Diagnóstico clínico, cervicometria, cerclagem eletiva e cerclagem de urgência
Arthur MedVerse
·30 min de leitura·Avançado
Neste artigo
Resumo executivo
Insuficiência istmocervical (IIC) é a incapacidade funcional do colo uterino de manter a gestação, classicamente manifestada por dilatação cervical indolor no segundo trimestre, levando a perdas gestacionais tardias ou parto prematuro na ausência de trabalho de parto franco.
O diagnóstico é predominantemente clínico e obstétrico. A história típica inclui perdas recorrentes no segundo trimestre precedidas por dilatação cervical pouco dolorosa, seguida de protrusão ou rotura das membranas e expulsão rápida do concepto. Colo uterino curto isolado não é sinônimo de IIC.
Na gestação, a ultrassonografia transvaginal é o método de escolha para avaliação do comprimento cervical. Em mulheres com história sugestiva, a vigilância seriada do colo auxilia a definir risco e necessidade de intervenção.
A principal intervenção específica é a cerclagem cervical. Ela pode ser indicada pela história obstétrica, por achado ultrassonográfico em gestante de risco ou como cerclagem de urgência/resgate diante de dilatação cervical indolor com membranas expostas, desde que não haja trabalho de parto, infecção, sangramento importante ou comprometimento fetal.
A FEBRASGO recomenda que a cerclagem eletiva seja realizada preferencialmente entre 12 e 16 semanas, após avaliação fetal inicial, podendo ser realizada até 25 semanas em cenários selecionados. McDonald e Shirodkar são as principais técnicas transvaginais.
Progesterona vaginal tem papel sobretudo na prevenção do parto prematuro associado ao colo curto e em situações de prematuridade prévia sem história típica de IIC. Cerclagem e progesterona não devem ser indicadas de forma automática para toda paciente com colo curto.
Objetivos de aprendizagem
01
Definir insuficiência istmocervical e reconhecer sua apresentação clássica.
02
Diferenciar insuficiência istmocervical de colo uterino curto isolado.
03
Reconhecer os principais fatores de risco e causas adquiridas.
04
Interpretar a cervicometria por ultrassonografia transvaginal.
05
Diferenciar cerclagem indicada pela história, pelo ultrassom e pelo exame físico.
06
Reconhecer contraindicações à cerclagem.
07
Conhecer as técnicas de McDonald e Shirodkar.
08
Compreender o papel da progesterona vaginal.
09
Organizar o seguimento da gestante após cerclagem.
Visão rápida
Definição
Falha funcional do colo uterino que leva à dilatação cervical indolor e perdas gestacionais tardias/parto prematuro.
Como reconhecer
História típica de perdas de 2º trimestre com pouca dor + cervicodilatação precoce; colo curto isolado não fecha diagnóstico.
Conduta principal
Cerclagem quando critérios clínicos, ultrassonográficos ou de exame físico estão presentes e não há contraindicações.
Pérola de prova
IIC clássica = dilatação cervical INDOLOR no 2º trimestre; trabalho de parto, infecção e sangramento importante contraindicam cerclagem.
Introdução
O colo uterino normal permanece fechado e estruturalmente competente durante a maior parte da gestação, sofrendo remodelamento progressivo próximo ao parto. Na insuficiência istmocervical, esse sistema de contenção falha precocemente.
A consequência típica é dilatação cervical no segundo trimestre sem contrações uterinas significativas. As membranas podem protruir pelo canal cervical, romper-se e culminar em perda gestacional ou nascimento extremamente prematuro.
O reconhecimento correto é importante porque a cerclagem pode modificar o prognóstico em pacientes bem selecionadas, mas sua indicação indiscriminada expõe a gestante a procedimento invasivo sem benefício comprovado.
Conceitos fundamentais
IIC versus colo curto
Insuficiência istmocervical é uma síndrome clínico-obstétrica.
Colo curto é um achado ultrassonográfico associado ao risco de parto prematuro.
Comprimento cervical ≤25 mm no segundo trimestre é um ponto de corte frequentemente utilizado para estratificação.
Colo curto isolado, especialmente sem história obstétrica compatível, não estabelece diagnóstico de IIC.
