Reconhecimento imediato, adrenalina intramuscular, choque anafilático e prevenção de recorrências
Arthur MedVerse
·45 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
A anafilaxia é uma reação sistêmica de hipersensibilidade, de início geralmente rápido e potencialmente fatal. Em pediatria, alimentos são desencadeantes particularmente importantes, mas medicamentos, venenos de insetos, látex e outros agentes também podem causar o quadro.
O diagnóstico é clínico. Deve-se reconhecer rapidamente comprometimento respiratório, laríngeo ou cardiovascular após exposição provável a um alérgeno, mesmo quando não existem manifestações cutâneas. Urticária e angioedema são frequentes, mas sua ausência não exclui anafilaxia.
A adrenalina intramuscular é o tratamento de primeira linha e não possui contraindicação absoluta quando há anafilaxia. Deve ser aplicada precocemente na face anterolateral da coxa, na dose de 0,01 mg/kg da solução 1 mg/mL (1:1.000), respeitando a dose máxima apropriada.
Anti-histamínicos e corticosteroides não substituem adrenalina. Anti-histamínicos podem aliviar sintomas cutâneos, mas não tratam obstrução de via aérea ou choque. O benefício rotineiro dos corticosteroides para prevenir reação bifásica não está estabelecido.
O manejo simultâneo inclui retirada do desencadeante quando possível, posicionamento adequado, oxigênio quando indicado, monitorização, acesso vascular e reposição vigorosa de cristaloide no choque. Broncoespasmo persistente pode receber beta-2 agonista inalatório como terapia adjuvante.
Após estabilização, é necessário individualizar o período de observação, orientar prevenção de novas exposições, fornecer plano de ação e garantir acesso à adrenalina autoinjetável quando disponível e indicada.
Objetivos de aprendizagem
01
Reconhecer os critérios clínicos de anafilaxia em crianças.
02
Identificar apresentações sem urticária ou angioedema.
03
Conhecer os principais desencadeantes pediátricos.
Diferenciar adrenalina intramuscular da adrenalina intravenosa.
06
Reconhecer choque anafilático e realizar reposição volêmica apropriada.
07
Compreender o papel limitado de anti-histamínicos e corticosteroides.
08
Reconhecer reação bifásica e fatores associados a maior risco.
09
Definir princípios de observação, alta e prevenção de recorrência.
Visão rápida
Definição
Reação sistêmica grave de hipersensibilidade, geralmente de início rápido, com risco de comprometimento respiratório e/ou cardiovascular.
Como reconhecer
Exposição provável + comprometimento respiratório, laríngeo ou cardiovascular; manifestações cutâneas podem estar ausentes.
Conduta principal
Adrenalina intramuscular imediatamente + avaliação de via aérea, respiração e circulação + suporte conforme gravidade.
Pérola de prova
Na dúvida diante de quadro compatível, não atrase adrenalina esperando urticária, exames ou resposta a anti-histamínico.
Introdução
Anafilaxia é uma emergência tempo-dependente. O principal fator modificável relacionado ao tratamento é o reconhecimento rápido seguido de administração precoce de adrenalina.
Em lactentes e crianças pequenas, sinais podem ser menos específicos: choro súbito, irritabilidade, sonolência, vômitos, tosse, alteração da voz, dificuldade respiratória ou redução da interação podem acompanhar a reação.
A gravidade de uma reação anterior não prevê com segurança a intensidade da próxima exposição; por isso, pacientes de risco precisam de educação e plano de ação.
Conceitos fundamentais
Critérios clínicos
Anafilaxia é altamente provável quando há início agudo de manifestações cutâneas ou mucosas associado a comprometimento respiratório e/ou redução da pressão arterial ou sinais de disfunção de órgão-alvo.
Também deve ser considerada após exposição a alérgeno provável quando dois ou mais sistemas são envolvidos rapidamente, conforme critérios clínicos utilizados.
Após exposição a alérgeno conhecido para aquele paciente, hipotensão ou comprometimento respiratório/laríngeo significativo podem estabelecer forte suspeita mesmo sem pele acometida.
Critérios auxiliam o diagnóstico, mas não devem atrasar tratamento em quadro clinicamente evidente.
