Fisiologia do Ciclo Menstrual — MedVerse · MedVerse
Resumo HARD · Atualizado em 02 de set. de 2026
Fisiologia do Ciclo Menstrual
GnRH, gonadotrofinas, foliculogênese, feedback hormonal, ovulação e função lútea
Arthur MedVerse
·50 min de leitura·Intermediário
Neste artigo
Resumo executivo
A fisiologia do ciclo menstrual depende da comunicação pulsátil e coordenada do eixo hipotálamo-hipófise-ovário. O hipotálamo libera o hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH), que estimula a adeno-hipófise a secretar hormônio folículo-estimulante (FSH) e hormônio luteinizante (LH). Essas gonadotrofinas regulam foliculogênese, esteroidogênese, ovulação e formação do corpo lúteo.
A secreção de GnRH precisa ser pulsátil. A exposição contínua ao GnRH leva à dessensibilização e redução da resposta hipofisária, princípio explorado farmacologicamente pelos agonistas de GnRH quando administrados de forma contínua.
No início da fase folicular, a regressão do corpo lúteo do ciclo anterior reduz progesterona, estradiol e inibina A. A retirada do feedback negativo permite aumento do FSH, que recruta uma coorte de folículos antrais.
A produção ovariana de estradiol é explicada pela teoria das duas células e duas gonadotrofinas: o LH estimula células da teca a produzirem androgênios; esses androgênios difundem-se para as células da granulosa, onde o FSH estimula a aromatase e sua conversão em estradiol.
À medida que o folículo dominante cresce, aumenta a produção de estradiol e inibina B. A redução subsequente do FSH favorece a seleção do folículo dominante, mais sensível ao estímulo gonadotrófico, enquanto os demais sofrem atresia.
Durante a maior parte da fase folicular, o estradiol exerce feedback negativo. Entretanto, níveis elevados e sustentados de estradiol no período pré-ovulatório mudam a resposta do eixo para feedback positivo, culminando no pico de LH.
O pico de LH desencadeia retomada da meiose do oócito, luteinização das células foliculares, produção de mediadores proteolíticos e ruptura folicular. A ovulação ocorre aproximadamente 36 horas após o início do pico de LH e cerca de 10–12 horas após seu pico máximo em modelos fisiológicos clássicos.
Após a ovulação, forma-se o corpo lúteo, que secreta progesterona, estradiol e inibina A. A progesterona promove transformação secretora do endométrio, espessamento do muco cervical e elevação discreta da temperatura corporal basal.
Na ausência de implantação, o corpo lúteo regride, reduzindo progesterona e estradiol. A retirada da progesterona desencadeia vasoconstrição das artérias espiraladas, mediadores inflamatórios, atividade de metaloproteinases e desestruturação da camada funcional do endométrio, produzindo a menstruação.
Se ocorrer implantação, a gonadotrofina coriônica humana (hCG) produzida pelo trofoblasto mantém inicialmente o corpo lúteo e a secreção de progesterona até que a placenta assuma progressivamente a produção hormonal.
Para prova, a lógica essencial é: GnRH pulsátil → FSH/LH → teca produz androgênio → granulosa aromatiza → estradiol sustentado → pico de LH → ovulação → corpo lúteo → progesterona → endométrio secretor.
Objetivos de aprendizagem
01
Compreender a secreção pulsátil de GnRH e seu efeito sobre as gonadotrofinas.
02
Entender a regulação do FSH e do LH ao longo do ciclo.
03
Explicar a teoria das duas células e duas gonadotrofinas.
04
Compreender o recrutamento, seleção e dominância folicular.
05
Diferenciar feedback negativo e positivo do estradiol.
06
Explicar o mecanismo hormonal responsável pelo pico de LH.
07
Relacionar o pico de LH aos eventos celulares da ovulação.
08
Compreender a formação e a função endócrina do corpo lúteo.
09
Relacionar estradiol e progesterona às alterações endometriais.
10
Explicar a fisiologia da menstruação e a manutenção do corpo lúteo na gestação inicial.
