta para IVA; é necessária citologia positiva.
Tratamento
Doença aparentemente inicial
Realizar cirurgia de estadiamento apropriada em centro com experiência oncológica.
O objetivo é remover a doença e identificar implantes ocultos que alterem o estágio.
Evitar ruptura de massa aparentemente confinada, pois derramamento intraoperatório pode modificar o estágio para IC1.
Preservação de fertilidade pode ser considerada em pacientes selecionadas, conforme estágio, histologia, grau, idade e desejo reprodutivo.
Quimioterapia adjuvante é indicada para muitos casos de estágio I–II, com exceções em subgrupos completamente estadiados de muito baixo risco.
Quimioterapia na doença inicial
Carboplatina isolada ou carboplatina + paclitaxel são opções reconhecidas em cenários de tratamento adjuvante.
Quando se utiliza carboplatina isolada, seis ciclos são recomendados em diretrizes ESMO/ESGO.
Com carboplatina + paclitaxel, pelo menos três ciclos são utilizados em grupos selecionados; seis ciclos são recomendados para carcinoma seroso de alto grau, carcinoma endometrioide de alto grau e estágio IC–II em recomendações contemporâneas.
A indicação exata depende de subtipo histológico, grau, estágio e qualidade do estadiamento.
Doença avançada — cirurgia primária
Cirurgia citorredutora primária é preferida quando ressecção completa parece factível.
A seleção deve ocorrer em centro especializado e em discussão multidisciplinar.
Condição clínica e extensão da doença devem permitir cirurgia radical com risco aceitável.
O objetivo é ausência de doença macroscópica residual.
Doença avançada — quimioterapia neoadjuvante
É alternativa válida quando a probabilidade de citorredução completa inicial é baixa ou a paciente apresenta risco cirúrgico excessivo.
Exige confirmação histológica antes do início da terapia sistêmica.
Após resposta, pacientes selecionadas realizam cirurgia citorredutora de intervalo e completam o tratamento sistêmico.
Bevacizumabe
Pode ser incorporado à quimioterapia e/ou manutenção em pacientes selecionadas com doença avançada.
A decisão depende do estágio, risco clínico, contraindicações, tratamento planejado, aprovação regulatória e disponibilidade.
Hipertensão, proteinúria, eventos trombóticos, sangramento e complicações gastrointestinais são toxicidades relevantes.
Inibidores de PARP
São importantes na manutenção de pacientes selecionadas após resposta à quimioterapia baseada em platina.
Benefício e indicação variam conforme alteração BRCA, deficiência de recombinação homóloga, linha terapêutica, tratamento prévio e aprovação regulatória.
Olaparibe e niraparibe são exemplos de agentes utilizados em contextos específicos.
Olaparibe associado a bevacizumabe pode ser opção em cenários selecionados de doença com deficiência de recombinação homóloga, conforme critérios do tratamento inicial e diretrizes vigentes.
Carcinoma seroso de baixo grau
Tem biologia e quimiossensibilidade diferentes do carcinoma seroso de alto grau.
Cirurgia tem papel particularmente importante.
Terapias endócrinas e estratégias-alvo podem ser utilizadas em contextos selecionados.
Tratamento deve ser individualizado conforme estágio, doença residual e recorrência.
Recorrência
A estratégia depende do intervalo desde platina, resposta prévia, histologia, biomarcadores, tratamentos anteriores, sintomas e possibilidade de cirurgia secundária.
Reexposição a platina é importante quando a doença permanece sensível à platina.
Em doença resistente à platina, utilizam-se esquemas não baseados em platina e terapias selecionadas conforme características tumorais.
Cirurgia citorredutora secundária pode beneficiar pacientes cuidadosamente selecionadas.