Pele pode estar normal
Urticária, eritema, prurido e angioedema são comuns.
Uma parcela dos episódios graves ocorre sem manifestações cutâneas.
Ausência de urticária não exclui anafilaxia.
Anafilaxia versus reação alérgica leve
Urticária isolada sem comprometimento sistêmico não é necessariamente anafilaxia.
Envolvimento respiratório, laríngeo ou cardiovascular aumenta substancialmente a gravidade.
Progressão pode ser rápida e imprevisível.
Etiologia e fatores de risco
Principais desencadeantes em pediatria
Alimentos: leite, ovo, amendoim, castanhas, trigo, peixe, crustáceos e outros conforme idade e região.
Medicamentos, especialmente antibióticos e anti-inflamatórios não esteroides em contextos específicos.
Venenos de himenópteros.
Látex.
Imunoterapia e produtos biológicos em contextos selecionados.
Exercício pode atuar como cofator ou, raramente, desencadeante.
Cofatores que podem amplificar reações
Exercício físico.
Infecção aguda.
Uso de determinados medicamentos.
Privação de sono, estresse e outros fatores podem modificar limiar em pacientes selecionados.
Fatores associados a maior gravidade
Asma, especialmente quando mal controlada, aumenta preocupação em anafilaxia alimentar.
Doença mastocitária pode aumentar risco em contextos específicos.
Atraso na administração de adrenalina associa-se a piores desfechos.
Reação que exige múltiplas doses de adrenalina indica maior gravidade e maior risco de evolução prolongada/bifásica.
Quadro clínico
Cutâneo/mucoso
Urticária.
Prurido.
Eritema.
Angioedema de lábios, pálpebras ou outras regiões.
Prurido oral.
Respiratório e laríngeo
Dispneia.
Sibilância.
Tosse persistente.
Estridor.
Rouquidão ou alteração da voz.
Edema de língua ou orofaringe.
Hipoxemia.
Cardiovascular
Taquicardia.
Hipotensão.
Má perfusão.
Tontura ou síncope em crianças maiores.
Alteração do nível de consciência.
Choque.
Gastrointestinal
Vômitos repetitivos.
Dor abdominal intensa.
Diarreia.
Manifestações gastrointestinais devem ser interpretadas conforme desencadeante e conjunto clínico.
Lactentes
Irritabilidade ou choro súbito.
Letargia.
Vômitos.
Tosse, estridor ou sibilância.
Alteração de coloração e redução da interação.
Alguns sinais se confundem com comportamentos normais da idade, exigindo avaliação contextual.
Diagnóstico
Diagnóstico é clínico
Não aguardar exames laboratoriais para iniciar tratamento.
Relacionar início dos sintomas à exposição provável.
Identificar rapidamente via aérea, respiração e circulação comprometidas.
Reavaliar continuamente porque a reação pode progredir após apresentação inicialmente limitada.
Triptase sérica
Não é necessária para diagnosticar ou tratar o episódio agudo.
Pode auxiliar retrospectivamente em casos selecionados, especialmente reações graves, recorrentes, idiopáticas ou quando há suspeita de distúrbio mastocitário.
Valor normal não exclui anafilaxia, particularmente em reações alimentares.
Quando indicada, a interpretação é mais útil comparando amostra obtida após a reação com nível basal posterior.
Diagnósticos diferenciais
Crise aguda de asma.
Síncope vasovagal.
Urticária aguda isolada.
Angioedema não histaminérgico.
Obstrução por corpo estranho.
Crise de ansiedade/hiperventilação em crianças maiores.
Choque séptico.
Síndrome de enterocolite induzida por proteína alimentar em lactentes.
Classificações e estratificação
Reação unifásica
Sintomas resolvem sem recorrência após o episódio inicial.
É o padrão mais comum.
Reação bifásica
Recorrência de sintomas após resolução aparente, sem nova exposição ao desencadeante.
Pode ocorrer horas após a reação inicial.
Risco é maior em reações graves, necessidade de múltiplas doses de adrenalina e atraso no tratamento inicial.
Não existe período único de observação capaz de capturar todas as reações bifásicas.
Reação prolongada
Sintomas persistem por período prolongado apesar do tratamento.
