Panorama Geral das Cefaleias — MedVerse · MedVerse
Resumo HARD · Atualizado em 02 de set. de 2026
Panorama Geral das Cefaleias
Classificação, red flags, raciocínio diagnóstico e abordagem inicial das cefaleias
Arthur MedVerse
·50 min de leitura·Intermediário
Neste artigo
Resumo executivo
Cefaleia é uma das queixas neurológicas mais frequentes e deve ser abordada inicialmente com uma pergunta central: trata-se de uma cefaleia primária ou secundária? Nas cefaleias primárias, a própria cefaleia constitui a doença; nas secundárias, a dor é manifestação de outra condição capaz de causá-la.
A Classificação Internacional das Cefaleias, 3ª edição (ICHD-3), organiza as cefaleias primárias em quatro grandes grupos: migrânea, cefaleia do tipo tensional, cefaleias trigêmino-autonômicas e outras cefaleias primárias. As cefaleias secundárias são classificadas segundo a causa, como trauma, doença vascular, doença intracraniana não vascular, substâncias, infecções, distúrbios da homeostase e doenças de estruturas cranianas ou cervicais.
Na prática e nas provas, a prioridade é reconhecer
sinais de alarme
que indiquem investigação de causa secundária. Início súbito com intensidade máxima rapidamente, déficit neurológico, febre ou sinais sistêmicos, papiledema, imunossupressão, câncer, gestação/puerpério, trauma, mudança importante do padrão e início em idade mais avançada são exemplos relevantes.
A anamnese é a principal ferramenta diagnóstica. Deve caracterizar início, duração, frequência, localização, qualidade, intensidade, sintomas associados, fatores desencadeantes, piora com atividade, sintomas autonômicos, aura, uso de medicamentos e mudança do padrão habitual.
A migrânea costuma apresentar crises recorrentes de dor moderada a intensa, frequentemente pulsátil, associada a náusea e/ou fotofobia e fonofobia, com piora pela atividade física habitual. A cefaleia do tipo tensional tende a ser bilateral, em pressão ou aperto, leve a moderada e sem piora pela atividade rotineira. A cefaleia em salvas caracteriza-se por dor unilateral orbital, supraorbital ou temporal muito intensa, acompanhada por sinais autonômicos ipsilaterais e/ou inquietação.
Neuroimagem não deve ser solicitada indiscriminadamente em toda cefaleia. Em quadro típico de cefaleia primária, exame neurológico normal e ausência de sinais de alarme, investigação estrutural geralmente não é necessária. Quando há suspeita de causa secundária, o exame deve ser escolhido conforme a hipótese e a urgência.
Outro eixo importante é a cefaleia por uso excessivo de medicamentos, que deve ser lembrada em pacientes com cefaleia frequente que utilizam repetidamente fármacos para tratamento agudo. O padrão de consumo deve ser perguntado ativamente.
Para prova: primeiro procure red flags; depois reconheça o fenótipo; migrânea, tensional e salvas são os protótipos; neuroimagem não é rotina na cefaleia primária típica; mudança de padrão exige reavaliação.
Objetivos de aprendizagem
01
Diferenciar cefaleias primárias de secundárias.
02
Reconhecer a organização geral da Classificação Internacional das Cefaleias, 3ª edição.
03
Identificar sinais de alarme que indiquem investigação de causa secundária.
04
Realizar anamnese dirigida para caracterização do fenótipo da cefaleia.
05
Diferenciar os padrões típicos de migrânea, cefaleia do tipo tensional e cefaleia em salvas.
06
Reconhecer situações em que neuroimagem não é necessária de rotina.
07
Selecionar investigação inicial conforme a hipótese de cefaleia secundária.
08
Reconhecer cefaleia por uso excessivo de medicamentos.
09
Identificar situações que exigem avaliação urgente.
10
Construir raciocínio diagnóstico organizado diante de uma queixa de cefaleia.
Visão rápida
Definição
Dor localizada na cabeça, podendo constituir doença primária ou manifestação secundária de outra condição.
Como reconhecer
Primeiro excluir sinais de alarme; depois caracterizar o fenótipo da dor e sintomas associados.
Conduta principal
Cefaleia primária típica + exame neurológico normal + ausência de sinais de alarme geralmente não exige neuroimagem; presença de red flags direciona investigação.
