Câncer de Colo do Útero: Estadiamento e Tratamento — MedVerse · MedVerse
Resumo HARD · Atualizado em 15 de set. de 2026
Câncer de Colo do Útero: Estadiamento e Tratamento
Estadiamento FIGO, cirurgia, preservação de fertilidade, quimiorradioterapia, braquiterapia e doença avançada
Arthur MedVerse
·75 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
O câncer invasivo do colo do útero é estadiado pela Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO). A classificação vigente permite incorporar achados de imagem e patologia quando disponíveis. O estadiamento define prognóstico e orienta a escolha entre cirurgia, quimiorradioterapia e tratamento sistêmico.
O estádio I corresponde à doença confinada ao colo. IA é doença microscópica com invasão estromal máxima de 5 mm; IB é doença invasiva limitada ao colo com invasão >5 mm e é subdividido pelo maior diâmetro tumoral em IB1 ≤2 cm, IB2 >2 e ≤4 cm e IB3 >4 cm.
No estádio II o tumor ultrapassa o útero sem atingir o terço inferior da vagina nem a parede pélvica: IIA compromete os dois terços superiores da vagina sem invasão parametrial e IIB apresenta invasão parametrial. O estádio III inclui terço inferior da vagina, parede pélvica, hidronefrose/rim não funcionante e/ou linfonodos regionais. IIIC1 indica linfonodos pélvicos e IIIC2 linfonodos para-aórticos.
O estádio IV representa extensão além da pelve verdadeira ou invasão de mucosa vesical/retal: IVA corresponde à invasão de órgãos pélvicos adjacentes e IVB à metástase distante.
Nos tumores iniciais, a cirurgia é frequentemente o eixo terapêutico. A preservação de fertilidade pode ser possível em casos rigorosamente selecionados, com conização ou traquelectomia conforme tamanho, profundidade, histologia, margens e avaliação linfonodal.
Na doença localmente avançada, especialmente IIB–IVA, o padrão curativo é radioterapia externa associada à quimioterapia concomitante baseada em platina e braquiterapia. A braquiterapia é componente essencial do tratamento definitivo.
Após cirurgia, fatores patológicos determinam terapia adjuvante. Linfonodos positivos, margens comprometidas ou invasão parametrial constituem fatores de alto risco e geralmente indicam quimiorradioterapia adjuvante.
Na doença recorrente ou metastática, a escolha depende do tratamento prévio, localização da recidiva, biomarcadores, estado funcional e possibilidade de terapia local. Quimioterapia baseada em platina/taxano, bevacizumabe e imunoterapia podem integrar o arsenal sistêmico em pacientes elegíveis.
Mensagem de prova: doença inicial selecionada → cirurgia; invasão parametrial (IIB), doença III ou IVA → quimiorradioterapia + braquiterapia; linfonodo pélvico = IIIC1; para-aórtico = IIIC2; metástase distante = IVB.
Objetivos de aprendizagem
01
Aplicar o estadiamento FIGO do câncer do colo do útero.
02
Diferenciar os subestádios IA, IB, II, III e IV.
03
Reconhecer o impacto do comprometimento linfonodal.
04
Selecionar tratamento cirúrgico para doença inicial.
05
Reconhecer situações de preservação de fertilidade.
06
Indicar quimiorradioterapia na doença localmente avançada.
07
Compreender o papel da braquiterapia.
08
Reconhecer fatores para terapia adjuvante pós-operatória.
09
Compreender o tratamento da doença recorrente/metastática.
10
Identificar pegadinhas frequentes de prova.
Visão rápida
Definição
Câncer cervical invasivo é classificado pelo sistema FIGO conforme extensão local, comprometimento linfonodal e metástases.
Como reconhecer
IA = microscópico; IB = limitado ao colo; II = além do útero sem parede pélvica/terço inferior vaginal; III = vagina inferior, parede pélvica, obstrução urinária ou linfonodos; IV = órgãos adjacentes ou metástase distante.
Após confirmação histológica de carcinoma invasivo, é necessário determinar a extensão da doença antes de definir tratamento.
O estadiamento FIGO passou a permitir o uso de exames de imagem e achados patológicos para aumentar a precisão quando disponíveis.