Fenótipo clássico
Perda gestacional tardia ou parto extremamente prematuro.
Dilatação cervical progressiva com pouca ou nenhuma dor.
Ausência inicial de contrações típicas de trabalho de parto.
Protrusão das membranas pelo canal cervical pode ocorrer.
Rotura das membranas pode suceder à dilatação.
Objetivo da cerclagem
Fornecer suporte mecânico ao colo uterino.
Reduzir o risco de dilatação cervical progressiva e nascimento prematuro em pacientes selecionadas.
Não tratar trabalho de parto, infecção intra-amniótica ou rotura de membranas.
Etiologia e fatores de risco
Possíveis fatores adquiridos
Trauma cervical relacionado a procedimentos obstétricos ou ginecológicos.
Conização e excisões cervicais extensas podem aumentar risco de colo curto e prematuridade.
Dilatações cervicais traumáticas prévias.
Traquelectomia e outras cirurgias cervicais.
Fatores anatômicos e congênitos
Malformações uterinas podem coexistir com insuficiência cervical.
Alterações estruturais do tecido conjuntivo são associações descritas.
Algumas pacientes apresentam quadro típico sem fator causal identificável.
Principal marcador clínico
História obstétrica de perda(s) recorrente(s) no segundo trimestre associada(s) a dilatação cervical indolor é o dado mais característico.
Parto prematuro espontâneo prévio aumenta o risco e justifica vigilância cervical em muitas pacientes.
Quadro clínico
Apresentação típica
A paciente pode estar completamente assintomática até que a dilatação cervical esteja avançada.
Pressão pélvica, aumento de secreção vaginal ou desconforto inespecífico podem ocorrer.
Dilatação cervical ocorre sem padrão de contrações uterinas compatível com trabalho de parto.
Membranas podem estar visíveis ou prolapsadas pelo canal cervical.
História obstétrica sugestiva
Perdas no segundo trimestre em idades gestacionais semelhantes.
Cervicodilatação precedendo rotura das membranas.
Pouca dor e pouco sangramento antes da expulsão.
Concepto previamente vivo e sem anomalia estrutural que explicasse a perda.
Achados que sugerem outro diagnóstico
Contrações uterinas regulares e dolorosas sugerem trabalho de parto.
Febre, dor uterina ou secreção fétida sugerem infecção.
Sangramento importante exige investigação de causas hemorrágicas/placentárias.
Rotura prematura de membranas deve ser distinguida da dilatação cervical primária.
Diagnóstico
Diagnóstico clínico
Baseia-se principalmente na história obstétrica típica e/ou identificação de cervicodilatação indolor durante a gestação.
Não existe um teste único capaz de confirmar IIC em todas as pacientes.
O diagnóstico fora da gestação é limitado; testes mecânicos históricos não são necessários rotineiramente.
Cervicometria
Deve ser realizada por ultrassonografia transvaginal.
Em pacientes com história suspeita mas não clássica, a FEBRASGO propõe acompanhamento seriado a partir de aproximadamente 14 semanas até 24–25 semanas.
Comprimento cervical ≤25 mm é considerado colo curto e pode modificar a conduta conforme história obstétrica.
A avaliação deve considerar também dilatação do orifício interno e protrusão das membranas.
Excluir sinais de infecção intra-amniótica/cervicovaginal relevante.
Excluir sangramento significativo e outras contraindicações à manutenção da gestação.
Na cerclagem de urgência, avaliação de infecção é especialmente importante.
Classificações e estratificação
Cerclagem indicada pela história
Indicada quando a história obstétrica é fortemente compatível com insuficiência cervical.
É realizada de forma profilática antes de ocorrer dilatação significativa.
Na referência FEBRASGO, a janela preferencial é entre 12 e 16 semanas.
Cerclagem indicada pelo ultrassom
Aplicável principalmente à gestante com antecedente de parto prematuro/perda compatível que desenvolve encurtamento cervical na gestação atual.
O achado de colo ≤25 mm antes da viabilidade avançada é um marcador relevante.
Colo curto sem história de prematuridade não implica automaticamente cerclagem.