Exige monitorização e manejo hospitalar.
Tratamento
Adrenalina intramuscular — primeira linha
Administrar imediatamente quando houver anafilaxia.
Local preferido: face anterolateral da coxa.
A via intramuscular apresenta perfil de segurança favorável e absorção rápida.
Não atrasar adrenalina para obter acesso venoso.
Não atrasar adrenalina para administrar anti-histamínico ou corticosteroide.
Pode ser repetida se os sintomas persistirem ou progredirem.
Posicionamento
Evitar que paciente com instabilidade fique em pé ou caminhe subitamente.
Paciente com comprometimento circulatório geralmente deve permanecer em posição supina com membros inferiores elevados, quando tolerado.
Se houver importante desconforto respiratório, pode ser necessário posicionamento que facilite ventilação.
Gestantes devem ser posicionadas com deslocamento uterino para a esquerda, quando aplicável.
Oxigênio e via aérea
Administrar oxigênio suplementar em hipoxemia, comprometimento respiratório ou reação grave.
Antecipar via aérea difícil diante de edema progressivo de língua, orofaringe ou laringe.
Acionar precocemente equipe experiente quando houver ameaça de obstrução.
Reposição volêmica
Choque anafilático pode causar intensa vasodilatação e extravasamento capilar.
Administrar cristaloide isotônico rapidamente quando houver hipotensão ou hipoperfusão.
Reavaliar após cada expansão e repetir conforme resposta e contexto clínico.
Broncoespasmo
Beta-2 agonista inalatório pode ser utilizado como adjuvante quando sibilância/broncoespasmo persistem.
Broncodilatador não substitui adrenalina quando o quadro é anafilaxia.
Anti-histamínicos
Podem aliviar urticária e prurido após estabilização.
Não tratam choque, edema laríngeo ou broncoespasmo grave.
Não devem ocupar o lugar nem atrasar a adrenalina.
Corticosteroides
Não atuam rapidamente o suficiente para tratamento inicial da anafilaxia.
Não substituem adrenalina.
Evidência de benefício rotineiro na prevenção de reação bifásica é limitada.
Uso pode ser considerado em situações selecionadas, como exacerbação asmática concomitante, conforme avaliação clínica.
Conduta na urgência e emergência
Abordagem imediata
Reconheça anafilaxia clinicamente.
Interrompa a exposição ao desencadeante quando possível.
Peça ajuda e inicie monitorização.
Administre adrenalina intramuscular imediatamente na face anterolateral da coxa.
Posicione o paciente conforme padrão respiratório e hemodinâmico, evitando ortostatismo súbito.
Avalie via aérea, respiração e circulação simultaneamente.
Ofereça oxigênio quando indicado.
Obtenha acesso vascular em reação moderada/grave sem atrasar a adrenalina.
Se houver choque, administre cristaloide isotônico rapidamente.
Repita adrenalina intramuscular se persistirem sinais de anafilaxia.
Trate broncoespasmo persistente com beta-2 agonista como adjuvante.
Em choque refratário, considere infusão intravenosa de adrenalina em ambiente apropriado.
Anafilaxia refratária
Pensar quando há persistência de comprometimento respiratório ou cardiovascular apesar de doses apropriadas de adrenalina intramuscular.
Rever diagnóstico, dose, concentração, local e técnica de administração.
Corrigir hipovolemia agressivamente quando presente.
Considerar infusão titulada de adrenalina com monitorização contínua e equipe experiente.
Se paciente usa beta-bloqueador e apresenta resposta inadequada, glucagon pode ser considerado em ambiente especializado.
Dose máxima pediátrica frequentemente utilizada: 0,3 mg; adolescentes maiores podem receber até 0,5 mg conforme peso e protocolo.
Repetir geralmente a cada 5–15 minutos se necessário; em reação grave, reavaliações devem ser muito frequentes.
Cristaloide no choque
Solução de cloreto de sódio 0,9% ou outro cristaloide isotônico.
Bolus pediátrico usual: 20 mL/kg em choque anafilático, administrado rapidamente e com reavaliação clínica.
Volumes adicionais podem ser necessários devido ao grande extravasamento intravascular; individualizar conforme perfusão e comorbidades.