Pérola de prova
Cefaleia súbita com intensidade máxima rapidamente deve ser tratada como potencial causa vascular grave até exclusão.
Introdução
A cefaleia não é um diagnóstico único, mas um sintoma compartilhado por numerosas doenças. A abordagem eficiente evita dois extremos: investigar excessivamente quadros primários típicos e deixar de reconhecer cefaleias secundárias potencialmente graves.
A história clínica costuma fornecer a maior parte das informações necessárias. A classificação formal ajuda a organizar o diagnóstico, mas a segurança da avaliação começa pela identificação de sinais de alarme.
Conceitos fundamentais
Cefaleias primárias
A cefaleia constitui o próprio transtorno, sem outra doença causal necessária para explicar o quadro.
Os grandes grupos da ICHD-3 são migrânea, cefaleia do tipo tensional, cefaleias trigêmino-autonômicas e outras cefaleias primárias.
Um mesmo paciente pode apresentar mais de um tipo de cefaleia primária.
Cefaleias secundárias
Resultam de outra condição capaz de causar cefaleia.
Uma cefaleia nova surgindo em estreita relação temporal com uma doença reconhecidamente capaz de causar dor de cabeça deve ser classificada como secundária, mesmo que seu fenótipo se pareça com migrânea ou cefaleia tensional.
Uma cefaleia primária preexistente pode coexistir com uma nova cefaleia secundária quando ocorre piora significativa relacionada a outra doença.
Fenótipo da dor
Localização: unilateral, bilateral, orbital, temporal, occipital ou difusa.
Qualidade: pulsátil, pressão/aperto, pontada, choque ou outra descrição.
Intensidade e impacto funcional ajudam a diferenciar síndromes.
Duração e frequência das crises são elementos diagnósticos centrais.
Sintomas associados, como náusea, vômitos, foto/fonofobia, aura e sinais autonômicos, refinam o diagnóstico.
Cefaleia episódica e crônica
A frequência de dias com cefaleia é fundamental para classificação e planejamento terapêutico.
Algumas cefaleias primárias possuem critérios específicos de cronificação.
Diário de cefaleia pode documentar frequência, duração, intensidade, gatilhos, menstruação e uso de medicamentos.
Diagnóstico
Anamnese dirigida
Quando começou? Foi súbito ou progressivo?
Quanto tempo dura cada episódio e quantos dias por mês ocorre?
A dor é nova ou existe padrão semelhante há anos?
Onde dói e qual é a qualidade da dor?
Qual a intensidade e quanto limita atividades?
Há náusea, vômitos, fotofobia, fonofobia ou aura?
Há lacrimejamento, hiperemia conjuntival, congestão nasal, rinorreia, ptose ou miose?
Existe febre, perda ponderal, trauma, câncer, imunossupressão, gestação ou puerpério?
Há relação com postura, tosse, esforço físico, atividade sexual ou manobra de Valsalva?
Quais medicamentos são utilizados e em quantos dias por mês?
Exame físico
Avaliar sinais vitais, estado geral e nível de consciência.
Realizar exame neurológico completo.
Pesquisar sinais meníngeos quando clinicamente indicados.
Realizar fundoscopia quando houver suspeita de hipertensão intracraniana ou papiledema.
Avaliar estruturas cranianas, cervicais, oculares e temporais conforme hipótese.
Quando pensar em neuroimagem
Déficit neurológico focal ou exame neurológico anormal.
Cefaleia súbita de alta intensidade.
Papiledema ou suspeita de alteração da pressão intracraniana.
Novo padrão em paciente com câncer ou imunossupressão.
Trauma relevante.
Mudança progressiva ou inexplicada do padrão.
Outras red flags que elevem a probabilidade de causa estrutural ou vascular.
Tomografia computadorizada versus ressonância magnética
Tomografia computadorizada de crânio é particularmente útil em cenários agudos e emergenciais, como suspeita de hemorragia intracraniana.
Ressonância magnética oferece maior sensibilidade para diversas causas estruturais, fossa posterior, alterações inflamatórias e outros cenários não emergenciais.
A escolha depende da hipótese clínica, disponibilidade e urgência; não existe um exame único obrigatório para toda cefaleia.
