Rastreamento e Condutas no Preventivo — MedVerse · MedVerse
Resumo HARD · Atualizado em 02 de set. de 2026
Rastreamento e Condutas no Preventivo
DNA-HPV, citologia cervical e algoritmos de conduta no rastreamento do câncer do colo do útero
Arthur MedVerse
·65 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
O rastreamento do câncer do colo do útero sofreu uma mudança central no Brasil com as Diretrizes Brasileiras de 2025: o teste molecular para detecção de DNA do papilomavírus humano (DNA-HPV) oncogênico passou a ser o exame primário do rastreamento organizado, substituindo progressivamente a citologia como método inicial. O teste molecular apresenta maior sensibilidade para detectar lesões precursoras e, quando negativo, permite intervalo maior entre rodadas.
Na população de risco padrão, o rastreamento é direcionado a pessoas com colo do útero que já iniciaram atividade sexual. O INCA mantém como população-alvo geral a faixa de 25 a 64 anos durante a transição nacional; no algoritmo molecular, um teste DNA-HPV negativo permite nova rodada em 5 anos
e, após os 60 anos, um resultado negativo permite encerramento do rastreamento periódico conforme a diretriz.
O resultado molecular deve ser interpretado pela genotipagem. Detecção de HPV 16 e/ou 18 indica encaminhamento para colposcopia. Quando são detectados outros tipos oncogênicos, realiza-se citologia reflexa, preferencialmente na mesma amostra: citologia com células escamosas atípicas de significado indeterminado ou alteração mais grave direciona para colposcopia; citologia negativa leva à repetição do DNA-HPV em 12 meses.
Se, após HPV oncogênico não 16/18 com triagem negativa, o teste repetido em 12 meses tornar-se negativo, retorna-se ao rastreamento em 5 anos. Persistência exige nova estratificação; positividade por HPV 16/18 direciona à colposcopia, e persistência de outros tipos com citologia reflexa negativa requer acompanhamento próximo, com colposcopia se a infecção oncogênica persistir no seguimento conforme o algoritmo nacional.
Nos locais onde o DNA-HPV ainda não está implantado, a citologia cervical permanece válida. O esquema tradicional brasileiro é iniciar aos 25 anos em pessoas sexualmente ativas, realizar dois exames anuais consecutivos e, se ambos forem negativos, seguir com intervalo de 3 anos.
O rastreamento não deve ser confundido com investigação diagnóstica. Sangramento pós-coital, sangramento pós-menopausa, corrimento persistente ou colo macroscopicamente suspeito exigem avaliação diagnóstica, independentemente da idade ou do momento do último exame preventivo.
Situações especiais modificam o algoritmo. Pessoas vivendo com o vírus da imunodeficiência humana (HIV) ou imunodeprimidas necessitam rastreamento mais precoce e acompanhamento específico. Pessoas submetidas à histerectomia total por doença benigna, sem história de lesão cervical de alto grau, em geral não necessitam rastreamento cervical.
Mensagem de prova: Brasil 2025 = DNA-HPV oncogênico como teste primário; negativo = 5 anos; HPV 16/18 = colposcopia; outros HPV oncogênicos = citologia reflexa; onde DNA-HPV não está disponível, permanece o esquema citológico 25–64 anos, dois exames anuais negativos e depois a cada 3 anos.
Objetivos de aprendizagem
01
Identificar a população-alvo do rastreamento do câncer do colo do útero no Brasil.
02
Compreender a mudança de paradigma introduzida pelas Diretrizes Brasileiras de 2025.
03
Aplicar o intervalo de rastreamento após teste DNA-HPV oncogênico negativo.
04
Interpretar a conduta diante de HPV 16/18 e de outros tipos oncogênicos.
05
Compreender o papel da citologia reflexa no rastreamento molecular.
06
Aplicar o esquema citológico tradicional onde o DNA-HPV ainda não estiver disponível.
07
Reconhecer resultados citológicos que demandam investigação colposcópica.
08
Distinguir rastreamento de investigação diagnóstica em pacientes sintomáticas.
09
Reconhecer situações especiais como imunossupressão e histerectomia.
10
Evitar rastreamento excessivo em faixas etárias de baixo benefício.
Visão rápida
Definição
Rastreamento organizado destinado a detectar infecção oncogênica persistente e/ou lesões precursoras antes do câncer invasivo em pessoas assintomáticas com colo uterino.