Adrenalina intravenosa
Não é via inicial de rotina para anafilaxia.
Bolus intravenoso de adrenalina aumenta risco de arritmias e erro de dose.
Em anafilaxia refratária com choque persistente apesar de adrenalina intramuscular repetida e volume adequado, infusão intravenosa titulada pode ser necessária em ambiente monitorizado e por equipe experiente.
Parada cardiorrespiratória segue protocolo próprio de ressuscitação, não a dose intramuscular de anafilaxia.
Algoritmos e fluxogramas
Algoritmo mental de prova
Exposição provável + sintomas sistêmicos compatíveis → pense em anafilaxia.
Respiratório/laríngeo ou cardiovascular comprometido → trate imediatamente.
ADRENALINA IM 0,01 mg/kg na coxa.
ABC + posição adequada + monitorização.
Choque → cristaloide isotônico rápido.
Broncoespasmo → beta-2 agonista como ADJUVANTE.
Persistência → repetir adrenalina intramuscular.
Choque refratário → infusão intravenosa titulada de adrenalina em ambiente monitorizado.
Após estabilização → observação individualizada + prevenção + plano de ação.
O que NÃO deve atrasar adrenalina
Acesso venoso.
Anti-histamínico.
Corticosteroide.
Triptase.
Radiografia.
Confirmação do alérgeno.
Presença de urticária.
O que mais cai
Adrenalina intramuscular é primeira linha na anafilaxia.
Local preferido: face anterolateral da coxa.
Dose pediátrica: 0,01 mg/kg da solução 1 mg/mL.
0,01 mg/kg da solução 1 mg/mL = 0,01 mL/kg.
Não há contraindicação absoluta à adrenalina intramuscular em anafilaxia.
Urticária pode estar ausente.
Comprometimento respiratório/laríngeo ou cardiovascular após alérgeno conhecido pode caracterizar anafilaxia mesmo sem pele acometida.
Anti-histamínico não substitui adrenalina.
Corticosteroide não é tratamento inicial e não possui benefício comprovado para prevenir rotineiramente reação bifásica.
Beta-2 agonista trata broncoespasmo, mas não substitui adrenalina.
Choque anafilático exige cristaloide isotônico rápido além de adrenalina.
Adrenalina intravenosa não é primeira via na anafilaxia habitual.
Reação bifásica ocorre sem nova exposição após resolução inicial.
Reações graves e necessidade de múltiplas doses de adrenalina aumentam risco de bifásica.
Triptase normal não exclui anafilaxia.
Alta deve incluir prevenção, plano de ação e acesso à adrenalina quando indicada.
Erros comuns
Esperar aparecer urticária para diagnosticar anafilaxia.
Dar anti-histamínico antes da adrenalina.
Usar corticosteroide como tratamento principal.
Administrar adrenalina por via subcutânea em vez de intramuscular.
Aplicar adrenalina preferencialmente no braço em vez da coxa.
Confundir adrenalina 1 mg/mL com soluções usadas em ressuscitação.
Errar a conversão entre mg e mL.
Administrar bolus intravenoso de adrenalina rotineiramente.
Deixar criança hipotensa sentar ou levantar abruptamente.
Tratar sibilância apenas com salbutamol e esquecer adrenalina.
Não realizar expansão volêmica no choque.
Esperar resultado de triptase para tratar.
Considerar reação resolvida como risco zero de recorrência.
Dar alta sem orientação de prevenção e plano de ação.
Presumir que reação anterior leve garante que a próxima também será leve.
Para lembrar
ANAFILAXIA = ADRENALINA PRIMEIRO.
IM + COXA + 0,01 mg/kg.
Adrenalina 1 mg/mL → 0,01 mL/kg.
Sem urticária ainda pode ser anafilaxia.
Respiratório/laríngeo ou cardiovascular = sinal de gravidade.
Anti-histamínico trata pele; NÃO trata choque.
Corticoide não salva na fase aguda.
Salbutamol é adjuvante; adrenalina continua sendo o tratamento da anafilaxia.
Choque → ADRENALINA + VOLUME.
Persistiu? REPITA adrenalina IM.
Refratária → pense em infusão IV titulada, não bolus IV improvisado.