A decisão terapêutica integra estágio, tamanho tumoral, histologia, estado linfonodal, condições clínicas, tratamento prévio e desejo de preservação da fertilidade.
Conceitos fundamentais
Vias de disseminação
Extensão direta para vagina, paramétrios, corpo uterino, bexiga e reto.
Disseminação linfática para cadeias parametriais, obturatórias, ilíacas e para-aórticas.
Disseminação hematogênica é mais associada à doença avançada, podendo atingir pulmões, fígado e ossos.
Avaliação pré-tratamento
Exame ginecológico completo, incluindo tamanho tumoral e comprometimento vaginal/parametrial.
Confirmação histológica do carcinoma invasivo.
Ressonância magnética da pelve é particularmente útil para extensão local quando disponível.
Tomografia computadorizada e/ou tomografia por emissão de pósitrons associada à tomografia computadorizada podem contribuir para avaliação linfonodal e doença à distância.
Função renal é relevante antes de cisplatina e na possível obstrução ureteral.
Princípio terapêutico
Evitar, sempre que possível, combinar cirurgia radical e radioterapia sem necessidade, pois a associação aumenta morbidade.
Escolher inicialmente a modalidade com maior chance de controle definitivo conforme estágio e fatores prognósticos.
Discussão multidisciplinar é importante em doença avançada, fertilidade, histologias incomuns e recorrência.
Imagem é central para planejamento terapêutico quando disponível.
Ressonância magnética
Oferece detalhamento da extensão local e relação com paramétrios.
Auxilia na avaliação de tamanho tumoral, vagina e estruturas pélvicas.
É útil para planejamento de radioterapia e seleção cirúrgica.
Avaliação linfonodal e sistêmica
Tomografia computadorizada pode avaliar tórax, abdome e pelve.
Tomografia por emissão de pósitrons associada à tomografia computadorizada pode contribuir para avaliação de linfonodos e metástases em doença de maior risco.
Confirmação patológica de achado suspeito pode ser necessária quando mudará substancialmente a estratégia.
Bexiga e reto
Exames adicionais são direcionados pelos sintomas, exame físico e imagem.
Invasão mucosa de bexiga ou reto classifica como IVA.
Procedimentos endoscópicos podem ser utilizados quando há suspeita de invasão e confirmação é necessária.
Classificações e estratificação
FIGO I — doença confinada ao colo
IA: carcinoma invasivo diagnosticado microscopicamente, com profundidade máxima de invasão estromal ≤5 mm.
IA1: invasão estromal ≤3 mm.
IA2: invasão estromal >3 mm e ≤5 mm.
IB: invasão >5 mm, porém tumor limitado ao colo.
IB1: tumor ≤2 cm.
IB2: tumor >2 cm e ≤4 cm.
IB3: tumor >4 cm.
FIGO II — além do útero, sem parede pélvica ou terço inferior da vagina
IIA: comprometimento dos dois terços superiores da vagina sem invasão parametrial.
IIA1: tumor ≤4 cm.
IIA2: tumor >4 cm.
IIB: invasão parametrial, sem atingir a parede pélvica.
FIGO III
IIIA: comprometimento do terço inferior da vagina, sem extensão à parede pélvica.
IIIB: extensão à parede pélvica e/ou hidronefrose ou rim não funcionante, exceto quando sabidamente causada por outra condição.
IIIC: comprometimento de linfonodos regionais, independentemente do tamanho e extensão local.
IIIC1: linfonodos pélvicos.
IIIC2: linfonodos para-aórticos.
Sufixo r pode indicar classificação nodal por imagem; p, confirmação patológica.
FIGO IV
IVA: invasão da mucosa da bexiga ou do reto.
IVB: disseminação para órgãos distantes.
Edema bolhoso isolado da bexiga não é suficiente para classificar como IVA.
Pegadinhas
Extensão ao corpo uterino não modifica isoladamente o estádio I.
IA é definido por invasão microscópica, não por lesão macroscópica.
Invasão parametrial = pelo menos IIB.
Hidronefrose tumoral = IIIB, salvo achado que determine estágio superior.