Como reconhecer
Brasil 2025: DNA-HPV oncogênico é o teste primário; citologia permanece onde a tecnologia molecular ainda não foi implantada.
Conduta principal
DNA-HPV negativo → repetir em 5 anos; HPV 16/18 → colposcopia; outros HPV oncogênicos → citologia reflexa e manejo conforme resultado.
Pérola de prova
Rastreamento é para assintomáticas. Sangramento pós-coital ou colo suspeito exige investigação diagnóstica, não simplesmente coleta de preventivo.
Introdução
O objetivo do rastreamento não é diagnosticar câncer já sintomático, mas identificar pessoas com maior risco de lesão precursora e permitir tratamento antes da invasão.
A citologia cervical foi responsável por grande redução da incidência e mortalidade em países com programas de alta cobertura. Entretanto, o teste DNA-HPV possui maior sensibilidade e maior valor preditivo negativo, permitindo ampliar o intervalo após um resultado negativo.
Em 2024, o Sistema Único de Saúde (SUS) incorporou testes moleculares para HPV oncogênico e, em 2025, o Ministério da Saúde aprovou a nova diretriz nacional. A implementação ocorre progressivamente; por isso, provas podem explorar tanto o algoritmo molecular atual quanto o esquema citológico mantido nos locais ainda não contemplados.
Conceitos fundamentais
Rastreamento organizado
População-alvo previamente definida.
Convocação e cobertura sistemática.
Teste de rastreamento padronizado.
Fluxo definido para resultados positivos.
Rastreamento só é efetivo quando a pessoa com resultado alterado consegue completar investigação e tratamento.
DNA-HPV como teste primário
Detecta material genético de tipos oncogênicos do HPV antes do desenvolvimento de alterações citológicas em muitos casos.
Apresenta maior sensibilidade para lesões precursoras de alto grau do que a citologia isolada.
Resultado negativo confere baixo risco nos anos seguintes e permite intervalo de 5 anos.
Genotipagem parcial ou estendida permite estratificar risco.
Citologia reflexa
É utilizada como teste de triagem após determinados resultados positivos do DNA-HPV.
Preferencialmente deve ser processada a partir da mesma amostra quando tecnicamente possível.
Seu papel no novo modelo deixa de ser necessariamente o de teste primário e passa a integrar a estratificação após HPV oncogênico positivo.
Por que não rastrear muito cedo?
Infecção pelo HPV é extremamente frequente em jovens.
Grande parte das infecções e lesões de baixo grau regride espontaneamente.
Rastreamento precoce aumenta colposcopias, biópsias e tratamentos desnecessários.
Procedimentos excisionais cervicais podem ter consequências reprodutivas e obstétricas.
Rastreamento versus diagnóstico
Rastreamento: pessoa assintomática.
Diagnóstico: sintomas, lesão visível ou outro achado suspeito.
Um teste de rastreamento normal não invalida a necessidade de investigar sintomas suspeitos.
Diagnóstico
Quem deve ser rastreado
Mulheres e outras pessoas com colo do útero que já iniciaram atividade sexual.
A página técnica atual do INCA apresenta a população-alvo geral como 25 a 64 anos.
No algoritmo molecular, o encerramento periódico pode ocorrer após os 60 anos quando há teste DNA-HPV negativo conforme os critérios da diretriz.
Pessoas trans masculinas e não binárias com colo do útero devem ser incluídas conforme os mesmos critérios clínicos.
Teste DNA-HPV negativo
Repetir o rastreamento em 5 anos na população de risco padrão.
Não há indicação de citologia anual apenas por rotina após resultado molecular negativo.
O maior intervalo é sustentado pelo alto valor preditivo negativo do teste molecular.
HPV 16 e/ou 18 positivo
Encaminhar para colposcopia.
A indicação decorre do maior risco oncogênico desses genótipos.
Não é necessário aguardar alteração citológica para justificar a colposcopia.
Outros HPV oncogênicos positivos
Realizar citologia reflexa, preferencialmente na mesma amostra.
Citologia ASC-US ou alteração mais grave → colposcopia.
Citologia insatisfatória no contexto de HPV oncogênico positivo deve seguir o fluxo de investigação da diretriz.
Citologia negativa → repetir DNA-HPV em 12 meses.