Punção lombar
Não é exame de rotina para cefaleia primária típica.
Pode ser necessária em hipóteses como meningite, hemorragia subaracnóidea em situações selecionadas e distúrbios da pressão do líquido cefalorraquidiano.
Antes da punção, deve-se avaliar risco de lesão expansiva/efeito de massa e necessidade de neuroimagem prévia conforme contexto clínico.
Classificações e estratificação
Classificação geral da ICHD-3
Parte I — cefaleias primárias: migrânea; cefaleia do tipo tensional; cefaleias trigêmino-autonômicas; outras cefaleias primárias.
Parte II — cefaleias secundárias: atribuídas a trauma, doença vascular, doença intracraniana não vascular, substâncias/abstinência, infecção, distúrbios da homeostase e doenças de estruturas cranianas/cervicais, entre outras.
Parte III — neuropatias cranianas dolorosas, outras dores faciais e outras cefaleias.
Sinais de alarme — raciocínio SNOOP ampliado
Sistêmico: febre, perda ponderal, câncer, imunossupressão ou doença sistêmica relevante.
Neurológico: déficit focal, alteração de consciência, crise epiléptica, papiledema ou achado neurológico novo.
Onset: início súbito, especialmente quando a intensidade máxima é atingida rapidamente.
Older: início novo em idade mais avançada aumenta preocupação com causas secundárias.
Pattern change: mudança relevante de frequência, intensidade, características ou resposta habitual.
Contextos adicionais: gestação/puerpério, trauma, cefaleia precipitada por esforço/Valsalva, alteração postural e sinais de hipertensão ou hipotensão intracraniana.
Protótipos das cefaleias primárias
Migrânea: frequentemente unilateral e pulsátil, moderada/intensa, piora com atividade habitual e associa-se a náusea e/ou foto/fonofobia.
Cefaleia do tipo tensional: geralmente bilateral, em pressão/aperto, leve/moderada e não agravada pela atividade habitual; náuseas e vômitos não são características típicas.
Cefaleia em salvas: dor unilateral orbital/supraorbital/temporal muito intensa, com duração típica de 15–180 minutos e sinais autonômicos ipsilaterais e/ou inquietação.
Tratamento
Princípios gerais
O tratamento depende do diagnóstico específico e será aprofundado nos resumos de cada síndrome.
Educação sobre o diagnóstico, gatilhos relevantes e uso adequado de medicação faz parte do manejo.
Tratamento agudo deve ser eficaz sem favorecer uso excessivo de medicamentos.
Terapia preventiva é considerada conforme frequência, incapacidade, duração, resposta ao tratamento agudo e características individuais.
Medidas não farmacológicas
Regularidade do sono, alimentação e hidratação pode reduzir fatores precipitantes em pacientes suscetíveis.
Atividade física regular e manejo individualizado de gatilhos podem integrar a prevenção.
Diário de cefaleia ajuda a medir resposta e identificar uso excessivo de medicamentos.
Uso excessivo de medicamentos
Perguntar quantos dias por mês são utilizados analgésicos ou medicamentos específicos para crise.
Uso frequente de tratamento agudo pode perpetuar ou aumentar a frequência da cefaleia.
O diagnóstico depende do padrão de cefaleia e do tipo/frequência de medicamento utilizado segundo critérios específicos da ICHD-3.
Prevenção e educação são fundamentais para evitar cronificação relacionada ao uso excessivo.
Conduta na urgência e emergência
Cefaleia súbita intensa
Tratar como potencial emergência neurológica até exclusão de causas graves.
Priorizar avaliação de hemorragia subaracnóidea e outros eventos vasculares conforme apresentação.
Realizar neuroimagem urgente conforme protocolo e tempo de evolução.
Investigação adicional pode ser necessária se a suspeita clínica persistir apesar de exame inicial não diagnóstico.
Cefaleia + déficit neurológico
Considerar acidente vascular cerebral, hemorragia, dissecção arterial, trombose venosa cerebral, lesão expansiva e outras causas secundárias.
Déficit focal novo exige avaliação neurológica e investigação dirigida.
Não atribuir automaticamente déficit focal a aura migranosa sem avaliar o contexto, especialmente em primeiro episódio ou apresentação atípica.