Linfonodo regional positivo = IIIC.
Metástase distante = IVB.
Tratamento
Estádio IA1
Conização com margens livres pode ser definitiva em pacientes selecionadas que desejam fertilidade, especialmente sem invasão linfovascular.
Histerectomia simples é opção para pacientes sem desejo reprodutivo em situações apropriadas.
Invasão linfovascular modifica a avaliação de risco linfonodal e pode exigir estadiamento nodal.
IA2 e doença inicial selecionada
Tratamento cirúrgico é frequentemente utilizado.
Opções incluem histerectomia com radicalidade adequada e avaliação linfonodal.
Traquelectomia com avaliação linfonodal pode ser considerada para preservação de fertilidade em pacientes selecionadas.
A extensão da cirurgia é individualizada conforme tamanho, profundidade, histologia e risco.
IB1, IB2 e IIA1 selecionados
Cirurgia radical com avaliação linfonodal é opção clássica em pacientes operáveis.
Em tumores pequenos, estratégias menos radicais podem ser consideradas conforme critérios contemporâneos e experiência do centro.
Preservação de fertilidade é restrita a cenários criteriosamente selecionados.
Radioterapia definitiva com quimioterapia concomitante é alternativa quando cirurgia não é apropriada.
Tumores volumosos e doença localmente avançada
Para doença localmente avançada, particularmente IIB, III e IVA, o padrão é radioterapia externa + quimioterapia concomitante baseada em platina + braquiterapia.
Tumores IB3 e IIA2 frequentemente são tratados com quimiorradioterapia definitiva devido ao volume e ao risco de terapia combinada.
Cisplatina é o radiossensibilizante mais utilizado quando função renal e condições clínicas permitem.
Braquiterapia é parte essencial do tratamento curativo definitivo.
Radioterapia e braquiterapia
Radioterapia externa trata tumor primário, paramétrios e cadeias linfonodais de risco.
Braquiterapia permite elevar a dose no tumor cervical preservando melhor órgãos adjacentes.
Evitar prolongamentos desnecessários do tempo total de tratamento.
Campos e doses são individualizados pela radioterapia oncológica.
Adjuvância após cirurgia
Linfonodos positivos, margens comprometidas e invasão parametrial são fatores de alto risco.
Alto risco geralmente indica quimiorradioterapia adjuvante.
Combinações de fatores intermediários, incluindo tamanho, invasão estromal profunda e invasão linfovascular, podem indicar radioterapia adjuvante.
O planejamento inicial busca reduzir a necessidade de cirurgia radical seguida de quimiorradioterapia.
IVB e doença recorrente/metastática
Tratamento é individualizado conforme distribuição, sintomas, terapia prévia e biomarcadores.
Combinações de platina + paclitaxel são base frequente de quimioterapia.
Bevacizumabe pode ser associado em pacientes selecionadas, considerando contraindicações e risco de fístula/sangramento.
Pembrolizumabe pode integrar tratamento sistêmico em cenários elegíveis conforme biomarcadores e protocolos aplicáveis.
Radioterapia paliativa pode controlar sangramento, dor e sintomas compressivos.
Recorrência pélvica
Recidiva central após cirurgia sem radioterapia prévia pode ser tratável com quimiorradioterapia definitiva.
Recidiva central selecionada após radioterapia prévia pode ser candidata a exenteração pélvica em centro especializado.
Recorrências oligometastáticas selecionadas podem ser avaliadas para terapias locais.
Preservação de fertilidade
Deve ser discutida antes do tratamento.
Conização pode ser suficiente em doença microinvasiva de risco muito baixo.
Traquelectomia pode preservar o corpo uterino em tumores iniciais selecionados.
Comprometimento linfonodal, tumor volumoso ou alto risco geralmente afastam tratamento conservador.
Doses e prescrições
Cisplatina concomitante à radioterapia
Esquema clássico: cisplatina 40 mg/m² por via intravenosa, uma vez por semana durante a radioterapia, frequentemente por 5–6 ciclos conforme protocolo.
Adequar à função renal, eletrólitos, toxicidades e condições clínicas.
Hidratação e monitorização de função renal e magnésio são importantes.