Seguimento após triagem negativa
Se o DNA-HPV repetido tornar-se negativo → retornar ao rastreamento em 5 anos.
Se surgir HPV 16/18 → colposcopia.
Se persistirem outros tipos oncogênicos → repetir estratificação conforme algoritmo.
Persistência de HPV oncogênico ao longo do seguimento aumenta a indicação de avaliação colposcópica mesmo quando a citologia permanece negativa.
Onde DNA-HPV ainda não está implantado
Utilizar exame citopatológico cervical.
Iniciar aos 25 anos em pessoas que já tiveram atividade sexual.
Após o primeiro exame negativo, repetir em 1 ano.
Após dois exames anuais consecutivos negativos, passar para intervalo de 3 anos.
Manter o esquema dentro da população-alvo enquanto aplicável.
Amostra insatisfatória
Uma amostra citológica insatisfatória não deve ser interpretada como resultado negativo.
A coleta deve ser repetida conforme recomendação aplicável ao contexto clínico e ao método utilizado.
Inflamação ou alterações benignas não justificam automaticamente repetição precoce se a amostra for satisfatória e não houver indicação clínica.
Quando não é rastreamento
Sangramento pós-coital.
Sangramento vaginal pós-menopausa.
Corrimento sanguinolento ou persistente suspeito.
Colo friável, ulcerado, vegetante ou com massa.
Nessas situações, realizar investigação diagnóstica apropriada mesmo que a pessoa esteja fora da faixa etária habitual de rastreamento.
Classificações e estratificação
Resultado do teste DNA-HPV
Negativo para HPV oncogênico → baixo risco; nova rodada em 5 anos na população de risco padrão.
Outros HPV oncogênicos detectados → realizar citologia reflexa para estratificação.
Principais categorias citológicas
Negativo para lesão intraepitelial ou malignidade.
Células escamosas atípicas de significado indeterminado (ASC-US).
Células escamosas atípicas, não sendo possível excluir lesão de alto grau (ASC-H).
Lesão intraepitelial escamosa de baixo grau (LSIL).
Lesão intraepitelial escamosa de alto grau (HSIL).
Carcinoma escamoso.
Células glandulares atípicas (AGC).
Adenocarcinoma in situ (AIS) e adenocarcinoma.
Conceito de ASC-US+
No algoritmo molecular, ASC-US+ significa ASC-US ou qualquer alteração citológica mais grave.
Após HPV oncogênico não 16/18, citologia reflexa ASC-US+ direciona para colposcopia.
Citologia reflexa insatisfatória também exige manejo conforme protocolo, frequentemente com avaliação colposcópica no contexto de HPV oncogênico positivo.
Tratamento
Conduta após teste molecular negativo
Não tratar HPV ausente.
Orientar retorno no intervalo recomendado de 5 anos para população de risco padrão.
Manter avaliação clínica habitual e investigar sintomas que apareçam no intervalo.
Conduta após HPV 16/18
Encaminhar para colposcopia.
Achados colposcópicos determinam necessidade de biópsia ou procedimento subsequente.
O teste molecular positivo isoladamente não é indicação de tratamento destrutivo ou excisional.
Conduta após outros HPV oncogênicos
Citologia reflexa é a etapa de triagem.
ASC-US+ → colposcopia.
Citologia negativa → vigilância molecular em 12 meses.
Evitar tratar apenas a presença do vírus sem lesão precursora definida.
Princípio do tratamento de lesões precursoras
O tratamento é direcionado à lesão precursora confirmada e ao risco de progressão, não à infecção isolada pelo HPV.
Lesões de alto grau frequentemente exigem abordagem excisional conforme avaliação colposcópica e histológica.
O detalhamento pertence ao HARD de Colposcopia e Neoplasia Intraepitelial.
Algoritmos e fluxogramas
Algoritmo principal — DNA-HPV
Pessoa com colo uterino, assintomática, sexualmente ativa e dentro da população-alvo.
Realizar teste DNA-HPV oncogênico.
Resultado negativo → repetir em 5 anos.
HPV 16 e/ou 18 → encaminhar para colposcopia.
Outros HPV oncogênicos → realizar citologia reflexa.
Citologia ASC-US+ ou insatisfatória → colposcopia conforme fluxo nacional.