Cerclagem indicada pelo exame físico — urgência/resgate
Cervicodilatação indolor identificada durante o segundo trimestre.
Pode haver protrusão de membranas.
Exige ausência de trabalho de parto, infecção e outras contraindicações.
O risco de complicações é maior que na cerclagem eletiva e a decisão deve ser individualizada.
Tratamento
Cerclagem transvaginal
É a abordagem padrão quando cerclagem está indicada e a anatomia permite acesso vaginal.
McDonald: sutura circular transmucosa ao redor do colo; é amplamente utilizada pela simplicidade e menor dissecção.
Shirodkar: envolve dissecção para posicionamento mais alto da sutura.
Não há evidência consistente de superioridade universal de uma técnica transvaginal sobre a outra.
Cerclagem transabdominal
Reservada para situações selecionadas em que a via vaginal é impossível ou houve falha relevante de cerclagem vaginal em contexto apropriado.
Pode ser realizada por laparotomia ou laparoscopia conforme experiência e indicação.
Implica necessidade de parto cesáreo enquanto a cerclagem permanecer posicionada.
Cerclagem de urgência
Pode ser considerada diante de dilatação cervical indolor com membranas expostas antes da viabilidade avançada.
Deve-se excluir cuidadosamente infecção e trabalho de parto.
Membranas prolapsadas podem necessitar redução delicada antes da sutura.
A decisão deve considerar idade gestacional, grau de dilatação, condições das membranas e prognóstico fetal.
Progesterona vaginal
Tem papel estabelecido na prevenção de parto prematuro em cenários de colo curto.
A FEBRASGO cita progesterona micronizada 200 mg por via vaginal ao dia em pacientes com prematuridade prévia sem história típica de IIC.
A estratégia deve ser individualizada conforme história e cervicometria.
Retirada da cerclagem
Cerclagem transvaginal geralmente é retirada próximo de 36–37 semanas, conforme protocolo.
Deve ser retirada antes se ocorrer trabalho de parto estabelecido para evitar trauma cervical.
Rotura das membranas exige avaliação individualizada, considerando trabalho de parto, infecção, idade gestacional e risco materno-fetal.
Se houver cesariana programada por outra indicação, a retirada pode ser coordenada com o parto.
Conduta na urgência e emergência
Dilatação cervical indolor no segundo trimestre
Confirmar idade gestacional e vitalidade fetal.
Avaliar dinâmica uterina: cerclagem não é tratamento de trabalho de parto.
Pesquisar sangramento e rotura de membranas.
Avaliar sinais clínicos e laboratoriais de infecção conforme contexto.
Realizar ultrassonografia para anatomia, vitalidade, colo e membranas.
Se membranas íntegras, feto viável, ausência de infecção e ausência de trabalho de parto, discutir cerclagem de urgência.
Se houver contraindicação à cerclagem, conduzir conforme a causa e idade gestacional.
Contraindicações importantes
Trabalho de parto ativo.
Infecção intra-amniótica/corioamnionite suspeita ou confirmada.
Sangramento obstétrico significativo.
Comprometimento fetal que indique interrupção.
Anomalia fetal incompatível com continuidade da gestação em contexto no qual a cerclagem não oferece benefício.
Rotura de membranas é, em geral, contraindicação à colocação de nova cerclagem.
Doses e prescrições
Progesterona micronizada vaginal
FEBRASGO: considerar 200 mg por via vaginal uma vez ao dia em pacientes com prematuridade prévia sem história típica de IIC, conforme estratificação.
Outros esquemas podem ser utilizados em protocolos de prevenção de parto prematuro por colo curto; seguir protocolo institucional.
Antibiótico e tocólise perioperatórios
Não existe indicação universal de antibioticoprofilaxia prolongada ou tocólise rotineira após cerclagem eletiva não complicada.
Na cerclagem de urgência, condutas adjuvantes variam conforme protocolo e cenário clínico.
Suspeita de infecção deve levar à investigação e geralmente contraindica cerclagem, e não simplesmente à administração empírica de antibiótico para permitir o procedimento.
Algoritmos e fluxogramas
História típica de IIC
Confirmar gestação única, vitalidade e avaliação fetal inicial.