Visão rápida
Definição
Integração neuroendócrina entre hipotálamo, hipófise, ovário e endométrio responsável por foliculogênese, ovulação e preparação uterina.
Como reconhecer
GnRH pulsátil controla FSH/LH; estradiol sustentado produz feedback positivo e pico de LH; progesterona domina funcionalmente após a ovulação.
Conduta principal
Tema fisiológico: priorizar relações hormonais, feedbacks, células-alvo e sequência temporal dos eventos.
Pérola de prova
LH atua principalmente na teca produzindo androgênios; FSH atua na granulosa estimulando aromatase e formação de estradiol.
Conceitos fundamentais
Gerador pulsátil de GnRH
O GnRH é secretado por neurônios hipotalâmicos em pulsos e liberado no sistema porta hipotálamo-hipofisário.
A pulsatilidade é necessária para manutenção da secreção fisiológica de FSH e LH.
Administração contínua de agonista de GnRH inicialmente estimula e posteriormente dessensibiliza os receptores hipofisários, reduzindo gonadotrofinas.
A frequência e a amplitude dos pulsos variam ao longo do ciclo e participam da regulação diferencial das gonadotrofinas.
FSH
Estimula crescimento e diferenciação das células da granulosa.
Aumenta atividade da aromatase nas células da granulosa.
Participa do recrutamento folicular no início do ciclo.
É modulado pelo feedback de estradiol e inibinas.
LH
Atua nas células da teca, estimulando síntese de androgênios.
O pico pré-ovulatório desencadeia eventos fundamentais para ovulação e luteinização.
Após a ovulação, sustenta a função do corpo lúteo durante sua vida funcional na ausência de gestação.
Inibinas
Inibina B é produzida predominantemente pelas células da granulosa durante a fase folicular e contribui para supressão do FSH.
Inibina A predomina funcionalmente na fase lútea e é produzida pelo corpo lúteo.
Seu principal efeito no eixo é a inibição seletiva da secreção de FSH.
Etiologia e fatores de risco
Fatores fisiológicos que modulam o eixo
Estado energético e disponibilidade metabólica influenciam a atividade do gerador pulsátil hipotalâmico.
Estresse fisiológico intenso pode modificar a secreção de GnRH.
Prolactina elevada pode suprimir a atividade do eixo reprodutivo.
Alterações tireoidianas podem interferir no padrão menstrual por diferentes mecanismos.
A idade reprodutiva modifica reserva folicular, resposta ovariana e regularidade dos ciclos.
Kisspeptina e controle hipotalâmico
Neurônios produtores de kisspeptina participam de forma central da regulação dos neurônios de GnRH.
O sistema integra sinais relacionados a esteroides sexuais e outros moduladores do eixo.
A fisiologia detalhada desse circuito ajuda a explicar puberdade, feedback esteroidal e geração dos pulsos reprodutivos.
Quadro clínico
Efeitos estrogênicos observáveis
Proliferação endometrial.
Muco cervical progressivamente mais abundante, aquoso e filante próximo à ovulação.
Alterações cervicais favorecem passagem dos espermatozoides no período fértil.
Efeitos da progesterona
Transformação secretora do endométrio.
Redução da contratilidade miometrial.
Muco cervical mais espesso e menos permeável.
Efeito termogênico com elevação discreta da temperatura corporal basal após a ovulação.
Mittelschmerz
Algumas pessoas apresentam dor pélvica transitória no período ovulatório.
É fenômeno clínico possível, mas sua ausência não significa anovulação.
Diagnóstico
Marcadores fisiológicos de ovulação
Detecção urinária do pico de LH indica proximidade da ovulação.
Elevação da temperatura corporal basal ocorre após a ovulação, refletindo ação da progesterona.
Progesterona sérica na fase lútea pode documentar exposição luteal e fornecer evidência de ovulação.
Ultrassonografia seriada pode demonstrar crescimento folicular e ruptura do folículo quando avaliação especializada é necessária.