Citologia negativa → repetir DNA-HPV em 12 meses.
DNA-HPV negativo no controle → retornar ao intervalo de 5 anos.
Persistência de HPV oncogênico → reestratificar e encaminhar para colposcopia quando indicado pelo algoritmo.
Algoritmo onde o DNA-HPV ainda não está disponível
Iniciar rastreamento citológico aos 25 anos após início da atividade sexual.
Primeira citologia negativa → repetir em 1 ano.
Segunda citologia consecutiva negativa → passar para intervalo de 3 anos.
Manter rastreamento até a idade de encerramento aplicável.
Paciente sintomática
Não enquadrar como simples rastreamento.
Realizar anamnese e exame ginecológico.
Inspecionar colo e vagina.
Lesão suspeita → colposcopia/biópsia ou encaminhamento apropriado.
Investigar independentemente do resultado preventivo anterior.
O que mais cai
Brasil 2025: DNA-HPV oncogênico passou a ser o teste primário do rastreamento organizado.
População-alvo geral divulgada pelo INCA: pessoas com colo uterino, 25–64 anos, sexualmente ativas.
DNA-HPV negativo → repetir em 5 anos.
Após os 60 anos, teste DNA-HPV negativo pode permitir encerramento do rastreamento periódico conforme diretriz.
HPV 16 e/ou 18 → colposcopia.
Outros HPV oncogênicos → citologia reflexa.
Outros HPV + citologia ASC-US ou mais grave → colposcopia.
Outros HPV + citologia negativa → repetir DNA-HPV em 12 meses.
Teste molecular positivo não significa câncer e não é indicação isolada de tratamento.
Citologia continua válida onde DNA-HPV ainda não foi implantado.
Esquema citológico tradicional: 25 anos; dois exames anuais negativos; depois a cada 3 anos.
Rastreamento é destinado a pessoas assintomáticas.
Sangramento pós-coital ou colo suspeito exige investigação diagnóstica.
Pessoas vivendo com HIV ou imunodeprimidas seguem recomendações especiais.
Após histerectomia total por doença benigna, sem história de lesão cervical de alto grau, rastreamento geralmente não é necessário.
Erros comuns
Continuar ensinando citologia como único teste primário nacional sem mencionar a diretriz brasileira de 2025.
Solicitar citologia anual após DNA-HPV negativo em pessoa de risco padrão.
Encaminhar todo HPV positivo diretamente para tratamento.
Deixar de encaminhar HPV 16/18 positivo para colposcopia.
Ignorar a citologia reflexa após detecção de outros HPV oncogênicos.
Interpretar citologia insatisfatória como exame normal.
Rastrear rotineiramente antes dos 25 anos em pessoa de risco padrão apenas porque iniciou atividade sexual.
Confundir rastreamento com investigação de sangramento pós-coital.
Adiar avaliação de colo macroscopicamente suspeito até o próximo preventivo.
Aplicar o algoritmo de risco padrão sem considerar imunossupressão.
Manter rastreamento cervical após histerectomia total benigna sem colo e sem história de lesão de alto grau.
Confundir resultado HPV positivo com diagnóstico histológico de neoplasia intraepitelial.
Para lembrar
BRASIL 2025 → DNA-HPV ONCOGÊNICO = teste primário.
DNA-HPV NEGATIVO → 5 ANOS.
HPV 16/18 → COLPOSCOPIA.
OUTROS HPV ONCOGÊNICOS → CITOLOGIA REFLEXA.
ASC-US+ → COLPOSCOPIA.
OUTROS HPV + CITOLOGIA NEGATIVA → repetir DNA-HPV em 12 meses.
SEM DNA-HPV DISPONÍVEL → citologia permanece válida.
CITOLOGIA TRADICIONAL → 25 anos → anual × 2 negativos → depois 3/3 anos.
RASTREAMENTO = ASSINTOMÁTICA.
SINTOMA OU COLO SUSPEITO = INVESTIGAÇÃO DIAGNÓSTICA.
HPV POSITIVO ≠ CÂNCER.
TRATAR LESÃO, NÃO SIMPLESMENTE A PRESENÇA DO HPV.
Referências
1.
Ministério da Saúde; Instituto Nacional de Câncer.
Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero: Parte I — Rastreamento organizado utilizando testes moleculares para detecção de DNA-HPV oncogênico.