Cefaleia + febre
Considerar infecção sistêmica e do sistema nervoso central.
Alteração do estado mental, rigidez de nuca, petéquias ou instabilidade aumentam urgência.
Suspeita de meningite exige manejo específico e não deve aguardar investigação desnecessária quando antibiótico imediato estiver indicado.
Gestação e puerpério
Cefaleia nova ou diferente nesse período merece atenção ampliada para causas secundárias.
Considerar doenças hipertensivas da gestação, trombose venosa cerebral, síndrome de vasoconstrição cerebral reversível, apoplexia hipofisária e outras causas conforme contexto.
Déficit focal, crise epiléptica, hipertensão, alteração visual ou cefaleia súbita são sinais de alto risco.
Algoritmos e fluxogramas
Abordagem inicial da cefaleia
Defina se é primeira cefaleia, novo padrão ou cefaleia habitual.
Pesquise sistematicamente sinais de alarme.
Se houver red flag → investigue causa secundária conforme hipótese e urgência.
Se não houver red flags → caracterize fenótipo, duração e frequência.
Compare com padrões de migrânea, cefaleia do tipo tensional, cefaleias trigêmino-autonômicas e outras cefaleias primárias.
Revise uso de medicamentos e frequência mensal.
Defina necessidade de tratamento agudo, prevenção e seguimento.
Atalho de prova
INÍCIO SÚBITO? Pense primeiro em causa vascular grave.
FEBRE/SISTÊMICO? Pense em infecção, inflamação ou doença sistêmica.
DÉFICIT FOCAL? Não rotule como cefaleia primária sem investigação.
PAPILEDEMA? Pense em alteração da pressão intracraniana.
SEM RED FLAGS + FENÓTIPO TÍPICO + EXAME NORMAL? Cefaleia primária é mais provável.
Depois diferencie: migrânea versus tensional versus trigêmino-autonômica.
O que mais cai
Cefaleia primária é a própria doença; cefaleia secundária decorre de outra condição.
A ICHD-3 divide as cefaleias primárias em migrânea, tensional, trigêmino-autonômicas e outras primárias.
Uma nova cefaleia temporalmente relacionada a doença capaz de causá-la é classificada como secundária mesmo que imite migrânea.
Cefaleia súbita com intensidade máxima rapidamente é red flag.
Déficit neurológico focal é red flag.
Papiledema é red flag.
Mudança importante do padrão habitual exige reavaliação.
Câncer e imunossupressão reduzem o limiar para investigação.
Gestação e puerpério ampliam o diagnóstico diferencial de cefaleias secundárias.
Migrânea costuma piorar com atividade física habitual.
Cefaleia tensional tipicamente não piora com atividade habitual.
Cefaleia em salvas associa dor unilateral intensa a sinais autonômicos ipsilaterais e/ou inquietação.
Cefaleia em salvas dura tipicamente 15–180 minutos.
Neuroimagem não é rotina em cefaleia primária típica com exame neurológico normal e ausência de red flags.
Tomografia é particularmente útil em emergências hemorrágicas; ressonância é superior para diversas causas estruturais não emergenciais.
Uso excessivo de medicamentos deve ser pesquisado em toda cefaleia frequente.
Primeiro episódio de déficit focal não deve ser automaticamente chamado de aura.
Erros comuns
Pedir tomografia para toda cefaleia sem considerar história e exame.
Não investigar cefaleia porque o paciente já possui diagnóstico antigo de migrânea, mesmo diante de mudança importante do padrão.
Chamar toda cefaleia unilateral de migrânea.
Confundir cefaleia tensional com dor necessariamente relacionada a tensão emocional.
Confundir sinais autonômicos da cefaleia em salvas com sinusite.
Ignorar uso excessivo de analgésicos.
Desconsiderar gestação e puerpério como contextos de maior risco para causas secundárias.
Rotular déficit neurológico novo como aura sem avaliação adequada.
Realizar punção lombar indiscriminadamente em cefaleia.
Esquecer papiledema no exame de paciente com suspeita de hipertensão intracraniana.
Considerar exame neurológico normal suficiente para excluir toda causa secundária apesar de red flags importantes.
Confundir cefaleia primária típica com ausência absoluta de necessidade de seguimento.