Interpretação temporal
O dia 14 não é sinônimo universal de ovulação.
A fase folicular apresenta maior variabilidade entre ciclos.
A fase lútea é relativamente mais constante, frequentemente aproximada em cerca de 14 dias.
Para estimativas retrospectivas, a ovulação tende a ocorrer aproximadamente 14 dias antes da próxima menstruação, mas existe variabilidade biológica.
Classificações e estratificação
Fase folicular inicial
Queda dos hormônios do corpo lúteo remove feedback negativo.
FSH aumenta e recruta folículos antrais.
Estradiol começa a elevar-se conforme aumenta a atividade folicular.
Fase folicular média/tardia
Folículo dominante adquire vantagem funcional sobre os demais.
Estradiol e inibina B aumentam.
FSH diminui progressivamente.
Folículos menos responsivos entram em atresia.
Período pré-ovulatório
Estradiol elevado e sustentado converte o feedback predominantemente negativo em positivo.
Aumenta a resposta hipofisária ao GnRH.
Ocorre descarga maciça de LH e menor elevação de FSH.
Fase lútea
Corpo lúteo produz progesterona, estradiol e inibina A.
Predomina feedback negativo sobre hipotálamo e hipófise.
Sem hCG, o corpo lúteo sofre regressão e inicia-se novo ciclo.
Algoritmos e fluxogramas
Teoria das duas células e duas gonadotrofinas
LH liga-se a receptores nas células da teca.
A teca utiliza colesterol para produzir androgênios.
Androgênios difundem-se para as células da granulosa.
FSH estimula aromatase nas células da granulosa.
A aromatase converte androgênios em estradiol.
O estradiol é liberado e exerce efeitos ovarianos, endometriais e de feedback sobre o eixo.
Da menstruação à ovulação
Luteólise do ciclo anterior → queda de progesterona, estradiol e inibina A.
FSH aumenta.
Coorte de folículos é recrutada.
Granulosa prolifera e aumenta produção de estradiol.
Folículo dominante é selecionado.
Estradiol e inibina B reduzem FSH.
Folículo dominante mantém crescimento apesar da queda de FSH.
Estradiol elevado e sustentado gera feedback positivo.
Ocorre pico de LH.
Ocorre ovulação e luteinização.
Da ovulação à menstruação
Folículo roto transforma-se em corpo lúteo.
Progesterona torna-se o principal esteroide funcional da fase lútea.
Endométrio passa de proliferativo para secretor.
Se não houver implantação, ocorre luteólise.
Progesterona e estradiol caem.
A retirada hormonal desestabiliza a camada funcional endometrial.
Ocorre menstruação e o FSH volta a elevar-se para iniciar novo ciclo.
Se houver gestação
Após implantação, trofoblasto produz hCG.
hCG atua no receptor de LH do corpo lúteo.
Corpo lúteo permanece funcional e mantém produção de progesterona.
A placenta assume progressivamente a produção hormonal necessária à manutenção da gestação.
O que mais cai
GnRH precisa ser secretado de forma pulsátil para manter estímulo fisiológico das gonadotrofinas.
GnRH contínuo leva à dessensibilização hipofisária após estímulo inicial.
FSH atua principalmente nas células da granulosa.
LH atua principalmente nas células da teca durante a fase folicular.
Teoria das duas células: teca produz androgênios; granulosa aromatiza androgênios em estradiol.
FSH estimula aromatase.
Inibina B predomina na fase folicular e reduz FSH.
Inibina A é importante na fase lútea.
Estradiol exerce predominantemente feedback negativo durante grande parte do ciclo.
Estradiol elevado e sustentado no período pré-ovulatório produz feedback positivo.
Pico de LH é o principal gatilho hormonal da ovulação.
O pico de LH também promove luteinização.
Progesterona é o principal hormônio funcional da fase lútea.
The two FIGO systems for normal and abnormal uterine bleeding symptoms and classification of causes of abnormal uterine bleeding in the reproductive years: 2018 revisions.
International Journal of Gynecology & Obstetrics, 2018.